O jogo da velocidade

O jogo da velocidade

O técnico Steve Kerr voltou! Depois de ficar fora dos últimos 11 jogos do Golden State Warriors nos Playoffs, ele disse que finalmente conseguiu passar alguns dias em sequência sem sentir as enormes dores de cabeça causadas por complicações de uma cirurgia na coluna e se sentiu apto a ir ao ginásio e ficar na beira da quadra. Quando chegou lá, foi ovacionado:

Mas o Warriors não reagiu tão bem nos primeiros minutos da volta do seu treinador. Após cometer apenas QUATRO turnovers em todo primeiro jogo, recorde da história das Finais da NBA, o time desperdiçou OITO posses de bola somente no primeiro quarto, e acabou a partida com 20 turnovers. Após o jogo, Kerr disse que vários de seus jogadores atuaram muito bem individualmente e que a energia da equipe foi fantástica, mas que eles jamais ganhariam uma partida fora de casa, em Cleveland, jogando do mesmo jeito:

Então vamos lá: muitos erros, bolas desperdiçadas e, segundo o próprio técnico, uma atuação que não foi lá das mais INTELIGENTES do seu time. Quem não viu o jogo e só ouve Steve Kerr falar deve pensar que o Warriors escapou de uma fria e arrancou uma vitória na marra nos últimos minutos, certo? Pois então, o placar final foi 132 a 113. A segunda vitória por mais de 20 pontos de diferença nesta decisão. Será que o Cleveland Cavaliers tem alguma chance?!

Os torcedores e jogadores do Cavs devem encontrar conforto em lembrar que a final do ano passado começou exatamente do mesmo jeito. Duas surras homéricas e uma perspectiva nada animadora de ter que ganhar 4 dos próximos 5 jogos contra um time que pouco perdeu ao longo de todo o ano. Mas lembramos muito bem como tudo acabou em 2016, então não dá pra dizer que é impossível. Por outro lado, no ano passado Steph Curry não estava jogando tão bem mesmo nessas primeiras vitórias e Kevin Durant não sequer no time. Agora o buraco é mais embaixo.

Fizemos um post especial para nossos assinantes para mostrar com detalhes a maneira com que o Warriors defendeu LeBron James e Kyrie Irving no Jogo 1. Foi um mix de dobras (especialmente sobre Irving) e de Curry fugindo das trocas que pretendiam o atacar, fazendo um eficiente hedge-and-recover:

A resposta do Cleveland Cavaliers para escapar dessa defesa do Warriors lembrou muito o que o OKC Thunder fez contra o mesmo Warriors nos Playoffs da temporada passada. Uma solução que parece contra-intuitiva a princípio, mas que times muito atléticos e com talento individual podem conseguir: correr na mesma pegada do Warriors, atacar sempre na transição e defender com um time mais baixo, leve, e tentar forçar turnovers.

Para se ter uma ideia, o Warriors foi o 3º time com ritmo de jogo mais rápido da temporada com média de 103.6 posses de bola por jogo, uma a menos que o líder, o Brooklyn Nets. O Cavs ficou lá atrás, em 16º, com 100 posses por jogo. A partida de ontem, mesmo ficando mais lenta no último quarto, teve 107 posses de bola! Foi uma correria desenfreada!!!

Soa uma sentença de morte. Correr contra o time que mais é devastador no jogo veloz tem tudo para dar errado, mas foi a maneira que o Cavs achou para não dar tempo do Warriors executar todos os seus planos defensivos. Não dava tempo para dobrar porque os ataques se resolviam em segundos, e confiava que os jogadores do Cavs iriam ganhar os duelos individuais, algo que também não havia dado tão certo no Jogo 1. Aliás, voltou a não dar com Kyrie Irving, que está atuando abaixo do seu nível, mas que rendeu pontos a LeBron e Kevin Love.

Para fazer tudo isso funcionar, o técnico Tyronn Lue abriu mão dos rebotes de ataque –que todos consideravam CHAVE para a série– e usou mais Richard Jefferson, Iman Shumpert e Channing Frye ao invés de Tristan Thompson. O time ficou mais baixo, leve e se arriscou mais na defesa, tentando marcar os jogadores do Warriors mais longe da cesta, se enroscando nos bloqueios e tentando se enfiar no meio das linhas de passe. Conseguiram forçar erros e DISPARAR nos contra-ataques:

Um outro número mostra bem a velocidade do Cavs e de como eles se aproveitaram dos erros do Warriors: após ter média de 12 pontos de contra-ataque por jogo na temporada, o Cavs fez TRINTA pontos dessa forma no Jogo 2. O problema, claro, foi ter tomado 31

Um lado negativo desse plano de jogo ultra veloz e agressivo do Cavs é a idade do time. Não há mundo onde Kyle Korver, Deron Williams ou qualquer reserva do elenco dê conta desse ritmo. Para falar a verdade, acho que nem JR Smith se sustenta desse jeito. Kevin Love não é velho, mas é lento e até que se virou bem DEMAIS num estilo de jogo que não é exatamente o seu. Mesmo LeBron James, que nem levamos em conta a idade por ele ser um SER DE OUTRA ESPÉCIE, pareceu cansado. E ele nunca parece cansado!

Em determinado momento, acho que entre o fim do 3º quarto e começo do 4º, o Cavs criou diversas chances de pontuar, algumas até bem perto da cesta, e erraram TODAS. Pode ter sido só acaso, má sorte ou mesmo nervosismo, mas eu não descartaria a possibilidade do time estar cansado, nada adaptado a tanta correria, e ter perdido a precisão ao longo do jogo por causa disso.

O plano, portanto, não foi ruim. O Cavs sofreu muitos pontos e ainda cedeu contra-ataques, mas conseguiu forçar erros e também marcar muitos pontos, o problema foi a apenas a incapacidade de manter isso funcionando por 48 minutos. Aos poucos a vantagem, que era de míseros 2 pontos no intervalo, pulou para 8, 10 e, quando fomos ver, Kevin Durant estava matando o jogo e colocando 20 de frente no último quarto. Talvez o Cavs precise controlar melhor seu ritmo de jogo e usar a estratégia de acelerar apenas de tempos em tempos.

O próprio Durant, aliás, foi chave para impedir que o Cavs continuasse marcando tantos pontos no segundo tempo. Com Draymond Green enfrentando problemas de falta ao longo do jogo e passando tempo demais no banco, Durant assumiu sua função no time. Virou defensor de Kevin Love, deixando Iguodala para defender LeBron, e atuou na cobertura, protegendo o aro de infiltrações e garantindo boxouts e rebotes. Se isso não desse certo, Kerr seria obrigado a deixar o time mais alto e pesado com David West ou JaValle McGee, que eram os principais alvos dos pick-and-rolls do Cavs.

O jogo acabou de vez quando Durant deu um TOCAÇO sobre Love, partiu para o ataque, passou por LeBron como se fosse fácil e acertou uma bandeja impossível que fez o ginásio desabar em gritos e aplausos.

Pouco depois desse lance, com Durant PEGANDO FOGO, o comentarista e ex-técnico Mark Jackson falava que nesse momento daria a bola na hora em toda posse de bola para o ala continuar seu show. E aí Curry fez isso aqui:

Pois é, enquanto um estava arrasando com o jogo, o outro estava TAMBÉM. Curry conseguiu seu primeiro triple-double em finais da NBA com 32 pontos, 10 rebotes e 11 assistências. A combinação explosiva foi demais para o Cavs.

Com o triple-double de LeBron James, seu em finais (recorde histórico ao lado de Magic Johnson), foi a primeira vez que dois adversários alcançaram essa marca num mesmo jogo de decisão. Está aí outro número que nos poderia fazer achar que esse jogo foi disputado. Não foi. O Cavs achou algumas coisas que incomodaram, agora existe a urgência de usá-las para transformar isso em vitória.