A relação entre o passe e o sucesso

Uma coisa que eu gosto muito com a volta do Both Teams Played Hard: às vezes preciso de ideias para um texto e elas surgem com as perguntas que vocês nos fazem. Não é hipocrisia de “nos ajude a fazer um site melhor” que os entendidos em ~engajamento~ falam, é realmente verdade. Afinal, ser adulto e trabalhar não é só ter menos tempo para escrever sobre basquete, mas também ter menos tempo para encontrar com os amigos que gostam de basquete, conversar sobre o assunto e, assim, se inspirar para novos posts.

A pergunta que me inspirou dessa vez foi essa aqui:

Existe alguma estatística que diz a quantidade de passes que um time executa em média por ataque? Seria legal, pra ter com precisão o quanto alguns times movimentam a bola e o quanto outros ataques são estagnados.

Gostei dela por dois motivos: (1) trata de um assunto do momento, os passes e a movimentação de bola estão muito em alta desde que o San Antonio Spurs tem usado essa estratégia para fatiar seus oponentes e (2) esse número de passes existe há algum tempo e o fato de alguém perguntar sobre ele mostra que não falamos o bastante sobre essa importante e divertida estatística.

Desde que a NBA contratou o SportVU para monitorar toda as arenas da liga, fomos presenteados com uma avalanche de estatísticas e ainda nem sabemos ao certo como lidar com elas. Como já expliquei em posts anteriores, essa tecnologia monitora todas as ações de todos os atletas e gera dados sobre passes, movimentação sem a bola, distância percorrida, velocidade e mais um trilhão de coisas. São informações tão novas que ainda nem sabemos direito o que fazer com elas, não temos dados históricos de outros times para comparar e ficamos sem saber o que é muito ou pouco em cada caso.

O que podemos fazer é comparar os times entre si e ver se algum número comprova impressões que tivemos vendo os jogos, coisas do nosso conhecimento empírico do basquete. Vamos começar com o Golden State Warriors, o melhor time da atual temporada regular da NBA.

Warriors

Na temporada passada o Warriors foi o time que menos passou a bola na liga, eram 245.8 passes por partida, 15 a menos do que o penúltimo colocado, o Denver Nuggets. Ao fim daquela temporada, o colunista John Schuhumann da NBA.com até escreveu um artigo sobre o tema, dizendo que não só o Warriors tinha passado pouco a bola, mas que tinha tido um ataque muito mais eficiente nos poucos jogos onde tinha se dedicado mais a rodar a bola entre seus companheiros. Ou seja, o novo técnico Steve Kerr deveria mudar isso em relação aos tempos de Mark Jackson, fazer o time trocar mais passes.

Já nesta temporada o Warriors, atualmente com o segundo melhor ataque da liga, é o 8º time que mais troca passes na NBA. Sim, subiram 22 posições no ranking e agora trocam 315.6 passes por jogo. Mas calma, não se animem muito. Como o mesmo Schuhumann concluiu com os dados do ano passado, podemos reiterar com os do desse ano: não há nenhuma prova de que passar mais a bola seja sinônimo de sucesso ofensivo. Funcionou no caso específico do Warriors, era o melhor para eles, mas não vale sempre.

Entre os 10 times que mais passam a bola nesta temporada, 5 deles nem estariam indo para os Playoffs: Jazz, Sixers, Knicks, Hornets e Pacers. Aliás, Hornets, Sixers e Knicks têm os 3 piores ataques da NBA em pontos por posse de bola. O Pacers é o 24º e o Jazz, sucesso da segunda metade da temporada, está lá por causa de sua defesa, o ataque é apenas o 15º na categoria. Até um time de Playoff, o Celtics, outro no Top 10, é só o 21º em eficiência ofensiva.

Ou seja, dos 10 times que mais passam, mais da metade figura entre os piores ataques da liga. Os outros times, em compensação, estão voando: Atlanta Hawks, Golden State Warriors, San Antonio Spurs e Dallas Mavericks também estão entre os que mais passam e todos figuram entre os 7 times que mais marcam pontos por posse de bola na NBA.

[youtube width=”600″ height=”344″]https://www.youtube.com/watch?v=6oYlb1-gglo[/youtube]

A conclusão disso tudo parece bem clara, a movimentação de bola é parte importante do sucesso de uma equipe, mas, como tudo no basquete, a execução é mais importante que a teoria. Estou certo, Russell? Não importa quantos modelos matemáticos digam que arremessar de 3 pontos é melhor do que arremessar longas bolas de 2, na hora do jogo os caras vão ter ir lá e ACERTAR os chutes. Aliás, esse é o ponto que une os “nerds” com os “boleiros” e que devia encerrar qualquer ridícula rivalidade entre eles. Um dos caras descobre o caminho para o sucesso, o outro deve ir lá e fazer funcionar no dia-a-dia.

O que Hawks, Spurs e Warriors nos mostram é como um time pode alcançar um outro nível de sucesso ofensivo quando o foco nos passes e na movimentação de bola é bem feito, mas o caminho até lá é duro. Todos esses times precisam de arremessadores que abram a quadra para dar espaço para os passes, de armadores capazes de invadir o garrafão para mexer a defesa e criar boas opções de passe e ainda de pelo menos 4 jogadores em quadra que possam finalizar o ataque sem hesitar. É essa ameaça constante que faz o adversário cair nas armadilhas.

É uma situação que me lembra a principal conversa teórica do futebol nos últimos anos, a sobre o tiki-taka e a posse de bola imposta pelo Barcelona e a seleção da Espanha. Não é o único jeito de vencer, mas pode ser uma das maneiras mais dominantes se você tiver os jogadores certos para isso e se jogar com um propósito. Só os toques curtos não levam a nada, só a posse de bola não gera placar. É um meio, algo que só vai dar resultado se for bem executado. Mesma coisa aqui no basquete, precisa de talento e entrosamento, não dá pra achar que o Knicks, com um dos piores elencos de sua história, ou o Sixers e seu time de D-League, vão ter sucesso automático só porque passam a bola de lado algumas vezes mais do que outros.

Spurs

Vale lembrar que entre os melhores ataques da NBA estão, por exemplo, o New Orleans Pelicans, time que menos passa a bola, e o Los Angeles Clippers, apenas o 15º na categoria. São times de sistema ofensivo focado nos seus armadores, que soltam a bola no fim da jogada para uma finalização rápida. Em outras palavras, existem mais maneiras de se fazer um ataque eficiente.

Outro ponto importante da pergunta do nosso amigo internauta é que ele fala de “ataques estagnados”. Geralmente nós que comentamos basquete fazemos essa relação entre movimentação de bola e estagnação, mas ela não é necessariamente verdadeira em todos os casos. Alguns times passam a bola sem se mexer muito, com posições um pouco mais pré-definidas e apenas alguns lançamentos para tentar movimentar a defesa. O próprio Atlanta Hawks, assim como o Houston Rockets, costuma, às vezes, postar alguns jogadores estáticos em locais estratégicos da quadra para atrair a marcação e abrir espaço do lado contrário.

Novamente, não existe relação entre movimentação e eficiência ofensiva. Aqui o SportVU nos ajuda de novo com os dados de distância percorrida por partida pelas equipes. O San Antonio Spurs lidera toda a NBA (eu imagino que Danny Green seja responsável por tudo sozinho), mas o time é seguido de perto pelo fracassado Philadelphia 76ers. Nas duas posições seguintes novamente uma dupla de sucesso e fracasso: Warriors e Pistons. O time que menos distância percorre por jogo é o Cleveland Cavaliers. Liderados por LeBron James, eles gostam de deixar jogadores, geralmente arremessadores, parados em algum canto da quadra segurando um defensor enquanto LeBron ganha espaço para fazer o que sabe. O Rockets, o  que menos distância percorre, faz o mesmo com James Harden. Às vezes é chato, repetitivo e certamente é estagnado, mas funciona. O Cavs tem o 4º ataque mais eficiente da NBA, o Rockets está em 11º.

Jogue parado ou correndo sem parar. Com caras altos ou baixos, não tem regra. No fim das contas, o que vale é que a bola entre na cesta no fim da posse de bola. Uma conclusão PATÉTICA, mas todo o processo é a graça do basquete.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

Como funcionam as assinaturas do Bola Presa?

Como são os planos?

São dois tipos de planos MENSAIS para você assinar o Bola Presa:

R$ 14

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro e texto do FilmRoom.

R$ 20

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bolões + Vídeo ao vivo para discutir Clube do Livro e FilmRoom.

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro e texto do FilmRoom.

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bolões + Vídeo ao vivo para discutir Clube do Livro e FilmRoom.

Como funciona o pagamento?

As assinaturas podem ser feitas pelo Aplicativo PicPay. Baixe, cadastre-se, busque o Bola Presa e escolha seu plano de assinaturas. Você pode pagar com cartão de crédito ou carregar sua Carteira PicPay com boleto ou depósito bancário. Depois de assinar, escreva para bolapresa@gmail.com para mais detalhes de como ter acesso ao conteúdo exclusivo.

DÚVIDAS SOBRE AS ASSINATURAS? Nos escreva: bolapresa@gmail.com

Assine já!