Em busca de um rosto

Há alguns anos o New York Knicks abriu mão de metade de um bom e promissor time em nome de Carmelo Anthony. Com o sucesso do ala nas últimas temporadas é difícil argumentar contra o negócio, embora em termos de resultado prático não ache que tenha existido tanta diferença assim. Aquele time de Mike D’Antoni e Danilo Gallinari tinha tudo pra morrer na primeira rodada dos Playoffs, que foi exatamente o que aconteceu com o time de Carmelo. Mudanças só quando eles adicionaram coisas que nem aquele time anterior tinha, como Tyson Chandler, Jason Kidd e JR Smith.

A razão para o NY Knicks abrir mão de um grupo jovem e que estava dando resultado em nome de uma estrela tem duas razões. Uma é a crença de toda a NBA de que um time precisa de uma estrela, de um jogador fora de série, para ser campeão. Mas a outra, que me chama mais a atenção nesse caso, é que o Knicks e sua torcida, pelo ego de estarem numa das maiores e mais importantes cidades do planeta,  não aceitam que seu time seja antro de jogadores medianos e esforçados. Em outras palavras, a cultura do Knicks exigia alguma estrela, alguém do tamanho da cidade e do Knicks. Uma cultura tão forte que já fez eles torrarem um dinheiro absurdo com Stephon Marbury e Amar’e Stoudemire nos últimos anos. Carmelo Anthony foi apenas mais um da lista, possivelmente o melhor deles, na busca de uma estrela para satisfazer uma torcida em busca de glamour.

Mas este texto não é sobre o Knicks, mas sobre outro time que pode estar em busca de uma cultura e de uma identidade, o Detroit Pistons. Quando eles anunciaram a contratação de Josh Smith por caros 56 milhões por 4 temporadas, lembrei na hora do Knicks fazendo loucuras por suas estrelas de renome e status. Mas o Pistons, ao invés de um cara com coleção de All-Star Games, estava abrindo os cofres para um jogador intenso, agressivo e, acima de tudo, excelente defensor.  É a defesa que levou o Detroit Pistons a seus 3 títulos, os de 1989 e 90 com os Bad Boys e o de 2004, a grande exceção a ser lembrada na hora de confrontar o Knicks para dizer dá, sim, para ser campeão sem uma estrela.

Josh Smith Pistons

Eu sou um grande defensor dessa identidade das equipes. Em parte é um gosto egoísta de quem tem prazer em falar sobre esporte, acho bom para a narrativa do jogo ter personagens mais bem definidos. É legal que o Los Angeles Lakers sempre tenha estrelas e seja esnobe, que o Toronto Raptors goste de apostar em jogadores não-americanos e que o Memphis Grizzlies invista nos renegados. Por outro lado, isso pode ser bom não só pra quem assiste e escreve, mas para os times também. A identidade de uma equipe pode ser o melhor guia para a contratação de técnicos, jogadores e até para a adaptação destes no novo grupo. Imagine que o Phoenix Suns resolvesse que iria manter a cultura do run and gun adotada por Mike D’Antoni com Steve Nash mesmo depois da saída dos dois. Sabendo disso eles poderiam contratar treinadores com histórico de trabalhar com esquema semelhante, ou jogadores que combinem com o sistema: atletas velozes, bons arremessadores, especialistas em pick-and-roll. Não é à toa que times bem montados, o San Antonio Spurs é o exemplo mais óbvio, costumam ter sucesso em contratações, eles sabem exatamente o que precisam porque já fazem aquilo faz tempo. O citado Suns começou a morrer quando abriu mão do que acreditava para contratar Shaquille O’Neal, o próprio Detroit Pistons não foi muito diferente, o time vencedor começou a morrer quando eles desistiram da defesa e intensidade em nome de jogadores com renome e estrela: Allen Iverson e, depois, Ben Gordon e Charlie Villanueva, todos jogadores que são opostos ao estilo voluntarioso, coletivo e defensivo que fez o sucesso da franquia em seus anos áureos.

Vejo, portanto, essa contratação de Josh Smith como um passo de volta ao Pistons que deu certo, mesmo que eles ainda estejam bem distantes de qualquer grande resultado. O General Manager Joe Dumars disse, após a contratação de Smith, que ele era necessário porque que o time já tinha muitos jogadores bonzinhos: “Ele não é nenhum escoteiro, e é exatamente o que esse grupo precisa agora”. Não foi só ele, alguns torcedores e jornalistas que acompanharam o Pistons bem de perto nos últimos anos de fracasso reclamavam da equipe ser (além de ruim) passiva, sonolenta. Josh Smith, por bem e por mal, é o oposto disso. Ele vai brigar com o técnico, talvez, ou xingar um jogador aqui e acolá, mas é bom ter pelo menos um jogador que mostre alguma vontade de alguma coisa. Um time só de Alexandres Patos, com muito talento e nenhuma vontade de nada, não vai a lugar algum.

Ao mesmo tempo entendo as críticas à contratação, Josh Smith não vale tanto dinheiro e não resolve muito dos outros problemas do Pistons. Ele não vai levar arremesso de longa distância (embora vá tentar), não vai melhorar tanto assim o ataque (embora se enxergue como um Kevin Durant) e nem vai armar o jogo (mas vai tentar, acreditem). Também incomoda um pouco que ele jogue no garrafão, exatamente onde estão os dois jovens jogadores mais promissores do elenco, Andre Drummond e Greg Monroe.

Essa última me incomodou mais no começo, mas acho que já superei o susto inicial. Tanto Monroe como Drummond podem jogar de pivô ou na ala, isso dá a flexibilidade para várias formações com os três jogadores. Entre os 96 minutos distribuídos entre as posições 4 e 5, dá pra cada um dos três jogar 32 minutos por jogo, o que está mais do que razoável. Existe também a chance de Josh Smith passar algum tempo na posição 3, ala-ala, já que ele tem o tamanho e a mobilidade para marcar os LeBron James e Carmelo Anthonys da posição, embora no ataque isso pode causar dores de cabeça. Josh Smith é um dos piores arremessadores da NBA e não só porque tem baixo aproveitamento, mas porque ainda acredita que é capaz de acertar bolas de longe. Vejam na imagem abaixo, que pareça o diacho da bandeira da Espanha de tanto vermelho e amarelo, como Josh Smith arremessou muito (e mal) de média e longa distância na última temporada.

Josh Smith Shot Chart

As reclamações sobre Josh Smith são antigas e nunca deram resultado, por isso não sei se podemos achar que ele vai mudar só porque mudou de equipe. Mas depois de ver a transformação de Zach Randolph de um buraco negro para um jogador de equipe, acho que qualquer coisa é possível. De qualquer forma, o mais importante é que Josh Smith pode ser muito útil para o Pistons mesmo se continuar jogando como em Atlanta, com os lados bons e ruins. Ele leva a defesa individual, a experiência de ter estado em times bons defensivos, de ter jogado Playoff e no ataque sabe atacar a a cesta, pegar rebotes ofensivos e até é um excelente passador, embora esse talento seja escondido por alguns turnovers bizarros. Obviamente ele não vale 56 milhões, mas o Pistons sabe, pela sua história, como é difícil atrair Free Agents para uma cidade conhecida como feia, fria e decadente. Para um jogador de elite ir para um time fraco em uma cidade sem atrativos ele deve ter algo a mais e, no caso de Josh Smith, esse algo a mais foi uma bolada de dólares que nenhum outo time na NBA estava disposto a oferecê-lo. Se ele agradecer o investimento com intensidade, defesas e seus característicos tocos, está pago.

Outra contratação do Pistons foi o retorno de Chauncey Billups, que vêm encerrar a carreira no time que o consagrou. Dentro de quadra não sei se ele pode ajudar muito, no Clippers da última temporada ele virou um daqueles inúteis arremessadores que não acertam arremessos, mas era considerado importante como liderança no vestiário e como exemplo para alguns jogadores mais novos. Talvez até visando um emprego futuro na comissão técnica ou nos bastidores da franquia, Billups pode ser importante desenvolvendo os jovens Brandon Knight, Kentavious Caldwell-Pope, Andre Drummond e Greg Monroe. Em especial para Knight, que é habilidoso mas não conseguiu fazer bem a transição para o papel de armador na NBA, um caminho que Billups também teve que percorrer ao chegar na liga sem ser considerado “armador puro”. O ideal seria Billups fazer isso enquanto também faz diferença dentro de quadra, mas não contem com isso.

Como deu para perceber, todas as soluções do Pistons tem sido no esquema “é bom mas não é perfeito”. O mesmo vale até para a contratação do técnico, Maurice Cheeks já foi duas vezes vice-campeão da NBA como assistente técnico, com o Philadelphia 76ers em 2001 e com o OKC Thunder em 2012, mas quando foi técnico principal, no Blazers e no mesmo Sixers, ficou naquele meio termo onde não fez feio, mas também não encantou com bons resultados. Será que ele é o cara ideal para refazer o time mais agressivo e defensivo que Joe Dumars imaginou quando contratou Josh Smith?

No lugar de Dumars, eu deixaria o barco correr nessa temporada, ou pelo menos até o meio dela. Acho que será interessante ver essa rotação com Smith, Drummond e Monroe no garrafão, às vezes usando os três juntos. Também seria legal ver o amadurecimento de Knight e o quanto Caldwell-Pope pode acrescentar de imediato. Se as coisas não derem tão certo assim daqui um tempo, aí sim seria a hora de algumas mudanças e elas ficam mais possíveis quando se tem Josh Smith no elenco, é um lado menos óbvio mas benéfico do negócio. Um boato de hoje dizia que o Boston Celtics poderia enviar Rajon Rondo (junto de alguns contratos ruins) para o Pistons em troca de Andre Drummond e alguns jogadores com contratos prestes a acabar, Charlie Villanueva e Rodney Stuckey. Ano passado essa troca soaria boa, mas de um risco enorme, já que pivôs jovens e bons como Drummond são raros. Mas hoje, com Smith no elenco, parece ser algo que o Pistons poderia abrir mão com menos medo em nome de um dos grandes armadores da atualidade. E até para convencer Rondo a uma eventual extensão de contrato, a presença de um jogador de experiência e nome como Josh Smith facilitaria as coisas.

Luigi Datome

Luigi Datome

Nas últimas semanas o Detroit Pistons também confirmou a manutenção do armador reserva Will Bynum, um jogador de sucesso razoável dentro de sua função secundária e que tem identificação com o time. Mas surpreendente mesmo foi a contratação de Luigi Datome, ala de 25 anos que foi MVP da última Liga Italiana. Muita gente tem destacado seu bom arremesso (40% de acerto de 3 no último ano, 92% em lances-livres), mas ele parece ser mais do que isso. Ele teve mais de 5 assistências de média na última temporada, número alto para qualquer ala, especialmente no basquete internacional onde não se contam assistências para qualquer passe para o lado. Ele tem experiência enorme no basquete profissional e na seleção italiana, pode ter sido um achado do Pistons embora cercado das dúvidas de adaptação ao basquete americano.

Se as contratações não foram perfeitas e ideais, elas pelo menos tiram o Detroit Pistons daquela monotonia medíocre dos últimos anos. Finalmente podemos discutir quintetos, escalações e até trocas por bons jogadores. Se eles não tem atrativos e peças de troca para conseguir as estrelas da liga, foram bem ao trazer um bom Free Agent que buscava um lugar para liderar, um gringo com vontade de realizar o sonho de jogar na NBA e até um veterano com bom histórico na franquia. Cada um joga com as peças que tem e o Pistons, com peças bem fracas, entra na próxima temporada com seu melhor elenco desde que o time campeão de 2004 se desmontou. E, mais importante, com a velha identidade da equipe.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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