Dominó

Todo ano as coisas são mais ou menos parecidas, mas neste ano em especial, a época de contratações de Free Agents foi uma grande fileira de dominós. Muitas coisas foram conversadas, mais ou menos acertadas, mas uma ou duas ações precisavam ser tomadas para os eventos se desenrolarem. E vai aí um pequeno relato de como as coisas aconteceram nos últimos dias.

Parsons

Tudo começou com o Dallas Mavericks fazendo um joguinho com seu rival de divisão e estado, o Houston Rockets. O time de Mark Cuban surpreendeu a todos quando ofereceu um contrato de 45 milhões de dólares por 3 anos para Chandler Parsons, um Free Agent Restrito do Rockets. A atitude pegou todos de calça curta por dois motivos: (1) apesar de ser necessário, às vezes, exagerar no contrato de um Free Agent Restrito, já que o outro time pode igualar a oferta, 15 milhões por ano para Parsons é muita coisa; (2) todos ainda colocavam Trevor Ariza, Luol Deng e, com mínimas chances, até Carmelo Anthony no radar do Mavs para a posição, era esperado que só após a decisão dos 3 que alguma contratação seria feita.

A atitude, de repente, parecia arruinar todos os planos do sempre metódico Daryl Morey, manager do Houston Rockets. Chandler Parsons tinha uma cláusula em seu contrato que deixava que ele fosse estendido por mais um ano, a próxima temporada, por uma valor ínfimo, menos de 1 milhão de dólares, mais ou menos o que ele já ganha hoje por ter sido uma humilde escolha de 2ª rodada no Draft de 2011. Morey, porém, decidiu não usar essa cláusula e deixar seu contrato expirar.

Parecia uma decisão não só estranha, mas absurda. Tinha explicação, porém: ao encerrar o contrato agora, Parsons se tornaria um Free Agent Restrito que, como dissemos, pode ter sua oferta igualada e assim ser mantido em Houston. Com a cláusula, Parsons ficaria mais um ano no Rockets, mas no ano que vem se tornaria um Free Agent Irrestrito, podendo ir para qualquer lugar. Morey queria ficar no controle da situação, ter a opção de igualar e, mais do que isso, intimidar outros times. Ao saber que Parsons é restrito, eles pensariam duas vezes antes de correr atrás do jogador, sabendo que o Rockets tinha totais condições e desejo de igualar a oferta.

Parsons Dirk

Tudo muito bem pensado na teoria, especialmente para alguém que quer estar sempre no controle das operações. Mas no mercado de jogadores você nunca está totalmente no comando, não dá pra saber o que jogadores e outros times estão fazendo e decidindo. O Dallas Mavericks e o Houston Rockets têm uma relação complicada desde o ano passado, quando o Mavs ficou ofendido ao ser perguntado sobre uma possível troca por Dirk Nowitki logo depois do Rockets ter vencido o Mavs na disputa por Dwight Howard. E nesse ano, pouco depois de Dirk ter dito que aceitaria uma salário menor em Dallas, “vazou” uma informação que o Rockets aceitaria pagar muito mais por ele, o que o Mavs leu como uma provocação, uma maneira de Dirk se deslumbrar e, ou sair do time, ou desistir do desconto.

Por fim, houve o estranhíssimo caso de Gersson Rosas, assistente de Daryl Morey contratado pelo Mavericks no ano passado. Ele passou 3 meses no cargo, pediu demissão na véspera do começo da temporada e logo foi reincorporado ao staff do Rockets. Os dois times deram desculpas esfarrapadas para o que aconteceu, “era um período de testes”, disse Mark Cuban, mas o que dizem é que Rosas deu uma de Jason Kidd e quis aumentar seus poderes logo depois de ser chegado, sendo logo cortado pelo dono do time. É torta de climão após torta de climão entre os dois times.

A oferta do Mavericks por Chandler Parsons causou um bocado de problemas para o Houston Rockets. Eles só tinham 3 dias para decidir se igualariam ou não a oferta, mas ao mesmo tempo estavam esperando uma resposta de Chris Bosh, para quem eles tinham oferecido um contrato de 4 anos e mais de 90 milhões de dólares. Bosh, por sua vez, estava esperando a resposta de LeBron James para seu dilema entre o Miami Heat e o Cleveland Cavaliers. Se LeBron ficasse, Bosh iria continuar em Miami, se ele desse o fora, iria cogitar partir para seu estado natal do Texas e jogar em Houston.

A questão para o Rockets era o teto salarial. Eles poderiam ficar tanto com Chandler quanto com Bosh, mas desde que fizessem tudo na ordem certinha: primeiro trocar Jeremy Lin e Omer Asik, sem receber nada de salário em troca, para abrir espaço na folha salarial; depois assinar com Chris Bosh para preencher este espaço na folha salarial; e, por fim, cobrir a oferta por Parsons usando os “Bird Rights”, que é quando um time pode ultrapassar o teto salarial da liga por estar reassinando um jogador que já era seu. Se LeBron James demorasse demais, sem Bosh se decidir, e eles decidissem ficar com Parsons, o seu contrato comeria o espaço salarial e não haveria como assinar com Bosh. Em resumo: anos de planejamento e eles ficaram reféns de uma pegadinha de Mark Cuban e da indecisão de LeBron James.

Bosh

A pegadinha de Mark Cuban até merecia umas aspas. Ele não ofereceu 45 milhões de dólares para um jogador só para sacanear um rival, é óbvio que ele quer melhorar as suas alas com um bom, jovem e atlético arremessador. Foi uma decisão para melhorar o time. Mas ao mesmo tempo, o timing da oferta e o seu valor foi pensado para ferrar o Houston de uma maneira que eles pensassem mil vezes antes de igualar. Uma jogada de mestre.

Talvez seja a hora de lembrar, porém, que jogadas de mestre nem sempre dão resultado na NBA. Com a decisão por Parsons, Luol Deng e Trevor Ariza estão ainda mais longe do que já estavam de Dallas e, se o Rockets igualar a oferta, o Mavs pode ficar sem ninguém. Isso lembra um pouco uma jogada de mestre do próprio Daryl Morey há dois anos, que também deu merda. Usando um recurso meio esquecido nos contratos da liga, Morey ofereceu contratos do estilo “pílula envenenada” para Jeremy Lin e Omer Asik, ambos Free Agent Restritos. Sem querer me alongar nos detalhes financeiros, eram contratos que pesariam muito mais na conta do salary cap dos times originais dos jogadores do que no dele, forçando os rivais a não igualarem a oferta. Todos pagamos pau para Morey na época, mas desde então tanto Asik quando Lin viraram reservas caros e agora estão sendo embrulhados junto com valiosas escolhas de primeira rodada para abrir espaço para novas contratações.

Deng

Com todo esse cenário montado, LeBron James decidiu dar o tapa na primeira peça do dominó e começar o caos. Como anunciamos aqui com a publicação da sua carta, LeBron James irá voltar ao Cleveland Cavaliers. E lá não havia planejamento, boas contratações ou excelência de franquia que pudesse dar jeito nas coisas. LeBron James se sente responsável por seu estado natal e quis voltar para lá. O Cavs é um time que falhou durante anos em dar a LeBron um time decente, depois falhou ao se reconstruir sem ele e agora ganha o melhor jogador do mundo só porque está bem localizado. Loucura.

O anúncio de LeBron pareceu ser um alívio para os Houston Rockets. O prazo dos 3 dias tinha apenas começado e então eles poderiam se apressar em trocar Lin, confirmar o negócio de Asik para o New Orleans Pelicans e assim anunciar, finalmente Chris Bosh. Mas não. O Miami Heat, que parecia o grande derrotado do dia, resolveu mostrar alguma força.

Quando já apareciam os primeiros rumores do que Dwyane Wade poderia fazer (Bulls?), Pat Riley chegou em Chris Bosh e o pegou de surpresa oferecendo 119 milhões de dólares por 5 anos de contrato! Por ter os tais Bird Rights de Bosh, o Heat tinha o direito de oferecer um ano a mais (e, logo, uns 20 milhões a mais) que o Rockets para Bosh. Disseram que o ala até ficou surpreso com a oferta, mas logo a aceitou. Depois de anos na sombra de Wade e LeBron, como a terceira perna do Big 3, ele assume um time sem James e com Wade em decadência, será a base dessa nova fase do Miami, que logo depois disso já começou uma busca árdua e agressiva para ter Luol Deng.

Alguém consegue imaginar a cabeça de Daryl Morey nesse momento? Como um plano tão bom pode ter dado tão errado? Se não fosse o imponderável, o que ele não controle, ele poderia ter um time com James Harden, Chandler Parsons (em um salário bem razoável!), Chris Bosh e Dwight Howard! Não só é um elenco brilhante no papel, como é jovem, atlético e com todas as características técnicas que o Rockets exige para seu esquema tático de velocidade, bandejas e bolas de 3 pontos. E até a parte que parecia mais difícil, que era LeBron James largar o paraíso de Miami pela melancolia de Cleveland, tinha dado certo! E pior, Deng era uma opção para o Rockets para cobrir Parsons, mas pelo jeito ele está mais próximo de Miami.

Daryl Morey

A decisão surpreendente de Chris Bosh fez muita gente acreditar que o Rockets poderia logo reassinar com Chandler Parsons e cancelar a troca envolvendo Jeremy Lin, mas nada disso. O armador logo foi mandado para o Los Angeles Lakers, junto com uma escolha de Draft, em troca de, basicamente, dinheiro. E ao que tudo indica, eles irão esperar até os 45 do segundo tempo para tomar a decisão sobre Chandler. Até lá vão negociar com Trevor Ariza e, claro, empacar o Dallas Mavericks.

A troca de Lin para o Lakers, não só mostra que o Rockets está no mercado abrindo espaço salarial, mas também mostra que o time de Los Angeles está saindo de algumas batalhas. Com o salário de Lin, o Lakers não pôde ficar com Carmelo Anthony, o que nos fez pensar que o ala, embora não tenha anunciado sua escolha pelo Knicks até agora a tarde, já tivesse avisado algumas pessoas que não iria para LA.

Outro sinal disso foi que, minutos depois, o Lakers anunciou as renovações de contrato de Nick Young e Jordan Hill. O contrato de Hill, em especial, é um dedo duro dos planos de Mitch Kupchak para a equipe de Kobe Bryant: 18 milhões de dólares por 2 anos! Um absurdo, certo? Mas o detalhe é que o segundo ano é um Team Option, ou seja, o Lakers pode escolher, no ano que vem, dispensar o jogador sem pagar nada. A ideia é: vamos manter um bom jogador por esse ano, mas no ano que vem queremos ter a chance de chutá-lo para contratar algo melhor. Para fazer um jogador aceitar um contrato de aluguel assim, compensa-se com o valor exagerado.

Isaiah Thomas

Para fechar os dominós de ontem, o Phoenix Suns, que tinha alguma esperança com LeBron James e um pouco mais com Luol Deng, acertou um contrato de 27 milhões por 4 anos com o armador Isaiah Thomas. Sim, o time que já tem Goran Dragic, que AINDA AFIRMA que quer manter Eric Bledsoe e que draftou o armador Tyler Ennis, contratou mais um jogador da mesma posição. É o novo Wolves? O que alguns jornalistas de Phoenix disseram ontem no Twitter é que a ideia é manter o time titular com Dragic e Bledsoe e ter Isaiah Thomas como um reserva dos dois, com Ennis sendo usado, ao menos nesse primeiro ano, na D-League.

A continuação da novela se deu neste sábado, com a próxima grande peça a cair, Carmelo Anthony. Ele escolheu o New York Knicks. Já sabíamos disso ontem, ao ver o Lakers ir para outros lados e sua outra opção, o Chicago Bulls, estava ativamente buscando a contratação de Pau Gasol. O ala espanhol recusou uma proposta de 2 anos do Los Angeles Lakers e decidiu jogar com Tom Thibodeau no Bulls. O Houston Rockets corria bem por fora, com o Spurs, mas nçao o seduziram. A vantagem do Bulls era financeira, podendo oferecer mais grana, seja anistiando Carlos Boozer ou, o que eles querem, fazendo um sign-and-trade com o Lakers, enviando Boozer e alguma escolha de Draft em troca do espanhol.

Sem dúvida que o grande vencedor dessa sequência de dominó foi o Cleveland Cavaliers. Quantas vezes você contrata mal, planeja mal, vai mal no Draft e acaba com o melhor jogador do planeta? Aquele mesmo que você irritou anos atrás! Ganharam na loteria. O grande perdedor é, ironicamente, um dos times mais preocupados com planejamento, o Houston Rockets. Perderam Chris Bosh, que era a peça perfeita para montar um timaço e, no meio do caminho, podem acabar pagando muito mais do que planejavam só para manter o time do ano passado.

Não dá pra falar que o Miami Heat ganhou, afinal perderam LeBron, mas a derrota poderia ser maior. Ao manter Dwyane Wade e Chris Bosh, eles tentam se estabelecer como uma franquia forte do Leste. Querem mostrar para outros Free Agents, para sua torcida e para a liga que não foram só a “faculdade” de LeBron James, mas que se desenvolveram para continuar na briga do Leste. Até porque, pensem bem, quem será o dono da conferência? O Pacers derreteu no fim da temporada, o Heat perdeu seu melhor jogador e nenhuma outra franquia convenceu no último ano. Bulls, Wizards e até o Hawks correm por fora. Não é à toa que Gasol, Ariza e Deng acabem recebendo contratos gordos, tem time babando por uma chance de Final.

ps. Só depois que eu publiquei o texto que o Trevor Ariza assinou com o Houston Rockets. E só depois que anunciaram que o Gasol para o Bulls não seria via sign-and-trade

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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