Both Teams Played Hard #22

Augusto:
Olá amigos, vocês acham que o LeBron pode ficar “marcado” por ser um cara que quer influenciar muito a franquia e acaba atrapalhando? Eu não vejo problema em um atleta que é extra classe querer fazer mais do que o “normal”, só que o Sr. James, fazendo isso, nunca conseguiu ganhar nada em Cleveland, com esse jeito mandão ele não ganhou nada, por outro lado, em Miami, onde o dono do time é o Pat Riley, James se manteve na linha, obedeceu os comandos do Spoelstra, gostando ou não, e foi campeão. LeBron é um atleta tão completo que poderia deixar o ego um pouco de lado e obedecer quem a franquia determina para tentar levar o Cavs a algum lugar, não acham?

Danilo: A imagem do LeBron ficou “marcada” muito rapidamente na NBA por uma série de motivos, que em geral envolvem acusações de arrogância, prepotência, ego exagerado, e eventualmente omissão em momentos decisivos dos jogos. O problema é que muito facilmente esquecemos qual contexto trouxe LeBron James para a NBA: ele era tido como o melhor jogador de colegial da história, chegou a ter jogos do seu time de escola transmitidos pela ESPN e fazia seu ginásio local lotar em todos os jogos com longuíssimas filas de espera, algo nunca antes visto nessa etapa do basquete. Chegou no Cavs com todo mundo lhe dizendo que ele era o melhor jogador da história da sua idade, teve um começo surreal na equipe e tornou a equipe relevante muito rapidamente. Passou a infância toda numa situação de “eu contra o mundo”, numa situação financeira e familiar medonha, e assim que cresceu passou todo o resto da vida ouvindo que era o melhor jogador da NBA. Some a isso o fato de que ele nunca parou de treinar, aprender e evoluir em quadra e o resultado é um jogador que realmente acha que tem mais a acrescentar do que os outros, e que não vai aceitar qualquer coisa que mandarem ele fazer num jogo.

Pra piorar, ainda há o fato de que antes mesmo de se tornar adolescente, LeBron James já era uma MARCA, um nome que as empresas queriam usar à exaustão, que geraria dinheiro por si só. Isso fez com que ele fosse ADMNISTRADO como uma marca. Sua vida é cercada de assessores, conselheiros, engravatados, foi treinado para que suas declarações fossem amenas, que suas reações emocionais frente à derrota fossem controladas, que ele parasse de roer as unhas no banco de reservas porque dava mal exemplo, etc, etc. Não é nada bizarro que sua decisão de sair do Cavs para ir ao Heat tenha sido dada naquele infame programa ao vivo na televisão americana: ele foi treinado para isso, ensaiou as falas, foi tratado pelos assessores como se fosse um produto. Por isso LeBron pode querer engolir vivo um técnico, mas nunca falará isso em voz alta, abertamente, o que acaba criando essa sensação de que o LeBron é fajuto, fingido e tudo o mais. A ESPN Brasil colocou essa entrevista no ar, legendada, sobre os boatos de que Blatt teria caído por conta do jogador, e as declarações de LeBron o fazem parecer arrogante, mimado e robótico – ao meu ver, um caso de um jogador inteiramente assessorado para não dizer nada contundente, e a continuação de alguma conversa anterior com alguém próximo, que deve ter lhe dito que “a imprensa só quer que você seja um jogador burro como os outros, mas você nunca será assim, sempre será mais ativo fora da quadra”, numa postura de “nós contra o mundo” que acaba vazando nessas entrevistas estabanadas.

Acrescento também o fato de que depois de ouvir que ele era o melhor de todos e ser assessorado como se fosse uma coisa e não uma pessoa, LeBron também foi recebido por um moedor de carne na NBA. As viúvas do Jordan não queriam aceitar que talvez houvesse um “melhor de todos os tempos” que jogassem diferente do seu ídolo; os fãs que haviam se desvencilhado do Jordan ou eram mais novos não queriam um “melhor” que não jogasse como Kobe Bryant ou Allen Iverson. Por conta de sua formação no colegial, LeBron chegou na NBA como um armador, um passador que fazia as decisões certas, e crítica e público comiam ele vivo por passar para companheiros livres na zona morta em bolas decisivas de jogos – em que a História nos contava que a grande estrela é que deveria arremessar e decidir. Mesmo depois de mudar seu estilo de jogo e ter atuações épicas nos playoffs completamente sozinho, a fama nunca se apagou – seja por birra, seja porque as impressões iniciais criam barreiras duradouras – e eventualmente ele percebeu que só títulos mudariam a reação a ele na NBA.

LeBron não deixou de ganhar em Cleveland por ser “mandão”, mas por ter tido elencos sofríveis. Talvez não meter tanto o bedelho nas coisas extra-quadra facilitasse sua vida, mas não teria garantido anéis com aqueles times mequetrefes que ele levou mais de uma vez às Finais. Acho que o motivo para o LeBron ter ganhado anéis em Miami e não ter tido nenhum caso de “ser mandão” por lá é que estava cercado por jogadores fantásticos (e Pat Riley) que ele precisava ouvir, respeitar e considerar. Quando o grau de talento cai drasticamente, LeBron deve ter uma sensação de que está ouvindo gente menos capacitada do que ele enquanto o RELÓGIO ESTÁ PASSANDO, e cada temporada sem títulos torna mais difícil sua aceitação numa Liga que avisaram desde o começo que ele iria transformar para sempre.


Leonardo Pimentel:
Beleza pessoal? Queria saber a opinião de vocês sobre o Boban Marjanovic. O quanto ele realmente é bom e o quanto ele é apenas um jogador diferente dos padrões atuais da liga, o que acaba fazendo com que os outros jogadores não saibam como marcar ele? As vezes acho ele surpreendemente bom, mas tenho receio de que assim que comecem a dar a devida atenção em como marcar-lo ele pare de produzir como tem acontecido quando ele entra em quadra. Abraços!

Danilo: Essa foi uma das dezenas de perguntas que recebemos de vários leitores querendo saber se o Marjanovic é bom de verdade. Não há dúvidas de que ele tem se saído muitíssimo bem nos minutos que ganhou no Spurs, mas o que nos aflige é que isso pode ser apenas reflexo de que pivôs gigantes não existem mais na NBA, fazendo com que os times não saibam como marcá-lo ou simplesmente não tenham mais as armas para isso (já se foram os tempos que todo time da NBA tinha um reserva cocô gigante para tentar parar o Shaq). Ainda é cedo demais para conseguirmos avaliar o Boban, especialmente porque o esquema tático do Spurs coloca toda uma camada de eficiência que pode camuflar as reais dificuldades do pivô. Por enquanto, tendo a achar que o Boban é um pivô bom, acima da média para o seu tamanho, habilidoso e inteligente, mas que seus resultados se dão porque ninguém sabe ou quer marcá-lo. Se ganhar muitos minutos, as defesas vão dar um jeito de fechá-lo e desconfio que ele vai render menos do que outros pivôs em atividade na NBA nesse momento. Mas é claro que ele pode evoluir muito ainda, e que o Spurs pode encontrar modos de protegê-lo na quadra.


Petrúquio:
O que fez com que Draymond Green fosse selecionado na 2° rodada do Draft?

Danilo: Fui atrás dos relatórios de scouts de 2012, ano em que ele foi draftado, e fiquei fascinado. Todos sabiam que ele era um jogador inteligente, excelente passador, capaz de fazer os jogadores ao seu redor melhores, com um arremesso consistente quando recebia a bola parado, com bom aproveitamento no perímetro, bom jogando de costas para a cesta, bom defensor e que não fugia do contato físico. O problema é que Draymond Green estava naquele limbo de posição que matou tantos jovens no draft, e que tornou inúteis tantas escolhas que pareciam boas: chegou na NBA como um ala, mas não tinha explosão e velocidade para marcar os jogadores menores, além de estar acima do peso para a função; e era baixo demais para marcar pivôs, lutar por rebotes e fazer estrago no garrafão. Além disso, consideravam que Green já estava pronto, que não iria melhorar muito mais além do que já era no basquete universitário, e que não era especialista em coisa nenhuma em quadra, diminuindo os times que poderiam se interessar por ele. Jogadores sem posição e sem especialidade costumam ser ignorados no draft mesmo. Estava cotado para sair lá pela escolha 20, nas mãos de algum time melhorzinho que precisasse de alguém para contribuir imediatamente. De verdade, achei as análises bem corretas, só não se esperava que houvesse uma posição nova surgindo na NBA, os “pivôs-armadores”, que ganhando peso (ao invés de perder, como sugeriam) ele seria um excelente defensor de garrafão, e que ele iria melhorar ainda mais num esquema tático que usasse sua alta inteligência basquetebolística.


Rui Orselli, engenheiro, 38:
sobre o confronto imaginario entre bulls do jordan vs warriors atual, devo confessar que fiquei profundamente magoado com a falta de fé que depositaram no chicago.
Acompanhei na epoca os 6 campeonatos do chicago, assim como acompanho a ascensão do warriors como meu time preferido na atualidade.
Gostaria que reconsiderassem levando em conta a capacidade do jordan de pontuar contra defesas totalmente arrumadas para tentar barrá-lo, juizes ignorando puxões e empurrões, camisas rasgadas, pivôs lendários e marcadores renomados, essa era a rotina dele.
A facilidade do jordan para infiltrar e pontuar num garrafao fechado, seu arsenal de alternativas ilimitados, seu fadeaway quando recebendo marcação dupla e a explosão física de pippen no contrataque…
ok, estou parecendo viuva do jordan, mas o que mais seria necessário, que esse time não tem, para trazer a certeza da vitoria para o chicago? abs P.S. lembrando que Kerr e Hodges não são curry mas estavam lá para serem usados…

Danilo: Apontei no meu texto sobre as chances do Warriors de quebrar o recorde de vitórias do Bulls da temporada 1995-96 que a afirmação do Charles Barkley de que “aquele Bulls engoliria esse Warriors” não fazia muito sentido. Mas minha intenção não era dizer que o Warriors ganharia daquele Bulls, nem que o atropelaria, apenas que a certeza de um atropelo de qualquer parte é absurda. As regras da NBA são tão diferentes, os esquemas táticos tão distintos, que não faz qualquer sentido a gente definir que um time seria muito superior ao outro. Veja: se por um lado Jordan acabava com aquelas defesas montadas contra ele, é preciso lembrar que existiam restrições para a marcação dupla e era proibida a defesa por zona. Hoje seria possível criar defesas inteiras – inteiras MESMO, com 5 jogadores – apenas para impedir que Jordan jogasse. Por outro lado, as regras de contato mudaram e Jordan iria muito mais para a linha de lances livres, recebendo mais faltas do que na sua época. Só que vale para o outro lado: Jordan não poderia ter sido um defensor tão agressivo quanto foi, porque se complicaria com faltas do outro lado da quadra. Hoje é mais difícil passar tanto tempo com a bola na mão quanto na época do Jordan, e seus arremessos famosos de último segundo são no mano-a-mano, algo que as defesas atuais possuem mais capacidade de evitar. Jordan teria que espaçar mais a quadra, ficando mais no perímetro que nunca foi o forte, enquanto Curry naquela época teria seu físico destroçado pelas infiltrações no garrafão. Esse tipo de cenário é como imaginar o Hulk verde enfrentando o Hulk cinza: não dá pra saber quem ganharia, mas afirmar a total superioridade de um dos lados é deixar a emoção nublar a razão.


Carlos:
Entre muitas coisas que aconteceram em 2015 na minha vida descobri que vou ser pai. Na nóia de pensar em tudo que vai acontecer escrevi um email pro Shea Serrano (infelizmente ex Grantland) , falando o quanto ler os textos dele me ajudaram a ver que é foda mesmo ter filhos e crescer mas a gente faz o que tem que fazer quando a vida aparece com esses inesperados. E eu falei de vocês. Lembrei daquele texto do Royce White (o melhor texto do BP na minha opinião também) e tudo que vocês me apresentaram e me ajudam a viver a vida (David Foster Wallace incluso). E chegamos nisso tudo de alguma maneira graças ao basquete. Queria saber o que vocês também creditam ao basquete (vendo o jogo, lendo sobre, conversando com alguém) que mudou a vida de vocês também. PS: leio vocês acho que quase desde o começo e o Apoia.se era tudo que eu queria pra poder contribuir, continuem. Vocês são incríveis mesmo.

Danilo: Acredito que o Denis tenha respostas pessoais e até o incentivo a responder essa pergunta novamente em outra oportunidade, então responderei por mim. Quando era adolescente tive alguns problemas familiares que me tiraram muito da percepção de sentido das coisas e que, naquela NUVEM NUBLADA que é a adolescência, pareciam que nunca teriam fim. Mas a capacidade de seres humanos de abandonarem todos os problemas que eles possuem, a ausência de sentido, a desesperança, e aí traçar uma LINHA IMAGINÁRIA e dentro dela inventar sentido, regras, objetivos e chamar isso de “basquete” me apontava a beleza de criar sentido na UNHA, coletivamente, compartilhando nossas invenções e nos tornando, de fato, uma humanidade. Foi o basquete que me segurou naquela época, que me deu um incrível apreço pela resiliência e a criatividade humana, que me fez ver arte na existência que cria para além das limitações da vida cotidiana. Muito tempo depois, em outras circunstâncias, quando estávamos numa pequena crise profissional, o Denis e eu criamos o Bola Presa e parecia que havíamos inventado um meio de compartilhar aquela “criação de sentido” que eu havia recebido – e que havia me mantido vivo – anos antes. Porque o basquete (e qualquer outra prática esportiva, na verdade) explicita que só faz sentido eu tentar encaixar uma bola num lugar exageradamente alto sem dar mais de três passos com ela se VÁRIAS PESSOAS compartilharem dessas regras, desse objetivo, dessa invenção completamente desnecessária. Então compartilhar o basquete, as histórias, as possibilidades do jogo – e como isso se relacionava com o mundo de fora dele – parecia manter viva a essência do basquete, mesmo que não fossemos agentes ativos dentro de uma quadra, por exemplo. Nos momentos em que o Bola Presa chegou a comprometer nossas vidas pessoais, que não tínhamos tempo para escrever, que o retorno financeiro era zero, acredito que foi justamente esse senso de comunidade que o basquete criou para nós, de devolver aquilo que recebemos com novos sentidos num ciclo infinito, o que manteve o blog vivo até hoje.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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