A história acontecendo

O San Antonio Spurs estava no motel com a garota de seus sonhos, mas saiu sem nem um cafuné. Alguma coisa aconteceu, algo que falado na hora errada, uma frase mal colocada, uma lembrança estranha. Alguma coisa quebrou o clima. E faltava tão pouco!

Não sei se eu tenho experiência pessoal ou a imaginação necessária para descrever o nível de frustração que os torcedores do Spurs devem estar sentindo hoje. Os jogadores? Eles também devem estar sofrendo um bocado, mas já ouvi uns ex-atletas dizendo no Twitter que profissionais não são assim, que enquanto existir outro jogo, outra chance, enquanto existir perspectiva, ninguém se desespera. Mas se, por acaso, eles não saírem de quadra com um troféu do Jogo 7, Tim Duncan, Gregg Popovich e cia. vão pensar neste Jogo 6 para o resto de suas vidas. E quer saber? Nós também.

Ray Allen

Eu sei que vocês já assistiram o jogo, que leram sobre o assunto, mas é preciso explicar de novo. O San Antonio Spurs tinha 4 pontos de vantagem sobre o Miami Heat a 28 segundos do fim da partida quando Manu Ginóbili foi para a linha de lance-livre. Tudo desenhado para uma vantagem de 6 pontos (duas posses de bola de 3 pontos, três posses de 2 pontos) contra um time que tem sofrido para ser regular nas bolas de longe, e a favor de um time que tem sua melhor média de lances-livres nos últimos 33 anos. O Spurs, além de tudo, ainda é o time mais rodado da NBA, o que alia experiência de idade, experiência de quadra e, talvez mais importante, experiência em vencer. Como disse Bill Simmons após a partida, em 100 ocasiões assim, 99 vezes o time que está na frente não perde a vantagem. E era o Spurs. O San Antonio Spurs.

Façam um exercício de imaginação. Tudo aconteceu dessa mesma maneira na Final, mas, ao invés do Spurs, o time representando o Oeste é o OKC Thunder ou o Memphis Grizzlies. O que você diria ao fim do jogo? Eu diria “Heat deu sorte de pegar esses caras, contra o Spurs não teriam essa segunda chance”. Essa é a imagem que temos deles. E não é à toa, claro, a regularidade do Spurs nos últimos 15 anos criou esse mito/verdade, mas o ponto é que, no fim das contas, ninguém está tranquilo a segundos de um título. E pior, sem aquele desespero encorajador que a eliminação traz. A luta pela sobrevivência é mais feroz que a da vitória, sempre.

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Mas vamos aos fatos, que são difíceis de lembrar já que eu só me lembro das sensações, mas vamos tentar um pouco de frieza.

O primeiro tempo teve um jogo disputado, mas com domínio tático e técnico do San Antonio Spurs. Antes do jogo Chris Bosh prometeu, em entrevista, que Danny Green não teria um arremesso sem marcação durante a partida. Ele teve um completamente livre após erros na troca de marcação entre Mario Chalmers e Chris Andersen que atrasaram toda uma rotação defensiva, mas foi só, uma posse de bola em todo jogo. Porém, para conseguir isso o Heat precisou de muita movimentação sem a bola na linha dos três pontos, fechando as linhas de passe que chegariam a Green (ou Neal, Leonard e etc). Com isso o Spurs puxou outra de suas mil armas, Tim Duncan. Com mais espaço, ele pode escolher um de seus mil movimentos de costas para a cesta a cada vez que queria torturar Chris Bosh, e foi um massacre. Duncan fez mais da metade de seus 30 pontos no primeiro tempo! Aliás, Duncan jogou como se fosse o último jogo de final da sua vida: 30 pontos, 17 rebotes e uma defesa fora da realidade. Estava fazendo história até o jogo se tornar uma história maior do que qualquer jogador.

O Miami Heat sobreviveu ao primeiro tempo destruidor de Duncan porque conseguiu marcar bem o resto do time. Nada de bolas de 3 pontos, poucas infiltrações de Tony Parker, que dessa vez viu LeBron James o marcando por boa parte da partida, e nada de Ginóbili, que depois de seu melhor jogo na temporada, fez um dos piores. Seus 8 turnovers igualaram Hakeem Olajuwon e Kenyon Martin como máximo de um jogador num jogo de final. Some-se isso a arremessos precisos de Mario Chalmers e fomos para o intervalo com um jogo a favor do Spurs, mas longe de parecer decidido.

No segundo tempo parecia que o Miami Heat tinha que decidir um dilema complicado, como marcar Tim Duncan sem puxar o cobertor curto e abrir as portas e as pernas para todo o resto do elenco do Spurs? Individualmente a melhor solução vinha sendo Udonis Haslem, mas ele faz o time, já empacado no ataque, ficar tão fraco ofensivamente que praticamente isso anulava os benefícios de sua defesa. Enquanto isso Chris Bosh não dava conta do recado e colocar Chris Andersen ao lado dele significaria deixar o time com menos defensores de perímetro para lidar com o small ball falso que o Spurs usa quando tem Boris Diaw em quadra.

A resposta do Miami Heat,no fim das contas, não envolveu mudanças no quinteto, mas em postura e tática na defesa individual. Chris Bosh conseguiu se superar fisicamente para deixar de sofrer bullying de Tim Duncan, forçou o jogador do Spurs a receber a bola mais longe da cesta e não teve medo do jogo físico. A defesa em Tony Parker por LeBron James, não ficando preso em nenhum bloqueio sequer ao longo do jogo, também foi exemplar. Ele minou o pick-and-roll com Duncan e forçou o Spurs a um jogo lento, com poucos passes e poucas oportunidades de arremesso. O problema é que o próprio Heat não estava muito melhor lá do outro lado e o 3º período que começou com o Spurs vencendo por 9, acabou com eles liderando por 10.

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Mas antes de falar do último quarto, precisamos lembrar do começo do terceiro período de novo. Dwyane Wade demorou para voltar do vestiário e perdeu cerca de 3 minutos de jogo, possivelmente fazendo algo em seu joelho, que o incomodava depois de uma pancada com Ginóbili no primeiro tempo. Sem Wade, o Heat foi obrigado a jogar com LeBron James, Chris Bosh e mais três arremessadores de três pontos: Mike Miller, Ray Allen e Mario Chalmers. Nas três posses de bola sem Wade, o Heat conseguiu uma infiltração de LeBron (falta e 2 lances-livres), um acerto de 3 pontos e Chalmers e um de 2 pontos de Bosh. Nenhum erro.

Lembrei desse episódio porque o Heat voltou para o último período com uma formação quase idêntica, mas com Chris Andersen no lugar de Chris Bosh. O resultado foi uma reviravolta no placar e uma atuação épica do até então apagado LeBron James, que desde que perdeu sua testeira em uma enterrada, simplesmente pegou fogo e entrou em modo preciso-vencer-isso-de-qualquer-maneira-para-a-internet-não-explodir. A ansiedade e senso de urgência, sobrevivência, no rosto (estranho sem a faixa) do LeBron era claro, mas nenhuma atitude individual vêm sem a parte tática. Sem Wade em quadra, de repente abriram espaços para LeBron James conseguir pelo menos pisar no garrafão para tentar jogadas. Uma estatística mostra bem o que aconteceu: LeBron tentou 7 arremessos na área do semi-círculo sob a cesta durante os 16 minutos que jogou sem Wade; nos 33 minutos (!) que jogou ao lado do companheiro, só 3 arremessos tentados lá. Simplesmente não tem espaço quando os dois estão junto, o Spurs paga pra ver o arremesso e se encaixota no garrafão.

Foi com essa formação que o Miami Heat cortou os 10 pontos de frente e virou a partida, exatamente com a mesma formação que começou aquela sequência de 33 a 5 no Jogo 2. E uma formação quase igual a da vitória no Jogo 4, com a diferença que lá era Wade em quadra infiltrando e LeBron James no banco. Enquanto Mike Miller (que ontem acertou um arremesso sem estar usando um tênis), Mario Chalmers e Ray Allen estiverem afiados de longe, o Spurs tem que dar pelo menos um tiquinho de espaço. E legal que Erik Spoelstra teve as bolas no saco de perceber a reação e deixou D-Wade sentadinho no banco de reservas até os últimos 3 minutos de jogo.

Mas se tudo isso já era uma história espetacular, aí vieram os minutos finais. E lembrem-se, um TÍTULO DA NBA estava em jogo, e o que aconteceu foram coisas que nos deixariam empolgados e pulando da cadeira em um jogo da segunda semana da temporada regular envolvendo o Charlotte Bobcats! Bom, primeiro Manu Ginóbili, usando um corta-luz de judô de Tim Duncan, cortou a diferença do Heat para 1 pontinho a 2:31 do fim da partida. O Heat respondeu em um ataque desorganizado, desesperado, mas que acabou com falta sobre Dwyane Wade, que fez seus lances-livres. Com o Spurs atrás por 3 pontos e angustiantes 1:30 no relógio, Tony Parker fez de tudo para passar pela marcação de LeBron James. Nada feito. Uma, duas, três vezes. Impossível contornar aquele monumento que nessa altura já beirava seu triple-double, que tinha dado um toco fenomenal em Tim Duncan e que marcou 14 pontos no período final. O que o francês fez então? Step back, arremesso de três pontos e caixa. Jogo empatado e já não fazendo mais sentido.

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No ataque do Heat, turnover de Mario Chalmers, que tentava mais um pick-and-roll bem sucedido com LeBron James. Nada feito dessa vez e nada de LeBron marcando Parker no contra-ataque, aí mais dois pontos para o francês sobre Chalmers. Depois de jogo apagadíssimo, o francês apareceu com cestas milagrosas que poderiam ser do título. E parecia que iam ser porque as duas posses de bola seguintes do Heat acabaram com turnovers de um exausto e já inconsciente LeBron James, e com lances-livres de Ginóbili entre esses erros. Aí chegamos no ponto que eu citei antes: Spurs liderando por 4 pontos, 28 segundos no relógio, Manu Ginóbili no lance-livre.

O narigudo-safado errou o primeiro e fez o segundo, vantagem em 5. No ataque, entra Mike Miller no lugar de Chris Bosh e, pelo Spurs, uma surpresa, entra Boris Diaw por Tim Duncan, para proteger a linha dos 3 pontos. O resultado é que LeBron James dá uma tijolada numa bola de 3 pontos, mas Mike Miller acha um rebote de ataque e James não perdoa da segunda fez. São 2 pontos de frente a 20 segundos do fim do campeonato. O Spurs pede um tempo e Tim Duncan tem uma frieza e paciência assustadoras ao esperar o momento certo de cobrar o lateral e colocar a bola nas mãos de Kawhi Leonard. O pivete de 21 anos, porém, sente a pressão e acerta apenas o segundo lance-livre. São 3 pontos de frente e possivelmente a última posse de bola do Heat na temporada. E o que acontece é isso aí embaixo:

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Se seu time estivesse perdendo por 3 pontos a ponto de ser eliminado, quem você queria que arremessasse a bola da salvação? De todos os Steph Currys e Danny Greens da atualidade, nenhum tem a experiência e a frieza de Ray Allen. Acho que 95% das pessoas escolheriam ele e o Miami Heat pode levantar as mãos aos céus porque eles tem esse cara no elenco e porque a bola achou a mão dele no momento certo. É uma jogada que nos faz pensar em nossas discussões sobre ser melhor, sobre títulos e sobre legados. É tanta coisa, tanta coisa enorme, e tudo decidido por jogadas tão pontuais, rápidas. Tudo poderia ter acontecido, tudo. O que não poderia ter acontecido, dizem os torcedores do Spurs, é perder dois rebotes de ataque nas posses de bola final. De novo, escolha de Gregg Popovich tirar Tim Duncan de quadra. Compreensível, mas deu muito errado.

Depois desse momento surreal, Tim Duncan entrou em quadra ilegalmente para a última posse de bola. Enquanto os juízes viam se a bola de Allen era mesmo de 3 pontos, Duncan entrou no lugar de Diaw. Mas sem um pedido de tempo ou falta, ele deveria continuar fora. De qualquer forma, Tony Parker não conseguiu a bola do título e fomos para uma sofrida prorrogação.

O tempo extra foi sofrido e feio. Os dois times estavam visivelmente cansados e Tony Parker chegou a ser poupado de posses de bola defensivas só para ter fôlego para atacar. Alguns momentos épicos deste fim de jogo? É, tem alguns: Danny Green roubando a bola de LeBron James num contra-ataque que James finaliza com enterrada em 99% das vezes; tocos de Chris Bosh em Tony Parker e Danny Green nos dois últimos arremessos do Spurs no jogo; os roubos de bola de Parker e Ray Allen no final da partida. Devem ter existido mais, mas minha mente entorpecida já não lembra.

Alguns comentários sobre o final de jogo do Spurs (editado às 16h): Não acho que o Manu Ginóbili errou ao forçar uma infiltração quando o Tony Parker estava no banco nos segundos finais da prorrogação. Ele tinha o garrafão aberto e estava sendo marcado pelo Ray Allen, era uma ótima chance. Não acho que foi falta no lance. A última posse de bola do Spurs foi questionável também, ótimo desenho de jogada para Danny Green, mas o Heat sabia que podia ignorar Splitter para a bola de 3 pontos e foi o que Bosh fez para ir para o toco. Ter Tony Parker em quadra poderia causar mais dúvida.

O Miami Heat sobreviveu e ninguém ainda sabe como. Último período histórico, triple-double de LeBron James, tocos e rebotes de Chris Bosh, o arremesso de Ray Allen. Foram tantas coisas dificílimas de ser alcançadas, e tudo para uma vitória magra, pela sobrevivência. E quando a organização da NBA já cercava a quadra com uma fita de segurança para a possível cerimônia de entrega do troféu.

O San Antonio Spurs estava com a garota dos sonhos, no motel, de cinta-liga e dedinho na boca. Alguma coisa surreal aconteceu e eles ficaram na mão por mais uma noite. Poucos sabem a frustração de estar tão perto de um sonho e não conseguir realizar, mas também não são todos que tem o privilégio de uma segunda chance. O Miami Heat vai para o jogo achando que estão com sorte de campeão, mas alguém realmente duvida do San Antonio Spurs? A parte tática está na ponta da língua de todos, sabem o que fazer. Só precisamos sentar a bunda na cadeira e ver mais um espetáculo. E independente de quem vença, já foi por pouco.

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Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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