A segunda metade

Essa semana recebi uma mensagem de um leitor dizendo que praticamente não tinha assistindo nenhum jogo desde o All-Star Game. Para quem vê jogos todos os dias como eu e tantos outros de nossos leitores, soa um troço meio absurdo, mas é até bem comum. Aquele fim de semana festivo e sem jogos competitivos serve mesmo como uma pausa simbólica que indica que a parte final da temporada se aproxima.

Porém o fim da temporada regular nem sempre é algo muito atraente. Na Conferência Leste, por exemplo, estão praticamente certos os 8 classificados para os Playoffs e se não fosse a sequência recém-interrompida de 27 vitórias do Miami Heat, existiram poucas boas histórias desse lado da NBA para contar. No Oeste ainda tem o drama do Los Angeles Lakers, brigando com Utah Jazz e Dallas Mavericks pela última vaga na pós-temporada, mas mesmo assim é compreensível que pessoas com menos tempo ou menos interesse na NBA cotidiana deixem a liga de lado até o começo dos Playoffs. Nesse ano nem tivemos grandes trocas na segunda metade da temporada para criar novos atrativos em times desinteressantes.

Mas enquanto desviamos a atenção da NBA porque já estamos com a cabeça nos Playoffs, perdemos algumas coisas que estão mudando. Para os jogadores a pausa do All-Star Game também é simbólica, uns dias de descanso e de novo foco para mudar as coisas. Falo aqui de dois jogadores em especial (e que tem o mesmo apelido) que acordaram para a vida desde a parada do ASG.

 

Deron Williams – Brooklyn Nets

Deron_Williams

Depois de alguns altos e baixos no começo da temporada, o Brooklyn Nets se firmou como uma força intermediária no Leste. Provavelmente sem chances de bater o Miami Heat e talvez até o Indiana Pacers, mas com jogo para incomodar e fazer bonito na sua primeira temporada de casa nova. Desde a parada do ASG até aqui, o Nets tem 10ª melhor campanha da NBA, a 3ª melhor do Leste, com 11 vitórias e 7 derrotas.

Um dos grandes responsáveis pelo bom momento é Deron Williams. Não só por aquele jogo surreal contra o Wizards onde ele acertou 11 bolas de 3 pontos (9 no primeiro tempo, um recorde da NBA), mas porque tem sido exatamente o que não foi no começo da temporada: agressivo e regular. No pré-ASG o armador teve médias de 16.7 pontos, 7.6 assistências e 41% de acerto de seus arremessos. Suas médias de pontos estavam abaixo de Brook Lopez (19.0) e Joe Johnson (17.0). Contando apenas o pós-ASG, Williams lidera o time com 22.4 pontos por jogo, 8.0 assistências e 47% de aproveitamento nos arremessos.

Nos últimos 20 jogos, Deron Williams tem parecido mais com o velho Deron que conhecíamos e que despertavam aquelas cansativas comparações com Chris Paul. Ótimo no ataque à cesta, uma força impressionante para bater de frente com fortes pivôs na infiltração e um mortal arremesso de meia distância usado quando a defesa dá espaço no pick-and-roll. Não sei explicar porque ele não estava jogando assim no começo da temporada, mas o nível tinha caído muito.

Um palpite interessante sempre é o entrosamento. Como armador ele tinha que envolver os recém-chegados Joe Johnson e Andray Blatche, parte importante do ataque, também tinha que dar

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jogo a Brook Lopez, grande nome do time (merecidamente um All-Star) e que havia perdido boa parte da temporada passada por lesões. Os números dizem que Deron Williams estava com um péssimo aproveitamento em jogadas de pick-and-roll, sua especialidade nos tempos de Utah Jazz. Faltava um bom parceiro, ou um com bom entrosamento para essas jogadas? Ou era só má fase?

Estava vendo alguns clipes dessas jogadas no SynergySports e percebi um padrão que ainda não consigo provar com números, mas que parece bem real. Deron Williams parece ter um aproveitamento bem mais baixo quando sua dupla de pick-and-roll é Brook Lopez, que faz bloqueios fracos e se apressa em correr em direção à cesta. Quando recebe ajuda de Reggie Evans, por outro lado, recebe um bloqueio furioso e tem muito tempo e espaço para arremessar ou infiltrar. Descobrir isso pode ter demorado um bocado e só agora Williams tem se soltado. Tudo isso sem prejudicar Lopez, que até aumentou sua média de pontos para 19.7 pontos após o All-Star Game.

Talvez essa seja só uma de várias descobertas que o Brooklyn Nets vá fazer nesta e na próxima temporada. Assim como o Miami Heat demorou a descobrir que não precisava de pivô, às vezes demora um bom tempo para um elenco com tantas novidades descubra exatamente como jogar junto. E só agora o Nets está descobrindo algumas maneiras de ter seus melhores jogadores, Deron Williams e Brook Lopez, jogando bem ao mesmo tempo. Precisam disso para brigar por algo a mais.

 

Derrick Williams – Minnesota Timberwolves

Derrick Williams

O outro D-Will estava caminhando a passos largos para ser mais uma decepção da NBA. Foi a 2ª escolha do Draft de 2011 e nem chegou perto de mostrar todo o potencial que parecia ter na Universidade do Arizona. Foram broxantes 8.8 pontos por jogo em sua temporada de novato, onde não se mostrou reserva a altura de Kevin Love na posição 4 e nem um arremessador bom o bastante para jogar na posição 3.

Nesta temporada Williams teve mais oportunidades, mas mesmo assim não convencia. Com as lesões de Love, Chase Budinger e Andrei Kirilenko ele esteve em todos os tipos de posição e situação, mas mesmo assim não parecia dar certo. As coisas começaram a mudar para o Michael Beasley 2.0 quando Ricky Rubio voltou de lesão. O armador espanhol, além de especialista em envolver seus companheiros no jogo, é amigo pessoal de Williams e parece ter sido essencial na recuperação da auto estima de Williams.

Segundo o próprio ala do Wolves, ele passou a se encontrar cada vez mais vezes com Shawn Respert, assistente do Wolves responsável pelo desenvolvimento individual dos jogadores. Analisando seus números e vídeos, perceberam um grande número de jogadas onde Williams perdia muito tempo hesitando antes de tomar uma decisão em quadra. Aquela amarelada antes de arremessar que é quase uma confirmação de que a bola não entrará nem a pau, ou a parada para pensar que dá tempo da defesa adversária se fechar completamente. Começaram a trabalhar nisso, na confiança de Williams. Está livre? Chute.

Um conselho de Rubio também foi importante: “Você deve saber o que consegue fazer e o que não consegue”. Era simples, saber o que ele pode/consegue fazer na quadra e, quando tiver a chance, executar sem hesitar. Foi assim que ele melhorou em 15% o seu aproveitamento de arremessos de meia distância, sendo que 85% desses chutes vieram de assistências, não de jogadas individuais. Ou seja, nada de drible antes do arremesso, não é o jogo dele. Williams virou um especialista em arremessos de meia distância e em cavar faltas; suas médias de lances-livres cobrados pularam de 2.8 antes do All-Star Game para 5 nos últimos 20 jogos.

Parece um caso clássico de confiança. Rick Adelman, técnico do Wolves, nunca perde uma chance de elogiar o jovem jogador, só para dar uma força para ele. Todos sabem da pressão de ter sido uma escolha alta no Draft, da expectativa e de como Williams está tendo dificuldades em lidar com isso. Com uma abordagem mais leve, sem responsabilidade de vitória, Playoffs ou luta por posição na rotação (Williams é titular e joga sempre pelo menos uns 25 minutos), ele tem se focado só em jogar, em fazer as jogadas que tem treinado a exaustão. Desenvolvendo seu jogo de média e longa distância, Derrick Williams pode se tornar o grande curinga do elenco. Pode atuar ao lado de Kevin Love e Nikola Pekovic em formações mais altas, ou ao lado de Chase Budinger e Love nas mais focadas em arremessos de longe.

Antes do All-Star Game, Derrick Williams tinha médias de 20 minutos por jogo, 9.9 pontos, 5 rebotes, 41% de acerto nos seus arremessos. Era apenas o 8º cestinha do time! Nos 20 jogos desde o ASG, Williams virou o maior pontuador da equipe com 16.2 pontos por jogo, 31.7 minutos de quadra, 7 rebotes e 44% de acerto dos arremessos. Agora é só esperar mais confiança e evolução durante a offseason e, por favor, um Wolves saudável na próxima temporada.

 

Outros jogadores que melhoraram após o coffee break da temporada

 

Ty Lawson – Musa inspiradora da sequência de 15 vitórias do Denver Nuggets. O responsável por correr tanto que transforma o ridículo ataque de meia quadra deles em um contra-ataque disfarçado.
Pré-ASG: 15.8 pontos, 7 assistências, 44% de aproveitamento nos arremessos
Pós-ASG: 19.4 pontos, 6.2 assistências, 48% de aproveitamento nos arremessos

 

Roy Hibbert – Maior decepção do começo da temporada, nem sombra do All-Star do ano passado. Aos poucos voltou a ser relevante no ataque de novo e a fazer diferença na defesa com seus 3 metros de altura. Indiana

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Pacers precisa dele para que sua estratégia de ter um time mais alto que o resto do Leste faça diferença.
Pré-ASG: 10.0 pontos, 8.3 rebotes, 41% de acerto dos arremessos (QUE NOJO, CARA! VOCÊ É PIVÔ!)
Pós-ASG: 15 pontos, 8.1 rebotes, 49% de acerto dos arremessos (já pode sair na rua sem vergonha de novo)

 

Jeff Green – O estranho caso da troca que demorou para dar certo. É inegável que o Celtics sentiu a troca de Kendrick Perkins, membro da família, mas passado alguns anos (e uma operação no coração de Green), as coisas começam a dar certo. Hoje parece até uma troca desigual. Desde que Rajon Rondo se machucou, Green tem sido o principal ajudante de Paul Pierce.
Pré-ASG: 10.3 pontos, 3.3 rebotes, 24.6 minutos por jogo, 34% nas bolas de 3, 5º cestinha do time
Pós-ASG: 16.3 pontos, 4.7 rebotes, 33.3 minutos por jogo, 38% nas bolas de 3, 2º cestinha do time

 

Al Horford – É tão fácil esquecer que o Atlanta Hawks existe que a gente ignora o Al Horford. Mas ele já teve sequências impressionantes de double-doubles na temporada e tem levado o Hawks nas costas ofensivamente desde a lesão de Lou Williams. Curioso que esta seja a melhor temporada de todo o grupo bi-campeão da Universidade da Florida: Horford, Joakim Noah e Corey Brewer estão jogando demais.
Pré-ASG: 16.2 pontos, 9.8 rebotes, 0,9 roubo de bola, 1 toco, 54% de acerto dos arremessos
Pós-ASG: 20,7 pontos, 11,4 rebotes, 1,4 roubo de bola, 1,3 toco, 55% de acerto dos arremessos

 

John Wall – O Washington Wizards tem aproveitamento digno de Playoff nos últimos meses e tem a 5ª melhor campanha do Leste (atrás de Heat, Pacers, Knicks e Nets) desde o All-Star Game. Grande responsável por isso é John Wall, que vêm jogando demais desde que voltou de lesão. Aliás, para falar a verdade, ele precisou de alguns bons jogos para pegar ritmo depois que voltou. A previsão que fizemos no começo do ano, com o Wizards mais experiente e

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com boa defesa demorou pra acontecer, foi até tarde demais, mas está aí.
Pré-ASG: 14.7 pontos, 7.3 assistências, 1 roubo de bola, 42% de acerto dos arremessos, 7% (!) de 3 pontos
Pós-ASG: 18.7 pontos, 8.1 assistências, 1.7 roubo de bola, 45% de acerto dos arremessos, 47% de 3 pontos

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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