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Quem parece mais feliz, Eric Gordon ou Chris Paul?

Acabou a novela Chris Paul. Ah, sempre sonhei em acompanhar uma negociação do mundo esportivo na imprensa tradicional e chamar algo de “novela”. Só não é mais legal do que chamar o período de um treinador de “era”, mas tá quase lá. Vocês devem lembrar do enredo dessa que contamos nesse post aqui. Se não lembra, vai lá ler que a gente espera aqui antes de começar o último capítulo.

O grande final da novela Chris Paul teve uma reviravolta interessante. Ele foi para Los Angeles como deveria ter ido semana passada, mas ao invés do Lakers ele vai jogar no Clippers: Como em uma boa novela, é o pobre bonzinho que se dá bem em cima do rico esnobe. Depois que as trocas feitas pelo General Manager Dell Demps foram vetadas pela NBA, dona do New Orleans Hornets, o próprio David Stern conduziu as negociações. E, se querem saber a verdade, ele foi muito bem. O Hornets manda Chris Paul e em troca recebe Eric Gordon, Al-Farouq Aminu, Chris Kaman e uma escolha de 1ª rodada do Draft do ano que vem, bem valiosa por ser originalmente do Minnesota Timberwolves.

O negócio é muito bom, antes de mais nada, porque eles recebem um baita jogador em troca. O Eric Gordon fez uma temporada muito boa ano passado, com 23 pontos e 4.4 assistências de média e um jogo muito mais completo do que qualquer um imaginava dele. Aquele simples (e eficiente) arremessador de longa distância passou a driblar, infiltrar e até a dar umas enterradas monstruosas. Ele tem apenas 23 anos e já flerta com uma qualidade de jogo que pode levá-lo à condição de estrela na NBA. Na pior das hipóteses será “apenas” um excelente pontuador. Ao trocar um grande jogador, nada melhor do que receber um que é mais novo e que indica que pode chegar em nível parecido com o que está deixando o time.

Junto dele vêm outro promissor jogador, Al-Farouq Aminu, que no seu primeiro ano de NBA na última temporada foi discreto, mas longe de ser um fracasso. Pecou mais pela falta de consistência do que de talento. É mais um clássico jogador que foi muito cedo jogar entre os profissionais mas ainda pode dar certo. Ironicamente o seu melhor jogo foi contra o Hornets, quando fez 20 pontos, 8 rebotes e 2 roubos em 29 minutos. Aminu tem apenas 21 anos.

O mais velho da troca é Chris Kaman, de 29, curiosamente menos do que Luis Scola, Lamar Odom e a mesma idade de Kevin Martin, os três que o Hornets receberia naquela troca vetada com o Lakers. Kaman tem sofrido com contusões ao longo de sua carreira, mas quando joga é um dos melhores pivôs ofensivos de toda a NBA. Caso eles queiram investir apenas na garotada, podem conseguir uma troca para Kaman num futuro próximo. O seu salário é alto, mas vimos nessa offseason como a maioria dos times não liga de pagar muito alto por pivôs apenas razoáveis, que dirá de um que sabe jogar basquete. E caso queiram ficar com ele, não seria absurdo. Jogadores técnicos como Kaman costumam render bem durante muitos anos, é só as contusões não voltarem.

Mas a grande vitória do Hornets na troca foi ter conseguido a escolha do Wolves. O Clippers quase pulou fora do negócio quando a NBA disse que queria a escolha e mais Eric Gordon, o time de Los Angeles insistia que era um ou outro, mas acabou cedendo para ficar com Chris Paul. A escolha é essencial para apressar o processo de reconstrução do time. O Draft do ano que vem é considerado o com melhores jogadores desde 2003 e agora eles tem grandes chances de terem duas das 5 primeiras escolhas. Por mais evolução que o Wolves possa ter nessa temporada e de bons jogos que Eric Gordon possa ter, é inegável que os dois times são fortes candidatos às últimas colocações do Oeste.

A troca é o oposto da vetada com o Lakers. Aquela focava em jogadores mais velhos, prontos para render e nenhuma garantia para o futuro. Com Scola, Odom e Martin o time não teria a escolha do Wolves e era capaz deles ainda jogarem bem o bastante para a escolha do próprio Hornets não ser tão boa assim. O fato da NBA ser dona de um time e sair por aí vetando trocas é ridículo, isso não muda. Mas David Stern já pode pensar em largar a vaga de comissário da liga e entrar no mundo dos General Managers, ele mandou bem demais e deu boas perspectivas para o futuro do Hornets.

Por outro lado o Clippers abriu mão de muita coisa com a esperança de ter dado o passo definitivo para o mundo dos grandes times. Entre perdas e ganhos diria que eles fizeram a escolha certa. Muitos críticos nos EUA dizem que em uma troca o vencedor é sempre o time que sai com o melhor jogador. O argumento é que jogadores medianos ou até bons podem ser encontrados aos montes, mas que estrelas são raras. Ou seja, o Knicks pode fuçar a NBA e aos poucos recuperar gente do nível de Danilo Gallinari e Wilson Chandler, mas não teria outra chance de ter um cara como Carmelo Anthony. Não sei se a regra se aplica sempre, não é tão simples assim, mas ela definitivamente faz sentido muitas vezes e o caso do Clippers é um deles.

O Chris Kaman é um bom pivô que daria segurança à jovem dupla de Blake Griffin e DeAndre Jordan, mas não daria para segurar uma troca por causa dele. Griffin já é um All-Star e DeAndre Jordan acaba de ser reassinado pelo Clippers pela quantia assombrosa de 43 milhões de dólares por 4 anos! Se você paga isso para o seu pivô é porque confia nele e vai ser titular. O cara ainda é bem cru no ataque, ponto forte do Kaman, mas foi o terceiro jogador que mais enterrou na NBA no último ano (o segundo foi Griffin, atrás apenas de Dwight Howard) e pode segurar a barra numa boa. É uma perda sentida, mas contornável.

O mesmo vale para o Eric Gordon, que é fora de série, mas se destaca por ser um pontuador e pontos não vão faltar para o Clippers se o Chris Paul jogar no nível que costuma atuar. O elenco do Clippers tem uma ótima base no Griffin, uma boa aposta e defesa no DeAndre Jordan e ganhou reforço do Caron Butler, que assinou um contrato de 24 milhões por 3 anos. O ala ex-Mavs defende bem, ataca com consistência, sabe criar o seu próprio arremesso e é experiente. Uma contratação dessas pede outras que sinalizem algo mais do que ser só mais uma grata surpresa.

Os pontos que eram de Gordon também podem vir dos dois armadores que ficaram da temporada passada e que podem atuar tranquilamente na posição 2: Eric Bledsoe, que atuou assim no basquete universitário, e Mo Williams, que no Cavs cansou se ser efetivo sem a bola na sua mão. Ou seja, o Clippers perdeu um grande jogador, mas tem no elenco gente que pode de alguma forma compensar o que ele oferecia.

Agora, existe alguém que possa fazer o que Chris Paul faz? O cara é um dos melhores ladrões de bola da liga (talvez o melhor em tirar a bola da mão do adversário, não em interceptar passes), um dos passadores mais precisos, é rápido, sabe criar o próprio arremesso e até rebotes consegue pegar. Sua criatividade já levou um time bem mais ou menos do Hornets até o jogo 7 da semi-final do Oeste em 2008. Em resumo: Um pontuador como Eric Gordon não é o que faz um bom elenco dar o passo do meio da tabela para o topo, mas um grande armador, pela sua função, pode conseguir o feito. O Clippers percebeu isso e decidiu arriscar.

O risco é alto, mas eles deram um jeito de diminuí-lo. O Chris Paul já havia dito que ao fim dessa temporada iria optar por sair do seu contrato e se tornar um Free Agent, indo provavelmente para o New York Knicks. Mas o Clippers fechou o negócio com a garantia de Paul de que ele não irá optar por sair do contrato, garantindo assim pelo menos duas temporadas de pontes aéreas entre Paul e Griffin para povoar o Top 10 semanal da liga. Se dois anos não for tempo o bastante para o time engrenar e Paul decidir ir para Nova York de qualquer jeito, paciência, mas ninguém pode dizer que o Clippers foi acomodado. Amaldiçoados eles são e tudo, de repente, pode dar errado, mas estão correndo atrás do que podem fazer.

O time está se movimentando tanto nessa curta offseason que está até com excesso de jogadores. Sem saber que conseguiriam Chris Paul e prevendo a citada necessidade de um armador mais experiente e que organizasse o jogo mais do que Mo Williams e Bledsoe, eles tinham acabado de contratar ninguém menos do que Chauncey Billups. O armador foi anistiado pelo Knicks e, ao contrário da última vez que a anistia valeu, dessa vez os jogadores dispensados ficaram à disposição dos times abaixo do teto salarial para uma espécie de leilão. Só virariam Free Agents irrestritos, disponíveis para todos os times, se os abaixo do teto não dessem nenhum lance. O Clippers aproveitou a vaga preferencial e foi o que deu a oferta mais alta, 2 milhões de dólares, para levar o armador.

O porém era a vontade do Billups. Assim que foi anistiado ele se mostrou bem frustrado e disse que não estava mais em idade de ficar mudando de time por aí, que queria só ir para um lugar onde pudesse brigar por títulos e sossegar até o fim da carreira. O Clippers certamente não passava essa impressão. Tanto que a NBA fez questão de mandar um e-mail para o Billups avisando-o de que ele seria punido se não se apresentasse ao time que venceu o seu leilão. Para não ser punido, Billups teria que se apresentar ou anunciar a aposentadoria.

A questão é se essa troca pelo Chris Paul muda a opinião de Billups. Talvez colocar o Clippers já na categoria de candidato ao título seja um grandíssimo exagero, mas certamente é elenco para ir para os playoffs. E difícil imaginar um time que vá ser mais divertido do que esse! Será que o Billups não quer ser um mentor, um líder de vestiário, para a dupla Griffin e Paul? E, assim como Bledsoe e Williams, ele pode jogar na posição 2 e poderia até ter vaga no time titular. Já jogou assim no começo de carreira, tem bom arremesso e é forte fisicamente para dar conta na defesa. A altura e a velocidade atrapalham na hora de marcar caras mais altos, mas Jason Kidd está aí para mostrar que esses obstáculos podem ser superados com a experiência. É motivação o bastante?

Não duvido que o Clippers esteja planejando uma troca para conseguir um shooting guard clássico para a posição, mas não vejo porque ter um desespero para isso. Os outros armadores dão conta do recado. Paciência, como tiveram para conseguir Chris Paul, é essencial. E é necessário lembrar que o Billups, pela forma que foi adquirido, não pode ser trocado até o fim da temporada e como Bledsoe é novo e barato, não deve sair tão cedo também por vontade da diretoria. O mais forte candidato a possível troca é o Mo Williams.

E sabe quem precisa muito dele? O Lakers, que ainda não conseguiu o armador que tanto sonha. O Clippers deveria mandar o Mo Will de presente e dizer que é um favor para um primo pobre.

Monte sua liga de fantasy

>Acho que hoje em dia quase todo mundo já sabe o que é um jogo de fantasy, certo? Chegamos a fazer um post explicando os princípios do jogo alguns anos atrás, mas de lá pra cá já temos fantasy de futebol brasileiro, futebol europeu e até mesmo de basquete brasileiro, no Basketeria. Isso sem contar as ligas de futebol americano e beisebol que são cada vez mais jogadas por aqui.

Para quem não entende, recomendo o post citado acima, mas resumo: Uma liga de fantasy é um campeonato virtual onde você monta o seu time e os resultados são gerados de acordo com o desempenho real dos jogadores. Se o Kobe faz 81 pontos na vida real, vale pra você. Se o Kris Humphries pega 20 rebotes, conta para o seu time. Se ele termina com a Kim Kardashian, fica deprimido e para de jogar, você se ferra.
O Bola Presa, sempre na vanguarda dos joguinhos infantis, tem uma liga de fantasy própria que irá começar sua 4ª temporada agora. Não é relevante, mas devo dizer que eu sou o atual campeão da liga. O sucesso do nosso divertido campeonato rendeu muitos pedidos de entrada, o que me fez criar uma segunda liga, que também deu muito certo, funciona direitinho e os participantes do Brasil todo até se encontraram recentemente em São Paulo para um basquete na vida real.
A experiência dessa segunda liga foi bem interessante porque depois de participar da escolha dos participantes e do desenvolvimento da liga, eu praticamente a deixei de lado. Vários integrantes diferentes foram assumindo algumas funções e hoje a liga funciona de maneira independente sem que eu precise mexer um dedo: Eles se entendem, eles arrumam o que precisam e até podem votar nas próprias novas regras. Eu joguei a ideia, juntei as pessoas e elas se viraram.
O sucesso dessa empreitada na Liga 2 e a lista de espera que não para de crescer me fez ter a ideia de abrir para todo mundo aqui as regras do nosso fantasy. Já que não temos a tecnologia para fazer tudo de maneira automática (seria um sonho, mas trabalhoso e caro) e nem o tempo para cuidar individualmente de cada liga, por que não divulgar as regras e deixar as pessoas organizarem as suas ligas? Com mais gente jogando fantasy até nos abre o espaço para comentar sobre isso aqui no blog.
É o que fazemos aqui. 
Dei uma atualizada rápida no texto da regra da liga e elas estão disponíveis nesse link.
Os comentários ficam abertos para o pessoal se organizar e se juntar. Nossas regras são para uma liga de 24 times, mas nada impede que sejam menos ou mais. Quanto mais times, mais trabalhoso e mais jogadores ruins seus times vão ter (essa é a graça, eu acho), com menos times dá pra ter esquadrões de estrelas (o que é chato, também na minha humilde opinião), mas é mais fácil de juntar uma galera e jogar. A escolha é de vocês, as regras funcionam pra qualquer tipo de liga. Nada impede que vocês peguem o espírito da coisa e mudem o que achar melhor, o importante é se divertir!
Nosso e-mail, bolapresa@gmail.com, fica para qualquer dúvida, que resolveremos sempre que necessário.
Também trabalharemos em divulgar as ligas que vocês criarem, para ajudar a juntar a galera. 
Como exemplo, cito novamente a liga original, a primeira. O endereço do blog da liga é esse aqui.
Lá vocês podem copiar qualquer ideia. E para ajudar ainda mais, disponibilizo aqui os modelos de planilhas que usamos por lá:

Rookie Scale (nossa sugestão de salário para os novatos, já que uma das propostas é a liga ter seus próprios salários ao invés de usar os da NBA)

Elencos e Salários (modelo de planilha com o espaço para todos os times, jogadores, salários, escolhas de Draft e tudo mais que os times precisam)

Painel de Free Agents (na nossa liga todo Free Agent vai para leilão e leva quem oferecer mais, usamos esse painel para nos organizar na época mais legal da temporada)

Classificação (básico, a classificação da liga dividida por divisões e conferências)

Calendário (aqui o calendário que usamos na temporada passada, a pré-locaute. Ainda estamos fazendo a nova, com calendário reduzido, mas vale pelo modelo)

Lembro que não estamos organizando novas ligas. Só queremos ajudar quem quer fazer o que fizemos anos atrás quando criamos a nossa, com as nossas regras, nossos gostos e em que fazemos tudo na mão. Estamos aí para divulgar nosso modelo, ajudar em juntar gente e dar dicas para iniciantes. Divirtam-se!

Dono da Bola – Cleveland Cavaliers

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Dan Gilbert não é pão duro como a foto sugere

Dan Gilbert
Temporadas no comando: 6
Playoffs: 5
Títulos de divisão: 2
Títulos de conferência: 1
Títulos da NBA: 0

Riqueza estimada: 1.5 bilhão de dólares
Comprou o time por: 375 milhões de dólares (2005)
Valor atual da equipe: 355 milhões de dólares
Maior contrato oferecido: Larry Hughes  (US$60 milhões, 2005)
Técnicos contratados: 2 (Mike Brown e Byron Scott)

Durante um bom tempo Dan Gilbert teve uma história comum para os donos de time da NBA. Era um empresário de sucesso, ficou milionário, depois bilionário e por gostar de esportes decidiu ter como investimento/hobby um time de basquete. O cara era tão comum que muito torcedor da NBA nem sabia o nome dele, mas isso mudou de um ano pra cá. Nos últimos meses deve ter sido o dono de equipe mais citado pela imprensa especializada, ultrapassando até figurões como Mark Cuban, James Dolan e Jerry Buss.

Comecemos com a história tradicional. Em 1985 Dan Gilbert reuniu os 5 mil dólares que juntou entregando pizzas na faculdade e fundou a Rock Financial, empresa de crédito imobiliário. A companhia foi crescendo pouco a pouco até que estourou nos anos 90 quando decidiu usar a internet para fazer os seus negócios diretamente com os clientes. Em 2000 uma empresa chamada Intuit comprou a Rock Financial, mas três anos depois Gilbert a comprou de volta e como CEO a renomeou para Quicken Loans. Sim, você conhece esse nome, é o mesmo do ginásio onde o Cavs joga, apelidado de “The Q”.

Como homem de negócios o Dan Gilbert é um sucesso. Sua empresa sobrevive muito bem mesmo sendo da área que desencadeou a crise econômica de 2008, ficou no Top 30 da Forbes de melhores empresas para se trabalhar e o cara foi listado no ano passado como o 293º homem mais rico dos EUA.

Mas o que achei de mais interessante na história do Gilbert é como ele está investindo em duas das cidades mais decadentes dos Estados Unidos: Cleveland e Detroit. Ambas vivem recessões terríveis há tempos e que foram agravadas pela crise econômica, sofrem com desemprego recorde nos EUA e parecem em um buraco sem fim. Não vou aqui julgar se Gilbert foi investir nas duas cidades por apego emocional (ele nasceu em Detroit e é dono do Cavs), bondade ou só porque era um nicho a ser explorado, não importa, vale o que ele faz. Em Cleveland e em outras cidades grandes de Ohio ele conseguiu uma liberação para cassinos, o que trouxe investimentos, empregos e, quando os cassinos ficarem prontos, provavelmente muitos turistas. Para Detroit as mudanças foram maiores: A sede da Quicken Loans mudou para lá e Gilbert começou a financiar a criação de empresas de tecnologia sediadas em Detroit, sem contar que ele comprou diversos prédios no centro da cidade para poder reformá-los, usá-los e assim revitalizar a cidade.

Ele é, portanto, um cara importante no seu meio, nas suas cidades, mas, como a maioria dos donos das equipes, não era muito de chamar a atenção para os fãs da NBA. Ele ficava lá no seu camarote e as grandes e polêmicas decisões sobre os rumos que o Cavs tomava eram feitas pelos técnicos e General Managers escolhidos por Gilbert, que tinham total autonomia e pouca pressão. O dono, aliás, nunca regulou muito dinheiro e aprovou trocas como a do Antawn Jamison e contratos insanos como o do Larry Hughes. Mas o foco saiu dos managers e passou para o dono há pouco mais de um ano, no instante em que LeBron James decidiu levar os seus talentos para South Beach.

Na fatídica noite do “The Decision”, quando torcedores do Cavs queimavam camisetas de LeBron nas ruas, Dan Gilbert resolveu se manifestar. Em poucas horas redigiu uma carta e a publicou no site do Cavs. Nela disse coisas como “EU GARANTO QUE O CLEVELAND CAVALIERS IRÁ VENCER UM TÍTULO DA NBA ANTES QUE O AUTOINTITULADO REI GANHE UM”.

Eu não tropecei sobre o Caps Lock do meu teclado não, ele escreveu esse trecho da carta em caixa alta mesmo, assim como escreveu toda a mensagem em Comic Sans, a fonte mais odiada da internet! Procure a coitada no Word e veja como não é das fontes mais bonitas, mas o ódio sobre ela na internet é algo digno de ganhar um site próprio, um documentário e matéria na BBC. Bizarrices da internet (e de designers metidos a artistas) à parte, só serviu para a carta, que já era uma demonstração de total descontrole emocional de Gilbert, virar piada mundial.

O esquecido dono de time então virou celebridade e as opiniões sobre ele eram as mais diversas possíveis. Por um lado ele era um herói por ter falado mal publicamente do LeBron James, o vilão número 1 da América no último ano, por outro ele era o dono incompetente que teve o mesmo LeBron no seu time durante anos e nunca ganhou um título. Alguns exaltavam o seu jeito desastrado-porém-sincero de se expressar, outros viam o cara como um maluco despreparado para qualquer função dentro do time. Comentários bons ou ruins, Gilbert se tornou um daqueles poucos donos que todo mundo lembrava o nome.

Quando o Miami Heat perdeu a final para o Dallas Mavericks todos esperavam uma palavrinha do dono do Cavs, afinal sua promessa da franquia ser campeã antes do LeBron estava ainda viva, e Gilbert não decepcionou: “Uma velha lição para todos: NÃO EXISTEM ATALHOS. NENHUM”. Novamente o Caps Lock é todo dele. Toda a torcida anti-Heat (o planeta Terra, menos Miami) foi ao delírio, mas os mais sóbrios o associavam a uma ex-namorada ainda inconformada e ressentida. Mesmo quando ganhava, Dan Gilbert não tinha uma imagem lá muito boa no mundo do basquete. Algo oposto da percepção no seu mundo de negócios.

Ele virou notícia de novo quando o Cavs venceu o sorteio que definia a ordem de escolha do Draft 2011, e não só porque ficaram com a escolha 1 (que virou Kyrie Irving), mas também com a 4 (Tristan Thompson). No dia do sorteio cada time escolhe uma pessoa para representar a franquia no programa de TV que anuncia o resultado, geralmente equipes levam seus donos, managers, algum jogador ou, como já aconteceu, sorteiam um torcedor para ir lá tentar dar sorte. O Dan Gilbert resolveu levar o seu filho de 14 anos, Nick Gilbert, que sofre de Neurofibromatose, um distúrbio genético de ficção científica que faz com que tumores possam crescer a qualquer hora em qualquer parte do corpo. Durante a participação de muita sorte, que reergueu a esperança da franquia voltar a ser relevante, ele ainda conseguiu juntar dinheiro e atenção para a “Children’s Tumor Foundation“, entidade de pesquisa especializada em tumores em crianças.

Foi um momento bonito que humanizou Gilbert e fez sua imagem melhorar. Por pouco tempo. Eis que semana passada lá está ele de volta aos noticiários. Nada a ver com LeBron James, nenhuma carta pública e ninguém para ver o lado bom das suas ações dessa vez. Dizem os noticiários norte-americanos que os donos das equipes da NBA estavam prontos para aceitar algumas propostas dos jogadores que estavam emperrando as negociações, mas quando se reuniram entre si, Dan Gilbert e Robert Sarver, dono do Phoenix Suns, rejeitaram as ofertas e tudo voltou à estaca zero. Eram coisas como o não congelamento e mantimento sem restrições dos salários atuais e a chance dos jogadores aumentarem seus salários quando a liga começar a dar mais lucros.

O que revoltou a galera é que um acordo entre as partes deveria estar, claro, em um meio termo entre o pedido por donos e jogadores. O meio termo estava lá, era só aceitar e bola pra frente. A maioria dos donos já tinha feito isso, mas Gilbert e Sarver deram pra trás. O dono do Cavs, aliás, sempre teve uma política de torrar dinheiro, pagar multas e contratar caras de salários estratosféricos para dar um elenco decente para LeBron James (fortunas para Anderson Varejão, Zydrunas Ilgauskas, Antawn Jamison, Mo Williams, Larry Hughes e outros caras mais ou menos), mas agora que ninguém mais quer ir para Cleveland, ele tem essa visão de que não é certo alguns times gastarem tanto e que qualquer economia é necessária. Defender só o próprio time ao invés da liga como um todo não pegou bem entre donos, jogadores, imprensa e torcida.

Foi a vez da internet de novo jogar sua fúria sobre Dan Gilbert e diversos blogs sobre NBA nos Estados Unidos desceram a lenha no cara que havia impedido o fim da greve. Como resposta ele disse no Twitter que “esses blogssistas inventam histórias do nada e tentam fazer seus leitores acreditarem. Triste e patético”. De novo não é erro meu, ele inventou a palavra “bloggissist” mesmo. Não preciso explicar a chuva de piadas e de blogueiros se chamando de blogssistas.

Não sabemos ao certo se o que aconteceu foi isso mesmo, pra falar a verdade nem sei o quanto apenas dois donos podem empacar o que os outros 27 querem. Mas é o que foi noticiado. Como afirmo desde que começou a greve, nenhum dos dois lados se sente na obrigação de contar tudo o que acontece para a imprensa e para os fãs, que são completamente ignorados, e tudo o que sabemos são de fontes anônimas que muitas vezes estão manipulando a imprensa para fazer jogos com a outra parte. Nesse caso, portanto, Dan Gilbert pode não ser vilão como muita gente quer que pareça. Mas convenhamos que é fácil, prático e conveniente jogar nossas frustrações com a falta de NBA em cima do cara da carta em Comic Sans.

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“Dono da Bola” é uma série que faz perfis dos donos de equipes da NBA. Abaixo o link para os textos já publicados dentro dessa coleção:

Philadelphia 76ers – Ed Snider
Boston Celtics – Wyc Grousbeck
Washington Wizards – Abe Pollin
Los Angeles Clippers – Donald Sterling

Bravos com quem?

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Queima de estoque

Terminada a Final da NBA, com Dallas Mavericks campeão, demos uma respirada por aqui. Não, o blog não acabou, não entramos em greve, não fomos raptados por alienígenas e nem passamos a fazer parte de uma gangue de anões que assaltam bancos, apesar dos boatos. Mas acompanhamos os últimos jogos da Final já meio aos trancos e barrancos, tentando assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, então o final da temporada da NBA veio como um descanso necessário.

Agora, quase três semanas depois do título da Dallas, é oficial: temos greve na NBA. Jogadores e donos de equipes não entraram em acordo então todas as atividades relacionados à liga estão paralisadas – mais do que isso, estão proibidas, e por tempo indeterminado. Nada de trocas, contratos novos, treino, summer league, amistosos, viagens para a Europa para fazer propaganda da liga ou multas pro Gilbert Arenas no Twitter. Isso quer dizer que a NBA está congelada em carbonite, como o Han Solo no “O Império Contra-Ataca”, então teremos bastante tempo para postar por aqui longamente sobre cada um dos escolhidos no draft, as trocas que aconteceram até agora, e principalmente a greve – vamos analisar não apenas as regras, mas também a situação econômica, o capitalismo, a rotação da Terra, essas coisas, e até analisar algumas alternativas para o sistema salarial da NBA.

Podemos tratar dessas coisas com tanta calma, já que sabe-se lá quando a NBA vai voltar de novo, que vou até aproveitar para tratar um pouco da Final da NBA, agora longe do calor do momento. Até porque no calor do momento o que predominou foi só bordoada para todos os lados – contra o Heat, que amarelou; e contra o Mavs, que só ganhou “porque o Heat amarelou”. Foi melhor mesmo deixar as cabeças esfriarem no mundo ao invés de sair como um maluco lutando contra toda a internet, bloqueando oito manés no nosso Twitter por segundo, ou questionando cada um dos comentários infelizes nos sites por aí. Teria sido uma baita bobagem. Já escrevemos para o Bola Presa a tempo suficiente para entender que basquete não é tão sério assim e que perder minhas noites de sono discutindo contra odiadores na internet seria a segunda coisa mais inútil do mundo – só perdendo para aqueles botões idiotas que você precisa apertar para entrar em bancos agora; será que eles têm medo de ser assaltados por algum terrível ladrão sem dedos?

Confesso, no entanto, que mesmo sem ter tempo para postar acabei gastando mais tempo do que devia silenciosamente assistindo às reações diversas ao título do Mavs e a derrota do Heat. Blogs, comentários, Twitter, fóruns nacionais e gringos – aquele tradicional regime de masoquismo, em que se lê uma opinião mais estúpida do que a outra em sequência, sem parada, e que eu costumo chamar de “conhece a teu inimigo”. Dado o tempo necessário tanto para esfriarem as críticas quanto a minha recepção delas, talvez seja hora de voltar ao assunto. Simplesmente porque elas são muito surpreendentes e, como sempre, dedam um bocado nossa cultura e nossos tempos – algo que acreditamos firmemente aqui no Bola Presa.

Eu já estava preparado para um jorro de ódio concentrado em cima de quem perdesse quando escrevi sobre nossa cultura do ódio, sobre como achamos o ato de torcer algo natural que na verdade é construído, apenas um filtro para delimitar o que olhar, um filtro para encaixar o indivíduo em um grupo ou em uma identidade, e que esse filtro ignora as perguntas profundas e realmente importantes para se contentar com o que é mais superficial – “ele é melhor”, “ele é amarelão”, “ele é o inimigo”. Mas eu não estava nem um pouco preparado para que esse ódio recaísse tanto em cima dos perdedores quanto dos vencedores. A quantidade de horrores ditos ao Mavs – como se desse para ser campeão da NBA por acaso, “ops, escorreguei numa casca de banana e ganhei um título, hi-hi-hi, que divertido!” – me pegou completamente de surpresa e provou que o buraco é mais embaixo. Ninguém está a salvo.

Mesmo em meio à sua viagem interplanetária, o Denis fez questão de ressaltar os méritos do Mavs que levaram a equipe a ganhar um título. Às vezes parece que a vontade de desmerecer o Heat é tão grande que, para dizer que a equipe é uma merda e mesmo assim chegou a uma Final de NBA, é preciso desmerecer todo o resto – todas as outras equipes que perderam, todas as equipes fantásticas eliminadas, e até mesmo o Dallas Mavericks que, diabos, é “apenas” o campeão da budega inteira. É um dos claros exemplos de quando a vontade de rebaixar o adversário ofusca todo o resto e até o vencedor acaba indo pra casa melancólico, como se tivesse ganhado só porque todos os outros times eram uma porcaria. Por sorte, o Mavs foi lá e, com todo o dinheiro nerd do Mark Cuban (que pagou a festa em Dallas ao invés de deixar que a cidade tradicionalmente arque com os custos), fez uma festa monstruosa digna de um time fantástico que conseguiu superar uma NBA inteira – uma NBA forte, competitiva, de alto nível.

Eu entendo perfeitamente a vontade de torcer contra esse Miami Heat, do mesmo modo que se torceu tanto contra o Lakers com Malone, Shaq, Kobe e Payton, e até mesmo contra o Celtics que acabara de reunir Garnett, Pierce e Ray Allen. É a vontade de torcer contra o mais forte, contra o grande favorito, manter a esperança de que o fraco – como a maioria de nós, fracassados – ainda tem chances de superar o forte. Minha única ressalva é com o modo que essa torcida contra é feita, a ponto de acabar sobrando para o Mavs, diminuído como nenhum outro campeão da NBA na história recente. Isso porque se o Heat era tão ruim assim, tão amarelão, ou simplesmente “perdeu para si mesmo”, não há mérito que pertença ao Mavs – e aí lhes arrancamos aquilo que é mais precioso em uma vitória esportiva, que é não a conquista a qualquer custo, mas a conquista merecida, conquistada. Talvez por isso haja tanta torcida contra esse Heat, porque sentimos que uma vitória deles não seria conquistada, que o time era “uma trapaça”. Mas a derrota deles, ainda que na Final, prova que as coisas não são tão simples assim – não é trapaça justamente porque não adianta só juntar uns carinhas bons por aí.

Quando o Celtics foi campeão da NBA em 2008, Garnett, Allen e Pierce venceram o jogo coletivo do Pistons na Final do Leste. Muita gente torcia contra a apelação do trio. Mas bastou que eles vencessem o Lakers de Kobe na Final para se tornarem “a família que venceu o fominha solitário”. A mentalidade de analistas, técnicos e torcedores passou a indicar que o melhor modo para vencer seria juntar três estrelas e forrá-las com jogadores velhinhos disponíveis, aproveitando o fato de que todo mundo topa ganhar pouco para poder jogar com essas estrelas e ter chance de título. Nos dois anos seguintes, o “fominha” Kobe foi campeão da NBA ao lado de Pau Gasol, finalmente reconhecido como estrela depois de tantas críticas de amarelão. Novamente, era óbvio que para ser campeão era preciso ter mais de uma estrela no seu time e cercá-lo de jogadores secundários sólidos. LeBron, Wade e Bosh foram jogar juntos seguindo a nova lógica predominante na NBA, nada absurdo, mas repentinamente se tornaram “as estrelas fominhas” jogando contra o jogo coletivo “benéfico” dos adversários. É mais do que memória curta, é negar completamente qualquer senso histórico.

Mas a relação de ódio com o Miami Heat é – assim como acontece com o ódio por Kobe – diferente. As críticas direcionadas a eles não são de que não jogam bem, de que o plano tático está errado, de que os estilos de jogo não funcionam. As críticas são morais. Kobe e LeBron são egocêntricos, apaixonados por suas imagens, pedantes, desrespeitosos, farsantes, que absurdo dizerem por aí que são como Michael Jordan, merecem perder. As críticas nao são preferências pessoais dos torcedores, questões táticas, estilos de jogo – as pessoas estão verdadeiramente bravas. Elas acusam, ofendem, denigrem, diminuem. Muito, muito bravas. Mas com quem, afinal de contas?

Basicamente, são se suporta a ideia de que esses jogadores sejam tão anunciados e vendidos como algo que parecem não comprovar ser em quadra. É muito falatório, muita imagem, muitas comparações com Jordan, programinha pra mostrar onde o cara vai jogar, filme pra mostrar o cara treinando. É terrível, é uma overdose, é um exagero, e esses jogadores parecem acreditar em tudo que se diz deles – se acham os melhores jogadores do planeta, agem como se fossem os melhores do planeta, e quando perdem a torcida tem aquele gostinho saboroso de ver uma mentira sendo desfeita bem diante dos nossos olhos. “Eu sabia que ele não era tudo isso”. E a gente torce pra ele não ser tudo isso mesmo.

Estamos bravos com o marketing. Com a mídia. Com as campanhas publicitárias. Com imagens sendo vendida todos os dias. Estamos bravos, muito bravos, com uma cultura que cria imagens comercializáveis, que cria lendas, heróis, vilões, que trás de volta em versões em alta-definição todos os jogadores que já deram certo no passado. Bravos com essa realidade, na mídia, que tenta ser mais real do que o real.

Ninguém em sã consciência acha que LeBron não treinou o bastante, que ele e Wade se juntaram achando que iam ganhar sem ter que se esforçar. Todo mundo sabe que eles treinaram como malucos ao fim da última temporada, que o jogo dos dois ganha novas facetas a cada dia, que um dia o LeBron não teve mão esquerda, que o Wade não arremessava nenhuma bola de três pontos. Quando alguém diz que é bem feito que tenham perdido por acharem que podiam ganhar sem nenhum esforço ou treino, com certeza não acha de verdade que não houve esforço ou treino – isso seria ridículo, débil-mental. O que essa pessoa está dizendo, na verdade, é que está puto com a festa que o Heat fez ao contratar LeBron, Wade e Bosh, uma festa com fogos, música épica, luzes psicodélicas, e os jogadores prometendo oito mil títulos num discurso escrito horas antes por algum marqueteiro. Shaquille O’Neal prometeu títulos em todos os times em que jogou e só cumpriu no Heat, mas ninguém liga. Com ele não teve fogos, tecno, luzes piscantes e todos os jornais do mundo tagarelando sobre a mesma coisa. A dificuldade que o torcedor comum tem em engolir as besteiradas que os jogadores do Heat falam é como essas bobagens repercutem na mídia – como são criadas para e por ela, e tentam ser maiores do que qualquer realidade que o time tenha chances de apresentar em quadra. Nenhuma partida do Heat pode ser tão fantástica quanto o que aparece no comercial de TV e na campanha de internet. Não dá para comparar.

LeBron já mostrou que é decisivo nos playoffs. Fez um dos jogos mais espetaculares de todos os tempos, aquele em que marcou 29 dos últimos 30 pontos da equipe e levou o Cavs à vitória contra o Pistons fodão num Jogo 5. Mas isso nunca será o bastante se ele foi anunciado como o maior jogador de todos os tempos desde que tinha 16 anos de idade, se sua imagem é vendida todos os dias como sendo o melhor jogador do planeta, e se a mídia insiste em compará-lo com Michael Jordan. É por isso que eu digo, constantemente, que LeBron e Kobe não podem vencer: tudo que fizerem não será suficiente, e tudo que fizerem será criticado por gente que está de saco cheio do culto às suas imagens na era do 3D. É fato, essas imagens cultuadas são difíceis de engolir e só costumam descer pela goela dos próprios LeBron e Kobe – e mesmo assim só às vezes. O ponto é que se te dizem que você é um gênio desde os 16 anos de idade, se te dizem que você não precisa mais ser pobre, que sua mãe solteira não vai precisar mudar de emprego toda semana, e tudo porque você é fantástico e tem o poder não apenas para salvar a si mesmo, mas também sua mãe, seus amigos, sua comunidade, sua cidade, Cleveland inteiro… você acredita. É claro que acredita.

Crescemos com essa vontade enraizada de nos descobrirmos especiais. “Harry Potter” não é sucesso só porque a Emma Watson é a maior gracinha, todo mundo quer ser arrancado de sua família idiota e de sua escola imbecil e descobrir que é na verdade alguém fodão, essencial para a história da humanidade, alguém de que as profecias avisavam. Muitas das nossas lendas estão focadas na ideia do herói anunciado, e a cultura do capitalismo depende muito dessa ideia de que você pode se tornar herói do dia para a noite, basta se esforçar muito e ter um pouco de sorte. Então não adianta vir com falsa modéstia e dizer que qualquer um resistiria à chance de ser “O Escolhido” (como LeBron tatuou nas costas), o cara fodão que vai fazer história e salvar o seu povo. O capitalismo vive de vender essa imagem (“você também pode ser rico, se chegar até aqui”), as marcas vivem de vender o herói utilizando seus produtos (promessas de felicidade, de ser um pouco herói como eles se você usar um tênis novo), a mídia vive de vender esses heróis e o interesse por eles (“assista ao jogo, vai ser o melhor da história!”) , e é claro que esses supostos heróis acreditam em si mesmos – se não acreditarem não serão heróis ou, pior, serão criticados por serem “amarelões”, como assim o LeBron não quer decidir o jogo final? Não há a possibilidade do cara não comprar a imagem que tentam vender dele, dele não querer ser Michael Jordan. Estamos tão bravos com a imagem que é vendida que se o cara não for tão grande quanto a imagem que eu comprei, ele é uma farsa idiota. Mesmo que ele não tenha nada a ver, diretamente, com a imagem criada.

Há uma quantidade surreal de xingamentos direcionados, especialmente, a Kobe e LeBron em tudo quanto é site por aí, e nos comentários aqui no blog, no nosso Twitter e no nosso formspring. Nenhuma das ofensas ou acusações pessoais faz qualquer sentido porque não fazemos ideia de como essas pessoas são em suas vidas, ou de como seriam sem tamanho assédio, oportunidades, pressões, dinheiro, poder, idolatria, críticas, ofensas. É por isso que essas ofensas não são reais, são apenas uma raiva mal direcionada. A fúria é com a cultura que cria essas imagens enormes que não condizem – nem nunca poderiam condizer – com a realidade.

Nowitzki foi campeão e nunca haviam criado uma imagem dele. Não uma imagem positiva, pelo menos, só tacavam merda no alemão. Então ele vence, ganha um anel, e é o cara mais modesto do mundo, claro. Para os jogadores que, desde que nasceram, imagens foram criadas e talhadas a alturas impossíveis, nenhuma vitória poderá ser taxada de humilde, e nem mesmo de satisfatória. Todo erro, todo deslize será punido como um horror, uma discrepância inaceitável com a imagem que eu comprei e a realidade. Mesmo que LeBron e Wade estejam agindo como qualquer jovem da idade deles agiria na vida real. Mas eles não podem ser reais. Em nossa cultura, nunca ganharão essa chance.

Senso histórico

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Nowitzki em foto tão velha que o Sonics ainda exista

Qualquer um pode chegar agora, sem conhecer nada de NBA, e se apaixonar pelo que está acontecendo. São duas grandes equipes se enfrentando, alguns dos melhores jogadores do planeta, um time que juntou três estrelas e foi crucificado, outro que tenta voltar à Final há anos e nunca foi levado a sério. É uma história bacana para acompanhar em qualquer situação e com qualquer idade. Mas alguns fatores, me parece, só surgem frente ao senso histórico. A importância dessa Final é completamente diferente se você acompanhou o Mavs durante a última década – se vibrou com o estilo ofensivo porra-louca de Don Nelson e Steve Nash, se assistiu ao time aprendendo a defender sob a tutela do Avery Johnson, se viu a derrota na Final para Wade e Shaq em 2006, se acompanhou a melhor campanha na temporada regular cair para o Warriors em 2007. É quase como acompanhar um filho que apanhou na escola, que foi taxado de nerd, que já esteve por cima, que perdeu a namorada, e agora tem barba na cara. O Mavericks vai ser um time bacana de acompanhar para qualquer um que chegar agora à NBA. Mas para quem viu a trajetória, é difícil conter uma lágrima emo no cantinho do olho que a gente só deixa escapar ao som de NX Zero. Há quase 5 anos critico o estilo de jogo do Dallas Mavericks e aí estão eles de volta à grande Final, com mais chances de ser campeão do que nunca tiveram. É lindo. É como ver um filho mesmo, aquele filho que você avisou que seria um fracasso e agora vai conseguir um diploma de mestrado.

Esse Mavs já tentou ser só ataque, já tentou se focar só na defesa, já tentou correr, já tentou jogar na meia-quadra, mas se tem uma coisa que continua sempre igual e que desenha uma identidade nesse time são as jogadas no perímetro e o excesso de isolações. Até mesmo as jogadas mais elaboradas da equipe são iniciadas com alguém sendo deixado sozinho contra a defesa, e eu sempre achei isso um desperdício. Funcionava no Cavs de LeBron, funcionou no Celtics de Pierce, Allen e Garnett, mas o Mavs sempre teve muito mais potencial do que isso. Meu desgosto com a equipe nunca foi por eles serem ruins, mas sim por serem bons pra burro e jogarem fora a chance de serem ainda melhores. Jason Kidd sempre foi mal aproveitado na equipe, as jogadas de transição sempre acabam no perímetro e ele passou várias temporadas só passando para o lado, isolando companheiros para que jogassem no mano-a-mano. É uma pena, se é pra fazer isso me contrata, eu sei passar para o lado e ainda conto piadas no vestiário, não precisa ter um dos melhores armadores da história do esporte no seu time. Mas não dá para discutir com os resultados. Aos poucos o ataque foi ficando mais maleável, rodando mais a bola. O Rick Carlisle foi colocando em prática um ataque mais coletivo e o mais importante: uma defesa por zona.

Em dezembro do ano passado falei com detalhes sobre a mítica defesa por zona do Dallas, como ela funciona, e fiz até uma retrospectiva da equipe até chegar a essa defesa. Vale a pena dar uma lida para se preparar para a série que começa às 22h de hoje, o link para o post é esse aqui. O importante desse texto é que essa defesa não apenas mascara as limitações defensivas individuais dos jogadores, ela também permite que Tyson Chandler e Brendan Haywood usem o melhor de suas habilidades, que é a mobilidade lateral e a capacidade de defender os dois lados do aro contestando todas as infiltrações que conseguem furar a zona. Não é acaso que o Kobe praticamente não tenha finalizado próximo ao aro e que eventualmente o Westbrook ficou confinado aos arremessos de meia distância quando enfrentou o Mavs. Mas a defesa por zona também garante que o Mavericks sabe jogar bem contra esse tipo de marcação e portanto roda mais a bola do que antigamente. Ver aquele Mavs de antigamente e depois ver esse, botando em prática a melhor defesa por zona da NBA, é para fazer qualquer coitado que acordar de um coma de 6 anos ter um aneurisma. Mesmo mantendo alguns padrões questionáveis, aquilo que mudou dentro da tática do time transformou a equipe finalmente em uma máquina assustadoramente eficiente. Não há nada na defesa e no ataque que, ainda que questionáveis, não sejam executadas à perfeição.

Só fico um pouco triste porque essa melhora do Mavs acaba escondendo uma das melhoras mais impressionantes que já tive o prazer de acompanhar: o jogo de Dirk Nowitzki. Como eu disse, ter senso histórico muda o sabor de algumas coisas, muitas vezes para melhor. O Nowitzki que eu vi chegar à NBA era um ala mirrado, arremessando de longe, com pavor de contato físico. Chegava à NBA para ser simplesmente um arremessador. Não conseguia defender bulhufas, nem ponto de vista. Foi aos poucos se aproximando do aro. Passou a pegar rebotes, se posicionar bem quando perto da cesta. Bem marcado, foi encontrando novas maneiras de fazer seu arremesso encobrir as defesas. Os giros nos arremessos foram ficando impecáveis. Os arremessos de média distância, mais confiáveis, foram prevalecendo e deixando as bolas de três pontos cada vez mais secundárias. Era uma pena, apenas, que ele fosse tão tristemente anulado quando marcado de maneira física. Bastava grudar o corpo nele, peito-no-peito, e o Nowitzki era obrigado a colocar a bola no chão (ou seja, sair quicando a bola), e isso era uma merda porque sua infiltração sempre foi desengonçada, estabanada, um alemão tentando sambar depois de três cervejinhas. Lembram como Udonis Haslem, menor mas mais físico, tornou a vida do alemão um inferno em 2006? Mas Nowitzki passou a infiltrar mais, ganhou um passo rápido para a direita, um giro para a esquerda, passou a proteger bem a bola e a cavar faltas. Criou um jogo de costas para a cesta que pode forçar faltas, girar rumo à linha de fundo para uma enterrada, ou arremessar por cima do seu marcador. Se tornou um bom defensor, sólido, que não comete erros táticos mesmo que não possa se apoiar numa defesa atlética ou veloz. Nessa temporada, passou a encontrar Chandler e Haywood livres embaixo da cesta em suas cada vez mais frequentes infiltrações. As bolas de três pontos ainda estão lá, mas são uma parte minúscula do seu jogo. A evolução nas habilidades de Nowitzki é um troço lendário, nível Goku mesmo. Para quem chegou agora, talvez não pareça. “É só um cara arremessando sempre do mesmo lugar”, você pode pensar. Mas quando a marcação aperta e ele gira para o fundo, finalizando com força com as duas mãos acima do aro, você nunca vai entender porque nós mais velhinhos estamos emocionados e incrédulos. O Nowitzki era eficiente, um dos melhores arremessadores que o jogo já viu, mas ele não aceitou limitar o seu jogo. Isso é lindo. Isso é mágico. Isso é muito, muito raro (né, Dwight?).

Eu entendo quem diz que o Nowitzki não é um jogador completo. É verdade, ele não faz todas as coisas que jogadores mais versáteis como Kobe ou LeBron podem fazer. Mas o Nowitzki é o mais completo que é possível ser quando se tem 2,13m de altura e não se possui físico privilegiado ou condição atlética de super-herói. Nowitzki faz um absurdo com o que lhe foi dado, e o mais importante: ele impôs seu estilo ao jogo, e não o contrário. Só porque um cara tem 2,13m ele precisa jogar debaixo do aro? Ele é mais eficiente longe da cesta, ele cria novas possibilidades para sua altura, ele quebrou paradigmas e mostrou que é possível dominar um jogo sem ser físico. Nowitzki passa a bola quando atacado por uma marcação dupla, ele pode ter acertado todos os arremessos que deu em um jogo e mesmo assim não tentar de novo, não forçar nenhuma bola, porque quer obedecer ao plano de jogo e envolver os companheiros. E, é claro, ele não ganha nenhuma admiração por isso. A gente quer o cara que assume o jogo sozinho e ganha no muque, como Jordan fazia. O Dirk passa a bola então ele é um banana. Repito: o alemão pegou os paradigmas e jogou no lixo. Só é uma pena que, se não ganhar um título, nunca terá isso reconhecido. Mesma coisa com LeBron James, infelizmente.

Aquele mesmo senso histórico que pode tornar as coisas mais legais pode também tornar as coisas muito mais chatas. Ao invés de ver o tempo como uma trajetória capaz de explicar e iluminar o presente, é possível tentar comparar o passado com o presente, mesmo que todas as circunstâncias (regras, jogadores, cultura, mentalidade, tipos de treinos) impossibilitem esse tipo de análise. E quando isso acontece tem sempre gente comparando Jordan com o Kobe, sem entender que a mudança na realidade histórica muda também as possibilidades de um jogador em quadra, e dizendo que o Dirk deveria ser de um jeito ou de outro, “porque assim são os grandes, assim são os melhores”. Notícia chocante: Nowitzki é um dos melhores jogadores de seu tempo e assim entrará para a história, como sempre aconteceu antes dele, mesmo que o Dirk passe a bola sem forçar um único arremesso e prefira que o Mavs gire a bola no perímetro a tentar vencer sozinho uma marcação dupla.

Ontem falamos do Heat, de como o ataque pode parecer mas não se permite ser estagnado, mas como esse ataque reagirá à defesa por zona do Mavs? Como Udonis Haslem, LeBron e Bosh – que devem ser todos responsáveis pela marcação de Nowitzki – vão reagir ao seu agora vasto arsenal ofensivo e ao fato de que ele não terá receio de acionar seus companheiros no perímetro? Erik Spoelstra já avisou que LeBron deve marcar o JJ Barea, simplesmente porque, como mostrei nesse post aqui, o caminho do armador fica livre quando a defesa se foca no Nowitzki. É isso que o Mavs quer, impor um jogo coletivo quando os olhos estiverem no alemão. E o alemão topa, o alemão permite, o alemão é um jogador único, completo dentro de suas possibilidades.

Vamos ignorar esse pessoal que uso o tempo e a história para estragar tudo aquilo que se apresenta diante dos seus olhos, vamos aproveitar essa Final espetacular, e agora só nos vemos aqui no blog quando a Final já tiver começado: história sendo feita.