Vultos da NBA – Matt Winick

A NBA é o que é pelos seus jogadores. Sem os maiores talentos do mundo reunidos no mesmo campeonato, a liga não seria do tamanho que é nem teria a importância que tem hoje no mundo esportivo. Mas os jogadores não fazem tudo sozinho, eles precisam de uma estrutura que os deixem jogar e serem vistos por quem ama o basquete. E é nos bastidores, na parte burocrática da NBA, em que vive o importantíssimo senhor Matt Winick, mais conhecido no meio da NBA como “The Scheduler”.

Nascido em Nova York em 1950, se mudou para Buffalo para fazer faculdade, buscando se formar em Contabilidade. Ao mesmo tempo em que se afundava nos livros de cálculo, foi fisgado pelo esporte. Já no seu primeiro ano entrou no jornal do campus e passou a escrever sobre os times da faculdade, até viajando com equipes para cobrir as partidas fora de casa. No terceiro ano entrou de vez no mundo atlético da universidade e passou a gerir as equipes de beisebol e e basquete. O próprio Winick diz que passou “mais tempo cuidando de questões não-acadêmicas do que acadêmicas, mas consegui meu diploma”.

Após se formar, ficou longe da contabilidade. Primeiro trabalhou na área esportiva de um jornal em Indiana, depois no Exército e então voltou à sua cidade natal para cuidar da parte de Relações Públicas no New York Mets (o time de beisebol de Nova York que não é o Yankees), onde ficou amigo do lendário Yogi Berra, jogador de beisebol e autor de frases como “90% do jogo é metade mental”. Agora, como um cara formado em contabilidade consegue tantos empregos distintos é uma pergunta ainda sem resposta.

Enquanto estava no Mets, eventualmente fazia trabalhos para a NBA, onde tinha alguns contatos. Somente em 1976 foi contratado em definitivo e ficou de vez no basquete. Ele entrou na liga como Diretor de Mídia. Como ele mesmo diz, naquela época eram tempos difíceis em que a liga tinha 20 funcionários para cuidar de um campeonato de 22 times. Muito trabalho pra pouca gente.

Com alguns anos dentro da NBA e com a liga crescendo, mais pessoas foram contratadas, mais times acrescidos e funcionários mudavam de função o tempo todo. Um dia o chefe de Winick chegou nele e disse que ele seria o responsável por fazer o calendário dos jogos. Ele respondeu com um sincero “Por que eu faria isso?” e a resposta foi curta, grossa e verdadeira: “porque é um trabalho para a vida inteira”. Hoje ele é Vice-Presidente Sênior de Agendamento e Operações da NBA.

Atualmente a NBA tem 1.230 jogos por temporada, divididos de uma maneira nada convencional: cada time joga 82 partidas, 41 em casa e 41 fora, duas vezes contra os times da outra conferência, 4 vezes contra os rivais da mesma divisão, 4 vezes contra 6 dos times que são de outras divisões mas de mesma conferência e 3 contra os outros 4 times que são de outras divisões mas mesma conferência. “É um quebra-cabeças de 1.230 peças. Todas as peças precisam se encaixar e não é fácil, muitas vezes é frustrante”.

O processo para montar o calendário da NBA é um trabalho árduo e, acreditem, solitário. Matt Winick há mais de 20 anos monta os calendários sozinho. Ele começa o trabalho em fevereiro de cada ano e o produto final é sempre na primeira semana de agosto. Para ajudá-lo apenas um computador com um programa simples que, segundo ele, “apenas me impede de fazer grandes besteiras”. O resto é feito na unha.

Os times tem até um mês antes do fim da temporada regular (ou seja, até o meio de março) para disponibilizar para Winick pelo menos 50 datas que terão livres para jogos em seu ginásio, incluindo 4 segundas-feiras e 4 quintas-feiras, para dar opção para as escolhas de transmissão tanto da NBA TV quanto da TNT, que tem preferência de transmissão nessas datas. A TNT, inclusive, praticamente comprou as quintas da NBA. Sempre nesse dia só tem dois jogos, os dois com transmissão da rede de TV a cabo. Vez ou outra tem um terceiro jogo, mas sempre de pouca expressão.

Há ainda as restrições de dias em que não se pode ter jogos (véspera de Natal, fim de semana do All-Star Game e o dia da final do basquete universitário) e os jogos da NHL, liga de hóquei, que tem vários times dividindo ginásios com franquias da NBA.

As datas enviadas por cada time nem sempre batem e obrigam Winick a alguns malabarismos. Ele deve lidar com a época em que o San Antonio Spurs não pode receber ninguém porque seu ginásio recebe um rodeio. Chicago recebe um circo e os dois times de Los Angeles ficam pelo menos 10 dias longe de Los Angeles em fevereiro em razão do Grammy. E a cada ano podem aparecer mais imprevistos, eventos e dificuldades. Winick lembra de pelo menos dois anos em que seu trabalho foi devastador.

Primeiro em 1998-99, quando houve a última greve dos jogadores e a temporada começou atrasada. Matt Winick teve pouco tempo para se preparar, porque não sabia quando a paralisação terminaria, e de repente teve que preparar uma temporada de 50 jogos por time para ser disputada em 89 dias.

Mais trabalho ele teve há duas temporadas, quando passou boa parte do ano fazendo não um, mas dois calendários. O primeiro tinha o Seattle Supersonics e o segundo o possível novo time de Oklahoma City. As cidades são distantes e a presença de cada time pedia um calendário diferente. Quando se mexe nos planos de um time, muda tudo no dos outros, é efeito borboleta. Ele trabalhou ao mesmo tempo nos dois sistemas de fevereiro até julho, quando ficou decidida a mudança de cidade. Mas não pense que ele ficou triste, ficou satisfeito porque Oklahoma City fica próxima de outras cidades do Oeste americano. Agora, ao invés de obrigar alguns times à dolorosa missão de enfrentar o trio do Texas –Dallas, San Antonio e Houston– de uma vez só, ele pode desviar um jogo para Oklahoma e o time não perde a viagem.

A missão do calendário é complicada: tem que ser preciso com o número de jogos e adversários, não pode sobrecarregar ninguém, deve-se pensar nas longas viagens pelos Estados Unidos e ao mesmo tempo ser o mais econômico possível, para evitar viagens caras e pouco vantajosas. Isso sem esquecer de agradar as TVs, que querem jogos importantes em suas datas de maior audiência e tentando dar um equilíbrio competitivo, não obrigando times a enfrentar muitos favoritos de uma vez só. Que tal, ainda acha complicado organizar aquela lista de convidados pro churrasco?

O blog True Hoop fez uma entrevista com Winick, que traduzo livremente abaixo. No fim dela você vai descobrir que fim levou aquela conversa de quando convidaram Winick para montar os calendários da NBA.


Como você consegue sequer começar? Tem um modelo para sair do zero?
Você começa recebendo as datas que cada ginásio possui. É um certo número de dias que cada lugar nos manda, esse é o ponto de partida.

E depois disso o que você faz?
A primeira coisa que faço é definir os jogos entre as conferências, porque normalmente envolvem viagens longas. Você procura por períodos grandes em que eles não podem jogar em casa e encaixa lá uma viagem pela outra conferência. Se um time do Leste não pode usar seu ginásio por 8 ou 10 dias, vão para o Oeste.

Isso serve para circos, rodeios, convenções…
Qualquer coisa, não me preocupo com a razão. Com tanto que o time me dê as datas, não importa.

Os times fazem pedidos especiais de jogos em alguma data?
Eles tem permissão para escolher três “datas de prioridade”, dias que eles gostariam de jogar em casa, só não podem escolher o adversário. As equipes usam essas escolha por diversas razões, alguns por questões competitivas, outros por marketing. Às vezes eles precisam de uma sexta-feira ou sábado em determinada época do ano porque sabem que naqueles dias uma grande convenção vai estar na cidade e irá atrair grupos de negócio para o ginásio, vendendo mais ingressos.

Quanto a tecnologia mudou esse trabalho? Tem um programa de computador que te ajuda? Existe um grupo de pessoas numa mesa em Nova York no começo de agosto trabalhando sem parar com caixas de pizza abertas em todo lugar?
O grupo sou eu.

Você é o grupo?
Eu sou o grupo. Tem um programa de computador que me ajuda, mas basicamente sou eu. O programa só não deixa eu cometer erros estúpidos.

Você deve amar esse trabalho, certo? Você tem feito isso por 25 anos. No lado pessoal, te dá uma sensação de ordem terminar um trabalho desse?
Provavelmente alívio é a melhor palavra. É um ótimo sentimento completar essa missão a cada ano. É difícil o caminho, mas quando dá certo é ótimo.

Como qualquer um que faz o mesmo trabalho por um quarto de século, você deve ter ficado melhor com o passar dos anos, não?
Não sei. São questões diferentes a cada ano, nada se repete. Por mais que a experiência ajude em algumas áreas, sempre tem novos problemas a serem resolvidos.

Mas você deve saber de alguns atalhos que fazem o processo mais rápido, não?
Nada é fácil. O programa de computador é ótimo, coloca tudo em ordem e deixa a coisa mais simples, mas não existe um calendário fácil. E não estou só falando da NBA, qualquer esporte tem seus problemas.

Ah, mas o da NFL (onde cada time joga 16 vezes por temporada em 17 semanas) deve ser coisa de criança comparado ao que você faz!
Não é, parece fácil mas não é. Sempre alguém reclama de alguma coisa, se um time não reclama é alguma rede de TV. Alguém sempre vai achar problemas.

Nós sempre escutamos críticas sobre ocasiões em que um time joga quatro jogos em cinco noites ou sobre os back-to-backs (jogos em noites consecutivas). Existem limitações sobre o uso desses artifícios?
Nesse ano, por exemplo, nosso limite é de 23 back-to-backs e quatro “4 jogos-5 noites”. Às vezes uns times ficam com mais que isso no começo do desenvolvimento do calendário, mas corrigimos nos retoques finais.

É a Liga que dá esses números-limite para você?
Não, eles são baseados na minha experiência. Mas não consigo deixá-los menores, por tudo o que envolve o calendário. Os times jogam 82 jogos em 171 dias e existem dias que não podem ter jogos. Eles vão ter que jogar back-to-backs eventualmente.

As quintas-feiras da TNT deixaram o processo mais fácil ou mais difícil?
Depende do time em que você está. Se você joga na quinta pode te ajudar porque espalha mais os jogos pelo resto da semana. Se você normalmente não joga na quinta, isso tira um dia a mais da sua semana e existe mais chance de jogos em dias consecutivos.

E é você que decide quais jogos irão acontecer nessas quintas-feiras da TNT?
Discutimos isso com a TV antes de decidir.

Quais são as reclamações mais absurdas ou engraçadas que você já teve em relação ao calendário de jogos?
Eu não acho nenhuma reclamação engraçada. Normalmente aparece um técnico no meio da temporada reclamando de uma sequência complicada de jogos ou que vai jogar tantos jogos fora de casa. Faz parte.

Devem ter partes bem difíceis nesse processo…
Tem. Você manda um time para jogar na Califórnia, mas eles não podem ir para Sacramento. Aí você tem que mandar eles de novo para lá para jogar em Sacramento e eles perguntam “mas por quê?”. Bom, nas outras vezes que seu time foi para o Oeste, o Sacramento não estava disponível.

Queremos deixar as viagens da maneira mais ordenada possível, mas às vezes os ginásios simplesmente não estão disponíveis. Por exemplo: em Los Angeles, na próxima temporada, o Lakers tem 4 jogos em casa em fevereiro e o Clippers tem 2. A premiação do Grammy paralisa o Staples Center por 10 dias e logo depois o ginásio para de novo para receber o All-Star Weekend, tudo no mesmo mês. Se os times não podem jogar em casa, vão ter que jogar fora.

Você se vê fazendo isso por mais quanto tempo?
Por quanto tempo me pedirem. Não tem muita gente capaz de fazer isso. Quando comecei meu chefe me disse “Matt, quero que você faça os calendários”, eu respondi “Mas por que eu faria isso?” e ele me disse “Pense bem, é um trabalho para a vida toda, você terá o trabalho que ninguém nunca vai querer ter”. E é isso, acho que tenho um trabalho que ninguém quer ter.


A série de posts “Vultos da NBA” traça perfis de personagens envolvidos com a NBA. Podem ser famosos ou anônimos, não importa, basta ter uma boa história. Esse é apenas o terceiro texto da série, os outros você pode ver nos links abaixo:

Vultos da NBA – Ed Palubinskas

Vultos da NBA – Don Nelson


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