Como afundar com estilo

Todo ano, mais ou menos nessa época do ano, começam as discussões sobre se os times que não tem chance de Playoff devem perder de propósito ou não. Para os iniciantes que não entendem o conceito, explico: na NBA os times de pior campanha na temporada são os que tem mais chance de vencer o sorteio que define quais equipes terão as melhores escolhas no Draft de novatos que acontece em Junho.

A discussão começa mais ou menos agora em Março por dois motivos: primeiro que é quando fica ainda mais claro quais são os times que não tem chance de classificação, depois porque é quando começa o mata-mata do basquete universitário, momento em que todos ficam mais empolgados com os talentos que irão para a NBA no ano seguinte.

Eticamente acho que a maioria concorda que ninguém deve perder de propósito, certo? O esporte só é divertido porque todos os lados estão competindo, dentro de um conjunto de regras, por algo que só um pode ter, a vitória. Mas por outro lado, uma boa posição no Draft pode definir muita coisa na história de uma franquia. Imaginem a vida pós-LeBron do Cleveland Cavaliers se eles tivessem tido um time mediano no ano seguinte ao The Decision e acabassem sem Kyrie Irving, mas com, sei lá, Derrick Williams ou Brandon Knight. Nada contra os dois, que são bons jogadores e ainda bem jovens, mas nada que se compare ao que Irving oferece. Se o Cavs tem algum sonho de futuro promissor é porque federam tão fedido sem LeBron que conseguiram a primeira escolha do Draft 2011.

Mas se a ética esportiva manda não perder e o futuro da franquia manda perder, o que fazer? Acho que a resposta está no que o Orlando Magic fez nesta temporada. Com a saída de Dwight Howard e do técnico Stan Van Gundy, o Magic estava obviamente reconstruindo. Ainda sem ter um grande jogador e com um técnico novato, Jacque Vaughn, a temporada fracassada era previsível. Mas isso não significa que eles tentaram perder, muito pelo contrário. Colocaram na cabeça de seus jovens jogadores que era uma temporada de teste, todos lá queriam provar que tinham lugar na NBA e consequentemente no plano de reconstrução do Orlando Magic. Se não tentassem ganhar, estariam fora da liga.

O caso mais explícito disso é o do pivô Nikola Vucevic. Ele teve uma temporada cheia de altos e baixos no Philadelphia 76ers na temporada passada, fazia alguns jogos bons, mas sumia no banco em outros devido a erros que o técnico Doug Collins não conseguia aceitar em um time que brigava por vaga nos Playoffs. Em muitos momentos ele foi substituído por Spencer Hawes porque o pivô do Sixers (que outro dia quase fez um quadruplo-duplo com 18 pontos, 16 rebotes, 8 assistências e 7 tocos!) oferecia mais ataque, passe e arremesso que o novato. Em um time de ataque frágil como aquele do Philadelphia, Vucevic às vezes atrapalhava.

Mas no Orlando Magic ele pode errar à vontade. Não só as derrotas podem ser benéficas para o time, mas eles querem ver o pivô se acostumar a jogar na NBA. Como Phil Jackson bem sabia, nada faz um jogador crescer mais do que jogar em situações complicadas. O ex-técnico de Lakers e Bulls adorava ver seu time ser massacrado sem pedir tempo, gritar instruções ou fazer substituições, eles tinham que aprender e superar, especialmente durante a temporada regular. Em entrevista recente Vucevic disse que nesta temporada está se sentindo mais à vontade em quadra, sem medo de ser punido por errar e que por isso está jogando melhor. Depois de médias de 5.5 pontos e 4.8 rebotes em 15 minutos na temporada passada, tem médias de 12.4 pontos e 11.5 rebotes em 33 minutos de quadra no Orlando Magic. É um dos principais candidatos ao prêmio de jogador que mais evoluiu na temporada.

Embora o caso do pivô Suíço-montenegrino seja o mais relevante, outros jogadores podem sentir a mesma liberdade. Não tenho nenhuma dúvida que para Moe Harkless tenha sido melhor fazer sua temporada de novato no Magic do que sob a pressão de Doug Collins no Sixers, principalmente por ele ter sido um jogador a chegar na NBA com muito a aprender e evoluir. E Tobias Harris, que tinha 11 minutos de média no Bucks, pulou para 30 desde que chegou no Orlando Magic na troca de JJ Redick. O arremessador branquelo, por sua vez, ganhou um presente ao ser trocado de Orlando. Ele já está numa idade onde ficar em um time em reconstrução é desperdício de tempo, onde pode mostrar frustração e insatisfação, provavelmente está mais feliz indo disputar os Playoffs ao lado de Monta & Brandon.

Isso poderia valer também para Arron Afflalo, mas o especialista em defesa está aproveitando bem seu tempo de Magic para mostrar para o resto da NBA que ele é mais do que isso. São 17 pontos por jogo em 44% de aproveitamento num time que sofre horrores para conseguir boas oportunidades de ataque. De repente Afflalo passou de um bom defensor do estilo Tony Allen e Shane Battier para um grupo de jogadores mais completos e pode ser importante peça de troca para o Magic num futuro próximo caso ele não queria gastar seus 27 anos em um time sem chance de nada.

O legal é que os elogios não são para disfarçar nada, o time é bem ruim mesmo. Mas o Orlando Magic encontrou um jeito honesto e produtivo de ser ruim. Eles não fizeram trocas infundadas para afundar a equipe de propósito (como fez por exemplo o Denver Nuggets de 2002 antes de conseguir Carmelo Anthony em 2003) e nem um monte de contrato de aluguel com jogadores que eles não tinham o menor interesse em renovar (como fez o Miami Heat antes de conseguir LeBron James e Chris Bosh). Ao invés disso, montaram um time de jovens jogadores que estão desesperados por mostrar serviço. Quem conseguir, segue na reconstrução, quem não conseguir vai dar o fora. E no meio do caminho eles vão ser ruins e conseguir uma boa escolha no Draft de qualquer jeito.

Muita gente questiona se a regra da NBA não deveria ser mudada para evitar que times percam de propósito ou até que montem times propositalmente fracos. Mas se você pensar bem, isso já existe. Não é o time com pior resultado que ganha automaticamente a escolha número 1, ele apenas tem mais chance no sorteio. É um jeito de não forçar uma corrida para a última colocação, o que tem dado resultado. Nos últimos anos a maior parte dos times que se desmontou foi pensando em economizar dinheiro e em entrar na briga por algum Free Agent, não para conquistar alguma posição vantajosa no Draft. E também é bem comum o time de pior campanha não sair vitorioso no sorteio, só perguntar para o Charlotte Bobcats.

E tem outra coisa, se a regra não for essa, será qual? Um sorteio geral, que não valorize os times ruins poderá render aberrações como o Miami Heat ganhando uma escolha Top 3 no ano que vem, já pensou? Imagina o estrago que o Spurs faria se pudesse usar seus super poderes de olheiros com escolhas Top 10 nas mãos. Os entusiastas da NBA sem times grandes iriam chorar e largar o esporte.

Gosto da regra do jeito que ela é e vejo que os times a encaram do jeito certo, sem foco na derrota. Eu não consigo imaginar uma direção de equipe dizendo para um técnico que eles devem perder, também não imagino isso sendo dito aos jogadores. Não é bom para a carreira de ninguém, que vai muito além do que acontecerá com aquele time na temporada. Sem contar que uma das coisas mais cultuadas no esporte americano é o que eles chamam de “cultura da vitória”. É o que eles dizem que é a grande diferença do Los Angeles Lakers para o Los Angeles Clippers, por exemplo. Uma franquia, segundo o que se diz por lá, sempre foi vencedora, é formada por pessoas acostumadas a ganhar e a outra estava sempre satisfeita com os resultados medíocres. Isso iria desde o dono do time até os jogadores contratados, influenciados pelo ambiente.

Não sei o quanto disso é verdade, lenda ou verdade influenciada por uma lenda, mas é fato que os times se preocupam muito em montar esse ambiente onde a vitória seja comum e a derrota inaceitável. E como fazer isso num time que perde de propósito? Como fazer isso numa franquia onde todos os jogadores passam os primeiros anos de suas carreiras somente com campanhas medíocres pensando em ganhar na loteria do Draft? E digo “loteria” pensando na mega-sena, não numa tradução mais ou menos de Lottery. Sinceramente não vejo necessidade de mudanças de regra e muito menos de uma mudança mais brusca na liga, como já sugeriram alguns com a criação de uma segunda divisão.

Mas se as regras estão boas, não quer dizer que todos os times estão lidando com elas da melhor maneira. O Orlando Magic achou um jeito de fazer um misto de vestibular e estágio com seus jovens jogadores enquanto espera os contratos de Hedo Turkoglu e Al Harrington virarem farofa. Mas o Detroit Pistons, por outro lado, parece um time completamente perdido. Nem vou repetir pela milésima vez como eles ferraram com a vida deles ao gastarem o PIB de um país médio contratando Charlie Villanueva e Ben Gordon há alguns anos, mas digo em relação aos jovens jogadores. Depois de todos esses anos, o quem é Rodney Stuckey? Passaram tantos anos e ele não se estabeleceu na liga e durante anos ninguém soube nem em que posição ele deveria jogar. O mesmo acontece agora com Brandon Knight, o coitado já foi assassinado por Kyrie Irving, enterrado por DeAndre Jordan e nem sabe a posição que joga. É armador? Ou essa experiência dele jogando ao lado do José Calderon indica que querem ele jogando na posição 2 no futuro?

E o mesmo parece estar acontecendo com o excelente Andre Drummond. O jovem ala-pivô parece ótimo, assim como o pivô Greg Monroe. Mas dos 20 quintetos mais usados pelo Pistons na temporada, só um, unzinho (0 mais usado pelo menos) tem os dois jogando um ao lado do outro. A base do crescimento do Pistons é um armador que não sabe se é 1 ou 2 e dois jogadores de garrafão que não jogam juntos? Aonde isso vai dar? O poeta dos garrafões está machucado, mas assim que ele voltar deveria jogar todos os minutos possíveis ao lado de Greg Monroe. Até porque este quinteto com os dois juntos tem saldo positivo: 1,05 pontos feitos por posse de bola e 0,97 pontos sofridos, melhor quinteto defensivo do time na temporada.

Fim de temporada de time ruim é feito para se experimentar, testar, ver no que dá. É para Dion Waiters armar o jogo, para Kemba Walker tentar jogar como líder do Bobcats, para o Kings descobrir se Isiaiah Thomas pode ser titular sem comprometer a defesa e por aí vai. Equipes como estas irão ser ruins e ter poucas vitórias de qualquer jeito. A posição boa no Draft é sorte e consequência, os times só precisam estar bem e prontos para quando o momento chegar.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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