Complicações do tri

O normal para um time campeão é entrar no ano seguinte como o grande favorito para mais um título. Algumas exceções são os times que se desmontam, como o Chicago Bulls após a aposentadoria de Michael Jordan ou o caso do desmanche recente do Dallas Mavericks, mas em geral é meio que uma lei que enquanto alguém tem a coroa, é o time a ser batido, o modelo a ser seguido, a escolha segura na bolsa de apostas.

Não vou questionar isso, o motivo para o favoritismo é claro e compreensível. É bastante comum um time campeão conseguir repetir o título no ano seguinte, ou pelo menos chegar bem perto disso. A NBA não é Brasileirão e é, até certa profundidade, previsível. Mas para analisar o caso do Miami Heat, o atual campeão, a análise deve ir um pouco mais longe. Se a gente olhar bem, o Heat tem muitos indicadores que mostram que vai ser complicadíssimo repetir o sucesso do último ano.

Heat 2013

Primeiro temos que lembrar o quanto é raro um time conseguir chegar a 4 finais consecutivas. O Heat não é só o atual campeão, mas tem dois títulos em sequência e antes disso o time de LeBron James foi derrotado pelo citado Mavs em 2011. O último time a alcançar 4 finais consecutivas foi o Boston Celtics, que conseguiu chegar na decisão em 1983, 84, 85 e 86, mesma época que o LA Lakers o fez em 1982, 83, 84 e 85. Antes disso, só o mesmo Boston Celtics naquela maluca sequência de 9 títulos em 10 finais entre 1957 e 1966. Ou seja, é raro, é difícil e só aconteceu em épocas pré-salary cap onde era muito mais fácil reunir super estrelas no mesmo time.

Já o último time a conseguir a marca de 3 finais seguidas que o Heat ostenta foi o recente Lakers, que fez o mesmo caminho dos atuais campeões: um vice-campeonato, em 2008, seguido de um bi. A fórmula do Lakers foi montar um time experiente, entrosado e mexer o mínimo possível no grupo de um ano para o outro. Deu certo até que, de repente, todo mundo parecia muito lento, velho e desmotivado. Se o gênio Phil Jackson e o cyborg Kobe Bryant não conseguiram a tal quarta final nenhuma vez na carreira (e os dois são pródigos em tri-campeonatos) é porque a coisa é complicada mesmo.

O mesmo aconteceu com outras equipes, mesmo as que não chegaram em tantas finais seguidas. O Detroit Pistons da década passada, o Boston Celtics dos últimos anos e, com altos e baixos, até o San Antonio Spurs. Todos eles sofreram com o envelhecimento do elenco e com o sistema de jogo, vencedor mas gasto, que de pouco em pouco vai sendo desvendado pelos seus adversários. Na história da NBA é comum que grupos só cheguem próximos do título quando tem mais experiência, mais ou menos quando a média de idade fica lá pelos 28 ou 29 anos, mas isso quer dizer que poucos anos depois o grupo já está naquele perigoso momento dos 30 onde aparecem dores que nunca tinham aparecido antes na vida.

Resumido toda essa enrolação: é raríssimo equipes chegarem a 4 finais seguidas, times experientes vão longe, mas logo eles passam de experientes para velhos e, finalmente, eventualmente as pessoas descobrem como bater os imbatíveis. Vamos situar o Miami Heat em todas essas categorias?

Antes de mais nada, o Miami Heat é um time experiente. Com 30.1 anos de média, é o time mais velho desta temporada, até mais do que o tão criticado asilo do Brooklyn Nets. O time também é o mais rodado da liga, seus jogadores tem, em média, 8.3 temporadas de NBA nas costas, 1 a mais do que o Nets, segundo colocado. A espinha dorsal do time é o trio LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh, que surgiu par a NBA ao mesmo tempo, no Draft 2003, uma década atrás. O elenco de apoio tem em seus principais nomes jogadores que surgiram ainda antes deles, caras como Ray Allen, Shane Battier, Rashard Lewis, Udonis Haslem, Joel Anthony e Chris Andersen. Mais novos só coadjuvantes como Mario Chalmers e Norris Cole. Não custa lembrar que Wade e Bosh ainda fizeram faculdade antes de LeBron, são mais velhos, e as constantes lesões no joelho de Wade são um sinal amarelo gigante sobre a franquia. Enquanto ele estiver rápido e cortando defesas, eles são quase imbatíveis, com ele devagar a equipe fica previsível, estagnada e sem opções de arremessos de longa distância. Nos Playoffs da última temporada Wade teve momentos irreconhecíveis, mas nos jogos mais importantes ele se superou e fez bonito. Até quando a superação vai vencer o joelho?

A questão física, ligada diretamente a idade dos jogadores, é fundamental para o Miami Heat. Eles podem se dar ao luxo de jogar sem pivô e com um time baixo porque o time é atlético, veloz, com especialistas em defesa e assim conseguem cobrir a quadra inteira, dobrar a marcação quando preciso e raramente deixar alguém livre para arremessar. É um time entrosado e bem treinado por Erik Spoelstra, mas a base de tudo está na capacidade física da equipe, que talvez precise usar quintetos não tão atléticos para compensar algumas velas a mais no bolo da galera. Pode parecer exagero meu (e talvez seja no fim das contas), mas é comum ver bons jogadores sumirem de um ano para o outro quando já estão com 30 e vários anos. Um dia parece que envelheceram bem, no outro estão esquentando banco. Até o sensacional, espetacular e salve-salve Tim Duncan teve um par de temporadas fracas (para seu nível) quando ele não estava bem com seu corpo. E estamos falando de um cara que não depende da força física para render bem numa quadra de basquete.

Wade

A outra questão do Heat é o esquema tático, será que os adversários já sabem como batê-los? Este é um caso interessante. Foram três finais e vimos três Heats diferentes em cada ano. O primeiro era um time bem mais lento, individualista e que ralou para aprender a jogar em equipe. No ano seguinte já era um time mais enturmado, que sabia usar mais e melhor os contra-ataques e que já aceitava melhor LeBron James como o principal armador de jogadas, sem bater cabeça com Wade. O time do bi-campeonato foi uma evolução do anterior, mas uma evolução que resultou numa cara totalmente nova. Adeus pivôs, adeus tradicionalismo e Erik Spoelstra resolveu adotar o basquete sem posições fixas, com todo mundo fazendo tudo. Eram muitos arremessadores, time baixo, aberto e agressivo. Então qual será o Miami Heat da próxima temporada? Mais lento como o do primeiro ano? Um repeteco do time vencedor do ano passado? Ou voltarão a usar pivôs e formações mais tradicionais para compensar alguns problemas físicos? Ou, por fim, será que Erik Spoelstra tem mais uma carta na manga? Difícil saber antes sequer da pré-temporada.

No ano passado vimos Chicago Bulls, Indiana Pacers e San Antonio Spurs apresentando diversas alternativas bastante efetivas para parar o Heat. O Spurs mostrou como a movimentação de bola rápida pode matar até a defesa veloz deles, o Pacers torturou os caras com rebotes ofensivos e uma quinteto alto, eficiente no jogo de costas para a cesta. O Bulls obrigou o Heat a jogar na meia quadra e adotou uma defesa tão física quanto a que o Heat impõe sobre seus adversários. São caminhos que esses e outros times podem seguir e tentar executar um com um pouco mais de eficiência. Mas, novamente, depende do caminho que o Heat escolher seguir. O comum são times campeões repetirem o que dá certo, mas o Heat tem mudado bastante de ano para a ano.

Não podemos também esquecer da questão mental. O Miami Heat está motivado e preparado para mais um ano longo, difícil e trabalhoso? Se aqui temos ressaca pós-Libertadores, lá eles também tem aquele relaxamento após uma grande conquista. Dirk Nowitzki pode comprovar isso pra vocês, é comum. Claro que o LeBron James já se disse motivado, ele afirmou que quer ser o melhor da história, assim como não quer voltar a ouvir que é pipoqueiro, mas e o resto do grupo? Cansa ser campeão. E precisa de humildade pra aceitar que o nível de esforço tem que ser até maior que a do ano anterior. Vai ser um desafio para o lado motivador do técnico Spoelstra, conhecido mais pelo seu conhecimento técnico e tático do jogo.

Como disse no começo do texto, acho que qualquer campeão entra como favorito no ano seguinte. Se esse time tem o melhor jogador da galáxia, ganha ainda um bônus. O melhor jogador em questão, LeBron James, vai na contramão do grupo e está veloz, forte e mais em forma do que nunca. Mas quero deixar claro que os desafios são gigantes e que as chances de tudo dar errado são maiores do que na temporada passada. O curioso é que um par de contratações pode resolver uma parte desses problemas, contratações que foram vistas mais como curiosidades do que como algo relevante dentro da quadra: Michael Beasley e Greg Oden.

Beasley

O passado recente não nos faz acreditar no basquete de um e nem no joelho do outro, mas na teoria eles podem trazer o que o Miami Heat busca. Nos seus melhores dias, Michael Beasley é um bom arremessador que é perfeitamente capaz de jogar num esquema tático rápido e agressivo. Vai precisar aprender a segurar menos a bola, mas só de ter a sombra de James e Wade do seu lado deve ajudar. Na temporada passada o Heat foi espetacular quando Wade estava no banco e James jogava cercado de grandes arremessadores como Ray Allen, Shane Battier e Chris Bosh. É nesse formato que Beasley pode entrar, é só acertar os arremessos. Fazer aquela cabeça oca se dedicar na defesa (não estamos nem pedindo para defender bem, só esforço) não vai ser fácil, mas talvez ajude o fato da água estar no seu pescoço. Seu contrato não é garantido e talvez ele nem comece a temporada em Miami. É ralar ou ir procurar emprego na liga chinesa.

Greg Oden, apesar das fotos que vemos dele, não tem 70 anos de idade. Ele é jovem ainda e se seu joelho funcionar, pode ser um bom pivô defensivo na NBA. Não vamos nem pedir para ser o cara dominante, o Bill Russell moderno que ele prometia ser no Draft 2007. É só para se movimentar sem desmontar, proteger o garrafão, dar tocos e pegar um punhado de rebotes. Em outras palavras, um Joel Anthony que saiba jogar basquete. Como disse acima, o Indiana Pacers mostrou que um par de jogadores de garrafão pode fazer estragos no Miami Heat, Roy Hibbert e David West os engoliram nos Playoffs do ano passado. Aí ficou aquele cobertor curto de deixar um time baixo, melhor no ataque mas que apanhava na defesa, ou alto, com jogadores incapazes de segurar uma bola lá na frente, mas que podiam pelo menos contestar Hibbert no garrafão. Oden, se num nível decente, pode ser um ótimo defensor e ainda ser um pivô útil, capaz de receber passes, no ataque. Aproveitando que está em Miami, acho que Greg Oden poderia se focar no exemplo do final de carreira de Alonzo Mourning. Sem o físico da juventude, após muitas cirurgias, Zo virou um especialista em defesa, que aprendeu a usar o timing e seu tamanho para compensar a perda da explosão física. No ataque bastava ser boa opção no pick-and-roll.

Não acho que o Miami Heat dependa do sucesso dos dois para dar certo. Ainda bem, aliás, é tudo bem pouco provável. Mas se por algum motivo as coisas derem certo, poderá ser um pequeno gás de renovação, mudança e alternativas que o Miami Heat precisa para aguentar mais um ano no topo. É o último ano de contrato do time inteiro, vale o esforço para entrar na história.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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