Para falar de Lin, não da Linsanity
Mais famoso que John Lennon, que era mais famoso que Jesus Cristo, que…

A imprensa, ou a mídia em geral, sabe como destruir um assunto interessante. Ela faz isso o tempo inteiro, aliás. Se uma música faz sucesso, tocam até ela se tornar a que você mais odeia na vida. Se alguém faz algo de interessante, tudo o que essa pessoa faz vira notícia, até se cutuca o nariz ou almoça salada com frango. Pensando nisso hesitei muito em começar esse post sobre o Jeremy Lin, que acaba de aparecer pela segunda semana seguida na capa da revista Sports Illustrated, a mais importante sobre esportes nos EUA. Ele também já foi capa da TIME e aqui no Brasil até na Globo já apareceu. Outro dia até vi uma notícia rápida sobre ele naquela TV Minuto que fica passando manchetes dentro do Metrô de São Paulo. Sobre LeBron James ou Kobe Bryant não lembro de ter visto nada.

Essa atenção exagerada quase me fez desistir de falar sobre Linsanity. Ou melhor, me fez desistir sim, ao invés de falar sobre a Linsanity, vou falar apenas sobre Jeremy Lin. Nade de fanatismo, histórias curiosas, o passado diferente da maioria dos jogadores ou tudo o que eu sei que vocês já leram. É hora de uma análise basquetebolística: Por que esse novo armador fez o New York Knicks voltar a vencer? Continuará a dar certo?

Antes vamos entender por que estava dando errado. Para isso ajuda ler esse post que fiz um tempo atrás, falando de Knicks e Lakers. Nele tento deixar claro que por mais que se tente colocar a culpa das falhas do Knicks no técnico Mike D’Antoni, não acho que ele seja de todo mal. É limitado, não sabe se adaptar aos diferentes tipos de elenco, mas o contrataram sabendo disso e não deram pra ele o que precisava. Pelo contrário, parece que deram o oposto. Talvez não haja na NBA jogador que menos combine com D’Antoni do que Carmelo Anthony.

O famoso “7 seconds or less” que D’Antoni usou no Phoenix Suns não existe no Knicks, mas alguns dos princípios são parecidos. Entre eles o de fazer muitos bloqueios para quem controla e bola e o desejo de espaçamento da quadra, evitando aglomeração no garrafão e obrigando a defesa a abrir para cobrir todos os arremessadores do time. Não podemos esquecer do detalhe de que esses arremessadores não podem ficar em qualquer lugar, uma das bolas mais mortais daquele Suns eram as da zona morta. De Joe Johnson até Leandrinho, passando por Raja Bell, muitos se consagraram com o chute lá do cantinho. Ela obriga a defesa a abrir mais que o normal, dando espaço para a infiltração ou liberando o arremesso em caso de ajuda. Isso não é nem exclusividade de D’Antoni, é um princípio básico de qualquer esquema baseado em abrir espaço na quadra. O Spurs usou muito isso com Bruce Bowen, era o cara que sobrava sempre que dobravam a marcação sobre Tim Duncan.

E o que tudo isso tem a ver com Carmelo Anthony? Um olheiro da NBA entrevistado pelo Eye on Basketball lembra bem que o lugar onde Carmelo mais gosta de atuar é o menos indicado para espaçar a quadra. É na diagonal da cesta, não muito perto do garrafão e nem na linha dos 3 pontos, mas no meio termo. Não tem espaço para o pivô receber a bola e embola o arremessador da zona morta. Sem Melo, contra o Mavs, o Knicks acertou 5 bolas de 3 pontos da zona morta e errou 3, contra o Nets, com o time completo, foram 3 erros e só um acerto.

Mas não que Melo seja burro ou se posicione mal, é uma posição mortal e perfeita para as jogadas de isolação. Carmelo pode jogar de costas pra cesta, de frente, driblar, arremessar na cara, infiltrar para os dois lados e até dar um step back e chutar de 3 pontos. Nesse ponto da quadra ele vira imprevisível e perigoso.

O problema é que o Knicks não queria isso, queria outras jogadas, queria os bloqueios para poder envolver Amar’e Stoudemire e Tyson Chandler no jogo. E aí vinham outros problemas: Se Amar’e virar o homem do bloqueio no pick-and-roll, onde fica Chandler? Embolando o garrafão para impedir Stoudemire de infiltrar? Ou longe da cesta, onde é inútil? A solução foi fazer a maior parte dos bloqueios com Chandler e deixar Amar’e no chamado “weak side” da quadra, no lado oposto dos bloqueios, esperando o colapso da defesa para receber a bola. Ou seja: Carmelo e Amar’e faziam coisas que não eram suas melhores armas só para se encaixar no esquema. Lógico que estava dando errado.

Aí chegou Jeremy Lin. Pouco depois Carmelo Anthony se machucou e Amar’e Stoudemire se afastou devido ao falecimento de seu irmão. Isso fez com que D’Antoni pudesse acabar com todas as improvisações, era só seu armador comandar o show, o pivô fazer os bloqueios e os outros jogadores se posicionarem bem abertos na quadra, com eventuais cortes em direção à cesta. Com isso Landry Fields, que tem ótimo senso de posicionamento, começou a pontuar mais, Tyson Chandler passou a receber um bom passe atrás do outro embaixo da cesta e Steve Novak passou a ser arma mortal dos 3 pontos. Até Iman Shumpert se beneficiou mesmo indo para o banco, ao invés de causar impressão ruim por más decisões tomadas com a bola passou a chamar a atenção pela excelente defesa.

Nas palavras do próprio D’Antoni, o segredo do sucesso de Lin no time é simples: “Ele pensa como armador e joga como armador”. A defesa do Knicks, por mais estranho que isso seja se levarmos em consideração os últimos anos, já estava bem, bastou o ataque se organizar que tudo passou a fluir com eficiência assustadora. Some isso à confiança absurda de Lin, a forma com que o time abraçou a Linsanity de maneira positiva e temos um caso de sucesso.

Tem outras coisas interessantes nesse êxito do Jeremy Lin. Todo time que tem sucesso nesse tal espaçamento da quadra tem que ter uma ameaça no garrafão. É assim com o Magic e Dwight Howard, era assim com todo time que o Shaquille O’Neal jogou, foram assim os bons times do Spurs com Tim Duncan. Mas o Phoenix Suns que matava todo mundo de 3 pontos não era assim por causa de Amar’e Stoudemire, tanto que manteve sucesso mesmo quando ele se machucou e usaram o Boris Diaw de pivô, a grande ameaça ao garrafão adversário era o Steve Nash. A capacidade do Nash de usar múltiplos bloqueios e manter o drible vivo obrigava os adversários a sempre mandar ajuda para cobri-lo. Ele é bom arremessador, tem boa bandeja com qualquer uma das mãos e forçava o outro time a correr pra cima dele, aí era só distribuir os passes e os arremessos caíam.

Nesse Knicks agora acontece a mesma coisa. Amar’e Stoudemire não era ameaça porque jogava longe da bola, Chandler não é grande jogador ofensivo e Carmelo Anthony tem jogo baseado na meia distância. Nesse novo time Jeremy Lin passou a ser o homem do garrafão, suas impressionantes infiltrações não estão conseguindo ser paradas por ninguém. Por mais que não pareça, ele tem muita força e é capaz de finalizar mesmo sofrendo marcação bem pesada fisicamente. Entre todos os armadores da NBA, ele é o 5º em porcentagem de seus pontos marcados no garrafão. Apenas caras como Derrick Rose e Tony Parker estão à sua frente. Basta ele passar por seu marcador que a defesa tem que se mexer e aí a máquina do D’Antoni funciona do jeito que ele sempre quis.

Agora vamos tentar dar umas respostas menos óbvias do que as lidas por aí para algumas perguntas que estão pipocando pela internet:

– Jeremy Lin vai dar certo por mais tempo ou é fogo de palha?


Tem jogadores que atuam bem por uma temporada inteira antes de cair muito de produção. Lembram do Channing Frye, que era “introcável” no seu primeiro ano no mesmo Knicks? É divertido até ficar brincando de prever o futuro às vezes, eu costumava fazer posts de Mãe Dinah sobre os novatos, mas no fundo não é mais do que uma adivinhação com só um pouquinho de base racional. Não dá pra saber no que vai dar. O próprio Jeremy Lin é uma prova de como coisas improváveis podem acontecer.

O que sabemos é que até agora ele mostrou características de jogadores que costumam dar certo na NBA: Treina bastante, tem cabeça para lidar com pressão e expectativas, boa visão de jogo e capacidade para criar o próprio arremesso. Dá pra dizer com alguma certeza que ele tem lugar na liga por um bom tempo, com que nível e responsabilidade dentro do time é melhor esperar mais tempo antes de responder.

– Não estão exagerando com o Lin? Ele comete muitos turnovers!


Até agora a média de Jeremy Lin é de 3.4 desperdícios de bola por jogo. É bastante? Sim, mas não absurdo. Russell Westbrook lidera a NBA com 4.2 turnovers por jogo, empatado com John Wall e Deron Williams. Pouco abaixo deles aparecem Kobe Bryant, Steve Nash, LeBron James e, empatado com Lin, Ricky Rubio.

Todos tem em comum o fato de serem jogadores espetaculares. O Russell Westbrook é fora de série, talentosíssimo e é sua função e característica controlar a bola durante boa parte do tempo pelo Thunder, além de tentar costurar a defesa adversária sempre que possível. Ele é ótimo nisso, mas eventualmente erra. Em alguns jogos esses erros custam mais caro, alguns podem ser bobos, mas olhando o geral vale a pena. Não é à toa que o Thunder nem cogita trocar Westbrook, pelo contrário, já ofereceu uma extensão de contrato bem grande e gorda. O mesmo vale para Kobe Bryant, volta e meia ele tem jogos com 7 ou até 10 desperdícios. Acontece. Ele é o começo, meio e fim do ataque do Lakers, tudo passa por ele em todas as situações de jogo, erros vão acontecer.

O estranho nessa história toda é o Lin ser, de repente, tão importante para o ataque do Knicks, não que cometa erros por ser tão importante. Alguns anos atrás, John Hollinger, um dos grandes especialistas em estatísticas na ESPN gringa, escreveu um texto sobre armadores jovens. Ele dizia que apesar de todo o hype em cima do OJ Mayo e de Derrick Rose, ele apostava que Westbrook seria o melhor depois de alguns anos. E dizia, “Ele tem mais turnovers que os outros dois, mas por incrível que pareça jogadores com mais erros como novatos costumam ter evolução maior nos anos seguintes”.

Curioso pelo lado estatístico dessa afirmação, o Ian Levy, do Hickory-High, foi fazer uma pesquisa com números sobre o tema. Ele encontrou dificuldades porque é algo difícil de medir. Hoje claramente Kobe protege melhor a bola do que quando era um jovem jogador, mas não necessariamente isso se reflete só no número de turnovers cometidos. De qualquer forma ele fez um levantamento com vários jogadores, comparando seus anos de novato com a média da carreira. Nenhum grande padrão se revelou exatamente como Hollinger afirmou, mas é bem claro que boa parte dos jogadores passaram a ter um número de erro por posse de bola bem menor com o passar dos anos. Em outras palavras, o óbvio: Lin erra bastante, mas não muito mais ou menos que qualquer outro armador jovem na NBA. A afirmação de Hollinger não pode ser totalmente comprovada por números, mas a história mostra que muitos armadores que começaram a carreira cometendo muitos erros não deixaram de ser grandes jogadores por isso.

O que talvez seja mais importante e que Ian também fez em seu post é descobrir que erros ele comete. Ele compara os erros de Jeremy Lin com o de outro novato que perde bastante a bola, Kyrie Irving.

Jeremy Lin é bem cuidadoso com as faltas de ataque para alguém que infiltra tanto, também erra até menos em passes que Kyrie Irving. Seu problema mesmo está no controle do drible. As infiltrações em lugares complicados, tentar manter o drible vivo mesmo dentro do garrafão, essas tem sido as maiores fontes de erros para o armador do Knicks. Nada muito preocupante, acho. Fazer isso é difícil para qualquer armador e é bem mais fácil de treinar e ganhar experiência do que o passe, esse um talento mais difícil de aprender. Daqui uns anos Irving e Lin podem muito bem serem provas vivas da teoria de Hollinger.

– Lin é previsível, bate sempre para a direita!


Essa eu ouvi bastante semana passada e acho uma bobagem sem tamanho. Só ver alguns jogos dele, ou até só os melhores momentos, para ver como ele tem capacidade e talento para cortar e infiltrar para os dois lados. Tem apenas uma preferência. Mas até aí o Tim Duncan prefere receber a bola do lado direito do garrafão, o Ginóbili gosta de cortar para a esquerda, o Ricky Rubio prefere receber o bloqueio no seu lado esquerdo, o Paul Pierce gosta de arremessar driblando para a direita, o Tyreke Evans usa e abusa do Euro-Step e por aí vai. Todo mundo tem preferências e a liga inteira sabe quais são, parar elas é que é um trabalho muito mais difícil. E até agora ninguém parou Lin.

– Tá bom, mas ele pode jogar ao lado de Carmelo Anthony?

Eu acho que pode, mas alguns ajustes devem ser feitos. O primeiro deles é que se D’Antoni é o técnico e ele só sabe montar o time de um jeito, que seja esse. O sistema está dando certo para Lin, Novak, Chandler, Jeffries, Fields e Shumpert. Todos melhoraram individualmente com ele e as vitórias apareceram. Cabe a Melo e Stoudemire se adaptarem.

Para Melo é só ele aceitar que não precisa agir como macho alfa para ser a estrela do time. Todo mundo sabe que ele é o jogador com mais talentos e recursos no elenco, mas não é por isso que ele deve controlar a bola o tempo todo e chutar mais que o resto do mundo inteiro. Carmelo é tão completo que eu acho ele um dos poucos jogadores na NBA que podem ser cestinha de um time mesmo arremessando pouco, e deveria usar isso a seu favor. Lembra na seleção americana como várias vezes o jogo acabava com show de Kobe ou LeBron e no fim das contas o cestinha do time tinha sido Carmelo Anthony? Um arremesso de 3 aqui, um contra-ataque ali, uma bola que sobrou ali e

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ele mata todas, fazia 20 pontos sem ninguém nem citar o nome dele.

Já que comparamos tanto esse Knicks ao velho Suns de D’Antoni, Melo seria o Shawn Marion: Tem pouquíssimas jogadas desenhadas pra ele mas mesmo assim faz 20 pontos por jogo. Melo nem precisa ser tão extremo, já que tem cem vezes mais recursos de ataque que Marion, mas pode usar sua versatilidade ofensiva para se movimentar com liberdade no ataque e fazer pontos de qualquer canto da quadra. Mais produtivo, veloz e eficiente do que ficar isolando ele o tempo todo.

A situação de Amar’e Stoudemire é mais delicada porque não consigo lembrar de uma vez que ele tenha jogado ao lado de um pivô e que tenha dado certo. Lembra quando ele jogou com o Shaq no Suns? Os dois reclamavam de não ter espaço, do garrafão embolado e o time nunca embalou. Amar’e não gosta de jogar de costas para a cesta, prefere se virar e bater pra dentro, para isso precisa de espaço e ninguém na cobertura de seu defensor. Com Chandler lá é o contrário que acontece. A solução de usá-lo do lado oposto do pick-and-roll é até funcional porque ele tem bom arremesso de meia distância, mas isso é função de um Udonis Haslem da vida, não de um cara caro e completo como é Stoudemire. Sei que mesmo quando não está em seus melhores dias e mesmo quando não é tão bem aproveitado, o pivô é bom o bastante para conseguir seus pontos. Acho que é um problema que pode ser resolvido ou contornado sem que o time perca muitos jogos por causa disso. Será que é ousadia demais pensar em usar Amar’e numa espécie de time reserva com Baron Davis e JR Smith, enquanto Chandler passa mais tempo com Carmelo e Lin no time titular?

Não é de surpreender que falem tão pouco do lado do basquete na história de Jeremy Lin. É simples demais. O Mike D’Antoni não sabia como contornar sua necessidade de um armador agressivo que se tornasse a ameaça ao garrafão adversário, achou um jovem que se destacou na Liga de Desenvolvimento da NBA e o contratou. Deu certo. Sem falar de nomes de faculdade ou etnia a história não parece tão boa assim, mas a revolução dentro da quadra é enorme e merece, também, toda atenção do mundo.

8 ou 80
As estatísticas bizarras de Jeremy Lin

– Jeremy Lin é o jogador que mais marcou pontos em seus primeiros 8 jogos como titular na NBA. Apenas Michael Jordan, Bernard King, Shaquille O’Neal e Brandon Jennings marcaram mais que os 200 de Lin. Em assistências, nem Magic Johnson ou Isiah Thomas conseguiram números melhores que os de Lin em seus primeiros 8 jogos como titular.

– Voltando aos turnovers. Lin foi o primeiro jogador da história a ter pelo menos 6 desperdícios de bola em 6 jogos seguidos. Se compensa, seu time venceu 5 dessas partidas.

– O Knicks marca apenas 40% de seus pontos no garrafão quando Jeremy Lin está fora da quadra, o número sobre para 47% quando ele está jogando. Outro número que sobe é o aproveitamento de arremessos: 48% com ele jogando, 41% com Lin fora da quadra.

Spurs retocado

Splitter não se assusta com as enormes narinas de JJ Hickson

Podemos ficar oficialmente com medo do San Antonio Spurs? Desde sempre eles são aquele time que você pensa mil vezes antes de deixar fora da briga pelo título, e quando você toma coragem e afirma “é um bando de velho” eles aparecem lá para encher o saco. Ano passado o time surpreendeu acabando a temporada regular em 1º lugar no Oeste, mas caíram logo de cara nos playoffs. O que esperar da versão 2012 do Spurs que atualmente está em 2º na conferência, vêm de 9 vitórias seguidas e perdeu apenas 1 jogo em casa?

No ano passado os números de ataque eram absurdos, o segundo mais eficiente de toda a NBA. Mas ver o time correndo tanto e mandando bolas de 3 na cabeça de todo mundo era não só esquisito demais como também falhou na hora H, nos playoffs. Nessa temporada algumas coisas parecem diferentes, estão com um jogo mais consistente e vencendo com coisas mais confiáveis e resistentes que bolas de 3 de Matt Bonner. Ao invés disso eles tem Tim Duncan em boa forma, Tony Parker imparável nas infiltrações e, isso é bem importante, Tiago Splitter envolvido no ataque.

Quem nos lê há algum tempo sabe que não somos nem um pouco patriotas. Tipo, nem um pouco mesmo. Não gosto mais ou menos do Leandrinho do que gosto do Anthony Morrow, por exemplo. Por isso nada de patriotada em reconhecer a importância de Tiago Splitter nesse time do Spurs. Há anos que eles estão a procura de um parceiro de garrafão para Tim Duncan, e não só não encontram como veem Duncan envelhecendo e piorando cada vez mais. O Duncan de hoje em dia não tem metade dos recursos ofensivos que tinha até 2005, por exemplo. Até um tempo atrás a vontade era ter um jogador de garrafão que pudesse liberar Duncan para jogar na posição 4, de ala de força, mas hoje isso nem importa tanto. Duncan até rende melhor de pivô mesmo e apenas precisa de outro jogador que pegue rebotes e que o deixe descansar. Com menos minutos em quadra ele tem parecido menos cansado, mais veloz e, portanto, mais decisivo. Splitter tem tido valor duplo: Joga ao lado de Duncan ou na posição dele.

A presença de Splitter também é importante porque, nas palavras de Gregg Popovich, ele tem “uma inteligência para o basquete fora do comum”. Ao saber se posicionar no pick-and-roll ele tem feito a vida de Tony Parker bem mais fácil nas infiltrações. Não que o francês não infiltre mesmo no meio de um corredor polonês, mas qualquer ajuda é bem vinda. E se aos poucos Splitter vai pegando pontinhos no ataque, na defesa ele também tem ajudado. Ele é um dos vários responsáveis pelo Spurs tomar 3 pontos a menos, em média, dentro do garrafão em comparação a temporada passada. Parece pouco, mas na média faz bastante diferença e a evolução de Splitter faz diferença nessa conta.

Contando os pontos marcados e feitos a cada 100 posses de bola, resultados parecidos em relação ao ano passado. O ataque marca 4 pontos a menos, a defesa sofre 4 pontos a menos. Como esses números se repetem em muitos times e até nas estatísticas gerais da liga, acho que podemos colocar isso na equação locaute + calendário + falta de training camp. Mas mais importante que os números totais é como o Spurs consegue ou evita esses pontos. Como citei acima, a defesa pode ter eficiência parecida no geral, mas melhorou no garrafão, justamente onde perdeu a série para o Memphis Grizzlies nos playoffs do ano passado.

No ataque alguns números ainda são bem parecidos. O time ainda marca 23% de seus pontos em bolas de 3 pontos, marca altíssima, a 5ª da liga, atrás apenas de atiradores pirados como Magic, Warriors, Nets e Clippers. Os pontos no garrafão ainda são os mesmos 42 por jogo, maior parte deles cortesia de Tony Parker, não tanto dos pivôs. Onde finalmente vemos um número que chama atenção pela mudança é nos pontos de contra-ataque. Ao invés de 15 por jogo como no ano passado, agora são só 11. O time não tem menos jogadores capazes de jogar assim, pelo contrário, mas simplesmente escolheu correr menos e tomar mais conta da bola. Não à toa o time subiu de 8º para 2º no ranking de turnovers por posse de bola, só o Sixers erra menos.

Com tantos chutadores de 3 pontos, como Gary Neal, Danny Green e mesmo Manu Ginóbili, o Popovich não tem muita opção senão usar o que tem e esperar que as bolas caiam. Mas por experiência em vencer o Suns ele sabe que somar bolas de 3 e correria já é suicídio demais, então baixou um pouco o ritmo da equipe e cortou erros. Ele Spurizou um pouco seu Spurs, pra não perder a identidade, acho. Outra coisa que mudou em relação ao ano passado é a distribuição de minutos. Na temporada passada 3 jogadores (Parker, Jefferson e Ginóbili) tinham mais de 30 minutos por jogo, com outros 5 tendo mais de 20. Nesse ano apenas Parker passa dos 30 e são 10 jogadores no total jogando pelo menos 20 minutos por jogo.

Com o time confiando em mais gente e poupando melhor seus jogadores, ao mesmo tempo que joga num ritmo menos alucinado, podemos esperar o Spurs pelo menos mais inteiro e com pernas nos playoffs, algo que pareceu faltar no ano passado. Mas a conclusão que podemos ter mesmo é que no fundo esse é o mesmo time de 2011, com alguns pequenos e pontuais ajustes. Embora isso possa soar desanimador, não é. O Spurs do ano passado teve muito azar. Pegou na pós-temporada um time que sempre o deu problemas, que estava em ótima fase e mesmo assim a série foi disputada. Todos os times venceram seus jogos em casa com exceção do Jogo 1, que o Spurs jogou sem Manu Ginóbili.

Se você pensar bem e com calma, lembrará que aquele time era sim muito bom. Apenas teve azar e alguns defeitos expostos naquela série. Mas ao invés do time entrar no desespero e querer tacar tudo para o alto, atacaram na medida do possível esses problemas. O ritmo é mais lento, o time erra menos, chuta duas bolas de 3 a menos por jogo (embora a porcentagem de pontos vindos desse tipo de chute seja a mesma, como vimos) e Tiago Splitter tem sido trabalhado para melhorar a defesa de garrafão. Somente na hora do vamos ver, de novo, saberemos se foi o bastante. Mas fizeram o possível e são o time em melhor forma na NBA no momento. Quer dizer, não que isso importe para eles, segundo o Richard Jefferson: “Em San Antonio sequências de vitórias não significam nada. Popovich ainda quer que a gente melhore e vai estar muito bravo a cada pedido de tempo”.

Billups e Paul apontam lugares aleatórios para parecerem interessados no jogo

Foi confirmada na noite da última quarta-feira a notícia que o Los Angeles Clippers temia. A lesão no tendão de aquiles de Chauncey Billups foi realmente grave e ele está fora do restante da temporada. De todas as fontes gringas que eu li, 95% dão como certeza que ele não volta ainda nesse ano, uma outra fonte disse que Billups está confiante de que ainda é possível e irá consultar novos médicos. Mas a verdade é que uma lesão desse tipo até coloca em risco a carreira do vovô Billups. Sua presença nos Jogos Olímpicos também provavelmente foi para o ralo.

Analisando o lado pessoal, é bem triste. Ele já tinha decidido que iria se aposentar em Denver, sua cidade natal, jogando pelo Nuggets. Aí acabou sendo envolvido na troca do Carmelo Anthony e foi para o Knicks. Engoliu o sapo e disse “Ok, fico em Nova York”. Foi anistiado (dispensado pela nova regra) para que o Knicks tivesse espaço salarial para assinar Tyson Chandler e pela nova regra da anistia não pode escolher para onde iria, simplesmente foi escolhido pelo Los Angeles Clippers. Ele até cogitou encerrar a carreira no meio dessa confusão toda, mas acabou aceitando e incorporando o papel de líder no jovem e promissor time outrora amaldiçoado. E aí, quando o time estava embalando ele se machucou. Não tem como não ficar com dó do Mr.Big Shot.

Mas e o time, como fica? Na prática eles fizeram uma troca. O primeiro jogo que Billups não pode jogar foi o da estreia de Kenyon Martin, recém-chegado da liga chinesa. Curioso que desde o começo da temporada é bem claro que o Clippers tinha muitos armadores e precisavam de um defensor de garrafão. Apesar dos tocos alucinantes de DeAndre Jordan e da boa defesa de perímetro de Chris Paul e até então de Chauncey Billups, o time é apenas tem apenas a 19ª posição na lista de times que menos sofrem pontos no garrafão. Já sabemos que Blake Griffin precisa melhorar muito na defesa e que Reggie Evans, embora seja um dos melhores reboteiros da NBA, não é grande coisa no mano a mano e muito menos na defesa de cobertura. Eles precisavam de alguém como Kenyon Martin e conseguiram.

A troca, portanto, era uma barbada que iria acontecer assim que sobrasse o cara certo. O Clippers acabou dando sorte que Kenyon Martin veio de graça, mas a contusão do Billups equilibrou a balança da sorte que já estava pesando demais para o lado positivo em um time tão zicado quanto eles. A questão principal é que eles provavelmente cogitavam trocar Mo Williams, Randy Foye ou Eric Bledsoe por esse defensor, não o Billups. Mas isso era pelo nome ou pelo o que ele estava rendendo dentro de quadra?

O PER (número que mede a eficiência dos jogadores usando uma fórmula que só o Jeremy Lin entende) do Billups nessa temporada é o seu pior desde a temporada 2000-01. O aproveitamento de arremessos dele (36%) é o pior desde a temporada 99-2000. Seu jogo também estava bem mais simples que o que nos acostumamos a ver, ele tentava 7.2 bolas de 3 por partida, seu máximo da carreira e um dos que mais queimam arremesso de longa distância na NBA, mas seu aproveitamento, embora alto (38%) é mais baixo do que o dos últimos anos. Ou seja, ofensivamente o Clippers perde um bom jogador, mas que não estava no seu auge e que não estava fazendo muito mais, às vezes bem menos ,do que os substitutos Randy Foye e especialmente Mo Williams, esse em especial tem jogado muito bem no ataque.

O problema é na defesa. Ou nem tanto? Quando o Clippers tem Mo Williams em quadra eles sofrem, em média, 1.12 pontos a cada posse de bola, um dos piores números do time. Com Billups, assim como com Foye, o número cai para 1.04. Ajuda Billups que ele geralmente divide o quinteto titular com DeAndre Jordan, que tem o melhor rendimento do time: 0.99. Mas temos que ser legais com Billups porque em muitos momentos ele estava marcando jogadores mais altos que ele, por jogar agora na posição 2 volta e meia ele estava ficando cara a cara com jogadores como Kobe Bryant, Dwyane Wade ou Kevin Martin, pontuadores natos e maiores que ele. Quando Billups joga na posição 1 é ele que sempre tem a vantagem física.

O Billups, portanto, era útil na defesa, mas nada de outro mundo também. Não só Randy Foye quebra um baita galho, como ainda existe a chance de deixar Caron Butler, esse sim excelente defensor, para cuidar desses pontuadores enquanto Ryan Gomes pode assumir o jogador da posição 3. Lembrando que mesmo prejudicando o ataque, Kenyon Martin já defendeu alas mais baixos anteriormente na sua carreira e pode ser improvisado. A perda de Billups é sentida, como de qualquer bom jogador, mas não parece ter grande impacto assim na defesa ou no ataque, seja pelos bons reservas ou pela chegada de Kenyon Martin. Até mesmo nas decisões tomadas em quadra ele não estava muito bem, assumindo demais seu papel de arremessador e menos de organizador.

Aparece então a última questão dele, o título de Mr.Big Shot. O Clippers não precisaria dele para arremessos decisivos no fim dos jogos? Certamente não incomodaria ter ele lá a postos para vencer jogos, ele fez isso naquela partida contra o Mavericks, lembram?. Mas ele faz menos falta se lembrarmos que o Clippers tem hoje em mãos um dos melhores finalizadores de jogos dos últimos tempos, Chris Paul.

Não estou falando isso só porque sexta-feira ele simplesmente costurou a defesa perfeita do Sixers para derrotá-los quase no último segundo, digo baseado na carreira toda de CP3 desde que foi draftado em 2005. No ano passado a NBA.com calculou a eficiência de times em jogos decididos por 5 pontos ou menos desde o ano em que Paul entrou na NBA. Nesse tempo todo o Hornets, time de Paul até essa temporada, tinha até então 80 vitórias e 44 derrotas nessa situação, aproveitamento de 64%. Apenas o Mavs teve mais vitórias, 90, com 40 derrotas, nesse período, mas com o detalhe que essa diferença entre vitórias e derrotas era compatível com o recorde geral do time de Nowitzki. Ou seja, o Mavs vencia apertado uma quantidade de jogos que costumavam vencer normalmente. O Hornets não, o aproveitamento geral deles nesse tempo foi de 54%, mas em jogos disputados pulava para 64%, maior melhora na liga. Se o jogo chegava apertado no final a chance do Hornets vencer era gigantesca, seja contra quem fosse.

Normalmente os números ofensivos das equipes caem se você só contar os últimos minutos de jogos apertados. Existe o nervosismo, a defesa atenta, a pressão. Mas o Hornets de Chris Paul tinha média de 1.7 pontos a cada posse de bola nos últimos 24 segundos de jogo. É um número compatível ao que os melhores ataques da NBA tem em jogos inteiros. Ou seja, o Hornets não era um time bom sempre, mas finalizava os jogos como ninguém. A jogada deles era simples: pick-and-pop entre Chris Paul e David West. Ou Paul infiltrava, ou arremessava de meia distância ou achava West para o arremesso se recebesse marcação dupla. Praticamente infalível.

Com a diferença que Griffin prefere atacar a cesta a ficar parado para o arremesso, é o que acontece agora também com o Clippers. Ontem Paul tentou achar Griffin, que perdeu a bola, na segunda tentativa ele foi sozinho e acertou o arremesso espetacular sobre o Andre Iguodala. E eles ainda tem os arremessos precisos de Caron Butler e Mo Williams para abrir espaço na quadra para que essa jogada seja realizada.

Não que o Clippers vá ser um time melhor sem Chauncey Billups, estava longe de ser um daqueles caras que atrapalham, mas me arrisco a dizer com alguma segurança de que não fará tanta falta assim dentro de quadra. O time tem as peças necessárias para cobrir tudo o que ele fazia. A diferença é que agora se exige mais dos que sobraram. Eric Bledsoe, que voltou agora de contusão, terá que armar bem o jogo, já que Mo Williams passará mais tempo na posição 2. Randy Foye não pode se dar ao luxo de ficar apagado em muitos jogos. No ano passado muita gente precisou cobrir o buraco no ataque que Caron Butler deixou no Mavs e acabou dando certo. Claro que contaram com contribuições improváveis como JJ Barea, mas é possível.

E é importante que Chauncey Billups se mantenha dentro grupo. Se existe algo onde ninguém lá pode substituí-lo é na parte da experiência e liderança. O time confia no que ele diz e segue o que ele fala. Será importante durante todo o resto da temporada e principalmente nos playoffs, mesmo que só nos bastidores.

Uma temporada ruim?

Uma temporada ruim?
Tyrus Thomas não sabe responder essa e qualquer outra pergunta

Outro dia recebemos a seguinte pergunta no nosso Formspring: “Só 4 triple-doubles na temporada até agora. Culpa do calendário?”.

A princípio eu pensei que não. Afinal será que quatro triple-doubles em pouco mais de um mês de jogo e cerca de 22 ou 23 partidas jogadas por cada time é um número baixo? Pensando melhor descobri que eu não tinha ideia se era muito ou pouco. Fui pesquisar. Entrei no Basketball-Reference.com e descobri que na temporada passada, considerada uma das com o nível mais alto dos últimos anos, aconteceram 9 triple-doubles nos primeiros 25 jogos das equipes. Os responsáveis foram Stephen Jackson, John Wall, Kobe Bryant, LeBron James, Tim Duncan, Pau Gasol, Josh Smith, Rajon Rondo e Brandon Jennings. 


Mas poderia ser uma aberração de uma temporada boa. E na anterior, 2009-10, quantos triple-doubles nos primeiros 25 jogos? Surpresa, apenas 3! E olha que bizarro, além de um de LeBron James os outros foram de Gilbert Arenas e o outro do nosso querido e amado Rafer Alston. E no ano anterior a esse, foram 5: Chris Paul duas vezes, Tracy McGrady, Jason Kidd e Rajon Rondo. Ou seja, quem está fora da curva parece ser o ano que teve 9, não os outros.

E depois pensei em outra coisa. Perceberam que são sempre os mesmos jogadores que fazem os triple-doubles? Entra ano, sai ano e tem Rajon Rondo, Jason Kidd, LeBron James, Josh Smith… e isso quer dizer que eles são melhores do que Kobe Bryant, Dwight Howard, Deron Williams ou Kevin Durant, que geralmente não alcançam essa marca? Não. Kobe é melhor pontuador que Kidd, que é melhor reboteiro, e para a marca você precisa de rebotes.  Olhem por exemplo a temporada 2007-08. Nos primeiros 25 jogos de cada equipe tivemos 16 (!) triple-doubles! Mas se você ver a lista bem, perceberá que 4 deles são de LeBron James e 6 de Jason Kidd. o resto da lista (Caron Butler duas vezes, Kirilenko, McGrady, Hinrich e Baron Davis) mantém um número parecido com o das outras temporadas. Ou seja, para uma temporada ter muitos triple-doubles você precisa ter especialistas nisso, só. Simples assim.

Os triple-doubles foram um exemplo apenas, mas dava pra pegar qualquer outra estatística individual e colocar na roda. Poderíamos dizer que essa temporada tem menos cestinhas do que 2005 ou 2006. Dizer que não tem ninguém com mais de 10 assistências por jogo como tinham há alguns anos (e essa até já ouvi na gringolândia). Mas será que esse é o jeito de analisar se a temporada está sendo boa?

Na semana passada o Charles Barkley disse o seguinte: “Eu gostaria de pedir desculpas para os fãs da NBA, eu não consigo acreditar em como a NBA está mal nesse momento. Eu também como fã, assistindo esses jogos fico envergonhado com o nível do produto que está aí. Não é divertido assistir essas partidas. Eu me sinto mal pelos torcedores. Existem possivelmente uns 10 times que valem a pena assistir sempre. O resto colocou a culpa no locaute, mas vou te dizer, se eles jogassem uma vez por semana eles ainda seriam péssimos”. Acham que ele tem razão?

Vou dizer minha opinião antes de partir para os números. Eu concordo com ele que hoje temos cerca de 10 times que dão gosto de assistir todas as noites. Eventualmente todos tem jogos bons e ruins, isso vale pra sempre, mas apenas alguns, como Bulls, Heat, Pacers, Sixers, Thunder, Nuggets, Clippers, Spurs, Blazers (em casa, pelo menos) e o Wolves, que é de longe o menos eficiente desses todos, mas que tem um padrão de jogo e tem sido o time mais legal de se assistir na temporada. Mas nos anos passados era tão diferente assim? Nos últimos o Leste tem tido apenas 4 ou 5 bons times de verdade por ano, sempre com uma surpresa ou outra (Pacers ano passado, o Bucks antes) que aparecem no fim da temporada impressionando. O Oeste já costuma ter pelo menos 8 ou 9 times de bom nível. A grande diferença então é que a segunda metade dos classificados do Oeste, times como Jazz, Lakers Rockets e Mavs estão piores do que se poderia esperar.

E vamos analisar um pouco esses times individualmente. O Lakers e o Jazz perderam, desde o fim da última temporada, seus técnicos de longa data e jogadores importantes do elenco, Deron Williams e Lamar Odom. O Rockets trocou de técnico e se mantém na mesma posição que passou as últimas temporadas, já o Mavs sofreu um semi-desmanche e trocou muitas peças importantes do time campeão da última temporada. Nada anormal em uma queda de produtividade. Mesma coisa no Leste, era natural e esperado ver o Celtics pelo menos um pouco mais fraco que no ano passado. Talvez o Knicks e o Magic sejam os únicos times que estejam realmente muito abaixo do que poderiam fazer.

O que eu quero mostrar com tudo isso é que eu concordo mais ou menos com o Charles Barkley. Por um lado existem menos times realmente bons do que no ano passado, mas não são tantos assim e a impressão pode ser ruim pela quantidade de rodadas gigantescas. Com 13 jogos por dia vamos ter mais jogos ruins mesmo. Aparece então a última questão. É culpa do locaute ou não é? Até agora 16 times dos 30 da NBA já passaram pelo temido back-to-back-to-back, os 3 jogos em 3 dias seguidos. Desses, 6 conseguiram 1 vitória e 2 derrotas, 7 tiveram 2 vitórias e 1 derrota, 2 (Bulls e Thunder) 3 vitórias e somente o Detroit Pistons perdeu todos. O aproveitamento é de 54%, nada mal para o que parecia ser o pesadelo maior do calendário. Contando apenas o 3º jogo da maratona o recorde geral é de 9 vitórias e 7 derrotas.

E já que começamos com os números, vamos ver estatísticas gerais da liga. Nesse ano o aproveitamento dos times todos somados tem sido de 44% nos arremessos de quadra, 34% em bolas de 3 pontos e são 102 pontos a cada 100 posses de bola em média para cada time. No ano passado esses números eram 45%, 35% e 107.2 pontos. O aproveitamento de arremessos é o pior desde a temporada 2002-03, o de 3 pontos o pior desde o último locaute, 1998-99, já os pontos a cada 100 posses de bola são os piores desde a longínqua temporada 1976-77, quando nem existiam bolas de 3 pontos.

O que esses números todos nos dizem é que o Charles Barkley tem razão em algumas coisas, mas não em tudo. Em números gerais a liga está mesmo pior que o normal, no último locaute também foi assim. Com menos ou quase nenhum tempo de treinamento é natural que os times demorem um pouco para se entrosar. Mas mesmo durante as temporadas normais o primeiro mês nem é sempre o melhor, muito pelo contrário, a maioria dos times embala só lá perto do All-Star Game, quando estão disputando o seu jogo de número 40, mais ou menos. O mais inteligente agora é esperar e acompanhar a evolução dessas estatísticas até o final da temporada. É provável que todas continuem mais baixas que a dos últimos anos, não vamos ver uma temporada histórica, mas não é por isso que ela é vergonhosa. E só com esses dados e depois de todos os jogos terem sido realizados que poderemos medir em quanto o locaute e a falta de treinos afetou a qualidade dessa temporada. Julgar uma temporada normal pelo primeiro mês já é estranho, que dirá dessa que já nasceu diferente.

Algumas rodadas tem muitos jogos ruins? Sim, tem. Volta e meia alguns times cansados tem atuações ridículas? Sem dúvida alguma. A situação é tão drástica para jogar toda a culpa no locaute e pedir desculpa pela qualidade dos jogos? Calma lá, pessoal. O assunto bombou um pouco nos EUA porque foi o Barkley que trouxe a tona, mas ele é boleiro, é como se o Neto tivesse dito que o Brasileirão está um lixo e ele tem vergonha de assistir. Você escuta, analisa o assunto e tudo, mas não dá pra levar tão a sério assim. São caras que mesmo quando tem razão gostam de exagerar para chocar. Estamos treinados a achar que agora é tudo culpa do locaute, às vezes sem perceber que muitas coisas sempre aconteceram e não demos atenção, sejam os triple-doubles ou qualquer bobagem. Só ver a evolução gradual de alguns times como o Jazz, Celtics e o Pacers jogo após jogo para perceber que a impressão na verdade é que a temporada só deve melhorar.