Faried sabe brincar

Você já jogou videogame contra alguém e conseguiu algo espetacular, que lhe encheu de orgulho e alegria, apenas para ser destruído no segundo seguinte pela frase “ah, eu não estava jogando sério mesmo” do seu adversário? Essa pequena tática de deslegitimação infantil é ainda mais cruel quando levada para o esporte. Você marca um golaço imediatamente diminuído pela frase “também, ninguém estava te marcando”, ou se torna um jogador como o Neymar e tem seu talento contestado com “aí não vale, os adversários no Brasil são muito fracos”.

Não precisa ser um gênio para perceber que quando estamos numa atividade de superação, tanto física quanto intelectual, as conquistas são mais importantes e mais valorizadas quando o nível de desafio é maior. Os arremessos no basquete tem mais valor quando são feitos em cima de uma forte marcação, e as enterradas entram para a história quando dadas em cima de um especialista em tocos (ou, em geral, de alguém realmente alto, né, Shawn Bradley?). Mesmo quando você está jogando uma pelada na quadra da esquina (se você ainda mora num lugar com quadras na esquina), seus arremessos e dribles são mais legais se alguém está tentando roubar a sua bola, e o melhor jeito de você valorizar o seu adversário é tentar dificultar as coisas que ele tenta fazer.

A competição no esporte não é necessariamente a vontade de vencer (e definitivamente não é o “vencer a qualquer custo” que leva uns malucos a quebrarem a sua perna em nome da vitória), mas sim manter um grau de competição capaz de valorizar tanto o seu jogo quanto o jogo do adversário, dificultando as ações e o nível de desafio um do outro. Um jogo como o All-Star Game não precisa ter dois times se matando pela vitória, cometendo faltas fortes e arriscando lesões, ele só precisa de jogadores se esforçando e dificultando a vida uns dos outros para tornar todos os feitos mais louváveis, mais incríveis, mais divertidos.

Na noite de ontem tivemos o “Rising Stars”, duelo durante o fim-de-semana-estendido do All-Star que costumava colocar novatos enfrentando segundo-anistas, e que agora vê uma mistura dos dois anos se enfrentando em times aleatórios. Não tenho vergonha de dizer que durante muitos anos esse foi o meu evento favorito do All-Star por uma série de motivos. Primeiro que é a chance de ver em ação novatos que acompanhamos pouco (e que a maioria dos fãs normais de NBA nunca viram jogar porque estão em times muito ruins), e depois que são jogadores que querem mostrar serviço, aparecer para o público, e costumam elevar bastante o nível de competição. Quando a disputa era entre novatos e segundo-anistas, ainda tinha um lance de honra envolvido: os jogadores mais velhos não podiam permitir perder para os mais novos e inexperientes, e ainda costumavam querer devolver a derrota sofrida no ano anterior para os mais velhos.

Agora com os times “mistos”, o grau de competição diminuiu bastante nas últimos eventos. Mas por sorte recebemos um presente especial na noite de ontem: Kenneth Faried. Enquanto a maioria dos outros jogadores estava passeando pela quadra, arremessando de longe e fazendo bandejas preguiçosas, Faried pulava em todos os rebotes, corria mais rápido no contra-ataque, enterrava com gosto e, na defesa, tentava contestar as bandejas – ainda que cometendo algumas faltas. Seu esforço foi um dos responsáveis pelo seu time abrir uma larga vantagem no placar bem no comecinho do jogo, e causou uma mudança de postura nos outros jogadores. Seus adversários tiveram que criar melhores situações de arremesso, fazer bandejas e enterradas mais habilidosas, e todo o jogo ganhou em qualidade. Dar uma enterrada sozinho ganha a crítica de “ah, mas eu não estava jogando sério”; enterrar com o Faried pulando no seu pescoço torna as coisas muito mais impressionantes.

E foi nesse clima, com o time adversário tentando salvar um déficit irrecuperável no placar, que Kyrie Irving tentou encontrar um espaço no garrafão mas foi defendido por Brandon Knight, do Detroit. A defesa apertada do Knight valorizou o adversário, obrigou Irving a ser ainda mais espetacular, com dribles incríveis, e Knight manteve sua defesa até acabar caindo no chão ao tentar dar um toco, num momento que tirou o público das cadeiras.

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Na posse de bola seguinte foi a vez de Knight tentar o mesmo, conseguindo um crossover mas errando a bandeja, e o duelo prosseguiu por mais algumas posses de bola (ainda que eu não tenha achado qualquer vídeo com as outras posses de bola, coitado do Knight que também deu alguns dribles fantásticos). Foi um duelo valorizado pelo esforço de um jogador contra o outro, mas o engraçado é que quando o Brandon Knight errava a bandeja, lá estava Faried para pegar o rebote e marcar de novo. O resto dos jogadores ficaram só olhando, esquecendo que cabe a eles também valorizar o espetáculo, a si mesmos, e aos adversários.

Faried foi o MVP do jogo com 40 pontos e 10 rebotes, ainda que alguns desses pontos tenham vindo nos dois minutos finais, quando todos os jogadores decidiram abrir espaço para uma demonstração de enterradas aleatórias (vale assistir e chamar de “preview do campeonato de enterradas do Faried no sábado”).

Mas vale destacar também o Isiah Thomas, do Kings, que joga sempre em modo “eu ingeri uma quantidade surreal de cafeína e não dou arremessos inteligentes mas acerto mesmo assim”, e outros novatos que acompanhei pouco durante a temporada mas que me impressionaram bastante, como o Nikola Vucevic (quem diria que a máquina de pegar rebotes do Magic teria um arremesso tão bonito de 3 pontos?), o Dion Waiters (o Cavs tem uma pirralhada de respeito) e o Alexey Shved, (que eu vi jogar um bocado mas nunca tinha visto tão agressivo, pulando como pipoca).

Espero que a lição de Faried valha não apenas para o duelo de pirralhos do ano que vem, mas também para o jogo de domingo: não deslegitime o esforço do adversário fingindo que você não se importa e não está nem tentando. Pular numas bolinhas, tentar alguns tocos e cometer algumas faltas apenas torna a paquera do All-Star Weekend ainda mais espetacular e inesquecível.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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