Tchau, Paul Westphal

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DeMarcus Cousins esconde com a mão o que acha do seu treinador

“Que ataque?”

Foi assim que DeMarcus Cousins respondeu a uma pergunta sobre as dificuldades do ataque do Kings após uma derrota contra o Knicks no quarto jogo da temporada. Não foi o único. Tyreke Evans também criticou o sistema ofensivo na mesma partida: “Eu tento ficar tão livre quanto posso e criar. Não tem nada organizado pra mim, ninguém realmente no ataque. Nós perdemos, ninguém sabe o que fazer.”

O Kings está mais perdido do que cego em tiroteio faz tempo. O sistema ofensivo não se firmou nas duas temporadas em que o técnico Paul Westphal comandou a equipe, mudando constantemente. Nos últimos tempos, o ataque tenta ter como foco o jogo de garrafão, apostando no talento do jovem DeMarcus Cousins, mas sem deixar de lado o jogo de velocidade que Westphal tentou imprimir e que tanto favorece Tyreke Evans. Não tem funcionado, mas é difícil saber se é inabilidade do Westphal ou se trata-se apenas de um time jovem demais, com dificuldade de implementar o plano tático, cometendo erros constantes e, algo menos lembrado, um time que fede simplesmente por ter jogadores fracos, num nítido trabalho de reconstrução agravado por más decisões dos engravatados e uma novela mexicana constante que é a franquia sair ou não de Sacramento. Ao fim da temporada passada ninguém falava de melhorar o elenco porque o foco estava em levar a equipe para Anaheim, como querem os donos. Mas DeMarcus Cousins soube deixar tudo isso de lado e, com fina ironia, apontar os dedos para onde acredita estar o problema:

“Não sei o que aconteceu. Usamos o ataque que o técnico mandou a gente usar. Apenas fizemos o que o técnico disse. Tem que fazer o que seu técnico diz.”

Foi um dedo molhado na orelha de Paul Westphal, o que é bastante estranho porque Westphal sempre foi conhecido por lidar bem com pirralhos. Sua contratação pelo Kings teve em mente o lento e doloroso trabalho de polir as futuras estrelas da franquia, e ninguém tinha pressa para que a equipe começasse a ganhar jogos de uma hora para a outra. Mas a ofensa de DeMarcus Cousins não foi totalmente gratuita. Na verdade, foi sua resposta aos comentários de Westphal no primeiro jogo de pré-temporada do Kings, quando o técnico chamou o Tyreke Evans de preguiçoso, reclamando que seus jogadores estavam em péssima forma física e não estavam se esforçando. Ao reclamar publicamente de seus jogadores, Westphal recebeu na mesma moeda: seus jogadores, especialmente Cousins e Evans, começaram a reclamar dele publicamente também. Tyreke Evans teve o cuidado de ser mais sutil e genérico em suas reclamações, mas o Cousins não sabe o que é sutileza. Desde seus tempos de colegial ganhou fama por ser esquentado, criar problemas para seus técnicos e não ser dedicado nos treinamentos. Dessa vez, Cousins chegou para a pré-temporada em perfeita forma física, dizem que em melhor condição do que qualquer outro jogador de seu time. Então se sentiu com moral para revidar à altura o ataque de seu técnico.

Paul Westphal não deixou a reclamação de Cousins de graça. Disse que problemas internos das equipes não deveriam vir à tona, mas que quando um jogador fala constantemente – e publicamente – contra a direção que a franquia tenta seguir, isso não pode ser ignorado. Terminou sua declaração dizendo que DeMarcus Cousins havia pedido para ser trocado e que estava dispensado do jogo seguinte do Kings.

Cousins apareceu para o jogo em roupas civis, não entrou em quadra, e poucas horas depois seu empresário já avisava que Cousins não tinha pedido uma troca porcaria nenhuma. O que havia acontecido? O pirralho pode ter pedido uma troca num bate-boca com o técnico, ali de cabeça quente, sem ser sério, ou então Westphal é quem decidiu que ele seria trocado por estar reclamando publicamente do treinador. Não saberemos exatamente o que aconteceu, mas Cousins voltou ao time na partida seguinte. Como comentei no resumo da rodada de ontem, o pirralho simplesmente chutou o traseiro de todo o garrafão do Nuggets, dominou o jogo enquanto esteve em quadra, mas saiu com 6 faltas em pouco mais de 20 minutos de jogo. É o resumo perfeito da carreira do Cousins: não tem cabeça, não tem controle, mas é uma força no garrafão que não pode ser ignorada. A demonstração foi o bastante para que Paul Westphal fosse demitido no dia seguinte.

O técnico não teve nenhum sucesso no comando da equipe, mas não se esperava que ele tivesse. Dele, era esperado apenas que cuidasse dos jovens jogadores, que os tornasse novas estrelas. Assim que reclamou dos seus jogadores publicamente, numa clara estratégica motivacional, os jogadores atiraram o técnico na fogueira sem dó nem piedade. Se os seus dois jogadores principais estão malhando o técnico em todos os jogos, algo precisa acontecer: ou os jogadores são repreendidos ou então o técnico dança. É claro que o técnico dançou.

O Paul Westphal não é uma grande perda, e mesmo se fosse não daria para perceber, porque não tinha material para trabalhar e portanto não faria diferença. O que preocupa, no entanto, é a mensagem que o Kings está passando para DeMarcus Cousins: reclamou, ganhou – como nossos leitores no Twitter afirmaram em massa, é o Neymar de Sacramento. Phil Jackson já cansou de reclamar de seus jogadores em público como “estratégia zen-budista de motivação transcendental” ou alguma coisa pomposa do tipo, e o Lakers nunca sonharia em mandá-lo pastar por isso. Westphal aprendeu com dureza o lugar dos técnicos nessa nova economia, em que as franquias borram as calças de medo de perder suas estrelas para cidades mais abastadas. DeMarcus Cousins não pode ser contrariado senão pode decidir ir para New York, onde o cachorro-quente é mais gostoso. O foco passa a ser esse, ao invés de construir franquias vencedoras.

>Reconstrução relâmpago

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Deron Williams tenta se defender no boxe dos avanços eróticos de Sasha Vujacic

Alguém ainda se lembra do Nets da temporada passada? Aquele que bateu o recorde de pior começo de temporada (com 18 derrotas e nenhuma vitória) e perigou ter a pior campanha da história antes de todo mundo acordar e começar a ganhar uns jogos? Vamos entrar no DeLorean, então, e dar uma olhadinha naquele elenco:

Rafer Alston
Tonny Battie
Keyon Dooling
Chris Douglas-Roberts
Josh Boone
Devin Harris
Trenton Hassell
Jarvis Hayes
Kris Hmphries
Brook Lopez
Yi Jianlian
Courtney Lee
Eduardo Najera
Chris Quinn
Bobby Simmons
Sean Williams
Terrence Williams

Desta lista inteira, apenas dois jogadores continuam na equipe hoje: Kris Humphries e Brook Lopez. Todo o resto virou farofa. A maioria terminou seus contratos e foi jogar em outro time, outros não conseguiram mais emprego e se aposentaram, e outros foram jogar em outros países porque não encontraram espaço na NBA: Sean Williams foi pra Porto Rico depois de fumar muita maconha e ser suspenso sem parar, meu amado Rafer Alston foi para a China comer cachorro, Jarvis Hayes está na Turquia. Os que restaram da lista foram trocados: Terrance Williams e Courtney Lee, que eram supostamente o futuro da equipe na armação, foram pro Houston; Yi Jianlian foi para o Wizards; Devin Harris foi para o Jazz; e Chris Douglas-Roberts foi para o Bucks. A maioria das trocas foi praticamente de graça, por contratos expirantes ou escolhas de segunda rodada no draft. Já disse aqui várias vezes na temporada passada, depois de acompanhar com cuidado a campanha patética do Nets, que o time não era tão ruim quanto o número de derrotas apontava. A equipe sofreu com muitas lesões, incompetência técnica e falta de confiança. Quando mudaram de técnico e começaram a respirar um pouco, afastaram as chances de um recorde negativo ao fim da temporada e eu esperava que apostassem novamente na pirralhada para a temporada seguinte.

Eis que estamos na temporada seguinte e o Nets diz querer brigar pela oitava vaga nos playoffs, algo viável após as cinco vitórias seguidas da equipe – última delas contra o Celtics. O que raios a equipe fez para escapar do fim da tabela? Provavelmente a reconstrução de time ruim mais rápida da história da NBA. Foram várias trocas menores, aparentemente desnecessárias, em que o Nets parecia se livrar de jogadores bons ou então aceitar contratos idiotas como o do Sasha Vujacic ou do Troy Murphy. De repente, todos os contratos vão acabar ao mesmo tempo e o Nets conseguiu nessas brincadeiras 5 escolhas de primeira rodada de draft nos próximos dois anos. Duas delas foram embora na troca do Deron Williams, e eis aí a grande sacada.

O Heat também conseguiu se planejar para desmontar o time inteiro de uma temporada para a outra. Todos os contratos terminaram, quem iria continuar foi trocado por bolachas, e não sobrou ninguém na equipe para que assim o Heat pudesse assinar novos jogadores com salários gigantescos. O Heat tinha como atrativos um Dwyane Wade querendo ficar por lá, um clima bacana com sol e mulheres peitudas correndo pelas praias, e uma estrutura que já havia tornado a equipe campeão alguns anos atrás mesmo não sendo favorita. O Heat era bom, se reconstruiu em uma temporada e assinou LeBron, Wade e Bosh. Legal, a água é molhada, já sabemos a história de cor. Mas o Nets nunca poderia fazer algo semelhante. Quem vai querer jogar em New Jersey? Mesmo que a equipe esteja de mudança para o Brooklyn, o Knicks ofusca tudo na região, não há estrutura formada, não há anel de campeão, não há estrela para atrair ninguém. Por isso as trocas aparentemente desimportantes do Nets foram uma sacada de mestre: liberaram espaço salarial ao mesmo tempo em que juntaram as peças necessárias para trocar por uma estrela. A ideia era o Carmelo, a realidade foi o Deron Williams, e poderia ter sido o Vince Carter, então eles saíram no lucro. O time agora tem grana pra burro, mantém 3 escolhas de primeira rodada nos próximos 2 anos, apenas 7 contratos estão garantidos para a temporada que vem, o Deron Williams está lá para atrair gente bacana, e o mais legal: a equipe consegue vencer. E vencer é a maior propaganda possível para uma equipe em reconstrução. Se com esse elenco fedido eles podem sonhar com os playoffs, qualquer jogador decente pode sonhar em ir para o Nets e jogar a pós-temporada.

É por isso que eu acho que o Nets deu muita, muita sorte em não ter conseguido trocar pelo Carmelo. E não venham tacar cocô na minha cabeça ou colocar bombas no carro da minha esposa, eu sou aquele maluco que acha o Carmelo o melhor jogador ofensivo da NBA e o melhor em momentos decisivos. Sua presença em New Jersey causaria barulho, holofotes, mídia, jogos em rede nacional, uma mudança bombástica para o Brooklyn e muita venda de camisas, eventualmente atraindo bons jogadores. Mas o Deron Williams é diferente: ele simplesmente faz os outros jogadores ao seu redor melhores. Para se ter uma noção, mais de 60% dos arremessos convertidos pelo Nets quando Deron Williams está em quadra são fruto de suas assistências. Essa equipe cheia de gente meia-boca, a maioria presente no elenco apenas como tapa-buraco ou como contrato absorvido para ganhar escolhas de draft, consegue render ofensivamente porque Deron Williams abre espaço no garrafão com seus arremessos e coloca a bola nas mãos dos companheiros em condições fantásticas para finalizar. Com isso, não só o Nets vence mais partidas a curto prazo mas o elenco também parece muito mais eficiente do que de fato é. O Nets de Carmelo seria famoso e atrairia gente no futuro, mas o Nets de Deron Williams engana muito melhor no presente, vencerá mais no presente, e vai acabar atraindo gente muito mais rápido – especialmente se, por milagre, a equipe roubar mesmo uma oitava vaga nos playoffs. É preciso lembrar que esse plano funciona muito bem apenas porque estamos falando de um time do Leste. Deron Williams só tem que fazer seu Nets superar na tabela atrocidades como o Pistons e o pior projeto de reconstrução da história da humanidade, o Bucks e sua incapacidade de marcar pontos, o Bobcats que acabou de trocar o Gerald Wallace para desistir da temporada e se reconstruir nos moldes do Thunder, e o Pacers que está se reconstruindo faz um tempão e que o time com mais chances de ficar com a vaga.

Como falamos bastante por aqui, esses tempos de crise levaram muitos times de mercados menores a começar a pensar em uma reconstrução, e atualmente o modelo mais em moda é o do Thunder: aposte nos pirralhos, tenha muitas escolhas de draft, espere que fiquem bons e traga veteranos para ajudar. Mas o Nets está ousadamene tentando o modelo de reconstrução do Heat: desmonte o time, consiga uma estrela, deixe pedaços de carne disforme e imprestável ao redor dela para fazer número, e atraia outras estrelas. Se houver alguém capaz de mostrar que não é imprestável é lucro. Se o time vencer, é lucro em dobro. E o Nets, por não ter conseguido o Carmelo, conseguiu as duas coisas: Kris Humphries e Brook Lopez são muito úteis quando comandados pelo Deron Williams, e o time está vencendo mesmo quando deveria perder feio. E o mais estranho: mesmo sem o Deron Williams! O Nets venceu os dois jogos em que o Deron não jogou porque acabou de ter um filho, e tudo porque o resto do elenco está confiante e disposto a mostrar serviço, querendo fazer parte do futuro da equipe. Jordan Farmar usou bem sua oportunidade um dia, Vujacic usou no outro, Kris Humphries está jogando consistentemente bem, e as vitórias aparecem.

Eu ainda não entendo o Brook Lopez, que é genial no ataque com movimentos embaixo do aro com duas mãos e tem um arremesso fantástico, e que mesmo assim insiste em bater bola e infiltrar no garrafão como se fosse um ala qualquer. Fora que, na defesa, ele erra as rotações e sempre vai marcar o arremessador na zona morta ou então marca os alas que arremessam fora do garrafão, tornando seu tamanho inútil e complicando os rebotes da equipe. Mas mesmo assim ele é novo, absurdamente talentoso, alto pra burro, consegue dominar alguns jogos no ataque, e se entende cada vez melhor com o Humphries – que prefere jogar com os pés no garrafão, não coloca a bola no chão, faz o mais simples e limpa os rebotes. Lembram quando o Humphries foi trocado pelo Baby no que foi talvez a mais desimportante troca da raça humana? Os dois não jogavam nada em seus times, e a troca foi basicamente pra ver se alguém engrenava. O Baby acabou perdendo o emprego, o Humphries ficou na NBA porque sabia das suas limitações e fazia o simples, o trabalho sujo no Raptors de um Bosh que jogava longe do aro. Mas no Nets ele finalmente encontrou um esquema de jogo em que se encaixa bem e Deron Williams tornou o jogador muito eficiente no ataque. Ou seja, nenhum dos dois é genial, o Brook Lopez não faz sentido, mas juntos formam um garrafão muitíssimo melhor do que a média da NBA e um ponto de partida perfeito pro Deron se sentir em casa e fazer com que a equipe vença jogos.

O Deron Williams parece estar adorando as liberdades de jogar sem o Jerry Sloan, está forçando arremessos idiotas que ele não podia antes, exagerando nas bolas de três, seu aproveitamento está caindo e ele está menos eficiente no ataque. Mas o fato de que o Nets é ruim e as defesas estarem se preocupando demais com os arremessos do Deron lhe abre espaço para as assistências que ele sabe dar tão bem. São mais de 14 por jogo desde a chegada em New Jersey, ou seja, o Deron forçar arremessos tolos é mais benéfico para o time do que seria o Carmelo forçando os arremessos como está acostumado a fazer. Repito, o Nets deu muita sorte. Deron está feliz, forçando suas bolas, vai liderar a NBA em assistências, tornando bom um time que é mequetrefe, e tudo não passa de uma propaganda. Estrela? Ok. Jogadores secundários que rendem no esquema tático? Ok. Garrafão forte? Ok. Playoffs porque o Leste fede? Ok. Dono milionário disposto a gastar a grana que for em novos contratos? Ok. Quando esse time for para o Brooklyn, provavelmente estará até em melhores condições que o Knicks. Aí está um verdadeiro projeto de reconstrução fodástico, que envolve não ter medo de perder feio por umas temporadas, não ter medo de quebrar o recorde de pior começo ou o de derrotas, e desmontar tudo de uma vez, o mais rápido possível, juntando peças para uma troca capaz de começar o time do zero. Mas esse projeto só é tão bom agora porque deu sorte: com o Carmelo, esse Nets jamais estaria se gabando de ter 5 vitórias seguidas…

>Pai rico, pai pobre

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“Essa cidade é pequena demais para nós dois”, aí os dois foram embora.

Comentamos bastante aqui sobre a saída do Jerry Sloan do Jazz. O técnico já teve desentendimentos com inúmeros jogadores durante sua longa carreira, bateu cabeça com o Deron Williams nos últimos meses, e dessa vez resolveu dar o fora, estava cansado. Não acho, de verdade, que o Deron tenha feito algo tão horripilante a ponto de tirar do time um técnico que passou metade da sua vida discutindo com armadores, mas a torcida de Utah não concorda comigo. Nas três partidas sem Jerry Sloan, três derrotas para o Jazz, Deron Williams foi bastante vaiado pelos torcedores. Defendemos aqui que o Sloan passou tempo demais no comando do time, sempre nesse limbo em que o time vai para os playoffs mas não tem chance de títulos, e de que era hora de mudar. Por mais difícil que seja, todos os torcedores precisam entender que o objetivo é ganhar títulos e que, volta e meia, é preciso abortar um time bom simplesmente porque ele não será bom o bastante.

Aparentemente, o Jazz estava realmente disposto a mudar as coisas. Negociou silenciosamente possíveis cenários de troca pelo Deron Williams ainda enquanto ele batia cabeça com o Jerry Sloan. Após a saída do técnico, no entanto, as negociações não pararam. Até que, sem nenhum aviso, Deron acabou de ser mandado para o Nets em troca de Devin Harris e Derrick Favors, além de duas escolhas de primeira rodada (uma do Nets, outra do Warriors) e 3 milhões de verdinhas. Definitivamente a negociação já está rolando há muito tempo, apenas aguardando que o Carmelo não fosse para o Nets (aliás, leia tudo sobre a troca do Carmelo para o Knicks em nosso post aqui), mas ninguém sabia dela. Não é legal que o mundo da boataria seja a maior perda de tempo do planeta?

Como todas as trocas do Jazz, temos sempre que levar em conta primeiro os motivos financeiros. O Jazz é o time que mandou Ronnie Brewer e Eric Maynor em trocas por nada apenas para liberar espaço salarial porque Utah é um mercado pequeno e limitado. O contrato do Deron Williams era de gordos 14 milhões, e seria de 16 milhões na temporada que vem, última do seu contrato. No meio desse ano, Deron seria liberado para assinar uma extensão se quisesse, e os boatos já começaram a aparecer de que ele não assinaria a extensão para manter aberta a possibilidade de jogar no Knicks, com Carmelo e Amar’e, caso o Jazz não tivesse chances de título até lá. Bem, o time não tinha muitas chances antes com Sloan e Carlos Boozer, está caindo pela tabela sem os dois e tem problemas financeiros, limitando muito as possibilidades de contratações. Na cabeça dos engravatados do Jazz, o Deron ganharia 16 milhões na temporada que vem (aquela que pode ser encurtada por uma greve e que vai piorar a situação financeira das franquias) apenas para sair da equipe na temporada seguinte, em troca de nada – ou forçando mais uma dessas trocas absurdas, como a do Carmelo. Caso o Deron ficasse no time, os engravatados precisariam decidir se vale a pena extender um contrato e pagar quase 20 milhões de dólares num mercado minúsculo para o armador de um time que, com novo técnico e sem padrão de jogo, precisa pensar em algum tipo de reconstrução. Pensando no bolso, na provável greve da temporada que vem, na situação do Carmelo e em perder uma estrela para o Knicks, o Jazz resolveu fazer a troca agora. Aproveitou as negociações provindas do desentimento do Sloan com o armador, aproveitou que o Nets estava disposto a abrir mão de muita coisa para não sair de mãos vazias depois de perder Carmelo, e aproveitou que a saida do Jerry Sloan é uma boa hora para reconstruir a equipe e pensar na pirralhada. Pirralhada barata, de preferência. Com o contrato de 17 milhões do Kirilenko, que vira farofa ao fim dessa temporada, e escolhas de draft do Nets e do Warriors, o Jazz pode respirar em paz com dinheiro nos bolsos e crianças para criar. O time não vai ser relevante por um bom tempo, mas vai ser uma reconstrução divertida de acompanhar.

Derrick Favors andou sendo muito criticado pelo seu começo de carreira no Nets e esteve em todas as propostas de troca que o time fez por Carmelo Anthony. Favors foi colocado em tantas propostas que não dava mais pra tentar enganar o rapaz e dizer que ele estava nos planos do Nets, ele tinha que ser trocado obrigatoriamente, não havia clima para ele ficar. Para o Jazz, foi uma boa. O rapaz é um excelente defensor, mas está tendo dificuldades de se acostumar com a NBA, comete muitas faltas e ainda não tem o físico necessário para defender em alto nível. No ataque, ainda falta muito para conseguir contribuir com regularidade. Mas dá pra ver que isso é apenas questão de tempo. Favors é um excelente reboteiro, se posiciona bem, é esforçado na defesa e não tenta demais no ataque. Em um ou dois anos, pode ser um grande jogador se tiver os minutos necessários para evoluir. Curiosamente, o Nets – mesmo fedendo e em total reconstrução – não estava disposto a lhe dar esses minutos, talvez preocupado em impressionar Carmelo ou em fugir do pior recorde do Leste de novo. No Jazz, Favors vai bater cabeça com Al Jefferson e Paul Millsap, mas talvez funcione se ele for reserva dos dois jogadores (e o Okur for mandando pra rua, como se cogita), assim como acontecia com o trio Boozer, Okur e Millsap. Na pior das hipóteses, o Jazz tem agora três jogadores de garrafão jovens, talentosos e com potencial pra burro para fazer alguma troca. A única certeza é que o Favors fica: por estar no contrato de novato, ele é o mais barato.

A única coisa estranha para o Jazz nessa troca é colocar a armação do time nas mãos do Devin Harris. Ele tem mais 3 anos de contrato, ganha mais de 8 milhões nas três temporadas, e está longe de ser um líder como Deron. É um dos armadores mais rápidos da NBA, chuta traseiros, mas sua ênfase é em pontuar – e se machucar. Como os grandalhões do Jazz vão reagir a um armador menos disposto a fazer os pick-and-rolls, marca registrada do time por décadas? Será preciso uma mudança completa no esquema tático, mas talvez funcione. Al Jefferson e Millsap mostraram nessa temporada, ao contrário do que se pensava, que rendem muito melhor embaixo da cesta do que nos arremessos de média distância como fazia Carlos Boozer. Talvez as infiltrações de Harris abram espaço para Millsap e Al jogarem bem próximos ao aro, finalizando de frente para a cesta, mas será uma mudança drástica de um esquema de jogo que está em vigor há uns 20 anos. Ou seja, finalmente o Jazz vai ser um time realmente diferente, com um armador muito distinto de todos os outros que jogaram sob comando do Jerry Sloan. Pode demorar, mas as mudanças vão fazer bem para a equipe e as trocas forçam o time a se repensar por completo, evitando o risco de que a mudança de técnico fosse apenas aparente, com o mesmo modelo tático sendo mantido pelo técnico substituto. Por um lado foi um modo de se obrigar a arriscar, a tentar algo novo. Por outro, foi uma mudança bastante controlada e medrosa de quem não quer ficar se preocupando com finanças nos próximos anos.

O Nets, por sua vez, só se preocupa é justamente com os próximos anos. Desde que comprou o time, o milionário russo Mikhail Prokhorov não fez outra coisa além de tentar garantir que o Nets tivesse estrelas relevantes ao se mudar para o Brooklyn daqui a 2 anos. A primeira intenção era ter Carmelo Anthony e o time tentou dar as calças por ele, o único jogador intocável era o Brook Lopez, porque pivôs são raros mesmo que o talento dele de pegar rebotes tenha sido roubado pelos Monstars do Space Jam. Como o Knicks fez de tudo para tirar o Carmelo do Nets e conseguiu porque, no fundo, o Carmelo queria mesmo era jogar com Amar’e, o milionário russo foi tentar outra estrela. O Deron Williams foi uma excelente oportunidade de mandar todas as escolhas de draft e o Derrick Favors que o Nets estava juntando há meses para o Carmelo. Parando pra pensar, o Nets provavelmente seria mais inteligente se mantivesse as escolhas e reconstruísse esse time aos poucos, mas é tudo uma questão de mercado. O time precisa chegar com alguma estrela no Brooklyn para vender ingressos e camisetas, mesmo que não tenha chances de titulo. A reconstrução foi agora colocada um pouco de lado em nome de Deron Williams, tantas vezes ovacionado como um dos melhores armadores da liga. O Favors era novinho e cheio de potencial, seria uma ótima para o futuro, mas Deron e Brook Lopez devem fazer uma dupla mais eficiente desde o primeiro dia – e devem vender mais ingressos e criar barulho, agitação, interesse. É claro que o Deron não ficou feliz em ir para o Nets, ele tinha esperanças de ir longe com o Jazz, adorava Utah por ser um lugar calmo e poder se dedicar à família, e estava flertando com a ideia de ir para o Knicks jogar com os amiguinhos. Agora vai para o primo pobre de New York jogar por um time de merda sem nenhuma chance de playoff nem no Leste, parece castigo! Mas esse descontentamento vai durar pouco: Mikhail não poupou esforços por uma estrela até agora, voou para a casa do LeBron para tentar convencê-lo, se encontrou com o Carmelo e fez trocentas promessas, e agora fará tudo de novo pelo Deron. O milionário vai prometer um elenco de apoio, vai pagar as taxas por extrapolar o teto salarial, vai convencer gente a ir jogar lá usando o nome do Deron, vai fazer campanhas de marketing violentas e tornar o Deron um dos jogadores mais famosos da NBA. O armador vai sair de um time que se livrava de gente boa porque não podia pagar e vai cair num lugar em que todo mundo vai querer jogar porque dinheiro não é um problema. Vai ser ovacionado como um dos maiores da NBA porque todas as oportunidades lhe serão dadas e todas as câmeras estarão apontadas. É outra realidade, e não há vontade de vida calma que vá resistir a isso. Deron agora vai poder fazer o que quiser com os jogadores que quiser,sem bater boca com o Jerry Sloan ou se preocupar com elenco de apoio e finanças. O Nets paparicou o primeiro jogador importante, que era o mais difícil. Agora vai atrás dos outros, nos próximos dois anos, mas deve ser tudo muito mais fácil – nos mesmos moldes de Celtics, Heat e Knicks.

A primeira parte da construção do elenco de apoio em volta do Deron Williams veio hoje mesmo. O Nets mandou o contrato expirante do Troy Murphy e uma escolha de draft de segunda rodada em troca de outros dois contratos expirantes: Dan Gadzuric e Brandan Wright. O primeiro é um pivô reserva para quebrar um galho na defesa, até melhor do que muita gente pensa porque comete poucas faltas e tem bom tempo de bola nos tocos. O segundo, Brandan Wright, pode jogar nas duas posições de ala e foi draftado com muita expectativa, mas ficou preso como refém do maluco do Don Nelson. Mesmo com a saída do técnico, o ala não teve minutos, se contundiu o tempo inteiro, mas ainda se espera que ele possa brilhar com a situação certa e os minutos necessários. Com a saída do Favors, o titular ao lado de Brook Lopez deve ser o Kris Humphries, que passou a jogar muito bem desde que começou a dar uns amassos na Kim Kardashian (vai ver o talento roubado do Brook Lopez foi pra ele). Mas o time precisa de um reserva, e Brandan Wright vai ter esses minutos à disposição para tentar mostrar alguma evolução, qualquer que seja. Já é um começo e garante que o time não fique muito esburacado com a chegada do Deron Williams. Para o Warriors, apenas foi uma questão de abrir espaço salarial se livrando de gente pouco usada, devem até mesmo mandar o Troy Murphy embora antes dele sequer pisar no ginásio.

Essas trocas foram uma boa demonstração de como funcionam os pequenos e os grandes mercados da NBA. O Nets, que se aproxima cada vez mais de um grande mercado em New York, só precisa de uma estrela para então começar a assinar cheques, pagar taxas e montar um bom elenco ao seu redor com veteranos e mais estrelas querendo ganhar títulos. É o que tenta também o Knicks com Carmelo, e o Nets se esforça para não ficar muito atrás da franquia vizinha. Já o Jazz precisa constantemente monitorar os gastos, cortar jogadores e salários, e agora finalmente aceita uma mudança grande para tentar criar um time competitivo e mais barato. Mas, por um tempo, vai ser hora de focar na pirralhada e nas escolhas de draft, e esperar a crise e a ameaça de greve ir embora. Numa liga movida pelo dinheiro, na hora da crise econômica apenas alguns times podem respirar tranquilos. Os outros precisam humildemente ficar um pouco de escanteio.

>Um fim necessário

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As maiores mãos do mundo agora acenam adeus

Foram 23 anos como técnico do Jazz. É quase o dobro da idade do Justin Bieber, é mais do que a idade da maioria dos nossos leitores, é mais do que a idade da maioria dos novatos que entram atualmente na NBA. Quando começou a treinar o Jazz, a Emma Watson sequer tinha nascido, e convenhamos que um mundo sem a Emma Watson não faz nenhum sentido. Faz tanto tempo que o Jerry Sloan estava no comando do Jazz que chegamos a pensar que era uma monarquia, que o cargo só seria abandonado quando ele morresse e seria assumido pelo seu filho, herdeiro do trono. Por isso tem gente dizendo que é a morte de uma era, o fim dos tempos, o apocalipse. Por ser o técnico que passou mais tempo em uma equipe em toda a história dos esportes americanos, imaginar Jerry Sloan fora do Jazz é sinal de horror para muita gente. Mas foram 23 anos, gente. Uma hora, tudo na vida dá no saco.

Jerry Sloan foi um gênio, daqueles que a gente usa para provar que prêmios e títulos são bobagem. Nunca foi campeão da NBA e nunca ganhou um prêmio de técnico do ano (se tivesse ganhado teria sido vítima da maldição e demitido no ano seguinte), mas sua carreira como técnico é fantástica. Comandou o Jazz em duas finais de NBA contra o Jordan, em 97 e 98, e só perdeu porque usar o Jordan é apelação. Treinou um dos melhores times de todos os tempos, com Malone e Stockton. É o terceiro técnico com mais vitórias na história da NBA. E o mais impressionante é a consistência: foram 13 temporadas com mais de 50 vitórias, e apenas 3 temporadas em que seu time não ganhou pelo menos metade dos jogos. Com tudo isso, foi parar no Hall da Fama mesmo estando ainda em atividade. Nenhum título, nenhum prêmio, mas ele sempre esteve lá treinando times incríveis e vencedores mesmo quando o elenco não ajudava, as contusões se acumulavam e os donos da equipe mandavam bons jogadores ou escolhas de draft embora para economizar dinheiro. Lembro de um Jazz horrível, sem nenhum jogador decente, que tinha o porcaria do Raul Lopez na armação e mesmo assim ganhou 42 jogos com atuações incríveis do armador. Lembro do Raja Bell ser longamente improvisado de armador e mesmo assim o time funcionar direitinho. Na época eu dizia que um macaco de circo seria um armador genial no esquema do Jerry Sloan, desde que ele conseguisse aturar o técnico.

Porque o Sloan é um gênio velhinho e todos nós sabemos que os gênios e os velhos são muito chatos. O Sloan obriga os jogadores a colocar a camiseta por dentro do calção, proíbe o uso de faixas na cabeça nos jogos e de celulares nas viagens da equipe. Quem entra em quadra pelo Sloan é quem se esforça mais, quem treina mais e quem obedece mais. Muitos jogadores talentosos como Andrei Kirilenko já mofaram no banco de reservas enquanto Matt Harpring, sem nenhum talento, dava cabeçadas em outros jogadores. Talento sempre foi secundário perto do esforço, o Jerry Sloan vem de uma infãncia difícil e valoriza dedicação e força de vontade acima de tudo. Por isso seus times são tão chatos de enfrentar, lutam até o final e mantêm o plano de jogo. No começo dessa temporada, o Jazz cansou de vencer jogos no final depois de perder por mais de 20 pontos. Coloquem o elenco do Cavs nas mãos do Jerry Sloan e eles não perderão 26 partidas seguidas porque antes disso acontecer terão matado a facadas os adversários. Tudo isso, claro, apoiado por um estilo de jogo rígido e eficiente, baseado em bandejas, pick-and-rolls e pouquíssimos arremessos de três, com pouca frirula e nenhum arremesso forçado. Quem sai do plano vai pro banco.

Com esse tipo de rigidez, é bem óbvio que o Jerry Sloan arrumou encrenca com muitos jogadores ao longo de seus 23 anos de Utah Jazz. As histórias podem não estar aí, podem não ter ido parar na Contigo!, mas os confrontos aconteceram. Teve muito jogador descontente no banco, muita bronca por cagada feita em quadra, muito jogador querendo fazer o que bem entendesse e tomando surra de chibata. Por isso, os boatos de que o Sloan resolveu abandonar o Jazz por causa das brigas com o Deron Williams me soam completamete absurdos.

Na partida contra o Bulls, na quarta-feira, Deron Williams desobedeceu o técnico em quadra e os dois bateram boca no vestiário, com gente dizendo que tiveram que segurar os dois pra não sair porrada (já pensou um soco das mãos gigantescas do Jerry Sloan?). O Deron disse que discutiram mas que não foi nada de mais, que os dois já tinham brigado mais feio antes e que outros jogadores também já tinham confrontado o técnico com mais violência antes. Ou seja, mais uma discussão na lista de bilhares de um técnico severo. Normal, quando um técnico quer estabelecer uma filosofia desse tipo em uma equipe, proibindo até coisas idiotas como faixa na cabeça, está pronto para enfrentar resistência, confronto e insatisfação. Sloan já lidou com isso por 23 anos, não há razão para imaginar que a discussão com Deron Williams tenha sido tão pior assim. Pelo jeito, ele só está de saco cheio. Sem Boozer, o Jazz tem dificuldades em estabelecer um jogo de meia distância e o pick-and-roll. Está brigando pelas últimas vagas do Oeste, perdendo jogos que deveria ganhar, cheio de altos e baixos nos últimos anos. E o Deron Williams é competitivo, se acha fodão, e quer ter mais liberdade nas mãos. O Sloan juntou tudo isso num pacote, viu que estava passando Big Brother na tevê, e resolveu tirar férias. É justo.

Realmente, Deron Williams é um armador bom o bastante para fazer mais em quadra do que faz atualmente pelo Jazz. Nas partidas em que o Jazz virou o jogo no segundo tempo durante essa temporada, todas foram mérito de um surto criativo do Deron, de ele colocar a bola debaixo do braço e resolver sozinho – ou seja, foram vitórias da desobediência. Jerry Sloan é um dos melhores técnicos que já existiram, é um gênio e está no Hall da Fama antes mesmo de se aposentar. Mas não é por isso que seu estilo não pode ser questionado, que cada situação não deve ser analisada individualmente. Sloan é o técnico ideal para comandar esse Jazz atual, para ensinar Deron Williams, trazer estabilidade a esse time? Talvez não – e isso não é nenhuma heresia. Ficar no time por 23 anos tornou proibido discutir se seria melhor o Sloan tomar outros rumos, e todos os times deveriam discutir continuamente se mudanças são ou não necessárias. Sem o Boozer em quadra e com o jogo de meia distância de Millsap e Al Jefferson tão abaixo do que se esperava, talvez fosse hora de mudar os planos de jogo e deixar Deron arremessar mais, jogar de costas para a cesta, usar o corpo contra os armadores adversários que são sempre menores do que ele. Talvez o time funcione melhor com mais liberdade, usando a criatividade do Deron, talvez o time precise da mudança de ares, de celular nos ônibus, da chance de provar que podem vencer mesmo sem o técnico Hall da Fama. Ou talvez o time simplesmente piore e desande de vez sem a tutela do melhor técnico de sua história. De todo modo, o importante é que agora o Jazz pode debater isso abertamente, pode escolher se mantém o mesmo rumo ou se toma caminhos diferentes. Com Sloan, nada era questionado. Agora, o Jazz pode pensar, matutar e tomar decisões. Por melhor que fosse Jerry Sloan, acho essa rigidez um preço alto demais a se pagar, e o time já estava há tempos demais nesse limbo eterno de se classificar para os playoffs com certa facilidade mas não ter nenhuma chance de título. Agora o time vai ser mais maleável e, quem sabe, simplesmente feder. Isso por si só já seria o bastante para injetar talento novo na equipe e romper o atual ciclo.

Os leitores do Jazz, que adoram tacar cocô na minha cabeça e sabem onde eu moro, vão dizer que eu sou herege. Na verdade sou um grande fã do Jerry Sloan e daquilo que ele faz com seus armadores – o Stockton é, para mim, um dos melhores de todos os tempos e um dos meus três jogadores favoritos deste universo. Ainda assim, Sloan vem de outros tempos. Enfrenta uma nova geração de treinadores nerds e carregados de estatísticas que não perdem tempo proibindo faixinha ou dando eletrochoque nos armadores que não seguirem tudo à risca. São treinadores novos que podem perder seus postos a qualquer momento, gerando mudanças, contrastes, evoluções. Sem isso, os times ficariam estagnados. Jerry Sloan deixa saudade, fico feliz que ele já esteja no Hall da Fama, que ele seja reconhecido mesmo sem ter nenhum anel. Mas era hora de ir embora e deixar o Jazz respirar um pouco, se virar sem ele. Tenho a mesma opinião com o Los Angeles Lakers: por melhor que seja Phil Jackson, já atingimos um momento em que o Lakers precisa urgentemente respirar novos ares para que exista contraste, mudança e evolução. Os finais são tristes mas necessários. O Jazz vai se sair bem, mesmo sem as mãos gigantescas do Jerry Sloan dando tabefes na bunda de todo mundo.

>Preview 2010-11 / Utah Jazz

>

Se tem o Deron tem que ter o CP3

Objetivo máximo: Vencer o Oeste (e encher o saco de todo mundo durante isso)
Não seria estranho: Perder uma série disputada na primeira rodada ou cair na segunda (e encher o saco depois que perderem)
Desastre: O Al Jefferson não se entender com o Deron Williams (e encher o saco criticando a saída do Boozer)

Forças: Um dos melhores armadores da NBA, time entrosado e ataque poderoso
Fraquezas: Defesa de garrafão ridícula e os torcedores mais malas da liga

Elenco:

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Técnico: Jerry Sloan



São benditos 22 anos como técnico do mesmo time! Quando Jerry Sloan entrou no Jazz ainda existia União Soviética, o Brasil ainda não tinha um presidente eleito democraticamente depois da ditadura militar, a Microsoft tinha acabado de anunciar o Windows 2.1, Super Mario 3 era lançamento e ainda estavam para nascer pessoas importantes do mundo contemporâneo como Selena Gomez, Vanessa Hudgens, Rihanna e quase 40% dos nossos leitores!

Não vou me dar ao trabalho de reescrever toda a história dele, então vai um “Ctrl+C – Ctrl+V” no texto da semana dos técnicos:

“Dois times marcam a carreira de Jerry Sloan. O primeiro, claro, é o Utah Jazz. Ele é técnico do Jazz desde a temporada 88-89, ou seja, completará 20 anos como técnico do mesmo time e foram 20 anos brilhantes. Desde 89 até 2003, Sloan não deixou nem por um ano de ir para os playoffs, chegando em 5 finais de conferência e duas finais da NBA.

O time, como todos sabem, era liderado pela dupla John Stockton e Karl Malone, dois dos melhores jogadores de basquete em todos os tempos. O esquema tático do Sloan era conhecido e usava e abusava do talento dos dois craques. O principal artifício era o “pick and roll”, jogada que se utilizava do entrosamento dos dois, da visão de jogo do Stockton e da combinação de bom arremesso de meia distância e de infiltração do Malone. Então soma-se a isso bons arremessadores e jogadores sempre usando a força para cortar em direção à cesta para receber os passes de Stockton e você tem um time eternamente competitivo. Todos os anos o Jazz estava lá incomodando todo mundo, não tinha erro, podiam entrar e sair jogadores mas se tinha Malone, Stockton e Jerry Sloan, o Jazz estava na briga. O título só não veio por causa do outro time na vida de Jerry Sloan.

Por dois anos seguidos, o Jazz perdeu a final da NBA para o Chicago Bulls de Michael Jordan. O mesmo Chicago que tem a camiseta número 4 aposentada por causa de Sloan.

Sloan nasceu no estado de Illinois, onde fica Chicago, e jogou apenas uma temporada no Baltimore Bullets antes de se transferir para o Chicago Bulls no ano em que o time nasceu, até por isso o seu apelido era “O Bull original”. Lá ele fez fama defendendo como um doido, indo para dois All-Star Games, levando o time para os playoffs e como líder do único título de divisão do Bulls fora da era Jordan.

Em uma história parecida com a do Nate McMillan, Sloan logo que se aposentou (por causa de contusões no joelho) virou olheiro do time e logo depois técnico, treinou por 2 temporadas e meia, depois foi mandado embora. No Jazz, depois de perder os títulos para o Bulls, não conseguiu mais repetir o sucesso de antes e mesmo sem Jordan na liga, o Jazz já não conseguia mais passar pelas novas potências do Oeste, como Spurs e Lakers. Aí foi a hora de Stockton se aposentar e do Malone levar seu pé frio para Los Angeles.

Todo mundo pensava que era a desculpa certa para o Sloan pedir as contas e ir embora, mas não, ele permaneceu fiel ao time e comandando um elenco ridículo não foi para os playoffs pela primeira vez em 2004. Não foi de novo em 2005 e 2006, mas nesse tempo ele não abandonou aquele mesmo velho esquema tático que deu certo durante mais de uma década e aos poucos foi montando o time com as peças necessárias para o esquema dar certo de novo. Veio o armador com visão de jogo (Deron Williams), o ala de força com potência e arremesso (Boozer), os arremessadores (Okur e Korver) e os jogadores de força que estão sempre cortando em direção à cesta (Brewer, Kirilenko, Harpring).

Se fosse pra definir Sloan com uma palavra, seria “estabilidade”. Sempre o mesmo esquema, a mesma calma, a mesma cobrança por defesa e jogo físico. O título pode não vir nunca, mas enquanto ele tiver jogadores nas mãos vamos ver ele e seu Jazz nos playoffs. E acho que ele só pára quando morrer.”

Para esse ano é mais do mesmo! Raja Bell é o arremessador-defensor-pentelho no lugar de Ronnie Brewer, Paul Millsap é o cara físico e agressivo do banco ao invés de Harpring, Al Jefferson é o jogador de garrafão que brinca com o armador ao invés do Carlos Boozer. E uma coisa nunca mudou no Jerry Sloan, ele tem mãos muito grandes. 

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Nas duas últimas temporadas o Jazz foi um time estranho. Em alguns momentos eles deram a entender que estavam em plena decadência e em outros foram, sem dúvida alguma, o melhor time da  NBA. É sério, durante pelo menos um mês na temporada passada e duas na retrasada eles foram o time mais empolgante da NBA, tanto no estilo de jogo quanto na qualidade e importância das vitórias. O motivo dessa regularidade digna de humor de mulher na TPM é um mistério.

No ano passado começaram a temporada jogando um basquete sem vergonha. Parecia um time previsível e sem aquela vontade e gana que todo time do Jerry Sloan usa para cobrir eventuais defeitos. Até cheguei a decretar aqui o fim do time. Alguns meses depois eles estavam voando em quadra e assumiram a segunda colocação do Oeste, chegando a ameaçar a liderança do Lakers. Depois perderam alguns jogos importantes e acabaram caindo, na última semana, para o 5º lugar. Hora de enganar todo mundo de novo: Embalaram aquele fim de temporada ridículo com uma série dominante e espetacular sobre o Nuggets, derrotando Carmelo e Billups por 4 a 2. E aí, quando todo mundo voltou a achá-los um dos times mais empolgantes da liga, foram varridos pelo Lakers.

Ou seja, o Jazz é um time tão mala que nem previsão deles dá pra fazer! Mas vou me arriscar: Eu acho o Al Jefferson um baita jogador, um dos que mais tem recursos e jogadas quando joga de costas pra cesta. Ele não tem o arremesso de meia distância como o do Carlos Boozer e isso vai mudar um pouco como funciona o pick-and-roll do time, mas em compensação dá outras opções de jogada. E embora ele não seja um pivô nato (e reclamava de jogar na posição 5 quando estava no Wolves) não deve dar piti se jogar um pouco mais lá dentro se fizer dupla com o Paul Millsap. Entre Boozer, Okur, Millsap e Al Jefferson o meu jogador favorito é o Boozer, mas entendo que o atual trio do Jazz é mais completo sem ele, hoje tem opções mais diferentes de combinação.

Uma coisa ruim desse trio é que eles continuam fracos na defesa. O Danilo acha o Boozer um inútil na defesa, eu não acho tanto assim, ele pelo menos sempre foi esforçado e ajuda sendo um bom reboteiro, mas não o bastante para fazer do Jazz um time forte na defesa do garrafão. Com o Al Jefferson não muda muita coisa. É meio broxante trocar de jogador e ver os mesmos problemas, mas os torcedores do Jazz, que pena, vão ter que lidar com isso.

Outras perda que pode machucar o time está também no Bulls, Kyle Korver. Ele era o arremessador de três que vinha do banco para acabar com o jogo. Poucos jogadores se adaptaram tão bem e tão rápido ao estilo do Jerry Sloan e por ser um branquelo do bem ainda era queridinho da torcida. Outro que vai fazer falta é o Wesley Matthews, o novato apareceu do nada no ano passado para virar titular absoluto que defendia o Kobe Bryant em momentos decisivos! Mas não culpo o Jazz por perdê-lo, eles estavam certos de dar um contrato de só um ano quando ele era só um Zé Ninguém e igualar a oferta descomunal (34 milhões por 5 temporadas, com 9 milhões no primeiro ano!) que o Blazers fez por ele seria burro para um time que já até fez trocas idiotas para economizar alguns trocados.

O responsável por cobrir o espaço que os dois deixaram no time vai ser o Raja Bell. Ao mesmo tempo ele vai ter que ser o defensor que era o Wes Matthews e fazer as bolas de três do Korver. Ele é capaz disso se jogar o que jogava no seu auge no Suns, mas depois de um ano parado por contusão é bom ter um pé atrás. Outro que pode ajudar é o Gordon Hayward, novato que veio da mesma escola Bieber de garotos branquelos do Kyle Korver e teve alguns momentos muito empolgantes na pré-temporada.

O Jazz sempre achou caras para substituir as suas perdas, sempre montou times bons. Sempre deu trabalho pra todo mundo. E sempre chegou perto do título e perdeu. Não deve ser diferente nesse ano. E só porque eu falei pouco de um dos meus jogadores favoritos, um bom mix de jogadas do Deron Williams:

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