Kyrie Irving: um adeus

O fim dos anos 2000 decretaram, num acordo social tácito, a morte dos armadores pontuadores. Durante mais de uma década a NBA havia sido eletrizada por jogadores como Allen Iverson, Steve Francis e Stephon Marbury, suas médias insanas de pontos por jogo, suas jogadas de efeito, suas habilidades quando isolados contra defensores assustados. Mas conforme as defesas foram se ajustando e as regras começaram a permitir marcações duplas sem a bola e defesas por zona, a vida desses jogadores começou a ficar mais difícil; ao mesmo tempo, a abundância de estatísticas passou a permitir uma análise detalhada da atuação dos jogadores, levando a uma busca pelo basquete “mais eficiente”. Em pouco tempo os armadores pontuadores começaram a ser rechaçados como nocivos para suas equipes e foram perdendo espaço. Grandes estrelas desapareceram, e as que restaram precisaram transformar suas maneiras de jogar.

Quando Chris Paul e Deron Williams foram draftados em 2005, representavam o que se esperava dos “novos armadores”: controle de bola, armação de jogadas, capacidade de envolver os outros jogadores tornando a equipe como um todo melhor. Foram admirados, louvados, idolatrados salve salve, mais ou menos na mesma medida em que o Kobe e afins eram odiados por arremessar demais e envolver os companheiros de menos – mais pela ideia que o Kobe representava do que pela realidade do seu jogo em si. Ele era a imagem do basquete da década anterior.

Alguns anos passaram e eis que as defesas se ajustaram de novo, as regras de “hand check” (tocar no adversário na defesa com as mãos) foram alteradas para tentar inflar os placares de uma NBA cada vez mais formada por grandes defesas, e eis que os tais “armadores puros”, os que arremessavam menos e criavam mais, começaram a encontrar uma situação menos afável. Criar espaço para os outros jogarem passou a ficar impossível sem que o armador tivesse ótimo arremesso do perímetro, capacidade de infiltração e de forçar contato cavando faltas. O pick-and-roll passou a ser uma jogada mais facilmente defensável e contra as melhores defesas os bons armadores começaram a ter que criar na quadra aberta, nos contra-ataques, através de explosão física e pulmão. O mundo da NBA girou, girou e foi parar quase no mesmo lugar: hoje em dia são os armadores pontuadores os mais indicados para gerar espaço no meio das defesas fantásticas que vemos, de modo a permitir que outros jogadores de suas equipes infiltrem ou arremessem. Se entrasse no draft deste ano, Allen Iverson voltaria a ser altamente cobiçado depois de anos de ostracismo.

Mas ainda estamos na era da “alta eficiência”, com números avançados, estatísticas complexas, tecnologia de rastreamento de calor e medidores de atividade corporal. Os jogadores estão muito mais contidos dentro dos limites da tática e do planejamento, de modo que os armadores pontuadores precisam mais do que nunca obedecer a equipe técnica quanto à frequência e os padrões das infiltrações, dos arremessos e do ataque à cesta para gerar os espaços certos.

É assim que ganhamos a atual geração de armadores exclusivamente pontuadores PORÉM eficientes: John Wall, Russel Westbrook, Derrick RoseKyrie Irving. Até mesmo Chris Paul teve que adequar seu jogo: hoje, dá tantos arremessos por jogo quanto Irving, e isso numa equipe que depende menos de sua pontuação. Mas é que os passes e os espaços só surgem agora quando o armador é temido como potência ofensiva. Como resultado, a maior parte desses armadores, dentro do esquema tático certo, tem aproveitamento de quase 50% nos arremessos – coisa que antes era luxo apenas dos melhores pivôs.

Quando LeBron James resolveu voltar para Cleveland, tinha a expectativa de jogar ao lado de um dos melhores armadores deste novo modelo: Kyrie Irving tem um domínio de bola comparável apenas com Stephen Curry, uma velocidade no contra-ataque apenas abaixo de John Wall, uma capacidade de finalizar embaixo do aro na infiltração comparável a nenhum outro jogador da atualidade, e um arremesso de três pontos sólido e confiável o suficiente. A soma dessas características colocam Irving entre a elite da sua categoria e garantem que as defesas tenham que se adequar para defendê-lo, o que hoje em dia é plenamente possível na NBA, mas gera um espaço enorme para os outros jogadores da equipe. Com LeBron de um lado da quadra exigindo atenção especial e Irving do lado oposto, executando as mesmas movimentações de maneira espelhada, não há defesa no mundo que possa cobrir esse ataque. Quando finalmente encaixou, o Cavs terminou a temporada com um dos melhores e mais eficientes ataques da Liga, e isso sem nenhuma movimentação rebuscada e pouca movimentação de bola. Eficiência é saber explorar as limitações do jogo através do mínimo possível de esforço.

Mas os playoffs desse Cavs têm sido um pesadelo: Kevin Love era parte importante, da qual trataremos futuramente, e saiu da pós-temporada com uma lesão-de-MMA; Kyrie Irving lesionou o pé direito, compensou com o joelho esquerdo e ficou muito limitado pela tendinite surgida pela compensação. Sentou em alguns jogos nos playoffs, jogou outros sem a capacidade de atacar a cesta que é fundamental para o basquete moderno, se limitando a arremessar bolas de três e criar espaço do lado oposto da bola como um arremessador que pode eventualmente cortar para dentro. Muito aquém de suas possibilidades, mas o suficiente para o Cavs alcançar as Finais da NBA.

Com uma semana de descanso para a Final, Irving se recuperou um pouco da tendinite e foi liberado pelos médicos depois de avisar, com todas as letras, que psicologicamente não seria capaz de ficar sentado no banco vendo seus colegas jogarem sem participar. Irving iria jogar de qualquer maneira e a possibilidade de poupá-lo cabia inteiramente à comissão técnica (que não apita o bastante em Cleveland) e à equipe médica. Quando os médicos liberaram Kyrie, era óbvio que ele estaria em quadra para o Jogo 1 da Final da NBA.

Sua atuação foi espetacular, mostrando um pouco da velocidade e da explosão dele que nos acostumamos a ver tanto na defesa quanto no ataque. Mas uma tentativa de drible na prorrogação, com 43 minutos de jogo nas costas, simplesmente QUEBROU o joelho esquerdo do rapaz – literalmente, numa fratura bem séria. As questões sobre o impacto disso no jogo do Cavs são inúmeras e analisaremos a fundo mais pra frente, especialmente depois do Jogo 2. Por enquanto, apenas o óbvio: embora o Cavs seja um time muito mais limitado sem ele em quadra, e a melhor defesa da NBA vá ENGOLIR o ataque da equipe sem os espaços que Irving cria, é melhor que o Cavs possa pensar o jogo inteiro sem o armador (tentando encontrar novas saídas) do que ficar na falsa esperança de que ele voltasse, sem saber exatamente qual é seu estado atual de saúde, sem saber se é seguro lhe passar uma bola, se é possível contar com ele para uma rotação defensiva. Falsas esperanças e incerteza na saúde de um jogador são uma praga terrível, já bem sabe o Chicago Bulls; ao menos o Cavs terá a chance de pensar numa rota alternativa, e se perder será com a garantia de que fizeram o melhor possível com as peças dadas.

Mas para mim a questão que mais aflige é um pouco extra-jogo: armadores cada vez mais explosivos, mais agressivos, contra defesas cada vez mais compactas, e uma ideia de que a vitória deve vir a todo custo forçam esses corpos ao limite. Kyrie Irving jogou meses lesionado, minimizando suas dores nos relatórios para a equipe médica; sua liberação para o Jogo 1 da Final, mesmo sob forte tendinite, veio após clamores de que suas limitações físicas eram pequenas perto da sua vontade mental. Pois bem, um corpo dolorido e lesionado não se move perfeitamente, compensa em todos os lados, e aumenta as chances de uma lesão mais séria. Não sou médico e não sei como realmente ocorreu a fratura, mas entendo que colocar um jogador à beira do colapso físico em quadra não parece das coisas mais humanas a se fazer – mesmo que ele queira fazê-lo a todo custo. É preciso, como sempre, repensar a quantidade de jogos, os minutos, a rotação das equipes.

Mas se nos ajuda a repensar algumas questões éticas do esporte, a lesão de Irving também nos aponta a importância do jogador para o seu elenco e para o modo atual de se jogar basquete. Kyrie Irving receber a atenção que recebe, tanto do público quanto das defesas, é uma aula de história do basquete – uma sombra atual de um Allen Iverson passado, inteiramente lesionado, jogando as Finais da NBA em 2001. A parte triste é que talvez estejamos nos despedindo de um como nos despedimos do outro: esse tipo de fratura foi a mesma que tirou Greg Oden de dentro da NBA, e a mesma que Blake Griffin tirou de letra para pular por cima de carros. Não dá pra ter certeza do que vai acontecer, mas assim como ocorre com o Cavs é melhor nos despedirmos, e abrir espaço para sermos surpreendidos. Para todos os odiadores, detratores, apontadores de dedo, Kyrie Irving pode até não voltar, mas seu estilo de jogo está aqui para ficar, com sua eficiência comprovada para além do olhar crítico do torcedor padrão.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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