Eficiência divertida

Como faz anos que não escrevemos aqui, talvez vocês tenham esquecido, mas te lembramos: não damos a mínima para os prêmios de fim de temporada. Até acharia estranho se não tivesse nenhum tipo de premiação, aceito e acho divertido que exista, mas a seriedade com que o assunto é tratado acaba incomodando. O resultado sempre acaba sendo que as pessoas gastam tempo demais discutindo algo que é vago e subjetivo.

Mas algo tem me chamado a atenção na briga pelo troféu de MVP desta temporada. Os principais candidatos ao prêmio, no caso Steph Curry, James Harden, LeBron James, Russell Westbrook e Anthony Davis, poderiam também, facilmente, entrar para a lista dos jogadores que mais fazem jogadas de efeito na NBA atual. Se fossemos dar um prêmio pensando somente em entretenimento, nos caras que mais fazem a gente ligar a TV e procurar tal jogo para assistir, possivelmente boa parte desses candidatos também estariam na mesma posição. Pode parecer óbvio (e certamente também é subjetivo), mas não só não é tão lógico assim como, por um tempo, a NBA parecia que estava tomando um rumo diferente.

Curry

Gosto de dizer que vivemos a era da eficiência no basquete americano. Não há talento que passe impune ao julgamento dos números e os jogadores, para minha surpresa, estão respondendo até bem demais à isso. Meus exemplos favoritos disso são LeBron James e Kevin Durant, os jogadores que dominaram as votações para MVP nos últimos anos. Nas últimas duas temporadas, LeBron conseguiu a façanha de liderar seu então Miami Heat às melhores colocações do Leste, ser cestinha, reboteiro, assistente e tudo mais da franquia e ao mesmo tempo beirar os 40% nos arremessos de 3 pontos (o que está longe de ser a primeira arma de seu arsenal) e também ultrapassar os 55% de aproveitamento geral dos arremessos, um número que por muito tempo era exclusivo de pivôs que jogam muito perto da cesta ou de jogadores secundários que arremessam pouco e só quando estão sem marcação. Não LeBron, ele fez isso sendo o cara mais defendido do basquete mundial e ao mesmo tempo em que armava o time.

O caso de Durant não é muito diferente. Mesmo em um ataque estagnado e de certa forma previsível, como é o do OKC Thunder, o ala conseguiu ser cestinha da NBA em anos seguidos ao mesmo tempo que namorava com o “50-40-90 Club”, o seleto grupo dos jogadores que terminam uma temporada inteira com  50% de aproveitamento geral dos arremessos, 40% de 3 pontos e 90% de lances-livres. Em 2013 Durant finalmente conseguiu os números perfeitos para a façanha. Entre quem já conseguiu, Durant foi o que mais tentou lances-livres e bolas de longa distância. Só Larry Bird tentou mais arremessos que ele em uma temporada de 40-50-90. Eu, que cresci vendo Kobe Bryant, Tracy McGrady e Allen Iverson terem aproveitamento baixo justamente porque arremessavam o tempo todo ainda não consegui digerir as performances desses dois caras.

Oklahoma City Thunder v Miami Heat – Game Five

Para entender o prêmio de MVP é preciso saber como os jornalistas selecionados votam desde sempre. Certo ou errado, aqui estão as coisas que eles sempre levam em consideração: estatísticas (o jogador lidera ou se destaca em alguma categoria importante?); vitórias (o time dele está entre os melhores da NBA?); lesões (ele perdeu muitos jogos por estar machucado?); o resto do time (a equipe sobreviveria sem ele? Em que posição estariam se ele não jogasse?) e, muitas vezes em menor grau, a narrativa (o cara já ganhou antes? O público gosta dele? É uma bonita história de superação?).

Nem vou começar a listar os problemas desses argumentos para não me perder no texto, mas pegue todos os vencedores e verão que eles reúnem os requisitos dados acima que costumam, de certa forma, beneficiar os jogadores super eficientes. Apesar dos Kobes e Iversons da vida serem os heróis da garotada de 10 ou 15 anos atrás, muitas vezes eles foram cestinhas quando seus times eram péssimos, e cada grande número alcançado em pontos, por exemplo, era refutado pelas porcentagens. Não é à toa que caras mega eficientes como LeBron, Steve Nash e Tim Duncan ganharam o prêmio mais de uma vez; ou que Chris Paul esteja sempre entre os mais votados.

Harden

O duelo entre eficiência e entretenimento, porém, nem sempre era justo. Steve Nash certamente era divertido de se assistir com toda sua velocidade e criatividade, mas com todos ainda viúvas de Michael Jordan, o favorito do público era Kobe Bryant nos anos em que o canadense venceu. Nos anos em que Duncan foi premiado, os fãs casuais piravam no grupo de Kobe, Iverson, McGrady e Vince Carter. Mesmo nos anos 90, quem preferia ver o MVP Karl Malone em 97 ou 99 ao invés de Grant Hill ou Tim Hardaway? Parecia que existia uma distinção clara entre os jogadores de basquete mais eficientes do mundo e os jogadores favoritos da galera. Os especiais ficavam na interseção deles, mas eram aqueles raros e especiais que contamos nos dedos e celebramos até hoje.

Volto então para esta temporada. Parafraseando o Zach Lowe, do Grantland, existe coisa mais legal de se ver na atual temporada da NBA do que Steph Curry pegando fogo numa partida? Eu acho que não. Mas se for para achar um segundo lugar, estaria dividido entre os dribles de James Harden e os “contra-ataques-em-5-contra-5” de Russell Westbrook. Depois eu colocaria as melhores partidas de Anthony Davis e, por fim, Kyrie Irving driblando seus adversários. Ou seja, dos 5 candidatos a MVP (que seguem os parâmetros históricos), 4 aparecem na minha listinha de coisas que eu quero ver só para dar risada e me divertir. Estou errado em achar que isso é algo muito único?

Os casos de Steph Curry e James Harden, em especial, me deixam espantado. Comparando como os últimos dois anos, Curry é o LeBron James da disputa: seu time é favorito ao título, ele é o melhor jogador do time, faz tudo funcionar, pontua e cria lances para os outros e ainda defende muito bem. James Harden é Kevin Durant: carrega um ataque inteiro nas costas, elevou seu jogo quando o companheiro se machucou e até passou a ir além do rótulo de pontuador para também fazer esporádicos triple-doubles. Mas só ver a reação twíttica de cada um deles para sentir a diferença de um ano para o outro. LeBron gerava uns “Meu deus, ele é muito grande e muito bom”, Durant tinha comentários do tipo “Como se marca esse arremesso?”. Com Curry as pessoas querem se mudar para Oakland para vê-lo todo dia:

Tweet Curry

E às vezes parece que Curry é como ter Jason Williams com a eficiência de Steve Nash e as vitórias de Tim Duncan. Tirando algum time que envolva entidades divinas como Michael Jordan, era impensável que um cara que gosta de jogadas de “peladeiro” como Curry, que chuta de 3 no contra-ataque e dribla só por driblar fosse capaz de liderar o melhor ataque E defesa da NBA!

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E no fim acho que eu disse tudo isso porque cheguei à conclusão de que podemos estar no meio, ou ao menos no começo, de um dos grandes momentos da história da NBA. Estou falando da soma de qualidade individual, criatividade dos técnicos, jogadas de efeito e eficiência.

Nos anos 90 houve um período de receio que o jogo estivesse muito truncado, físico e violento. Também sempre existiram as críticas sobre a NBA ter um jogo muito centrado no jogo 1-contra-1, o que afastava alguns “puristas” internacionais do basquete. Nos anos 2000 veio o contrário, o receio que a liberação da defesa por zona fosse acabar com as grandes jogadas individuais que fizeram o basquete americano famoso no mundo todo. Na mesma época as médias de pontos despencaram e o medo da moda era que os jogos ficassem com pontuação baixa e cheio de erros.

Passou tudo e nenhum medo se concretizou. A NBA ainda gera dúzias e dúzias de jogadas de efeito todo santo dia, mas com o bônus que agora algumas delas são trocas de passes lindas e coletivas de times como Spurs, Hawks ou Warriors. O basquete é mais coletivo do que nunca, mas não menos bonito por causa disso e nem as estrelas são menos importantes do que já foram. Pelo contrário, os nerds dos números já provaram que quase não há chance de título na liga se você não tem algum cara absurdamente fora de série no elenco.

O aproveitamento ofensivo não caiu e as bolas de 3 pontos deram dinâmica, velocidade e espaço novos para o jogo nos últimos anos. Por fim, não que isso fosse um medo, mas todo o ano aparecem mais e mais jogadores novos e cheios de talento para renovar o estoque. Aposentam Nash, Kobe e Garnett? Estão chegando Anthony Davis, Andrew Wiggins e Kyrie Irving. E o assustador: podem até ser que esses caras sejam menos carismáticos, mais coxinhas e deem menos entrevistas interessantes, mas é a geração da eficiência e que ainda gosta de aparecer no Top 10 da semana. Eles vão longe e vão ser marcados pelo ano em que um dos caras mais divertidos da NBA foi também o MVP. Qual deles? Não sei, são muitos.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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