🔒Uma questão de interpretação

“Se eu pisar no seu pé, vai te machucar. E se você pisar no meu pé, quem se machuca sou eu.” Essa frase, aparentemente óbvia, fez parte de uma série de afirmações de Shaquille O’Neal para alertar sobre como seu jogo estava sendo prejudicado pela arbitragem nos seus últimos anos de carreira. Shaq alegava que enquanto qualquer contato simples da sua parte contra armadores infiltrando no garrafão era considerado falta graças à diferença de tamanho envolvido, jogadores menores podiam ser fisicamente muito agressivos contra ele sem que isso resultasse numa falta. Os golpes que recebia de jogadores menores machucavam, atrapalhavam e limitavam seu jogo, mas não PARECIAM faltosos porque Shaq era um muro de tijolos que passava a impressão de não estar sentindo absolutamente nada.

🔒 Pivôs e os lances livres

Nessa segunda-feira, DeAndre Jordan alcançou um recorde na NBA capaz de fazer nossos olhos sangrarem: ao errar 22 lances livres ao longo de um jogo, o pivô do Clippers empatou a marca de Will Chamberlain em 1967 de mais lances livres não convertidos em uma única partida. DeAndre Jordan cobrou 34 lances livres, converteu apenas 12, e protagonizou com isso um dos jogos mais medonhos que a NBA já viu. Para ter uma ideia do horror, os mais corajosos podem assistir a uma compilação com todos os lances livres errados pelo pivô durante a partida. Tirem as crianças da sala, por favor:

https://www.youtube.com/watch?v=1ralEhcRPsE

Times cansados

Cara de cansado e pinto mole não dá pra disfarçar

Discutimos um tempo atrás o quanto essa temporada estava sendo ruim, lembram? Senti que muitos estavam insatisfeitos com a temporada, mas eu não fui muito radical. Está pior que antes, mas nada intragável. A greve, o começo apressado da temporada, a falta de training camp e as contratações feitas em cima da hora atrapalharam os times. Em geral o que os números nos contam é que essa é uma temporada com menos pontos, mais erros e pior aproveitamento de arremesso em muito tempo. A questão do calendário que eu mostrei naquele post dizia que o cansaço não era um problema. A metodologia mostrada para mostrar isso era que os times vinham tendo bom aproveitamento nos tenebrosos back-to-back-to-back, os 3 jogos em 3 noites seguidas.

O argumento me convenceu na hora, até coloquei no post por isso. Mas algo parecia errado, eu via os jogos e os times pareciam mais cansados. Não sempre, mas era bem comum ver um time simplesmente fora de sintonia, perdido, querendo que tudo acabasse logo. Sem contar que os back-to-back-to-back são raros, cada time encara isso uma vez só por temporada, dá pra se preparar psicologicamente e fisicamente e conseguir bons resultados. Mas e no dia a dia? Algum número tinha que me mostrar isso e fui atrás. A princípio, os mais óbvios.

Quando eu jogava minhas peladas de basquete e estava cansado, parava de infiltrar e ficava só arremessando de longe, em que errava mais por estar cansado. Acho que é assim com tudo mundo, né? Vamos ver na NBA: A média de 18.2 arremessos de 3 por jogo de um time é a maior da história da NBA. Está apenas 0.2 na frente da marca do ano passado, antiga recordista, mas é alguma coisa. O aproveitamento dos 3 pontos é de 34% na média, a pior marca desde o último locaute em 1999. Um outro número que despenca é o de lances-livres tentados, apenas 22.8 por partida, a menor marca de todos os tempos. Tem algo que grita mais cansaço do que parar de bater pra dentro e ficar chutando de longe? Mas queria algo mais profundo do que isso, para dar certeza. E para isso voltaremos um pouco no tempo.

Voltaremos um bocado pra dizer a verdade. A NBA nos anos 80 e começo dos anos 90 era de muita velocidade, decisões rápidas no ataque e muito contra-ataque. Se você tiver o NBA 2k12 em casa, tente jogar contra o Lakers ou o Blazers do começo dos anos 90. É assim, você perdeu a bola e já tomou um contra-ataque mortal, não tem o que fazer e vai estar odiando o Clyde Drexler em questão de minutos. Os times que não podiam com os velozes campeões tinham que dar um jeito de parar Magic, Bird, o emergente Jordan e cia.

Assim, da metade dos anos 90 até o começo dos 2000 as defesas viraram enormes paredões, coisas de outro mundo. O ritmo do jogo ficou lento e ganhava quem defendia mais. Muitos até comentam que sentem falta da virilidade dos jogos daquela época. David Stern não é um deles, assim forçou a mudança de algumas regras para fazer com que os times voltassem a pontuar mais. Vinha dando certo até esse ano. Essa temporada de 2011-12 tem apenas 3 times com mais de 100 pontos de média, resultado da greve e da falta de treinos que comentamos antes, e raridade nos últimos anos, veja:

2010/11: 11 times com média acima de 100 pontos
2009/10: 18 times com média acima de 100 pontos
2008/09: 13 times com média acima de 100 pontos
2007/08: 13 times com média acima de 100 pontos
2006/07: 9 times com média acima de 100 pontos
2005/06: 5 times com média acima de 100 pontos
2004/05: 6 times com média acima de 100 pontos
2003/04: 2 times com média acima de 100 pontos

É fácil perceber que o “fundo do poço” foi a temporada de 2003-04, aquela vencida pelo ultra defensivo Detroit Pistons (marcava apenas 90 pontos por jogo, 24º na NBA e foi campeão) que disputou pau a pau o Leste contra o Indiana Pacers, que era tão defensivo quanto. A série entre os dois times foi uma batalha em que cada cesta podia ser comemorada como gol de tão difícil que era. Uma delícia que me fez aprender a gostar de assistir defesas pesadas, mas que não caiu tão bem para a audiência da NBA e nem para as jogadas de efeito que a liga gosta tanto de usar como marketing a seu favor.

Desde então a NBA criou o semi-círculo sob a cesta que força a defesa a se distanciar da tabela, começou a ficar mais dura com o hand check (quando o defensor encosta a mão no atacante ao tentar defender) e passou a favorecer o cara que infiltra ao invés do cara que defende na hora de marcar faltas. De uma hora para outra Shaquille O’Neal passou a ter problemas de falta todo jogo sem mudar em nada a maneira que ele defendia seu garrafão. Com isso a média de pontos foi aumentando, claro. Mas outra coisa mudou, para fugir das defesas fortíssimas de meia quadra que ainda imperavam os times passaram a jogar com velocidade e na transição. E está aí a virada histórica que nos ajuda a provar o cansaço dos times de hoje.

Os dois únicos times a passarem dos 100 pontos em 2003-04 eram o Sacramento Kings de Rick Adelman (102 pontos por jogo), um time ágil e de passes rápidos, e o Dallas Mavericks, aquele da época run and gun do Don Nelson (105 pontos por jogo), que chegava a colocar 4 armadores ao mesmo tempo em quadra. O fato de nenhum desses times chegar ao título, pior, perdê-lo para potências defensivas como San Antonio Spurs e Detroit Pistons (empatados com a melhor defesa de 2004 sofrendo só 84.3 pontos por jogo) desanimava algumas equipes.

Mas eis que apareceu o revolucionário Phoenix Suns de Steve Nash em 2005.  Aos poucos as outras equipes foram copiando alguns preceitos desse time. Não ao extremo como eles, mas alguns princípios: Por exemplo, o ala de força improvisado de pivô e um quinteto com 2 ou 3 arremessadores especialistas de 3 pontos ao mesmo tempo, para abrir a defesa adversária. O Suns ignorava a defesa, alguns outros times copiavam com mais cautela, mas a média de pontos da NBA foi aumentando. Um ano depois do Mavs liderar a NBA com 105 pontos por jogo, o Suns liderou a liga com 110, 7 a mais que o Kings, segundo colocado.

Outro ponto que o Suns revolucionou foi na velocidade de seu jogo, que nas estatísticas é medido pelo “Pace“, o número de posses de bola que um time tem por jogo. Eles não só sacaram, mas provaram na prática que atacar rápido é um jeito de pegar as defesas antes delas estarem prontas. Na temporada fundo do poço de 2003-04, o time mais rápido da NBA era o Denver Nuggets, que tinha um veloz e envolvente elenco liderado pelo novato Carmelo Anthony. Eles tinham em média 93.3 posses de bola por jogo. Para se ter uma ideia, esse número hoje em dia colocaria o time na 20ª colocação da NBA, entre os lentos times do Utah Jazz e do Chicago Bulls. Mesmo os 95.9 que o Suns apresentou em 2005 o colocaria hoje em 7º lugar geral.

Aos poucos o “Pace” dos times foi aumentando, alcançando o auge de 100.4 do Golden State Warriors na temporada 2009-10. Quer dizer, por “auge” eu estou falando da nossa era. Na temporada 1986-87, por exemplo, nada menos do que 16 dos então 23 times da NBA tinham um “Pace” maior que 100. Era quase outro esporte.

E é aí que chegamos ao ponto do cansaço. Apesar de uma ou outra exceção que varia em pequenos decimais, o fato é que desde 2003/04 até o ano passado a NBA vinha experimentando um aumento da velocidade do seus times. A média geral de posses de bola de um time era de 90.1 em 2004, o número cresceu para 90.9 no ano seguinte, passou para a casa dos 91 logo depois e desde 2007-08 tem se mantido na casa dos 92. Aí nesse ano, de repente, caiu para 91.4, número próximo ao de uns 7 anos atrás. E mais: No ano passado eram 15 times com média superior a 95 posses de bola por jogo, nessa temporada são apenas 7 equipes que conseguem manter esse ritmo. Não surpreende que os 3 times mais jovens da NBA (Wizards, Kings e Wolves) estejam entre essas 7.

Não consigo pensar em nenhuma razão histórica que tenha feito vários times decidirem colocar o pé no freio. Times velozes como o Oklahoma City Thunder e o Miami Heat são exemplos de casos de sucesso e técnicos que gostam de montar ataques velozes e envolventes como Rick Adelman e Mike D’Antoni não tem problema arranjando empregos. Para ter mais certeza eu fui ver outros números, o de pontos de contra-ataque por jogo.

Estilo de jogo veloz e contra-ataque não estão sempre ligados, já que os contra-ataques são mais raros e muitas vezes resultado de defesa apertada, coisa que esses times velozes não costumam ter de maneira tão forte. Mas é um jeito de medir o quanto os times conseguem usar a velocidade a seu favor, mesmo que de maneiras esporádicas durante o jogo. Times cansados não marcam pontos em contra-ataque, esse é o ponto. Dos 30 times da NBA, apenas 11 tem média de pontos por contra-ataque maiores do que a do ano passado. Nesse ano 4 times (Magic, Lakers, Nets, Hornets) tem média de menos de 10 pontos de contra-ataque por jogo, no ano passado ninguém alcançava essa marca.

Talvez o cansaço causado por esse calendário fosse óbvio quando ele foi lançado, mas parecia disfarçado até agora. Os times tem se superado nos jogos em sequência, mas a longo prazo não tem o que fazer. E nada deda melhor isso do que os números de posse de bola por jogo e de contra-ataques. Analisar a história da liga nos diz que a tendência era ainda crescer, a queda só pode ser razão de uma causa externa. É o maldito calendário.

Botão do apocalipse

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Caron Butler chora uma lágrima de sangue pelos seus companheiros do Wizards

Durante o fim de semana do All-Star, o Wizards resolveu apertar o botão do apocalipse. Com 17 vitórias e 33 derrotas, o time tem a segunda pior campanha do Leste e a quarta pior de toda a NBA. A equipe aturou o Gilbert Arenas contundido por muito tempo com a esperança de que, com ele de volta, pudesse competir pelo título do Leste. Afinal, Arenas, Jamison e Caron Butler são todos All-Stars e não é qualquer time que consegue ter tantas estrelas juntas ao mesmo tempo. Mas nessa temporada o Wizards aprendeu duas coisas: a primeira é que contar com o Arenas é impossível, porque ou ele vai estar contundido ou vai ter caído numa piscina de xarope, bebido água da privada ou colocado pó-de-mico na cueca de algum companheiro de equipe. A segunda coisa é que nas raras vezes em que Arenas, Butler e Jamison estão juntos em quadra, eles simplesmente não são muito bons. Falta de química, entrosamento, esforço, defesa, não faltam razões para o fracasso de um trio que parece nunca ter entendido o papel de cada um em quadra e que nunca se levou muito a sério. Vendo que não adiantava esperar pela volta do Arenas, então, o Wizards criou um par de bagos, esgotou a paciência, apertou o botão do apocalipse e resolveu se livrar dos jogadores. Como o Arenas ganha 16 milhões e o Jamison ganha 11 milhões (e vai ganhar 15 num contrato que dura ainda mais duas temporadas, fora essa) só sobrou o Caron Butler para interessar algum time na NBA.

Com o Butler no mercado, o Mavs ficou com água na boca. Adicionar o Gooden e o Shawn Marion não adiantou bulhufas particularmente porque o resto do time não defende grandes coisas e porque o Josh Howard cai de produção mais e mais a cada ano. Não faz muito tempo ele era um pontuador excelente com momentos geniais na defesa, com roubos e tocos decisivos e potencial ilimitado. Mas depois de sua polêmica afirmação de que fumava maconha nas férias, problemas com a torcida do Mavs e uma complicada cirurgia no tornozelo durante as férias, ele nunca mais foi o mesmo, joga sem vontade e parece um jogador comum com um salário muito gordo. Trocá-lo por um ladrão de bolas (talvez o melhor de toda a NBA) com mais talento ofensivo que o Josh Howard não foi uma decisão difícil, até o Isiah Thomas conseguiria acertar nessa.
De brinde, o Wizards ainda mandou DeShawn Stevenson, que está velho, se acha a última bolacha do pacote, mas ainda é um defensor razoável, e o Brandon Haywood, que é um ótimo defensor no garrafão e tem tudo para acompanhar melhor o ritmo do Mavs no jogo de transição. O atual pivô do time, Erick Dampier, tem cada vez mais problemas nos joelhos e precisa ser poupado em jogos seguidos, então a chegada do Haywood é essencial para o garrafão do Mavs. O Dampier até que quebra um belo de um galho, especialmente com a ajuda de Jason Kidd (que faz qualquer um render melhor no ataque), e bem provavelmente vai continuar sendo o titular da equipe. Mas o Haywood vai acabar tendo mais minutos do que ele, porque embora nunca tenha sido um gênio nos rebotes, sempre teve um bom tempo de bola e pés bem rápidos na defesa. O pessoal em Dallas já fala de planos de usar os dois ao mesmo tempo contra garrafões mais fortes, o que torna a equipe muito mais versátil.
Para isso, o Mavs teve que perder também o Drew Gooden, mas ele não faz falta para a equipe. O Gooden é muito bom, mas o coitado sempre teve que jogar improvisado a vida inteira. No Grizzlies, equipe que o draftou, tinha que jogar de ala-armador porque não tinha outro mané para ocupar a vaga (o coitado teve que aprender a arremessar de três, sem sucesso), no Cavs e no Mavs tinha que quase sempre jogar de pivô para tapar buraco. Seu jogo sofre muito embaixo da cesta, ele prefere ficar nos arremessos de média distância, mas no Mavs seu talento nos arremessos era meio inútil frente à quantidade de arremessadores na equipe, especialmente o Nowitzki que também joga fora do garrafão sempre que pode. O resultado era o Gooden sendo pago para brigar por rebotes e defender o aro, coisa que ele não faz muito bem e que Haywood vai executar com muito mais facilidade. O Mavs manda também o Quinton Ross, bom defensor de perímetro, e o James Singleton, um ala brigador para dar pancada quando tiver briga com a torcida ou quando alguém não pagar uma dívida.
Pro Wizards, a troca é para começar de novo. Os contratos de Ross e Singleton são praticamente simbólicos e, assim como os contratos de Drew Gooden e Josh Howard, terminam nessa temporada. De repente, com apenas uma troca, o time entra na brincadeira para contratar alguém na imensidão de estrelas que estarão desempregadas ao fim dessa temporada. É um excelente ano para reconstruir, tendo em vista a quantidade de talento disponível, e o Wizards vai ter uma graninha para tentar a sorte. E, por enquanto, só pra não perder demais, fica torcendo para o Josh Howard mostrar que todo o potencial que se via nele não foi ilusão de óptica.
Na tentativa de reconstruir a equipe antes que se diga parangaricutirimirruaru, o Jamison também está disponível para ser trocado e, se conseguirem mandá-lo por mais contratos expirantes, o Wizards vai poder construir um time inteirinho novo com a grana. Mas vai ter que ser em volta do Arenas, porque dele não vai dar pra se livrar. Já cogitam que o Jamison vá para o Cavs ou para o Celtics, por exemplo.
Essa é uma daquelas trocas que pode parecer um assalto, mas que deixa os dois lados felizes. O Mavs se transformou num time muito mais forte. Agora Shawn Marion, Butler e Haywood podem tornar o Mavs uma equipe mais defensiva, Butler vai render tudo aquilo que se esperava de Josh Howard no ataque para desafogar Nowitzki (que não é das estrelas mais constantes em pontos), e o garrafão fica mais versátil porque terá dois jogadores capazes de brigar lá dentro, ao invés de ter um ala improvisado. Ainda acho que não é o bastante para que o Mavs pense em título, mas a aquisição de Haywood é essencial para um eventual confronto com Lakers e Nuggets, donos de um garrafão que faz todo o resto do Oeste fazer xixi na cama. O Mavs tem agora um elenco muito mais forte do que tinha na temporada passada, prova de que seu dono Mark Cuban não poupa verdinhas em busca de um título. O teto salarial dessa temporada é de 57 milhões, e o Mavs passa a pagar 90 milhões! São mais de 30 milhões acima do limite, o que resulta em 30 milhões a mais gastos só com multas (daria pra estacionar uma caralhada de carros fora da vaga). Com o esquema tático favorecendo um pouco mais Jason Kidd e um elenco cada vez mais grandioso ao seu lado, esse Mavs deve ser levado a sério, ao contrário de ser um time invisível que todo mundo sabe que não dá em nada como era até pouco tempo atrás. Ainda não acredito, sou um incrédulo infiel sujo, mas quero mais é que essa equipe prove que estou enganado. Agora, ao menos levo o time a sério. Vai demorar um pouco para todas as peças encaixarem, Haywood e Butler não conseguiram treinar com a equipe ainda, e nesse Oeste mais disputado do que mulher sem gonorreia no carnaval é bem capaz que percam várias posições na tabela, mas para os playoffs estarão firmes e fortes. Enquanto o Wizards assiste tudo em casa, tentando garantir que o Arenas não apronte nenhuma e convencendo alguma outra estrela para jogar com o armador. Vai ser difícil, mas pelo menos foi corajoso – melhor do que o Pistons que não decide se renova ou não renova, manteve o Hamilton e torrou a grana antes de poder brincar na temporada que vem. Funhé.
O doping e a nobreza no esporte

Sorriso simpático do novo inimigo dos
defensores da nobreza do esporte

O Danilo tratou um dos aspectos do caso de doping do Rashard Lewis no seu último post, mas eu acho que o assunto é tão complexo que merecia um texto só sobre isso.

Devemos começar entendendo o caso do Rashard Lewis em si antes de vermos o caso do doping em toda a NBA. Ele foi pego por ter tomado um composto chamado DHEA, que não é em si uma substância ilegal. Ela se torna, depois de ingerida, androstenediona, que depois se transforma em testosterona, substância essa achada além do nível permitido no teste do Rashard Lewis.

Segundo a lei americana, por mais características de esteróides que a substância tenha, é considerada um suplemento alimentar, por isso é encontrado em lojas do ramo. O Rashard Lewis diz que apenas tomou um suplemento, sem a intenção de melhorar desempenho.

Pela WADA, a Agência Mundial Anti-Doping, o DHEA é considerado um tipo de esteróide e por isso é proibido. As discrepâncias entre as leis nacionais e as leis anti-doping, portanto, fazem com que substâncias proibidas para a prática do esporte sejam tão facilmente encontradas em qualquer lugar.

Um médico entrevistado pelo jornal Orlando Sentinel diz que o produto não é lá muito eficiente na hora de melhorar o desempenho de um atleta do nível de NBA. Essa opinião reforça a idéia de que o Rashard Lewis foi apenas descuidado e não é alguém que se dopa regularmente para melhorar o desempenho. Segundo o mesmo médico, existem até substâncias de características semelhantes e que dão um resultado muito maior, se o Rashard foi infiel aos princípios do esporte, foi burro ao fazê-lo dessa forma tão ineficaz.

O Shaquille O’Neal deu uma entrevista recentemente à rádio da ESPN dizendo que acredita que o Rashard simplesmente deu azar. Ele diz que muitos jogadores da NBA, incluindo ele mesmo, vão nessas lojas de suplemento esportivo e simplesmente compram qualquer coisa que tenha um rótulo bacana que diga alguma coisa que eles querem. “Se diz que emagrece a bunda gorda em dez dias, compramos, mas agora teremos que ter mais cuidado depois desse caso”, em uma tradução livre do que o Shaq disse.

O testosterona é uma das formas mais antigas do doping, foi famosa nas décadas de 70 e 80 junto com os anabolizantes e eram bem óbvios em atletas de esportes femininos. Testosterona é um hormônio masculino e se tomado por mulheres resultam em algumas características masculinas. Em caso famoso, nas olimpíadas de Montreal em 76 as nadadoras da Alemanha Oriental, com estranhas vozes muito grossas, dominaram todas as provas da competição. Quando incomodadas pelas americanas que questionavam suas vozes masculina, as alemãs responderam “Nós viemos para nadar, não para cantar”.

Na NBA, onde todo mundo tem voz grossa, principalmente o Mutombo, não é tão fácil perceber quem toma e quem não toma. Para isso existem os exames anti-doping. Na NBA eles são feitos 4 vezes por temporada, sem aviso prévio da data, em cada atleta. Para muitos críticos é muito pouco, mas a maior crítica está no fato de que não são feitos testes durante a offseason, entre junho e outubro. Para alguns médicos seria tempo o bastante para o atleta usufruir de algumas substâncias que tem poder a longo prazo e ao mesmo tempo se ver livre dos rastros dessa substância quando a temporada começar.

Certa vez o Nowitzki deu uma entrevista a uma TV alemã dizendo não conhecer nenhum envolvido com doping na NBA mas que “alguém pode provar que ele está errado”, seguido de um sorriso que pode ser interpretado de várias maneiras. É comum ver jogadores, principalmente os mais jovens, mudarem bastante o corpo entre uma temporada e outra. Eles chegam magros das universidades, encorpam um pouco antes da sua primeira temporada e para a segunda aparecem já com aquela cara de jogador da NBA. Eles dizem que é apenas musculação e ninguém tem como provar o contrário, mas a falta de testes nesses meses deixa um espaço amplo para as suspeitas.

Só que, embora estejamos falando de esteróides, de homens mais bombados e de mulheres másculas, isso é coisa antiga. O doping não é mais só isso, hoje em dia as drogas de melhoria de desempenho podem ser simplesmente para melhor respiração, ganho de potência, recuperação rápida depois de esforço físico, diminuição de peso, etc. O ciclismo, esporte em que mais se fala em doping, é a maior prova de que um cara não precisa ser do tamanho de um armário para estar dopado.

Os testes feitos pela NBA não são controlados pela WADA. A Liga, assim como praticamente todos os esportes americanos, tem sua própria política anti-doping. O David Stern, inclusive, já criticou abertamente a WADA depois de como foi conduzido o caso do ciclista Floyd Landis em 2006. E assim como os testes são outros, a lista de substâncias proibidas é outra e as punições também.

Alguns podem dizer que a punição foi branda para o Rashard Lewis mas ela segue o padrão da NBA. São 10 jogos de suspensão na primeira vez em que se é pego, 25 jogos de punição para a segunda fez, 1 ano de suspensão na terceira vez e o jogador sai da NBA na quarta. O caso do Chris Andersen, banido por dois anos, não se aplica a essa regra porque envolvia uso de drogas ilícitas socialmente, não de melhoria de desempenho esportivo.

Nos EUA, porém, quando o assunto é problema com doping o esporte que vem à tona é o baseball. Há alguns anos a MLB, liga profissional de baseball, viveu um drama descomunal quando inúmeros jogadores foram acusados de doping. A maioria dos casos acabaram se revelando realmente verdadeiros e ídolos do esporte, que poucos anos antes tinham quebrado recordes históricos de home runs, como Barry Bonds, Marc McGwire e Sammy Sosa, ficaram marcados como dopados e seus recordes ganharam um asterisco.

Para o colunista da CBS Gregg Doyel, que cobria o baseball na época em que McGwire e Sosa começaram a quebrar recordes usando substâncias ilegais, a imprensa americana do basquete sofre do mesmo problema que eles sofriam na época que cobriam o baseball no final dos anos 90: são ingênuos. Vêem os jogadores com físico absurdo, vêem poucos casos de doping revelados (foram apenas 6 desde 1999 na NBA) em um mundo esportivo empesteado com casos todos os dias e acham que isso acontece porque no basquete é diferente, é um mundo “sem a cultura do doping”.

O mundo do esporte é realmente entupido de casos de doping. Uso aqui um exemplo dado na matéria “Atletas, dopai-vos” da Dorrit Harazim na revista piauí número 23. A matéria é simplesmente espetacular e trata de vários campos da discussão do doping. Usarei alguns trechos de entrevistas que estão na matéria aqui, mas o ideal é ir lá depois e ler a matéria inteira.

O exemplo dado no início da matéria para mostrar como funciona o mundo do doping é dado pelo fisiologista molecular H. Lee Sweeney. Ele trabalha há anos tentando fazer com que camundongos alterados geneticamente ganhem massa muscular mesmo sem fazer exercícios físicos. A intenção é aplicar esses conhecimentos em humanos com distrofia muscular. Porém, as primeiras ligações que ele recebeu foram de fisiculturistas, levantadores de peso e técnicos e atletas de outras modalidades esportivas que queriam participar de testes mesmo depois de terem sido alertados de que existiam até riscos de morte.

O que leva os atletas a se doparem é bem óbvio: resultados. A grande maioria dos atletas profissionais que chega às grandes competições passa por muitos estágios difíceis e só chega longe por ser obstinada a vencer. Geralmente os que se vêem satisfeitos em competir não chegam longe. Os que chegaram longe também sabem que não chegaram lá só por causa de esforço, chegaram porque o esforço rendeu um resultado. De nada adiantariam as mesmas horas de treino se não rendessem títulos ou medalhas depois. Sem títulos não tem patrocínio, técnicos interessados, clubes interessados e etc.

Porém, nem todos podem vencer, questão estatística. E no desespero por algum resultado se aposta em qualquer coisa, até no doping. Um atleta que veja a si mesmo em vias de perder sua carreria de atleta, à qual dedicou tanto tempo, é uma boa vítima para quem quer vender algum produto e ainda depois lucrar com a vitória. Em um mundo em que o esporte se tornou algo tão grande como negócio e na vida dos atletas, que tem que se dedicar integralmente, o doping tem uma entrada mais fácil.

Mas tudo bem, o doping é comum e sabemos porque existe, mas há uma pergunta mais importante a ser feita atualmente: por que ele é errado?

Os que defendem o anti-doping acima de tudo dizem que lutam pelo esporte limpo, justo, sempre com o culto do amadorismo, da superação humana. Mas ainda há espaço para isso atualmente? Faz sentido defender isso hoje em dia? Primeiro porque estamos chegando na era do doping genético, a própria WADA acredita que o momento desse tipo de doping está chegando (se ainda não chegou e eles não sabem) e contra ele os testes anti-doping são dificílimos, os atletas podem passar impunes. Em segundo lugar e mais importante, transformar o esporte nessa atividade pura seria colocar o esporte como algo à parte da sociedade da qual ele faz parte.

A matéria da piauí coloca essa questão nas palavras do professor de política comparada da Universidade de Michigan Andrei Markovits: “Me horroriza este ambiente inquisitorial à la Torquemada que cerca a questão do doping hoje em dia. Podemos tomar Viagra, antidepressivos, essa pílula, aquela outra – tudo o que quiser. Só os atletas não podem. E por quê? Devido ao ultrapassado ideal de amadorismo e virtude no esporte – conceitos desenvolvidos pela classe dominante inglesa de Oxford e Cambridge, no século XIX”.

Markovitz pode parecer exaltado e exagerado, mas traz à tona boas questões. Essa nobreza do esporte ainda faz sentido hoje em dia? Ela não funciona apenas como discurso para nos emocionar e valorizar o esporte enquanto mascara como nossa sociedade realmente funciona? Afinal, hoje somos uma sociedade movida a lucro e resultados em que tomamos remédios se queremos deixar de ficar tristes para ficarmos felizes e simplesmente diminuímos o tamanho do nosso estômago se queremos ficar mais magros.

Na mesma matéria é citada uma entrevista do Sylvester Stallone dada à revista Time, em que ele não só diz ter usado o HGH, um hormônio de crescimento proibido pela WADA, como diz que recomenda a testosterona para todos com mais de 40 anos porque faz muito bem à sua saúde. Como deixar o esporte e os esportistas de fora de uma sociedade que cada vez mais apela à farmácia na busca de qualquer coisa? Até empresários, jogadores de pôquer e músicos tem usado drogas que aumentam seu poder de concentração. Apenas os esportistas são considerados vilões quando tomam algo para melhorar seu desempenho.

E ao mesmo tempo alguns esportistas sofrem intervenções que melhoram sua qualidade como praticantes do esporte, mas que não são consideradas doping. O Tiger Woods fez uma operação para ficar com a visão perfeita, enquanto na NBA o Gilbert Arenas usa câmaras hiperbáricas para simular grandes altitudes, criar mais glóbulos vermelhos e melhorar sua resistência física. Tudo isso não só altera o físico do atleta como é caro e não está disponível para todos. Isso sem entrar no polêmico assunto dos maiôs na natação, em que parece haver, em paralelo à disputa dos atletas, uma competição entre empresas de material esportivo.

Isso tudo foi para fazer a gente pensar um pouco na questão do doping que é vista tão “preto-no-branco” pela crítica esportiva em geral. Acho que esse texto serve para entender como funciona o doping na NBA, no esporte em geral, no caso do Rashard Lewis e principalmente para começarmos a pensar no assunto como um todo ao invés de simplesmente fazer a parte mais fácil que é demonizar o atleta e culpar penas brandas.

Se nem sabemos direito mais o que é doping e qual é o real papel do esporte na sociedade atual (negócio ou nobreza?), não podemos sair disparando críticas para todo lado. Para fechar acho que sou obrigado a terminar da mesma maneira que a Dorrit Harazim finalizou a matéria que inspirou esse texto, com a definição de esporte pelo historiador Christopher Lasch: “O esporte, do qual os Jogos Olímpicos representam o apogeu, mistura talento, inteligência e concentração máxima de propósito – numa atividade que em nada contribui para o bem-estar ou riqueza da coletividade, nem para a sua sobrevivência física. Mas ela é, ao mesmo tempo, a atividade que melhor evoca a perfeição da infância, com regras e limites criados só para aumentar o prazer da dificuldade, e aos quais os participantes aderem por livre e espontânea vontade.”

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