[Preview] Finais da NBA – Warriors x Cavs

[Preview] Finais da NBA – Warriors x Cavs

É amanhã! Finalmente teremos as tão aguardadas Finais da NBA entre Cavs e Warriors, completando uma narrativa de que toda a temporada seria apenas pretexto para que pudéssemos assistir às duas equipes se enfrentando novamente. Começamos nossa cobertura desse confronto com um post imperdível sobre a trilogia, já que será a primeira vez que duas equipes se enfrentarão três vezes seguidas nas Finais da NBA. Mas agora é hora de nosso tradicional preview, contendo os pontes fortes e fracos das duas equipes, como explicar o confronto para seus amigos e parentes leigos, e dando nosso palpite que uma certa ~maldição Bola Presa~ sempre tem o costume de contradizer.


Golden State Warriors x Cleveland Cavaliers

Não caia no mito de que temos em confronto dois estilos ou filosofias opostas: em termos de basquete, as duas equipes são mais parecidas do que imaginamos à primeira vista. Ambas são duas POTÊNCIAS OFENSIVAS que apostam massivamente nas bolas de três pontos. Embora o Warriors tenha se estabelecido como o melhor ataque da temporada regular – melhorando ainda mais nesses Playoffs, rumo a 115 pontos a cada 100 posses de bola por jogo – o que o Cavs conseguiu nessa pós-temporada é fora de série: são incríveis 120 pontos a cada 100 posses de bola, 10 pontos a mais do que alcançou na temporada regular.

Em termos táticos, o Warriors ainda representa o que há de mais avançado e azeitado em todo o basquete mundial: os jogadores não param de se movimentar sem a bola e o time lidera toda a NBA em jogadas de contra-ataque (19% de suas jogadas totais) e em jogadores que arremessam vindos de algum corta-luz (13% de suas jogadas totais). Essa combinação torna a equipe quase impossível de ser defendida e permite ao Warriors ser a equipe com mais arremessos livres dados por jogo nessa temporada. Suas sequências de pontos são famosas, já que bastam algumas bolas de três pontos seguidas por alguns contra-ataques certeiros e as diferenças no placar alcançam patamares difíceis de serem perseguidos pelos adversários.

Tenha o parágrafo anterior em mente ao lembrar que o Cavs teve um ataque AINDA MAIS PODEROSO do que esse nesses Playoffs (5 pontos a cada 100 posses de bola A MAIS por jogo é bastante coisa), o que é ainda mais surpreendente se levarmos em consideração que o ataque do Cavs na temporada regular esteve 10 pontos abaixo disso. Mas ao invés de fazer isso com corta-luz e movimentação constante, o Cavs alcança esse grau de excelência liderando a NBA em jogadas em que o atacante com a bola fica isolado no mano-a-mano contra o defensor (12% de suas jogadas totais), acertando suas bolas de três pontos num ritmo frenético e, claro, colocando a bola nas mãos de LeBron James.

Aproveitem, crianças: estamos vendo estatisticamente a melhor pós-temporada da carreira de LeBron James, com sua maior média de pontos e sua melhor porcentagem nos arremessos de três pontos. Fizemos um post especial só sobre os motivos de LeBron ter melhorado suas bolas de longa distância, mas não foi apenas ele: Kevin Love, cheio de altos e baixos em sua passagem pelo Cavs, acertou praticamente 50% de suas bolas de três nesses Playoffs. Dado importante, bem próximo daquilo que acontecia com o Rockets e seu ataque baseado no perímetro: quando o Cavs converteu 16 ou mais bolas de três pontos nessa temporada, venceu 19 partidas e perdeu apenas 3. Com LeBron acertando essas bolas e criando espaço para Love, Kyle Korver, JR Smith e Channing Frye no perímetro, todos com muitos minutos nessa pós-temporada, o Cavs é um time extremamente difícil de ser batido.

Esse é o motivo dessa série ser muito difícil de analisar a partir dos duelos individuais. De um lado o Warriors não PERMITE duelos individuais, com corta-luzes constantes que forçam a marcação adversária a trocar a marcação, explorando quaisquer mismatches (jogadores mais altos ou mais baixos marcando o jogador errado) ou qualquer adversário que esqueça de fazer a rotação defensiva (oi, Kyrie Irving):

(vejam Irving tirar um cochilo enquanto Avery Bradley passa atrás dele, que engraçado)

Do outro, o Cavs oferece duelos individuais IMPOSSÍVEIS de serem marcados, como LeBron James e Kyrie Irving, dois dos melhores jogadores de isolação de todos os tempos, de modo que os adversários precisam dobrar, triplicar ou marcar por zona para diminuir seu poder ofensivo. Quando isso acontece, outros jogadores do Cavs ficam livres ou passam a ser marcados pelos jogadores errados.

Se esse jogo acontecesse uns 20 anos atrás, teríamos Kyrie Irving e Stephen Curry sempre marcando um ao outro e poderíamos arriscar um veredito sobre quem está se saindo melhor no confronto. Hoje em dia isso é impossível: o Cavs tentará esconder Kyrie Irving na zona morta marcando jogadores secundários do elenco adversário e o Warriors tentará puni-lo com movimentação constante e muitas infiltrações sem a bola como a que vimos no vídeo acima. Da mesma forma, Stephen Curry ficará escondido longe de Irving quando for sua vez de defender, atuando apenas na interceptação das linhas de passe e pouco na defesa individual. Estamos falando de duas equipes que são potências ofensivas e elas devem ser capazes de impor seus estilos de jogo e conseguir os arremessos que desejam na maior parte das vezes, de maneiras que inviabilizem a noção tradicional de um duelo posição-contra-posição.

Nesse cenário, o banco de reservas tem uma importância essencial: manter as movimentações do Warriors e as opções de arremesso do Cavs sem comprometer as outras áreas, impedindo que algum jogador adversário possa ficar “escondido” na marcação de alguém que pouco participa no ataque. O banco do Warriors já provou ser mais sobre o esquema tático do que sobre o talento real de seus envolvidos – sob o comando do técnico Steve Kerr, vimos a carreira de JaVale McGee ser ressuscitada e jogadores como Ian Clark e Patrick McCaw parecerem gente importante. O banco do Cavs, que na temporada regular era famoso por perder as lideranças obtidas pelo quinteto titular – com as estatísticas mostrando que eles de fato tomavam mais pontos do que faziam – tomou a ÁGUA DO PERNALONGA™ nesses Playoffs e não apenas pontuam mais do que apanham como também foram capazes de dar uns sufocos no banco do Celtics e seu elenco ultra-profundo. Tudo isso significa que, para além dos duelos individuais, não faltarão opções e saídas ofensivas para as duas equipes, no que tem tudo para gerar jogos de placares elásticos que servirão como demonstração do que a NBA faz de melhor na hora de pontuar. Tragam os coleguinhas para testemunhar o zilhão de cestas inevitáveis.

A coisa começa a ficar mais complicada e menos animadora quando pensamos que as defesas que lidarão com esse enorme arsenal defensivo são, ao contrário de tudo que vimos acima, bastante desequilibradas. Se voltarmos à temporada regular, enquanto o Warriors manteve a segunda melhor defesa da Liga – e a melhor defesa contra arremessos de três pontos – o Cavs esteve sempre entre as DEZ PIORES defesas da Liga. Lembra daquela história de que o Cavs ganha quase sempre quando faz 16 bolas de três pontos? Pois bem, o Warriors só tomou mais de 14 bolas de três pontos UMA VEZ nessa temporada e mantiveram seus adversários consideravelmente abaixo da média de aproveitamento em três pontos da NBA nessa temporada. Mas para o bem dessas Finais, vamos IGNORAR a temporada regular do Cavs e aceitar que eles ligaram aquele botãozinho do “agora está valendo” que nunca ninguém consegue ligar tão em cima da hora. Nos Playoffs, a defesa do Cavs melhorou sensivelmente e está acima da média da NBA na temporada, ou seja, entre as 15 melhores; pode não parecer uma melhora tão grande, mas ao menos mostra que eles estão EVOLUINDO EM TEMPO REAL, de modo que podemos esperar que as melhores atuações defensivas da equipe aconteçam ainda nessas Finais.

Ainda assim, é o Cavs quem terá que fazer as mais duras escolhas defensivas dessa série: o que fazer com Kyrie Irving, Kyle Korver, Channing Frye e Tristan Thompson para não expô-los defensivamente? Kevin Love já mostrou que embora não seja um grande defensor, consegue enganar o suficiente para que não valha à pena se focar apenas em atacá-lo. Por outro lado, Tristan Thompson vira sempre um alvo muito fácil, com os jogadores do Warriors arremessando sobre ele no perímetro em qualquer troca de marcação que ele permita. Korver, Frye e Irving serão obrigados a caçar adversários por toda a quadra e, em situações individuais, serão driblados ou forçados para dentro do garrafão, de modo que o Cavs terá que limitar seus minutos ou criar um sólido esquema para defender atrás deles, na cobertura.

Para o Cavs é igualmente importante manter os arremessadores em quadra – o ataque depende disso – e Tristan Thompson no garrafão o máximo possível. Na partida em que o Cavs venceu o Warriors nessa temporada regular, o Cavs pegou 18 rebotes de ataque, 6 deles vindos de Thompson. A maior fragilidade do Warriors é que para ser o melhor time da NBA nos contra-ataques, todos os seus jogadores precisam estar sempre prontos para a transição, impossibilitando a luta pelos rebotes defensivos. Não dá para arrumar esse buraco sem abrir mão de uma parte essencial do ataque e do ritmo da equipe, de modo que a não ser que Tristan Thompson pegue trocentos rebotes ofensivos, o Warriors sequer cogitará mudar o esquema. Na outra partida dessa temporada regular em que o Warriors venceu o Cavs por incríveis 35 pontos, o Warriors conseguiu VINTE E TRÊS rebotes A MAIS do que o Cavs, ou seja, nem sempre é necessária uma forte defesa e box-out. Quando o Cavs é pego fora de posição, erra a cobertura na defesa e não roda a bola o bastante no ataque, os rebotes caem nas mãos do Warriors e então Tristan Thompson não tem muito a oferecer para a equipe.

No garrafão, o Warriors pode contar com a melhor defesa da carreira do Draymond Green nos Playoffs e com seu sangue frio no clutch time – bizarramente ele é o jogador mais eficiente dessa pós-temporada nos dois minutos finais de qualquer partida. Seu maior talento está em defender na cobertura, tapando os espaços para infiltrações enquanto outros jogadores tentam atrapalhar o infiltrador. Para o Cavs, o ideal seria puni-lo passando a bola nas infiltrações para os jogadores que Green precisa abandonar, ou então forçando Green a marcar LeBron James e, claro, cometer faltas no processo.

Esqueçam o baixo aproveitamento de Klay Thompson nesses Playoffs, ele – além de Durant, Curry, LeBron, Kyrie Irving – são pontuadores natos que, dadas as oportunidades, podem decidir jogos inteiros sozinhos. Contar com o erro de qualquer um deles não é viável, não é um plano tático plausível. É por isso que em meio a tanto talento ofensivo, o que deve decidir a série serão os planos defensivos. Certamente o Cavs entra um passo atrás nesse quesito mas, com uma defesa que erro menos e seja capaz de esconder suas limitações (até para poder usar esses jogadores limitados no ataque), poderá tornar a quadra equilibrada. Se serão capazes de colocar isso em prática, descobriremos nos próximos jogos – com comentários táticos constantes por aqui, claro.


PARA LEIGO VER

O Warriors é formado por um monte de moleques criados pelo próprio time que, contra tudo que se esperava, deram certo DEMAIS. Some a isso um planejamento de longo prazo, um monte de nerds estudando novas maneiras de jogar basquete e um técnico descolado que provavelmente usa entorpecentes e o Warriors se tornou o time que todo mundo quer ser e para o qual todo mundo quer jogar. Aí Kevin Durant, uma das grandes estrelas da Liga e que jogava num dos poucos times que tinha chance de derrubar o Warriors, resolveu que queria mesmo é se divertir e foi jogar com seus antigos rivais, ganhando um salário gordo no processo porque o Warriors deu sorte na vida. Um bando de caras meio zé-ninguém que se descobriram fodões e jogam basquete dando risada e receberam ajuda de um dos poucos que poderiam pará-los parece ser uma receita perfeita para torná-los OS VILÕES da NBA atual. Pense num grupo fracote de um jogo de videogame que vai ganhando muitos pontos de experiência, fica completamente overpower e aí seu rival super-poderoso descobre que eles parecem muito legais LÁ NO CORAÇÃO e resolve ir apoiá-los, formando uma espécie de Liga da Justiça que dá risada e morde seus protetores de boca. Sem esse tal de Durant, o Warriors já tinha conseguido a melhor campanha DA HISTÓRIA da NBA, com ele então é como se a Liga da Justiça conseguisse o Um Anel. Dá medo e para poder dormir à noite com a garantia da continuidade do cosmus, muita gente preferiria que eles fossem desintegrados por um raio cósmico.

Mas apesar de tanto poder, eles foram parados na temporada passada por LeBron James, que tinha perdido para eles na temporada anterior. Você que não conhece basquete não pode falar isso em voz alta sob risco de apanhar na rua, mas é possível que esse carinha termine a carreira acima de Michael Jordan. Ele cansou de perder sozinho, foi ser campeão junto de uns amigos (parece a história do Durant), mas depois voltou fofamente para casa tentar ser campeão na sua cidade natal com um elenco mequetrefe. Só que o elenco não era tão mequetrefe assim e quando a confiança dos Warriors caiu um pouquinho, LeBron e seus amigos pularam com tudo e foram campeões numa das viradas mais impressionantes da história dos esportes. De quebra ainda encerraram uma maldição que assolava todos os esportes em Cleveland. Pense num herói solitário descobrindo que tem amigos poderosos que ele mal conhecia, destruindo uma maldição terrível que assolava a sua região e matando a Liga da Justiça no processo. Só que agora, para fechar a trilogia épica de filmes bregas, o solitário LeBron que de solitário não tem nada, vai ter que vencer também o Um Anel num grupo que já era em si poderoso demais.

Vai torcer para o LeBron vencer todas as estatísticas e expectativas e mais uma vez derrotar o time superior? Ou vai torcer para o grupo de ex-fracassados que se tornaram o maior poder da galáxia e tiveram adição de um carinha que era muito fodão e que só queria vencer com os amiguinhos e foi criticado por não querer lutar sozinho? Que filme, amigos. Aposto que o Durant será interpretado pelo Selton Mello.


MALDIÇÃO BOLA PRESA

As estatísticas, os números, o bom-senso, o senso-comum, as leis da física e toda nossa experiência empírica nos obrigam contratualmente a dizer que o Warriors leva essa. Seria VERDADEIRAMENTE ESTRANHO se não levasse – mas até aí, temporada passada foi ESTRANHÍSSIMA e o Cavs levou. O problema é que nenhuma das duas equipes foram de fato desafiadas nesses Playoffs, então sequer podemos ter um critério de comparação para imaginar o que vai acontecer quando essas duas equipes estiverem dando o melhor que puderem. Acertando a defesa, o Cavs pode levar essa série longe – é bem possível imaginar a equipe de Cleveland se aproveitando de DERRETIMENTOS PSICOLÓGICOS do adversário para empurrar essa série para 7 jogos e vencer lá, já que Jogos 7 em Finais são famosas TERRAS DE NINGUÉM. Mas se a defesa do Cavs não der certo, se o Cavs não conseguir impor Tristan Thompson e se os arremessadores não conseguirem ficar tempo suficiente em quadra, não seria nada fora da curva o Warriors vencer essa série em 5 jogos. Ou seja, aproveitem enquanto podem porque a série pode ser curta. Se não for, aí os deuses do basquete nos deram o presente da defesa cavaliersiana e teremos um fechamento inesquecível de trilogia. Preparem-se!

A trilogia

A trilogia

A maioria das pessoas e até dos modelos matemáticos coloca o Golden State Warriors como o grande favorito para a Final da NBA que começa na próxima quinta-feira. Entre os fãs que votaram no site da ESPN gringa, 70% acham que vai dar Warriors. Las Vegas também os coloca com favoritos OBSCENOS. Entre os diversos modelos matemáticos que os sites gringos se arriscam em montar, alguns com incrível precisão de acerto, o Warriors está na frente com sobras: o Fivethirtyeight 87% de chance do Warriors levar a terceira perna da TRILOGIA, o Power Index da ESPN dá 93% para o Warriors e o PredictWise é o único a ficar mais perto dos fãs e indicar APENAS 73% de favoritismo ao atual vice-campeão da NBA.

O legal do modelo do Fivethirtyeight é que ele usa números que podem ser encontrados no passado. Então é possível voltar no tempo e refazer a pontuação de cada equipe e ver se o modelo deles teria previsto o resultado certo se existisse há trocentos anos. Abaixo podemos ver as 15 maiores vantagens de favoritismo na história: 13 vezes o favorito venceu, uma vez perdeu e a outra veremos em algumas semanas.

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Mas será que a diferença entre os times é tão grande assim? Eu não estou convencido, mas ao mesmo tempo é difícil culpar os números. Os modelos apenas cospem os resultados com os números que jogamos lá dentro, e todo os dados que o Cavs jogou lá desde novembro do ano passado não são lá grande coisa.

Embora o Cavs seja o atual campeão da NBA, o time não jogou bem ao longo da temporada, sua defesa não melhorou tanto assim nos Playoffs (apesar de todas as vitórias fáceis) e, mais do que isso, o Golden State Warriors é simplesmente impecável. O time é entrosado, está saudável e tem marcas históricas em qualquer categoria que você pode pensar. Melhor ataque da temporada, segunda melhor defesa, líder em assistências, time com 3º melhor aproveitamento de 3 pontos e que força os adversários ao PIOR nível de acerto. Isso sem contar a marca de 4º melhor ataque da HISTÓRIA dos Playoffs até aqui mesmo tendo enfrentado Utah Jazz e San Antonio Spurs, duas potências defensivas deste ano. Até se você inventar um critério aleatório agora mesmo eles devem ser líderes. Time que mais bate na bunda do pivô reserva após uma cesta? Se for coisa boa, provavelmente é o Warriors.

Não dá, portanto, para culpar ninguém que aposte numa vitória de Steph Curry e Kevin Durant. Mas, ao mesmo tempo, parece absurdamente errado colocar o atual campeão, que tem LeBron James atuando num nível difícil de descrever, como uma mera zebra, um Davi e Golias ou mais um cansativo “vamos chocar o mundo”. Por mais que o domínio do Warriors ao longo da temporada (e dos últimos três anos, na verdade) seja palpável, essa talvez seja uma final bem mais disputada do que a gente possa imaginar.

Acho que aqui é uma boa para eu retornar um tópico que abordei há alguns anos, o Paradoxo Spurs. Este é o conceito  que eu criei para dizer que o San Antonio Spurs conseguiu ser, nos últimos 20 anos, o grande modelo de sucesso da NBA e, ao mesmo tempo, um de fracasso. Parece que estou louco, mas pense bem: pelas últimas duas décadas o Spurs teve um dos melhores ou talvez o melhor técnico do planeta Terra, teve sempre grandes elencos, ótimas defesas e aquele tal de Tim Duncan, um dos melhores jogadores de toda a história do mundo. O time não teve dores de cabeça externas, poucas lesões, o grupo foi sempre homogêneo e o time, favorito. Nesse contexto, ganhar 5 títulos em 20 anos é muito ou pouco?

Minha conclusão é que 5 títulos está mais do que bom. A dificuldade do Spurs em ganhar títulos mesmo estando lá na cara do gol TODO SANTO ANO é só a prova definitiva do quanto é dificílimo vencer um campeonato. Tipo, faça TUDO perfeito, tenha jogadores historicamente incontestáveis e TALVEZ você ganhe um troféu a cada 4 anos. Isso porque os adversários são também complicados. O Spurs foi eliminado porque deu de cara com LeBron James, Dwyane Wade, Chris Bosh e aquele arremesso do Ray Allen, ou com Dirk Nowitzki, ou com Kevin Durant e Russell Westbrook no auge da forma física, ou tantas vezes contra Kobe Bryant e Shaquille O’Neal. O que esses times tem em comum são o fato de também serem bons coletivamente, como o Spurs, e também terem mega estrelas capazes de superar toda a MÁQUINA Spurs só por serem estupidamente talentosos. É preciso muito talento e time para bater o Spurs, mas eles existem.

O basquete é possivelmente o esporte coletivo que mais pode ser moldado por um único talento individual. LeBron é o exemplo máximo e mais claro de como a mera presença de um cara muda o estilo e qualidade do time inteiro, o tempo todo, dos dois lados da quadra. Não é só o seu talento em fazer pontos ou dar tocos em contra-ataques, ele estar lá faz, de uma hora para a outra, Channing Frye ser um cara relevante e até perigoso. São caras como LeBron que fazem com que times que parecem não estar exatamente no mesmo nível fiquem mais em pé de igualdade. E é isso que eu acredito que vai acontecer nesta final.

Também é importante lembrar que LeBron James não está levando um bando de tolos para a Final, como pareceu, por exemplo, em 2015 e 2007. Este time é muito bom, uma máquina mortal de fazer pontos e que entra na decisão com a melhor média de pontos por posse de bola da HISTÓRIA da pós-temporada da NBA. Ajuda ter enfrentado esse Leste mais ou menos, claro, mas é um marco enorme. O time tem bons pontuadores, muito talento individual, um mar de arremessadores de longa distância e o melhor reboteiro de ataque de toda a liga.

O grande defeito do time é a regularidade. Eles se perdem na temporada regular, não sei se por tédio ou só por incapacidade de manter o foco, e até mesmo nos Playoffs dos últimos anos tiveram momentos difíceis de explicar. Alguém lembra da vergonha que foram os dois primeiros jogos da decisão passada? Mas também nessa mesma final foram capazes de três jogos quase perfeitos para A Virada. Nessas horas devemos agradecer aos deuses do esporte americano que nem cogitam esse negócio de pontos corridos, porque aí ninguém iria chegar perto de se aproximar do Warriors. O time é melhor, mais regular, mais completo. Mas estamos prestes a ter uma série tensa, com nervos a flor da pele e de apenas sete partidas — e LeBron James pode botar no bolso qualquer uma delas.

O próprio Fivethirtyeight chama LeBron de “destruidor de algoritmos” e tenta explicar a razão para seu modelo matemático não dar maior peso ao Cavs. O primeiro é que o modelo não costuma APOSTAR que um time que teve uma temporada regular como a deles vai “virar a chave” nos Playoffs. A maioria não faz isso. A conta também leva pesadamente em consideração o passado recente da equipe, e foi justamente nos últimos meses da temporada que o Cavs vacilou. Por fim e mais importante, o modelo do site coloca o atual Golden State Warriors como um dos DOIS MELHORES TIMES DE TODOS OS TEMPOS ao lado do Chicago Bulls de 1996. É um modo de dizer “essa garota é linda, mas estamos comparando ela com a Alinne Moraes”. A matemática pesa para o Warriors, mas é fácil entender que não é bem assim na realidade.

Eu acho divertido acompanhar esses modelos só pela graça do jogo em si, de cavocar a história da liga, fuçar seus dados e tentar achar sentido nisso tudo. É estudo, não um grande oráculo. Também acho legal ver as cotações de Las Vegas e as votações populares para medir como estava a percepção popular antes da série começar, o que o olho treinado ou o nem-tão-treinado acha antes da bola realmente começar a rolar e a gente iniciar aquela loucura de mudar de opinião a cada partida.

Mas a real é que este é um caso para jogarmos tudo isso pelo lixo. O que vai acontecer a partir de quinta-feira é único: nunca dois times se enfrentaram três vezes seguidas na decisão, é raríssimo ter um time do nível desse Golden State Warriors sequer existindo e os poucos que já passaram por aí não enfrentaram ninguém do quilate de LeBron James, um monstro que não se machuca e que só melhora em seus QUATORZE anos de NBA, numa decisão. O duelo está mais para obsessão de cada time do que para rivalidade.

A mera ansiedade pela decisão já está superando 90% dos jogos destes Playoffs em emoção, a impressão é que sobrevivemos a tudo só para isso. E ao não subestimar nem esse Warriors nem LeBron James, meu risco está só em esperar uma final épica até demais. Mas tem como uma trilogia desse nível não acabar bem? Por favor não seja como Matrix.

[Resumo da Rodada] O primeiro quarto

[Resumo da Rodada] O primeiro quarto

Foram 11 pontos para LeBron James, acertando os 5 arremessos que tentou, além de 6 assistências, 4 rebotes, 2 roubos e um toco; 10 pontos para Kevin Love, incluindo 2 bolas de três pontos, 5 rebotes, um roubo e um toco; 9 pontos para Kyrie Irving, incluindo uma bola de três pontos e um par de lances livres. Está aí todo o necessário EM UM QUARTO para atropelar o adversário fora de casa, fechar a série, vencer as Finais do Leste e finalmente poder se concentrar em enfrentar o Golden State Warriors nas Finais gerais da NBA.

Passamos grande parte da temporada regular nos perguntando se os erros defensivos e o ataque estagnado do Cavs eram questão de PREGUIÇA ou limitação tática. É comum que equipes que acabaram de ganhar um título da NBA tirem o pé do acelerador, relaxem, percam um pouco da motivação e acabem tendo dificuldades de retomar ao nível máximo no momento mais importante da temporada. No caso de LeBron James, finalmente dono de um anel de campeão conquistado em sua amaldiçoada Cleveland, sobravam dúvidas sobre sua possibilidade de repetir o feito sem o fogo do jejum e do desespero queimando-lhe por dentro. Vimos tanto LeBron quanto o Cavs jogarem um basquete espetacular em trechos espaçados da temporada, mas isso não deveria ser algo que se alcança quando bem se quer – não seria a excelência um hábito, ao invés de um simples ato? Acabar atrás do Celtics na temporada regular só alimentou as dúvidas quanto à equipe, restando aos fãs torcer para que o time “pegasse no tranco” quando frente à magnitude da pós-temporada.

Nem começar esses Playoffs com 11 vitórias e nenhuma derrota foi tão poderoso para destruir essa narrativa de dúvidas quanto o primeiro quarto desse Jogo 5 das Finais da Conferência Leste em Boston. Foram QUARENTA E TRÊS PONTOS da equipe só no primeiro quarto, com SETENTA E CINCO PONTOS no primeiro tempo – ambos recordes da franquia em pós-temporadas. A diferença no placar passou dos 20 pontos ainda no período inicial, chegando a TRINTA E NOVE PONTOS no período derradeiro. O Celtics passou um total de ZERO minutos à frente no marcador. E tudo porque LeBron, Love e Irving entraram na partida dispostos a acabar com tudo em questão de minutos. Aquele botão que liga e desliga a intensidade da equipe existe mesmo e ontem, amigos, ele estava OBVIAMENTE LIGADO.

Quando os reservas entraram em quadra, o jogo até parecia parelho, bastante disputado, quase uma partida de basquete – de fato, os reservas do Cavs só marcaram 2 pontos a mais do que o banco do Celtics. Mas os titulares do Cavs poucas vezes foram vistos com esse grau de SANGUE NOS OLHOS. E não foi só o ataque, mas especialmente a defesa, que limitou o adversário a menos de 40% de aproveitamento e gerou contra-ataques fulminantes. LeBron dominou de costas para a cesta e nos lembrou de como o Celtics teve dificuldades para marcar o tamanho do Wizards na série anterior, enquanto gerava roubos de bola e tocos que tiraram completamente a confiança dos arremessadores de Boston:

Com a torcida do ginásio ainda apoiando a equipe da casa, o Boston até conseguiu encaixar a defesa no segundo quarto, forçar o Cavs a três desperdícios de bola seguidos que viraram contra-ataques bem executados, e aí a vantagem caiu para uns 15. Kyrie Irving respondeu com uma bola de três pontos logo depois para mostrar que não ia dar nem para o cheiro. Quando a torcida do Celtics se empolgou de novo com um bom momento da equipe, LeBron foi lá e converteu duas bolas de três pontos seguidas. Foi metódico, eficiente e cruel. O jogo já estava morto e enterrado no primeiro quarto, mas LeBron não parou de jogar mais e mais pás de areia em cima do defunto: acabou a partida com 35 pontos, 8 rebotes, 8 assistências, 13 arremessos certos em 18 tentativas, 4 bolas de três pontos, 3 roubos e um toco.

Ainda assim, a torcida de Boston foi um espetáculo: gritou pelo seu time até o final, puxou uns gritos de guerra bacanas, dançou com aquelas micagens de intervalo até o último segundo. Ainda que o ginásio tenha dado uma boa esvaziada no último quarto, quem ficou apoiou o time sem parar. Foi bonito de ver, até porque não havia muitas expectativas de vitória mesmo. Impor a única derrota do Cavs nesses Playoffs mesmo sem Isaiah Thomas já parecia de bom tamanho, ter dado um sufoco no Jogo 4 já parecia épico suficiente, e até mesmo ter chegado nas Finais de Conferência contra todos os imprevistos, que incluíram o falecimento da irmã de Isaiah, já era mais do que se imaginava possível. Terminar a temporada regular em primeiro lugar no Leste foi um choque para todos os envolvidos e o Celtics entrou nos Playoffs mais querendo tatear o futuro e conhecer os limites da equipe do que sonhando realmente com um anel de campeão.

As limitações da equipe ficaram evidentes: perdeu vários primeiros quartos de lavada para o Wizards, tendo que se recuperar com esforços heroicos ao longo do jogo, mas eventualmente pegaram um adversário que só precisa de fato de um primeiro quarto para vencer um jogo. Parece que o time, por ter tantas peças e ser tão versátil, precisa de algum tempo no jogo para encontrar as combinações ideais, as movimentações adequadas e reagir de maneira apropriada ao adversário. O técnico Brad Stevens arruma o time em tempo real, mas às vezes falta tempo e definitivamente falta material humana capaz de segurar as pontos e impedir que o jogo saia do controle enquanto os ajustes não aparecem. Isaiah Thomas, saudável física e psicologicamente, teria deixado as coisas mais desafiadoras para o Cavs, mas não estou convencido de que elas seriam significativamente diferentes. Ainda assim, dá para lembrar que o Celtics encerra sua temporada com uma Final de Conferência poucas semanas antes de realizar a PRIMEIRA ESCOLHA no draft, herdada do Nets.

O Cavs, por sua vez, entra nas Finais com a crença de que pode vencer qualquer um. Ainda que o Warriors dessa temporada seja potencialmente mais perigoso do que o do ano passado, massacrar oponentes no primeiro quarto é suficiente para elevar a moral de qualquer time do mundo. Se esse botão da intensidade continuar ligado, teremos finalmente as Finais da NBA que merecemos.

Podcast Bola Presa – Edição 112

Podcast Bola Presa – Edição 112

Bem amigos do Bola Presa, mais um podcast no ar!

Nesse episódio focamos nas Finais de Conferência. Começamos pela sensação de “poderia ter sido diferente” deixada pela ausência de Kawhi Leonard e debatemos o que podemos esperar do futuro do Spurs. Além disso, falamos bastante sobre o Celtics, o quanto falta para eles terem reais chances de título e quais opções eles terão com sua primeira escolha no draft. Aproveitamos a deixa para falar do draft que acontecerá agora em junho, explicando a situação do Kings e cogitando o futuro do Sixers e as possibilidades de outros times imitarem esse modelo de reconstrução.

No Both Teams Played Hard respondemos quais as funções de um dono de time na NBA, imaginamos uma defesa baseada em bicudas na bola, ajudamos a planejar um presente muquirana e abrimos nosso coração sobre cortes de cabelo ruins.

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[Resumo da Rodada] Kyrie Irving contra o mundo

[Resumo da Rodada] Kyrie Irving contra o mundo

A série entre Boston Celtics e Cleveland Cavaliers resolveu em definitivo nos surpreender. Depois de dois jogos completamente esquecíveis em que o Cavs parecia um rolo compressor, tivemos um Jogo 3 em que apesar de estar perdendo por 21 pontos no meio do terceiro período fora de casa sem sua principal estrela, o Celtics arrancou uma vitória da orelha (e das bolas de três pontos do Marcus Smart). Na noite de ontem, Jogo 4, outra surpresa: ainda em Cleveland, Cavs perdendo por 16 pontos, LeBron James errando ENTERRADA LIVRE, Kyrie Irving torcendo feio o tornozelo, e eis que quando parece que a série vai empatar e se tornar a coisa mais incompreensível desde a carreira do Kléber Bambam, o Cavs vence a partida por 13 pontos de diferença. Ao menos foi uma mudança de tom: a vitória do Cavs foi a coisa SURPREENDENTE dessa vez.

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