Botão do apocalipse

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Caron Butler chora uma lágrima de sangue pelos seus companheiros do Wizards

Durante o fim de semana do All-Star, o Wizards resolveu apertar o botão do apocalipse. Com 17 vitórias e 33 derrotas, o time tem a segunda pior campanha do Leste e a quarta pior de toda a NBA. A equipe aturou o Gilbert Arenas contundido por muito tempo com a esperança de que, com ele de volta, pudesse competir pelo título do Leste. Afinal, Arenas, Jamison e Caron Butler são todos All-Stars e não é qualquer time que consegue ter tantas estrelas juntas ao mesmo tempo. Mas nessa temporada o Wizards aprendeu duas coisas: a primeira é que contar com o Arenas é impossível, porque ou ele vai estar contundido ou vai ter caído numa piscina de xarope, bebido água da privada ou colocado pó-de-mico na cueca de algum companheiro de equipe. A segunda coisa é que nas raras vezes em que Arenas, Butler e Jamison estão juntos em quadra, eles simplesmente não são muito bons. Falta de química, entrosamento, esforço, defesa, não faltam razões para o fracasso de um trio que parece nunca ter entendido o papel de cada um em quadra e que nunca se levou muito a sério. Vendo que não adiantava esperar pela volta do Arenas, então, o Wizards criou um par de bagos, esgotou a paciência, apertou o botão do apocalipse e resolveu se livrar dos jogadores. Como o Arenas ganha 16 milhões e o Jamison ganha 11 milhões (e vai ganhar 15 num contrato que dura ainda mais duas temporadas, fora essa) só sobrou o Caron Butler para interessar algum time na NBA.

Com o Butler no mercado, o Mavs ficou com água na boca. Adicionar o Gooden e o Shawn Marion não adiantou bulhufas particularmente porque o resto do time não defende grandes coisas e porque o Josh Howard cai de produção mais e mais a cada ano. Não faz muito tempo ele era um pontuador excelente com momentos geniais na defesa, com roubos e tocos decisivos e potencial ilimitado. Mas depois de sua polêmica afirmação de que fumava maconha nas férias, problemas com a torcida do Mavs e uma complicada cirurgia no tornozelo durante as férias, ele nunca mais foi o mesmo, joga sem vontade e parece um jogador comum com um salário muito gordo. Trocá-lo por um ladrão de bolas (talvez o melhor de toda a NBA) com mais talento ofensivo que o Josh Howard não foi uma decisão difícil, até o Isiah Thomas conseguiria acertar nessa.
De brinde, o Wizards ainda mandou DeShawn Stevenson, que está velho, se acha a última bolacha do pacote, mas ainda é um defensor razoável, e o Brandon Haywood, que é um ótimo defensor no garrafão e tem tudo para acompanhar melhor o ritmo do Mavs no jogo de transição. O atual pivô do time, Erick Dampier, tem cada vez mais problemas nos joelhos e precisa ser poupado em jogos seguidos, então a chegada do Haywood é essencial para o garrafão do Mavs. O Dampier até que quebra um belo de um galho, especialmente com a ajuda de Jason Kidd (que faz qualquer um render melhor no ataque), e bem provavelmente vai continuar sendo o titular da equipe. Mas o Haywood vai acabar tendo mais minutos do que ele, porque embora nunca tenha sido um gênio nos rebotes, sempre teve um bom tempo de bola e pés bem rápidos na defesa. O pessoal em Dallas já fala de planos de usar os dois ao mesmo tempo contra garrafões mais fortes, o que torna a equipe muito mais versátil.
Para isso, o Mavs teve que perder também o Drew Gooden, mas ele não faz falta para a equipe. O Gooden é muito bom, mas o coitado sempre teve que jogar improvisado a vida inteira. No Grizzlies, equipe que o draftou, tinha que jogar de ala-armador porque não tinha outro mané para ocupar a vaga (o coitado teve que aprender a arremessar de três, sem sucesso), no Cavs e no Mavs tinha que quase sempre jogar de pivô para tapar buraco. Seu jogo sofre muito embaixo da cesta, ele prefere ficar nos arremessos de média distância, mas no Mavs seu talento nos arremessos era meio inútil frente à quantidade de arremessadores na equipe, especialmente o Nowitzki que também joga fora do garrafão sempre que pode. O resultado era o Gooden sendo pago para brigar por rebotes e defender o aro, coisa que ele não faz muito bem e que Haywood vai executar com muito mais facilidade. O Mavs manda também o Quinton Ross, bom defensor de perímetro, e o James Singleton, um ala brigador para dar pancada quando tiver briga com a torcida ou quando alguém não pagar uma dívida.
Pro Wizards, a troca é para começar de novo. Os contratos de Ross e Singleton são praticamente simbólicos e, assim como os contratos de Drew Gooden e Josh Howard, terminam nessa temporada. De repente, com apenas uma troca, o time entra na brincadeira para contratar alguém na imensidão de estrelas que estarão desempregadas ao fim dessa temporada. É um excelente ano para reconstruir, tendo em vista a quantidade de talento disponível, e o Wizards vai ter uma graninha para tentar a sorte. E, por enquanto, só pra não perder demais, fica torcendo para o Josh Howard mostrar que todo o potencial que se via nele não foi ilusão de óptica.
Na tentativa de reconstruir a equipe antes que se diga parangaricutirimirruaru, o Jamison também está disponível para ser trocado e, se conseguirem mandá-lo por mais contratos expirantes, o Wizards vai poder construir um time inteirinho novo com a grana. Mas vai ter que ser em volta do Arenas, porque dele não vai dar pra se livrar. Já cogitam que o Jamison vá para o Cavs ou para o Celtics, por exemplo.
Essa é uma daquelas trocas que pode parecer um assalto, mas que deixa os dois lados felizes. O Mavs se transformou num time muito mais forte. Agora Shawn Marion, Butler e Haywood podem tornar o Mavs uma equipe mais defensiva, Butler vai render tudo aquilo que se esperava de Josh Howard no ataque para desafogar Nowitzki (que não é das estrelas mais constantes em pontos), e o garrafão fica mais versátil porque terá dois jogadores capazes de brigar lá dentro, ao invés de ter um ala improvisado. Ainda acho que não é o bastante para que o Mavs pense em título, mas a aquisição de Haywood é essencial para um eventual confronto com Lakers e Nuggets, donos de um garrafão que faz todo o resto do Oeste fazer xixi na cama. O Mavs tem agora um elenco muito mais forte do que tinha na temporada passada, prova de que seu dono Mark Cuban não poupa verdinhas em busca de um título. O teto salarial dessa temporada é de 57 milhões, e o Mavs passa a pagar 90 milhões! São mais de 30 milhões acima do limite, o que resulta em 30 milhões a mais gastos só com multas (daria pra estacionar uma caralhada de carros fora da vaga). Com o esquema tático favorecendo um pouco mais Jason Kidd e um elenco cada vez mais grandioso ao seu lado, esse Mavs deve ser levado a sério, ao contrário de ser um time invisível que todo mundo sabe que não dá em nada como era até pouco tempo atrás. Ainda não acredito, sou um incrédulo infiel sujo, mas quero mais é que essa equipe prove que estou enganado. Agora, ao menos levo o time a sério. Vai demorar um pouco para todas as peças encaixarem, Haywood e Butler não conseguiram treinar com a equipe ainda, e nesse Oeste mais disputado do que mulher sem gonorreia no carnaval é bem capaz que percam várias posições na tabela, mas para os playoffs estarão firmes e fortes. Enquanto o Wizards assiste tudo em casa, tentando garantir que o Arenas não apronte nenhuma e convencendo alguma outra estrela para jogar com o armador. Vai ser difícil, mas pelo menos foi corajoso – melhor do que o Pistons que não decide se renova ou não renova, manteve o Hamilton e torrou a grana antes de poder brincar na temporada que vem. Funhé.

Panela velha

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Devin Harris horrorizado com o fato de que a campanha
do Nets é quase tão horrível quanto o nome “Tessália”

Apesar de cuspirem em mim na rua e continuarem enviando Playboys da Mara Maravilha para a minha caixa de correio, continuo sendo o primeiro da fila a não acreditar no Dallas Mavericks. Sabe como é, mesmo quando eles conseguem a melhor campanha da temporada acabam encontrando sua kryptonita (o Warriors) e perdendo na primeira rodada dos playoffs, então fica difícil levar a sério. Quando o Mavs trocou o Devin Harris, então, aí é que eu desisti do time mesmo. Provavelmente o jogador mais rápido do universo, era perfeito para dar dor de cabeça em times com problemas para defender armadores velozes, como o Spurs e o Lakers. Era um pouco de juventude num time cada vez mais cansado de tentar, tentar e não dar em nada. Em troca do Devin Harris, o Mavs recebeu Jason Kidd, um gênio inquestionável – incapaz de pontuar, claro, mas perfeito para dar os passes certos, melhorar seus companheiros, acelerar o contra-ataque. Só não entedi para quê serve um jogador assim num time em que todos os contra-ataques terminam em arremessos de três pontos e todas as outras jogadas são isolações para o Nowitzki com alguém esperando na sobra para um arremesso de fora.

Foi com grande tristeza que acompanhei na temporada passada Jason Kidd, um dos melhores armadores de todos os tempos, passar a bola de lado para o Nowitzki e ficar olhando, cutucando o nariz, pensando no que iria comer em casa no jantar. De vez em quando sobrava uma bola pra ele arremessar de três, o equivalente basquetebolístico de você ter a Alinne Moraes e pedir para ela fazer um desfile de burcas. Mais mal aproveitado do que isso, só se pedissem para o Jason Kidd vender amendoim no ginásio.
Antes dessa temporada começar, muita gente perguntou (inclusive na nossa coluna “Both Teams Played Hard”, que volta amanhã, eu prometo!) se o Mavs tinha chances de título com a chegada de Drew Gooden e Shawn Marion. Justo pra mim, que acho o Mavs mais fajuto do que aquele boquete da Tessália! Pode chegar o Marion, pode chegar quem quiser, não adianta nada se o esquema tático da equipe continuar usando o Jason Kidd pra passar a bola de lado. É por isso que a única chegada importante para o Mavs era a do novo técnico, Rick Carlisle. Com fama de estrategista, detalhista, colecionador de jogadas complexas que os jogadores nunca entendem, não decoram e nem conseguem executar, algumas culturas teriam prazer em chamá-lo de “nerd porre”. Mas Jason Kidd tem oito cérebros dentro daquela careca brilhante: se alguém no mundo fosse capaz de executar com perfeição um ataque desenhado por Carlisle, esse alguém seria Jason Kidd. Só que com quase 37 anos, incapaz de defender qualquer armador que tenha fôlego pra ir no banheiro mijar e voltar pro sofá, talvez entender o que o técnico diz não fosse o suficiente para fazer alguma diferença.
Mais da metade da temporada passou e agora temos um Dallas Mavericks orgulhosamente em terceiro lugar do Oeste, mesmo tendo lidado com contusões e jogadores com rendimento muito abaixo do esperado (Josh Howard, eu e meu time de fantasy estamos olhando pra você). Shawn Marion não sabe jogar sem ser na pourra-louquisse do Nash e seus amigos, Rick Carlisle não fez milagre e o ataque – que precisa explorar Dirk Nowitzki como sua principal arma – ainda usa uma caralhada de isolações e pouca movimentação de bola. Mas Jason Kidd está lá, entre os cinco melhores assistentes da NBA, mesmo regendo apenas o décimo terceiro melhor ataque da liga, mesmo assistindo tanto Nowitzki fazer seus pontos complamente sozinho. Nas pequenas coisas, com execuções simples e aproveitando ao máximo todas as novas possibilidades e liberdades que o esquema de Rick Carlisle lhe deu, Kidd faz seus companheiros melhores. E não é papo de odiador do Allen Iverson não, aquela ladainha de “o Iverson é um fominha, ele fede, não faz os companheiros melhores”. O Kidd te problemas pra passar dos 10 pontos, mas realmente garante que, mesmo se não houver esquema tático algum, Erick Dampier vai conseguir cestas fáceis debaixo do aro. Quanto mais a bola fica em suas mãos, quanto mais o ataque passa a fluir por ele, melhor o Mavs vai se saindo. E tudo na miúda, debaixo do edredon (né, Tessália?), com o ataque ainda parecendo uma porcaria, não assustando ninguém, e eu ainda achando que essa droga de time fajuto não chega a lugar nenhum. Só que o Kidd não precisa de apoio moral, não precisa do Bola Presa, nem de juventude, pulmão, água do Jordan no “Space Jam”. Cada vez mais ele faz seu trabalho de maneira simples e eficiente. Rick Carlisle merece um prêmio não por ser grandes merdas, porque ele não é, mas ao menos por permitir que pudéssemos ver o Kidd dos bons e velhos tempos de volta. Mais escondido, mais passivo, mas pelo menos ligeiramente mais aproveitado.
Posso continuar achando que o time tropeça, mas não acho mais que trocar o Devin Harris foi cagada. O atual armador do Nets poderia estar pontuando como um maluco, na correria, e o resto do elenco do Mavs – que é um tanto limitado – estaria apenas olhando em desespero. Ou alguém ainda acha que o Shawn Marion consegue criar o próprio arremesso e pontuar sozinho? Devin Harris sabe colocar a bola debaixo do braço e bater para dentro, mas não é com ele ser líder, frio e calculista. O Mavs não precisa mais lidar com isso, bebendo na simplicidade e liderança do veterano Kidd, mas o Nets não para de apanhar na cabeça. São 4 vitórias na temporada, e dez vezes mais derrotas: 44. E sabe o pior? O time não é tão ruim assim. Não vai ganhar anel de campeão e nem concurso de beleza (diabos, não vai ganhar nem par-ou-ímpar), mas deveria estar sendo um time ruim comum, daqueles que perde dos times bons, ganha de vez em quando de algum time em baixa, e aí a gente esquece completamente quando termina a temporada, tipo o Clippers que é como gordo, a gente só lembra quando morre (porque percebe que sobrou espaço). Não tem nada nessa equipe que deveria fazê-los entrar para a história como a pior campanha de todos os tempos, tirando uma renca de contusões que agora são passado e não estão mais segurando o time.
O que falta mesmo é um líder em quadra, alguém experiente que de preferência tenha mais do que três pelos de barba na cara, capaz de acalmar os outros jogadores, entrar em quadra motivado, comandar pelo exemplo, se atirar em todas as bolas, acreditar até o final. O Devin Harris é um dos jogadores do Nets mais desmotivados, que joga mais no migué, mais no “vamos acabar logo com isso que eu preciso usar o meu Twitter”. Além disso, seu estilo de jogo é perfeito para um time cheio de especialistas, uma defesa forte, e o Nets só tem pirralho que precisa participar do jogo, ser envolvido no ataque, e uma defesa mais furada do que viagem de férias pro Haiti. Não encaixa, não dá certo, e o clima em New Jersey é de enterro. O bizarro é que essa situação só está acontecendo não por causa da troca do Kidd (que iria embora mesmo ao final do contrato) e nem pela chegada do Devin Harris (que já foi até All-Star e não consegue perder 44 partidas sozinho), mas sim pela troca do Vince Carter. Em seu último ano no Nets, Carter foi líder em quadra e nos vestiários, acalmava e incentivava a molecada, decidia os jogos quando necessário mas estava disposto a deixar todo mundo jogar. Não se importava de estar num time ruim, mas não iria deixar seu time ter uma campanha tão vergonhosa. Esse papel de líder é que apagou toda a sua fama de “fominha arremessador maluco que abandona os times quando eles estão perdendo” e acabou convencendo o Magic a topar sua aquisição.
Aliás, o Carter anda jogando mal, muito mal. Enquanto o Turkoglu parece estar melhorando de produção quando finalmente resolveram deixar a bola em sua mão (“Bola.”), como ele fazia quando fingia ser armador no Magic, o Carter parece cada vez fazer mais merda, forçar mais arremessos, prejudicar mais o ritmo da equipe, sempre que o time precisa que ele brinque de armar o jogo. Mas ninguém se importa, em Orlando tá todo mundo sorrindo e dançando macarena: além da segunda colocação no Leste, relatos da equipe dizem que a comissão técnica, os engravatados e os jogadores estão todos muito satisfeitos com a liderança do Carter nos vestiários. Todo mundo gosta dele por lá, sua postura é exemplar e ele está mostrando que aquilo que apresentou no Nets não é mentira pra comer menininhas, ele realemente tem uma postura mais madura – coisa de que o Nets precisava desesperadamente para que o resto do elenco não fique pensando em suicídio antes de cada partida. O Mavs, por sua vez, está muito bem com sua presença madura e liderança em quadra. Pode não dar certo, pode acabar perdendo pro Warriors na primeira rodada, mas ao menos é bom ter o Jason Kidd de volta. E, pelo que estamos vendo, ele ainda jogará em grande estilo até seus 82 anos. O poder de saber fazer as coisas simples, saber liderar um time, ser respeitado mesmo quando se está fedendo.

Ô a maldição voltou…

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Blake Griffin é mal educado e sabe aproveitar seu tempo livre

Queria comentar sobre os novatos da temporada há algum tempo mas estava esperando o Blake Griffin voltar a jogar para fazer isso. Afinal de contas ele foi a escolha número 1 do draft, arregaçou com tudo e com todos na summer league e era forte candidato a ser novato do ano, nada mais justo que dar pelo menos algumas semanas de jogo pra ele antes de sair julgando a classe de novatos do draft de 2009.
Mas acontece que ontem saiu uma notícia dizendo que o Blake Griffin passou por outra cirurgia em seu joelho e ficará de fora de toda a temporada. Sim, é o segundo jogador que foi a primeira escolha a perder toda a temporada de novato em três anos, primeiro foi o Greg Oden em 2007.
O esquisito é que a contusão dele não parecia nada séria, vocês lembram da jogada em que ele se machucou? Foi uma jogada bem bonita, inclusive. Não tem jeito, por mais que seja piada velha, temos que falar da maldição do Clippers, é absurdo como tudo dá errado pra eles! Algumas piadas com coisas típicas da liga, como falar que o Pistons é uma máquina que sempre funciona, que o Zach Randolph só afunda os seus times ou que o Kobe é um fominha se perderam com o passar do tempo, times e jogadores mudam e assim mudam suas imagens, mas desde que o mundo é mundo o Clippers é a síntese do azar: Chris Wilcox, Darius Miles, Michael Olowokandi, Shaun Livingston, dentre outros, já foram a salvação da equipe nos últimos 10 anos.
Como é bem fácil ignorar o primo pobre de LA, muita gente não percebeu, mas o Clippers andou roubando vitórias de times grandes por aí. Logo depois do Natal venceu o Celtics e depois da virada do ano embalou 4 vitórias seguidas contra Sixers, Blazers, Lakers e Heat, alcançando até a marca de 50% de aproveitamento na temporada, coisa que acho que não acontecia a essa altura do campeonato desde a época de Sam Cassell na equipe.
Era difícil acreditar que algum time da zona de playoff do Oeste fosse cair para que o Clippers entrasse, mas com esse aproveitamento todo sem o Griffin podia-se pelo menos ter esperança. O elenco, que sempre foi bom mas nunca se entendia direito, parecia ter entrado em sintonia. A dupla Camby e Kaman, que sempre pareceu estranha pelos dois serem pivôs, se entendeu. O Camby sabe quando sair do garrafão para deixar o Kaman trabalhar com espaço e sabe quando ficar embaixo da cesta deixando o Kaman usar seu arsenal de arremessos de meia distância. Com os dois entrosados o Camby voltou a ter seus típicos jogos de 0 pontos, 15 rebotes e 4 tocos e o Kaman deve jogar o All-Star Game e é o melhor pivô ofensivo da NBA.
O Eric Gordon tem sido um ótimo marcador de pontos para a equipe, faz pouco além disso mas é confiável e o Baron Davis é o Baron Davis de sempre: quando ele acorda afim é um dos cinco melhores armadores da liga, quando não quer, pelo menos quebra um galho. E quando a fase é boa até outros caras aparecem, naquela vitória sobre o Blazers que eu citei, quem liderou a arrancada do time no fim do terceiro período e no começo do quarto foi o Sebastian Telfair! Contra o Lakers foi a vez do rinoceronte Craig Smith e até o jogador que eu mais desprezo na NBA, o Ricky Davis, teve seus momentos.
Mas quando a coisa parecia estar ficando boa e promissora é que acontece a desgraça. Vocês tem que entender que a maldição do Clippers não é simplesmente fazer com que o time seja ruim, isso não tem graça. É uma maldição sádica, que gosta de dar esperança antes pra fazer sofrer mais. Ao invés de não te dar a Alinne Moraes, o que é algo que todos sabemos como é, essa maldição te faz conhecer ela, faz você se apaixonar por ela e aí ficar com ânsia de vômito e soltar tudo no colo da guria no primeiro encontro.
Ao invés de ser ruim por ser ruim, o Clippers tem um bom elenco que não rende. Ou ter a sorte de ganhar o sorteio do draft só pra aumentar a expectativa e o tombo ser maior depois. Não sei em cima de que cemitério indígena eles fundaram o Clippers mas eram indíos cruéis, muito cruéis.
Quer outro caso da maldição fodendo com o Clippers? Na terça-feira eles estavam jogando contra o Grizzlies, em Memphis. O Baron Davis estava naquele seus dias encapetados em que ele decide que vai ser o melhor jogador do mundo. Fez 17 pontos, 9 rebotes e 9 assistências só no primeiro tempo! Os dois times estavam empatados na tabela e ainda brigam pela vaga de time-que-ninguém-dava-nada-e-que-iria-para-os-playoffs-se-estivesse-no-Leste. O Baron Davis estava jogando tão bem que eles estavam vencendo por 12 pontos mesmo sem ter o Kaman em quadra. Ele, machucado, deu espaço para o promissor DeAndre Jordan, que deu conta do recado com 23 pontos, 7 rebotes e 3 tocos.
Então, quando restavam poucos segundos para o fim do terceiro período, aparece uma mensagem no telão do FedEx Forum em Memphis: Uma emergência nos foi reportada, deixe o ginásio pela saída mais próxima. Não utilize os elevadores.
Chegou a passar pela minha cabeça que um ativista defensor do basquete-arte e dos times de verdade resolveu se manifestar em um jogo entre Grizzlies e Clippers, mas acabou que havia acontecido um vazamento no sistema de água do ginásio. Por mais de 30 minutos alguns corajosos torcedores ficaram do lado de fora, com um frio de matar, esperando para ver o seu time que perdia por mais de 10 pontos para a piada da NBA, mas muitos outros foram embora pra casa.
Quem voltou viu a maldição do LA Clippers em ação. Contando apenas o momento desde a paralisação do jogo até o seu final, cerca de 13 minutos de partida, o Grizzlies venceu por 14 pontos e o Clippers acertou meros 4 arremessos de quadra. No tênis isso até é um pouco mais comum: alguém está perdendo, começa a chover, o jogo para, o perdedor coloca a cabeça no lugar e vira o jogo. Mas jogos de basquete não param! Que time que está perdendo tem a chance de ter meia hora para se reunir com o técnico e colocar a cabeça no lugar? Tem coisa que só acontece com o Clippers…
Histórias de maldição do Clippers nunca vão faltar e sempre vão ser divertidas de contar, faz parte da fantasia que a gente coloca na NBA para ela parecer ainda mais divertida. Sempre transformamos pessoas em personagens e nesse caso transformamos um time em personagem, mais precisamente o Charlie Brown.
E posso parecer ingênuo, mas acredito no futuro do Clippers. O Griffin foi espetacular em todos os momentos em que esteve saudável e o Clippers realmente tem um elenco bom que, pela primeira vez em anos, tem se entendido. Quem sabe em 2011 eles não viram um bom time? Aí em 2012, quando forem um timaço e todos acreditarem que eles lutam pelo título, o mundo acaba só para eles não terem esse gostinho. Seria uma boa explicação para o fim dos tempos.

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Já tinha prometido esse perfil quando o Abe Pollin, dono do Washington Wizards, morreu logo no começo da temporada. Achei que era a hora de terminar o serviço depois que citei ele no post de ontem sobre o Arenas, dizendo que foi ele quem decidiu mudar o nome do time de Bullets (balas) para Wizards (magos) porque não gostava da conotação violenta do nome.

Abe Pollin
Temporadas no comando: 46
Playoffs: 25
Títulos de divisão: 7
Títulos de conferência: 3
Títulos da NBA: 1

Riqueza estimada: 180 milhões de dólares
Comprou o time por: 1 milhão de dólares (1964)
Valor atual da equipe: 313 milhões de dólares
Maior contrato oferecido: Gilbert Arenas (US$111 milhões, 2008)
Técnicos contratados: 18 (Buddy Jeannette, Paul Seymour, Mike Farmer, Gene Shue, KC Jones, Dick Motta, Kevin Loughery, Wes Unseld, Jim Lynam, Bernie Bieckerstaff, Jim Brovelli, Darrell Walker, Gar Heard, Leonard Hamilton, Doug Collins, Eddie Jordan, Ed Tapscott e Flip Saunders)

Oficialmente Abe Pollin não é mais o dono do Wizards e isso acontece por um motivo bem simples: ele morreu. Mas como foi dono da franquia por 46 anos, a coluna Dono da Bola é sobre ele. Sua morte aconteceu no dia 24 de novembro do ano passado, logo antes de um jogo contra o Philadelphia 76ers, time da cidade onde Pollin nasceu, mas de onde se mudou aos 8 anos de idade para ir morar na cidade onde viveu até sua morte, Washington.
Sua família era dona de uma grande empresa de construção civil da capital americana e em 1964 eles conseguiram juntar dois bons negócios em um só: construir uma grande arena esportiva e comprar uma franquia de basquete, o então Baltimore Bullets. A primeira aquisição foi o time, que ficou em Baltimore até 1973, quando eles finalmente conseguiram construir o ginásio Capital Centre em Washington.
Essa história de um grupo de empresários de uma cidade comprar um time de outra cidade e depois mudar para sua cidade natal foi justamente o que aconteceu com o Sonics, que vendeu a franquia para um grande empresário de Oklahoma City. Mas no caso de Pollin não consegui descobrir se ele, como fez o dono do Thunder, prometeu que o time não mudaria de cidade. Também não sei qual foi a reação da população de Baltimore em relação a isso, talvez não tenha sido tão impactante para eles porque o time não tinha tanta história e porque Washington é uma cidade bastante próxima.
A construção do Capital Centre e depois do Verizon Center mudou a cara de Washington. O Capital era a casa do Bullets, virou a casa do time de hockey Washington Capitals até ser demolido em 2002. Hoje os dois times dividem o Verizon. Como todo bom empresário americano, Pollin não fez o ginásio sozinho e no entorno nasceram diversos outros empreendimentos de entretenimento, lojas, restaurantes, que transformaram a região em um ponto de encontro da cidade. O lado ruim dessa valorização do bairro é que antes da construção do ginásio o local era basicamente de imigrantes chineses, muitos deles tiveram que fechar seus pequenos negócios devido à valorização dos terrenos.
Embora os imigrantes chineses e alguns moradores de Baltimore pudessem não ser muito fãs de Pollin, o resto da cidade era. O dia 3 de dezembro é o “Pollin Day” em Washington e o antigo dono virou o nome da rua do ginásio. Em Washington valorizam muito o fato de Abe Pollin ter arriscado bastante ao gastar boa parte de sua fortuna investindo em equipes que viraram a paixão da cidade, ele poderia muito bem ter investido em qualquer outra coisa e feito muito mais dinheiro arriscando menos.
Para a NBA ele também foi importante, afinal é o cara que mais passou tempo sendo dono de alguma franquia. Ele participou de todas as mudanças e revoluções vividas pela liga desde os anos 60. Foi Pollin, inclusive, quem deu o primeiro passo no que se tornou a grande revolução da última década na liga, o seu crescimento ao redor do mundo.Em 1979, um ano em que os governos de EUA e China ameaçavam uma aproximação, o time da capital foi para o outro lado do mundo disputar uma partida contra a seleção chinesa de basquete. Logo depois, no começo dos anos 80, a China começou a transmitir ao vivo as partidas da liga americana.
Abaixo tem uma pequena matéria da NBA TV com algumas imagens dessa viagem.

A viagem aconteceu em 79, em 78 o Bullets havia conseguido seu maior feito: em 46 anos de comando de Abe Pollin e pela única vez na história da franquia, o time da capital havia sido campeão da NBA. Comentei antes do caso do Sonics e é engraçado que o título do Wizards aparece com destaque no documentário Sonicsgate, que eu comentei meses atrás e que fala sobre a mudança do Sonics de Seattle. Afinal, o título do Bullets veio em um jogo 7 em Seattle. Comentam no filme como um dos momentos mais tristes da história da cidade.
O Sonics, porém, teve sua revanche no ano seguinte quando pegou o mesmo Bullets na final e dessa vez venceu por 4 a 1. Sem dúvida foi o melhor time de Washington em toda a história. Contava com grandes jogadores como Elvin Hayes, o atual General Manager do Lakers Mitch Kupchak, Bob Dandridge e o Hall da Fama Wes Unseld, que era grande amigo de Abe Pollin (os dois, um empresário e um pivô, disputavam torneios de três pontos) e até se tornou técnico da equipe anos depois.
Os jogadores do seus times diziam que Pollin era do estilo paizão, que ia dar conselhos, puxões de orelha e parabéns após as partidas. Logo após o jogo do dia de sua morte, contra o Sixers, o ala Antawn Jamison disse, com lágrimas nos olhos, “Depois das vitórias, saber que você não vai ouvir aquela voz dizendo ‘bom trabalho’ ou ‘acredito em você’ será difícil“. Etan Thomas, outro jogador que passou anos no Wizards, fez um texto bem legal sobre seu antigo patrão.

Lá ele conta uma história de quando fez um discurso em uma passeata anti-guerra em Washington e logo depois foi chamado pelo Sr. Pollin para uma conversa. Etan Thomas é conhecido por ser o jogador mais, digamos, intelectual da NBA. Ele tem um livro de poesia chamado “Mais que um atleta” e é presença constante em discussões sobre política na capital. Esse discurso havia sido logo após a invasão do Iraque, Etan Thomas confessou que pensou “ah não, esse republicano ficou ofendido com o que eu disse e não quer mais que eu trabalhe no time dele”.

Nas palavras do Etan Thomas, esse foi o encontro dos dois:
Entrei no seu escritório, e ele estava lá sentado com um sorriso enorme no rosto e apertou minha mão. Começou a falar que seu filho estava naquela passeata e estava radiante com o meu discurso. Ele disse que depois leu o que eu disse e que estava bastante impressionado. Começamos então uma longa conversa sobre política. Falamos do Iraque, da administração Bush, Vietnã, educação em cidades pequenas do interior… até falamos sobre a gentrificação que tem acontecido na nossa cidade. Ele me contou de sua dedicação em construir casas para pessoas de diferentes rendas e que ele não se focava apenas nas construções para os mais ricos, o que é bem comum em Washington. (…) Quando fomos ver já tinhámos conversado por mais de uma hora e meia. Ele pediu desculpas por tomar tanto tempo meu e disse para eu continuar sustentando o que eu acreditava mesmo que ouvisse muitas críticas.
Depois Thomas conta outra história sobre quando ele fez uma cirurgia no coração. Muitos duvidavam que ele teria condições físicas de voltar a jogar e Abe Pollin fez seu papel de paizão ao dizer o contrário. Ligou para Thomas no hospital, contou histórias de suas próprias operações e disse para ele esquecer a imprensa porque tudo iria acabar bem e ele iria jogar de novo. E, nas palavras de Etan Thomas: “Ele estava mais preocupado com a minha saúde do que em me ver o mais depressa possível na quadra. Isso definitivamente não é o padrão nesse meio. Aquelas conversas significavam muito pra mim“.
Outra história pouco comentada sobre Pollin é a sua relação com Michael Jordan. Depois de aposentado pela segunda vez, Jordan resolveu comprar uma pequena parcela do Wizards. Não comprou uma parcela de Pollin e sim de seu sócio, Ted Leonosis, e se tornou o cara que mandava no basquete. Como não aguentou, foi jogar e para isso vendeu a sua parte como dono do time, esperando comprá-las de volta quando se aposentasse em definitivo.
Mas Abe Pollin não gostou do que viu. Presenciou um jogador grande demais para a organização, alguém que tomou conta de todo o ambiente, com uma personalidade forte demais que queria tudo do seu jeito. Depois que Jordan se aposentou e quis voltar à direção do time, Pollin cortou qualquer esperança de MJ com uma reunião curta de 20 minutos. “A atmosfera ficava no limite, não era um ambiente saudável para produzir um time feliz e vencedor. Eu sabia que iam falar um monte de mim depois disso mas tomei minha decisão e não a mudei“.
Histórias sobre Pollin não faltam, são 46 anos rodando pela NBA. Anos de sobra pra ele fazer coisas legais, ruins, ter boas idéias, péssimas idéias. Ler sobre ele depois de sua morte é achar um monte de puxação de saco, claro, todo mundo vira santo depois que morre, mas de fato ele teve muitas boas contribuições pra NBA e era muito querido pela maioria, principalmente pelos jogadores que atuaram em suas equipes.

O Wizards atua nessa temporada com o nome de Abe no uniforme.


Outros textos da coleção “Dono da Bola” sobre donos de equipes:
Philadelphia 76ers – Ed Snider
Boston Celtics – Wyc Grousbeck

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Devin Harris apela para o “ora que melhora”

O Nets nem é tão ruim assim. No ano passado dissemos como o time era promissor, e quando eles apertaram o botão do apocalipse e trocaram Vince Carter para o Magic, apoiamos a decisão e cheguei a afirmar que a equipe não passaria muito tempo fora dos playoffs. No entanto, eles estão prestes a fazer história: perdendo para o Mavs na quarta-feira, o Nets terá o pior início de temporada de todos os tempos, tendo perdido suas 18 primeiras partidas.

Devin Harris, estrela do time, lesionou feio a virilha e só jogou 7 partidas na temporada. Yi Jianlian, que impressionou a imprensa com seus treinos públicos em New York durante suas férias, ferrou o joelho e está fora por tempo indeterminado. Jarvis Hayes jogou muito bem na pré-temporada mas lesionou o punho nos primeiros dois minutos da estreia do Nets na temporada (isso é que eu chamo de ejaculação precoce) e não jogou desde então. Keyon Dooling e Tony Battie, que vieram na troca do Carter, se machucaram na pré-temporada e ainda não jogaram oficialmente pelo Nets. Chris Douglas-Roberts, que finalmente estava se tornando a arma ofensiva que se esperava dele na noite do draft, pegou gripe suína. O Courtney Lee, que ficou tão puto de ser trocado pelo Magic que jurou vingança contra toda a humanidade, também se machucou e passou uns jogos fora. O Bobby “só jogo em ano de contrato” Simmons ficou gripado e não jogou, mas pelo menos era uma gripe comum. Até o Eduardo Najera, que é tão secundário que nem as lesões lembram dele, acabou contundindo as costas. O Trenton Hassel teve problemas pessoais e passou um tempo afastado. Ou seja, o Nets está mais amaldiçoado do que o set do “Poltergeist”.

O time chegou ao cúmulo de jogar apenas com o Brook Lopez da lista de titulares, e apenas dois jogadores no banco de reservas. Todo o resto do elenco estava de terno, fazendo o Nets parecer mais uma reunião de executivos ou vendedores de seguro do que um time de basquete. Tendo isso em vista, não é surpresa que tenham perdido tanto. Já vi time pior jogando e ganhando uma vez ou outra, esse Nets só tem um azar descomunal que lembra bastante o Clippers e sua lendária maldição. Mas é claro que o técnico, o Lawrence Frank, não ajuda. A gente sempre bateu na tecla de que ele era um dos piores técnicos da NBA (o que imediatamente coloca ele na lista de prováveis ganhadores do prêmio de Melhor Técnico do Ano, vai entender!), jovem demais, nerd demais e incapaz de lidar com a equipe. Estava na hora de mandar o sujeito empilhar coquinho na descida, mas ao menos tiveram a decência de se livrar dele antes que seu nome ficasse para sempre como o dono do recorde de pior começo de temporada.

Os atuais recordistas são o Clippers de 1999 e o Heat de 1988, com 17 derrotas para começar a temporada com o pé esquerdo. Quando o Nets perdeu sua décima sexta partida, o Lawrence Frank ganhou o respiro de que precisava: foi demitido, escapou do recorde negativo, fugiu pela famosa saída pela direita. Quem assumiu o Nets contra o Lakers fora de casa, na certeza óbvia de que iria igualar o recorde, foi um técnico interino de que nunca lembraremos o nome, tipo os oitocentos novos presidentes de Honduras. Ou seja, o fardo da vergonha ficou meio diluído e ninguém vai ter sua foto na Wikipedia do lado do verbete “fracasso”.

Mas agora o negócio começa a ficar sério: se perder a próxima partida, dessa vez contra o Mavs, o pobre-coitado do Nets vai ter o pior começo de temporada já visto pelo homem. Essa sim é uma vergonha que faria até o Clippers corar constrangido, e é preciso ao menos uma tentativa de evitar o vexame. Para isso, assume o Nets o Kiki Vandeweghe. Além do nome filho-da-mãe que exige uma consulta no Google toda vez que se quer escrever, um fato curioso sobre o Kiki é que ele é justamente o responsável pelo pior time que eu já vi jogar.

Infelizmente não tenho muitas memórias basquetebolísticas em 1988, mas eu acompanhava NBA a fundo em 1999 quando o Clippers igualou o recorde de 17 derrotas para começar a temporada. O problema é que naquela época não era tão fácil acompanhar partidas pela internet, ainda havia até aquela coisa bizarra conhecida como “net discada”, o modem fazia barulho ao se conectar, quase como se fosse uma robô prenha dando a luz, e a gente ficava nas mãos basicamente das transmissões para a tevê brasileira. Isso significava, na época, que a gente só via jogos da chatisse do Spurs, ninguém em sã consciência iria transmitir para o Brasil uma partida do Clippers. Isso quer dizer que aquele Clippers pode ter sido um dos piores times de todos os tempos e eu infelizmente não pude ver o elenco jogar. Por isso, o pior time que já presenciei foi o Nuggets de 2002: o Nenê tinha acabado de ser draftado e a televisão brasileira adorava a ideia de mostrar o novato tupiniquim. O resultado foi uma tortura em massa que deve ter afastado milhares de brasileiros do basquete e causado uma série de suicídios coletivos, porque aquele Nuggets fedia demais! A estrela do time era Juwan Howard, que seria terceira opção ofensiva em qualquer timezinho razoável, e todos os outros jogadores desapareceram em pouquíssimo tempo, incluindo um dos maiores desastres da história do draft da NBA, o lendário Nikoloz Tskitishvili, o “Skita“. Draftado antes do Nenê, o pivô da Geórgia faz o Kwame Brown parecer um gênio do basquete e da física quântica.

O Kiki Vandeweghe montou aquele Nuggets terrível, mas também draftou Carmelo Anthony e levou o time para os playoffs. Mas como o elenco nunca melhorava e a torcida queria sua cabeça, acabou indo pra rua, para enfim ser acolhido pelo Nets para dar palpite na reconstrução do time. Por mais polêmico que o cara seja, por mais que ele feda, conseguiu pegar o pior time que eu já vi jogar e levar para os playoffs alguns anos depois. Era exatamente do que o Nets precisava. Mas agora, no desespero, ele assumirá o cargo de técnico do Nets – um nome ao menos conhecido o bastante para receber o peso de perder para o Mavs, e que talvez tenha um nome a zelar o suficiente para tentar impedir o desastre. Ele não tem experiência como técnico, embora tenha sido assistente no Dallas por uns tempos, mas o negócio dele é reconstruir, cuidar da meninada e lidar com jovens talentos. Foi ele quem lidou pessoalmente com o Nowitzki no começo de carreira, e o Nets precisa mesmo se focar mais na parte administrativa, indo com calma com os jovens talentos, do que se preocupando com um baita técnico de ponta para ganhar partidas agora. Olha, já foram 17 partidas pelo ralo em sequência, a temporada já foi pras cucuias, não resta nada para o time além de sentar na guia, chorar as pitangas, tomar uma pinga e esperar pela próxima escolha de draft. Então, que se lasquem as próximas partidas, o negócio é cuidar do núcleo jovem e tentar não queimar ninguém nem permitir que a depressão se instaure no ambiente fracassado do time. Convencer todo mundo de que as derrotas são normais, de que em dois anos eles vão estar nos playoffs, que as lesões foram apenas azar. E impedir, a todo custo, que a décima oitava vitória seguida venha. Esses garotos não merecem seus nomes injustamente na história da NBA, eles não fedem o bastante e isso pode complicar suas pretensões futuras.

É por isso que não importa quantos jogos bons estejam passando na quarta-feira, quantas estrelas estejam em quadra, o jogo a se assistir é o Nets e Mavs. Se o Kiki conseguir uma vitória, será um feito histórico de um time que não merecia se lascar tanto e que em um par de anos estará maduro e brigando com os grandes. E se o Nets perder, será uma chance de ver história sendo feita, algo que maculará para sempre o ânimo dessa equipe. Não perca história sendo feita, você não quer ficar como eu, lamentando não ter assistido o Clippers de 1999, não é mesmo?