Como analisar a atuação de um técnico?

Há algum tempo pedi para vocês me ajudarem em um post. Usei nosso Fórum para discutir um assunto que há muito tempo me perturba: como medir a qualidade de um técnico de basquete? A discussão rendeu muitas páginas de resposta e inspirou esse texto.

Talvez a palavra “medir” traga um sentido de desejo excessivo de precisão, como a criação de um ranking de técnicos com estatísticas que definam quem é melhor que quem na função. Mas não é isso que eu quero, a intenção é descobrir o que podemos fazer para sermos capazes de julgar o trabalho de um treinador frente a um time. Algo para nos ajudar a lidar com casos como os de Vinny Del Negro.

O técnico do Los Angeles Clippers foi amplamente criticado durante seus dois primeiros anos de carreira no Chicago Bulls e mais ainda na temporada passada, quando muitos diziam que ele só atrapalhava o bom elenco do Clippers com suas experiências nas escalações, improvisos e ataque desorganizado. Mas, de repente, nesta temporada o Clippers é um time estável, com boa rotação, melhor banco de reservas da NBA e um ataque envolvente, inteligente e difícil de ser parado. O resultado disso, claro, são dezenas de comentaristas e torcedores dizendo que é tudo mérito do Chris Paul.

O próprio Vinny Del Negro alimentou esse pensamento ao falar que ele não acredita em sistemas ofensivos complexos, mas sim no basquete simples e que ele basicamente só quer seu time sendo comandado por CP3. O armador, por sua vez, explicou como ele joga: “tento fazer dois jogadores me marcarem e aí toco pra quem ficou livre”. Soa fácil demais. Mas o curioso é que o time ineficiente do ano passado também não tinha Paul como armador? E como explicar o sucesso dos reservas com Eric Bledsoe, Lamar Odom e Jamal Crawford comandando a criação das jogadas quando Paul está no banco?

Existe também conflito e confusão na análise de outros técnicos. Mike D”Antoni foi um dos grandes responsáveis por mudanças essenciais no sistema de jogo de toda a NBA quando criou seu Phoenix Suns do Run and Gun em 2004. Mas a falta de títulos fazem o ver hoje só como um doido inflexível que se recusa a treinar defesa. Qual é o D’Antoni de verdade? E tem Gregg Popovich, reconhecidamente o melhor técnico em atividade, que deixou todo mundo com um pé atrás para criticá-lo na temporada passada depois que ele não soube responder aos ajustes táticos do jovem Scott Brooks após abrir 2-0 na final do Oeste contra o OKC Thunder. O mesmo vale para Phil Jackson, considerado um gênio por todos, que foi dominado por Rick Carlisle nos Playoffs de 2011 e se aposentou sendo varrido por 4 a 0 sem que seu trabalho fosse questionado.

Esses casos me levam a algumas primeiras conclusões. Primeiro que nós não temos ideia de como julgar, pontualmente, o trabalho de um técnico de basquete. Não conseguimos falar e opinar sobre a atuação de um treinador em uma temporada única, uma série de Playoff e muito menos em um jogo único. E, minha segunda conclusão, para superar isso apelamos diretamente aos estereótipos que esses técnicos criaram ao longo dos anos. Então nunca é culpa tática de Popovich, os comandados de Phil Jackson nunca sofrem com insegurança, os de Del Negro estão jogados a própria sorte e os de Scott Skiles sempre querem matá-lo.

O apelo aos estereótipos não é exclusivo aos técnicos, fazemos isso com times, jogadores e tudo mais que temos dificuldades de entender ou explicar (mulheres, por exemplo). A diferença é que me parece mais fácil para um jogador mudar isso. LeBron James finalmente conseguiu fazer alguns cabeças-dura mudarem de ideia quando ele venceu o título da NBA no ano passado, mas mesmo com o título e com os diversos ajustes geniais durante os últimos Playoffs, muita gente ainda olha torto para o técnico Erik Spoelstra. Outro dia vi uma coluna muito interessante de um cara de Miami comentando de como o Spoelstra é muito inteligente de sempre citar ou mostrar o Pat Riley quando pode, como para mostrar que Riley faz parte das tomadas de decisão e que por isso ninguém precisa surtar com medinho dele fazer bobagem.

A nossa ignorância sobre o trabalho dos técnicos é, em parte, justificável. Primeiro que a maioria de nós (comentaristas, torcedores, jornalistas) nunca foi técnico, claro, e nem mesmo jogador, para ter acompanhado de perto o trabalho de um deles. Também não estudamos tática, sistemas de jogo e pouco sabemos sobre estratégias de motivação e liderança de grupos. Por fim, mesmo que tenhamos feito tudo isso, como observar e analisar? Não podemos ver os treinos, não podemos ouvir o que o técnico diz no vestiário, suas entrevistas raramente revelam alguma coisa muito útil -ninguém quer entregar o jogo- e nem os tempos técnicos durante a partida somos autorizados a assistir pela TV. Me parece, portanto, até irresponsável sair por aí afirmando muita coisa sobre os treinadores.

Trago aqui uma experiência pessoal que tenho com treinadores. Como trabalho no Club Athletico Paulistano aqui em São Paulo, com o time de basquete, posso observar mais de perto o trabalho do técnico do time, o Gustavo De Conti. Ele é jovem, entende muito de basquete e, coisa rara dentro do basquete brasileiro pelo o que eu vi, é muito fã de NBA. Eu consigo conversar com ele sobre os jogadores, adversários, vejo, às vezes, alguns treinos e fico logo atrás do banco de reservas para ouvir todas suas instruções dentro de um jogo. Não é comum, mas muitas vezes já vi seus planos darem completamente errado. Coisas do tipo pedir um tempo para solicitar uma atitude de um jogador e logo depois ele fazer o oposto. Ou passar uma semana treinando uma maneira de defender o time adversário e chegar na hora e os jogadores em quadra simplesmente serem dominados pelo talento maior do outro time.

Quando isso acontece penso que quem estiver vendo o jogo pela TV deve estar achando que o técnico tomou decisões erradas, que deveria mudar tudo, que é, como falamos no linguajar de torcedor, burro. Mas às vezes é falta de talento, ou uma ideia ainda melhor do outro técnico ou ainda, claro, desobediência. E nem sempre é uma desobediência que mereça uma substituição ou bronca pública, então ninguém vai ficar sabendo. Imagine quantas vezes Scott Brooks não gritou um “CALMA” para Russell Westbrook, que resolveu então dar um arremesso contestado de longa distância com 22 segundos restantes de posse de bola? Na única vez na vida que vi um técnico de perto, percebi ainda mais como muita coisa que ele faz é imperceptível para quem só vê o jogo. De todo mundo que tem influência direta num jogo de basquete, o técnico é o mais impotente de todos apesar da posição de liderança.

O que é possível ver, especialmente na NBA, não no Brasil, é a consistência de um time. Afinal são 82 jogos e todos com transmissão ao vivo, dá pra insistir em ver um mesmo time e, entre erros e acertos, desobediências e bons momentos, sacar um pouco do que aquele time quer fazer dentro de quadra. E mesmo assim, nem sempre o fato do resultado não estar sendo positivo é sinal de que o cara não é bom treinador. Quem seria capaz de lidar com jogadores jovens e indisciplinados como o Wizards da temporada passada? Talvez desse muito certo com Doug Collins e muito errado com Scott Skiles ou um casamento perfeito com Frank Vogel e o maior desastre da carreira de Nate McMillan. Temos que entender que cada técnico, por sua personalidade, deve saber lidar melhor com tipos diferentes de pessoas. Um se dá melhor com jovens, outro com atletas experientes, um gosta de dar ordens, outro de conversar. E nós, vendo de longe, podemos demorar anos e anos para sacar qual é a de cada um.

Uma análise precisa de um técnico, portanto, pede mais tempo do que a de um jogador. Somente vendo o técnico diante de várias situações diferentes que seremos capazes de analisar melhor sua personalidade e a maneira com que ele aborda o basquete. Talvez há 10 anos eu dissesse que Gregg Popovich fosse um técnico definido pela defesa. Mas hoje, depois de ver diversos diferentes elencos do Spurs em suas mãos, percebo que seu maior foco de trabalho é a movimentação e o bom uso do espaço da quadra.

Mas isso não responde todas as questões. Nós temos um blog e queremos comentar um jogo de Playoff, uma série, como vamos falar dos técnicos? Não dá pra esperar anos, não podemos simplesmente falar da atuação deles como falamos da atuação de Kobe Bryant ou Kevin Durant? Podemos, mas temos que aceitar, antes de qualquer coisa, que ela será uma análise incompleta. Não temos acesso ao plano de jogo e existe a chance de a gente interpretar tudo errado. Mas seguem algumas dicas para sacar qual é a do treinador:

Os primeiros 5 minutos: Os times da NBA costumam começar as partidas com jogadas pré-definidas. Com raras exceções de times muito livres, os jogadores dedam o plano de jogo nos primeiros 5 minutos de jogo. Muitas bolas no garrafão, muitos pick-and-rolls de um certo lado da quadra, excesso de vontade e jogadores indo para o rebote de ataque, tudo é sintoma do que eles acabaram de ouvir do treinador antes do jogo começar.  O mesmo vale para o que o time tenta fazer logo depois de um pedido de tempo.

Jogadas planejadas: Também após os pedidos de tempo é possível analisar um talento muito específico de um técnico, sua capacidade de desenhar jogadas. É comum os técnicos aproveitarem o tempo para pedir uma jogada específica para aquele momento. Uma vez o 82games.com fez um ranking com a média de pontos de cada time nas posses de bola acontecidas imediatamente após um pedido de tempo.

-O fim do jogo: Outros momentos que não dão muita margem ao improviso são os finais de jogo, é quando os treinadores gastam seus pedidos de tempo e quando pedem jogadas detalhadas e ensaiadas a seus atletas. É hora de ver se o cara pede jogadas condizentes com seu elenco, a defesa adversária e a situação de jogo.

-Substituições:  Às vezes estamos tão relaxados vendo um jogo, preocupados entre o Twitter e o amendoim japonês, que nem percebemos que o Samuel Dalembert saiu e que no lugar dele entrou o Ersan Ilyasova. De repente o Bucks começa a tomar vários pontos no garrafão e nós lá engasgados com o amendoim. Essa alteração mostra que o técnico quis mais bolas de 3 pontos, abrir a quadra, mobilidade e abriu mão de alguém para dar tocos no garrafão. Cabe a nós, que queremos analisar a atuação de um técnico, tentar entender o motivo da alteração, a razão dela ter acontecido naquele momento do jogo e, claro, seu resultado. Se deu errado, é um bom momento para ver quanto tempo o técnico demora para mudar de novo, é o Medidor Oficial de Teimosia/Perseverança do basquete.

-Experiências malucas: Todos os jogadores gostam de consistência. Saber quem é titular, quem não é, quantos minutos vão jogar a cada partida. Mas não é por isso que o técnico deve agir assim com tanta regularidade. Julgar um técnico em um jogo só porque ele mudou mais uma vez um quinteto me parece raso demais. Tentar interpretar a mudança, que obviamente não foi gratuita, primeiro é essencial. Quando Rick Carlisle colocou JJ Barea como titular nas finais de 2011 poderia parecer desespero, mas foi essencial para o título do Dallas Mavericks.

-Rotação: O bom dos técnicos consistentes é que assim eles facilitam nosso trabalho. Se o Earl Clark é geralmente o primeiro substituído por D’Antoni no Lakers, por que hoje Dwight Howard saiu antes? Isso deda a maneira que o técnico está enxergando o jogo. Mas apenas que fique claro que a NBA funciona menos como o Brasil, lá não existe tanto a substituição-punição como aqui, quando um cara que faz cagada dificilmente sai imediatamente. Curiosamente esse pensamento militar é mais comum por aqui do que lá, país da guerra.

Outro dia, Gregg Popovich, de formação militar, diga-se, ficou horrorizado quando Danny Green fez uma besteira no ataque. O cara tomou uma bronca e saiu imediatamente para a entrada de Gary Neal, não demorou 10 segundos (de esporro) e Green já voltou para o jogo, com Neal não segurando a gargalhada no caminho de volta para o banco. Até Pop mudou de ideia com sua punição de banco para os jogadores desligados.

Confesso que ler este texto pode ter sido a sua maior perda de tempo no dia de hoje. Afinal, você quer mesmo analisar e “medir” a qualidade de um técnico? Talvez, mas pense de novo. Como dito neste texto primoroso do Grantland, com o passar dos anos nós acabamos nos identificando mais com os técnicos do que com as superestrelas. Tem a ver com o fato de que ficamos velhos e nos frustramos ao ver pirralhos 10 anos mais jovens que nós realizando nossos sonhos, ganhando milhões e pegando as mulheres que vemos nas revistas. Por que eles e não nós? A parte mais difícil de envelhecer é a confirmação de que não somos tão especiais assim, algo que até sabíamos na adolescência, mas que ainda dava tempo pra mudar naquela época.

O técnico é um fracassado como você, ele também não enterra e não namora a Bruna Marquezine, mas ele é o cara capaz de dar um esporro naqueles atletas mimados. Ele é o cara que, como você, velho, enxerga o jogo com uma sobriedade que esses jovens voadores ainda não são capazes. Sem contar que as estrelas, essas de hoje, nunca vão ter aquele impacto em você que os ídolos da adolescência. Você fala no sentido de reclamação, mas no fundo torce que ninguém nunca supere Michael Jordan. É importante que os nossos ídolos da juventude sejam os melhores. Você era o Jordan na época, hoje você é o Tom Thibodeau.

Mas nós devemos ser o Tom Thibodeau? Queremos mesmo parar com o amendoim para anotar as alterações do Milwuakee Bucks? É interessante, para os bitolados, tentar conhecer mais dos técnicos e tentar ser capaz de analisar a atuação deles em cada jogo importante. Mas, mais importante que tudo isso, é deixar de ser rabugento e assistir basquete com prazer. Se livre do preconceito contra Vinny Del Negro, mas, por favor, dê mais atenção à Chris Paul.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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