A concentração de títulos e estrelas na NBA

Durante o locaute que quase cancelou a temporada 2011-12 da NBA, uma das maiores discussões foi em torno da competitividade da liga. Muita gente dizia que eram sempre os mesmos times lutando pelo título, outros questionavam não o fato de serem as mesmas equipes, mas de serem poucas as com chances reais de título a cada ano. O assunto ficou um pouco em baixa quando a temporada começou, mas voltou à tona quando as maiores contratações da offseason foram dos times que já estavam fortes: Jason Terry, Courtney Lee e Jeff Green reforçaram o Boston Celtics, Ray Allen e Rashard Lewis foram para o Miami Heat, já o Lakers fez a rapa e ficou com Steve Nash e Dwight Howard.

Já toquei nesse assunto há algum tempo, mas vou repetir e me aprofundar. Será que é tão estranho ter poucos times realmente favoritos ao título? Para essa temporada coloco Miami Heat e Boston Celtics como favoritos ao Leste e San Antonio Spurs, OKC Thunder e Los Angeles Lakers no Oeste. São 5 candidatos ao campeonato, que seriam 6 se Derrick Rose estivesse inteiro para liderar seu Chicago Bulls. Os 6 times seriam 20% de toda a NBA, acho que um número bem razoável de candidatos reais ao título.

Vendo isso penso em quantos campeonatos no mundo, em qualquer esporte, tem 20% de suas equipes com chances de vencer o torneio. No futebol europeu isso não existe! Desde a Premier League da Inglaterra, a  mais assistida ao redor do mundo, até o Cameponato Espanhol e a Bundesliga da Alemanha, todos tem até menos times que a NBA e nem assim tem 5 favoritos óbvios. E, mais importante, isso não deixa os campeonatos mais chatos ou menos divertidos. E não é só no futebol, o tênis nunca foi tão previsível (são os mesmos 4 semi-finalistas em todo Grand Slam) e mesmo assim tem audiência recorde na sua história. Uma teoria do livro Soccernomics, ótima obra de Stefan Szymanski e Simon Kuper, diz que as pessoas gostam de assistir um campeonato sabendo quem é quem, que time é bom e qual é ruim, qual é a zebra e quem é o saco de pancadas. Uma coisa onde tudo pode acontecer é randômico demais para as pessoas se envolverem. Eu tive mais certeza que essa teoria tinha uma boa base quando os nossos Brasileirões por aqui ficavam muito disputados e as pessoas diziam que “ninguém quer ganhar o título” ou que era “nivelado por baixo”. Podemos afirmar o contrário, mas amamos os super times (nem que seja para torcer contra).

Então a NBA até tem um número razoável de times favoritos (pelo menos a ponto de não ser uma disputa entre dois times como tem sido o Campeonato Espanhol), mas não é tão aberto que deixa as pessoas confusas e sem saber o que esperar. Mas se isso foi resolvido, como está a questão dos times fortes ficarem cada vez mais fortes? Era isso que tantas franquias pequenas queriam resolver no locaute e que não parece ter dado muito certo diante das contratações realizadas nos últimos meses.

Um dos problemas é que os jogadores cada vez mais querem ser campeões. Sei que isso soa ridículo, todo mundo sempre quis, mas hoje parece ser uma cobrança ainda mais exagerada. Acho que pesa o fato de que jogadores fora do comum como Charles Barkley, Patrick Ewing e Karl Malone ficarem marcados para sempre não como jogadores ótimos, mas como jogadores-ótimos-que-nunca-foram-campeões. Na era das listas de melhores em tudo, sempre pesa os títulos e os jogadores ficam preocupados com o legado que vão deixar. Quer dizer, tem muito jogador preocupado só em conseguir um contrato no próximo ano, mas as super estrelas querem o título e para isso nada melhor do que se juntar a uma equipe que já é forte. Apenas regras fortíssimas, ditaduras, poderiam impedir jogadores sem contrato a ir para onde ele bem entender e isso não vai acontecer tão cedo.

Mas aí chegamos em outro ponto, esses tais “times fortes” que os jogadores correm atrás para serem campeões são sempre os mesmos? Para saber disso fiz um levantamento sobre as finais de conferência do Leste e do Oeste nos últimos 20 anos. Será que varia muito no Top 4 de cada temporada?

No Leste foram 11 times diferentes disputando as finais de conferência nos últimos 20 anos: Pacers (6 vezes), Pistons (6), Heat (6), Bulls (5), Knicks (4), Celtics (4), Magic (3), Cavs (2), Nets (2), Sixers (1) e Bucks (1). Ou seja, dos 15 times que hoje disputam o Leste, somente 4 nunca alcançaram uma final de Conferência. E entre os times que mais vezes chegaram longe estão 3 times de mercados considerados pequenos ou médios, Indianapolis, Detroit e Miami.

No Oeste foram também 11 times diferentes que alcançaram as finais de conferência nas últimas 20 temporadas: Lakers (8 vezes), Spurs (7), Jazz (5), Suns (4), Mavericks (3), Rockets (3), Sonics/Thunder (3), Blazers (2), Wolves (1), Kings (1) e Nuggets (1). Para isso considerei oficialmente o Thunder uma continuação do Sonics, mas de qualquer forma a mudança seria mínima. Aqui a mesma coisa, dos 15 times que disputam o Oeste, somente 4 não chegaram a essa etapa afunilada da competição. E apesar do domínio do Lakers, em seguida aparecem dois mercados minúsculos, os de San Antonio e o de Salt Lake City. O papo de que só time rico que tem chance é uma balela se analisarmos os últimos 20 anos da liga.

Quem não chegou no Oeste foram os historicamente mal administrados Clippers e Warriors, o New Orleans Hornets e o Memphis Grizzlies. Todos, porém, já tiveram bons times e alcançaram as semi-finais de Conferência mais de uma vez. O Grizzlies deve ganhar um pequeno desconto nessa conta porque só entrou na NBA em 1995, pouco depois do início da nossa contagem. No Leste não chegaram em finais o Raptors (que entrou em 95 também), Hawks (o rei da 2ª rodada dos Playoffs), Wizards e o caçula da NBA, o Charlotte Bobcats, que só existe desde a temporada 2004/05.

 

Acho que esses dados já dizem muita coisa. Cada conferência tem times que tem sucesso mais constante que outros, mas parece ser muito mais um misto de competência (montar boas equipes, fazer boas trocas) e sorte (conseguir um cara fantástico no Draft) do que uma regra desleal do campeonato. Se o Bucks chegou só uma vez em finais do Leste é muito mais porque Michael Redd e Andrew Bogut não conseguiram se manter saudáveis do que por injustiça da NBA. E de todas as estrelas dos Lakers nos últimos anos só uma foi adquirida no sistema “Venha para Los Angeles, somos espetaculares”, Shaquille O’Neal. O resto foi via Draft ou em trocas que qualquer outro time poderia ter feito.

A impressão que tenho é que, especialmente com as regras do Draft e do teto salarial, a NBA se preocupa até demais e mais do que qualquer outra liga em dar chances iguais a todas suas 30 franquias. Um exemplo em números: O Boston Celtics tem 21 títulos de conferência Leste, mas apenas 5 desde que o Salary Cap foi criado na temporada 1984-85. E isso contando o tri-campeonato que conseguiram logo depois da criação do teto salarial, quando tiveram algumas regalias (como a Bird Exception batizada assim porque foi usada primeiro com Larry Bird) que permitiu a manutenção daquele excelente time. Se isso é desleal, o que seria justo? Distribuir as estrelas igualmente entre os times?

Isso traz um novo assunto. Será que hoje, com as modinhas de Big 3 e Fab Four, as estrelas da NBA estão concentradas em menos equipes do que antigamente? Vamos descobrir, mas para isso precisamos antes descobrir o que são “estrelas”. Para essa lista eu decidi não usar números de All-Star Game, já que muitos jogadores vão para a partida da estrelas por votos populares que nem sempre traduzem quem são os melhores em quadra e que valorizam os times que tem mais torcida, os de mercado grande. Usarei então os All-NBA Teams, os 3 times votados por jornalistas norte-americanos com os melhores jogadores em cada posição. É como uma votação de MVP dividida por posições. Será que hoje são mais jogadores de mesmo time na lista? Vamos considerar as últimas 20 temporadas.

92/93 – 15 jogadores de 12 times diferentes
93/94 – 15 jogadores de 13 times diferentes
94/95 – 15 jogadores de 9 times diferentes
95/96 – 11 times diferentes
96/97 – 12 times diferentes
97/98 – 12 times diferentes
98/99 – 12 times diferentes
99/00 – 13 times diferentes
00/01 – 12 times diferentes
01/02 – 12 times diferentes
02/03 – 13 times diferentes
03/04 – 13 times diferentes
04/05 – 12 times diferentes (Único Trio de um mesmo time – Nash/Marion/Stoudemire do Suns)
05/06– 12 times diferentes
06/07 – 13 times diferentes
07/08 – 10 times diferentes
08/09 – 13 times diferentes
09/10 – 13 times diferentes
10/11 – 13 times diferentes
11/12 – 10 times diferentes

Nos últimos 5 anos, por duas vezes a NBA alcançou um mínimo de apenas 10 times compartilhando os 15 melhores jogadores da temporada, sendo a última vez nessa temporada que acabou em Junho. Mas nos anos entre essas marcas foram sempre 13 times, número que mais se repetiu ao longo dos últimos 20 anos de NBA.  Podemos até viver uma época onde essa concentração de estrelas seja mais comum que no passado, mas não parece algo tão alarmante assim. Pelo menos por enquanto. Veremos a partir da temporada 12/13 se o número se normaliza e volta aos 12 ou 13 ou se a média de 10 times vai continuar.

Temos que levar em conta também que esses votos levam muito em consideração a campanha de um time na temporada. Por melhor que fosse o Monta Ellis, por exemplo, em muitos anos de sua carreira, ele nunca ganhou muitos votos para os All-NBA Teams porque não se classificava para os Playoffs. Então acho até que existe pouca concentração de jogadores do mesmo time nessas listas de All-NBA se pensarmos que é muito raro um jogador que não se classificou para a pós-temporada entrar no resultado final. De qualquer forma, a própria definição de “estrelas” ou simplesmente “ótimos jogadores” deixa difícil a gente definir se hoje essa concentração é muito maior que no passado.

 

A comparação dos números com a opinião de alguns torcedores e críticos me leva à conclusão simples de que a memória das pessoas é curta. A concentração de estrelas em Boston chamou a atenção pelo jeito que foi feita, tudo de uma vez, mas grandes trios sempre existiram, com um pouco mais ou menos de talento, entrosamento e resultados. O Sacramento Kings de 2002 teve Chris Webber e Peja Stojakovic no ápice de suas carreiras, ao lado de Mike Bibby na sua melhor forma e Vlade Divac ainda muito bom. O Mavericks da mesma época tinha o excelente trio ofensivo de Steve Nash, Michael Finley e Dirk Nowitzki. Nos anos 90 o Rockets juntou nada mais do que Hakeem Olajuwon, Charles Barkley e Clyde Drexler no mesmo time! Teve o Lakers de 2004 com Gary Payton, Kobe Bryant, Karl Malone e Shaquille O’Neal também. E sabe o que todos esses times tem em comum? Não ganharam porcaria nenhuma de título juntos.  Ou seja, não é garantia de nada.

E tem outro lado, alguém aqui preferia que Michael Jordan, Scottie Pippen e Dennis Rodman nunca tivessem jogado juntos? Ou que Larry Bird, Robert Parish e Kevin McHale se espalhassem por times médios da NBA durante os anos 80? Não consigo acreditar que a NBA tivesse sido melhor dessa forma. Se por algum acaso a concentração crescer ainda mais e for mantida por anos, o que eu não apostaria, as reclamações podem fazer um pouco mais de sentido. Por enquanto é só reação desesperada de pessoas com memória curta.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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