O espaço na NBA

Um dos nossos últimos posts foi sobre as posições no basquete, estão lembrados? Nele falamos de um novo programa de computador que definiu novas posições para o basquete de acordo com características dos jogadores e o que eles acrescentam às equipes. Foi um modo novo de abordar um assunto que geralmente foi definido por questões físicas: o armador baixinho, o pivô gigante. Mas essa é apenas uma das dezenas de inovações tecnológicas que estão tentando mudar o basquete.

Intensidade eterna de Kevin Love finalmente comprovada

Há algumas temporadas que surgiu, por exemplo, o SynergySports uma empresa que faz análise do jogo em vídeo e transforma as imagens em estatísticas. O produto primeiro foi desenvolvido para equipes, depois imprensa e hoje qualquer um pode acessar (pagando, claro!) dados complexos de como jogadores e equipes atuam. Você pode assistir, por exemplo, todas as jogadas de pick-and-roll que o Steve Nash comandou na temporada passada. A sequência de vídeos vai demorar uma eternidade para acabar, é claro, mas dá pra aprender muito. E você ainda pode filtrar essas jogadas por erros e acertos. Dá pra compilar todos os turnovers do Kobe Bryant em jogadas de isolação só para você usar na sua próxima discussão de Twitter.

O legal do Synergy é a combinação de números com vídeo. Primeiro você pode ver os dados gerais, como porcentagem das vezes que certo jogador ou time executa determinada jogada, depois pode ver o aproveitamento (em pontos por posse de bola) dessa jogada. Com isso feito é possível analisar os detalhes por vídeo. Uma coisa é saber que o San Antonio Spurs não defende bem o pick-and-roll, outra é ver em vídeo todas as vezes que isso deu errado para poder explicar os números ruins. Ou uma coisa é ver o alto aproveitamento do Ray Allen em spot-up shots, aqueles arremessos onde o cara só recebe a bola e chuta, mas só o nível de acerto não explica como as jogadas para isso acontecer são criadas.

É difícil exportar vídeos do Synergy para serem vistos aqui no blog. Mas vocês podem acessar o site deles e usar um pouco da versão gratuita. Também achei no YouTube algo parecido, é uma compilação de spot-up shots do Steve Novak na temporada passada pelo Knicks. É basicamente isso que você vê quando clica para ver os acertos de um jogador, uma sequência padronizada de jogadas:

[youtube width=”600″ height=”335″]http://www.youtube.com/watch?v=bu1w6LVoGMA[/youtube]

Essa combinação de vídeo com números surgiu para cobrir um buraco na análise do basquete que a estatística não cobria, o espaço da quadra. Por exemplo: O Rebound Rate é um ótimo número para substituir a velha média de rebotes por jogo na análise desse fundamento. Ele calcula, baseado no número de posses de bola do time e dos minutos que cada jogador fica em quadra, quantos porcento dos rebotes disponíveis esse jogador consegue agarrar. O cara pode ser ruim e passar poucos minutos em quadra, mas quando joga pode ser responsável por assegurar 60% dos rebotes que surgiram enquanto ele estava lá dentro. É um ótimo número para ranquear bons reboteiros e que pode ajudar um técnico a saber quem deixar em quadra dependendo do que ele quer. Mas é possível transformar outros jogadores em reboteiros melhores só com isso? Não. Você só aponta para o Amar’e Stoudemire e diz “Você é ruim”.

A primeira alternativa para cobrir esse assunto do espaço na quadra foram os shot charts. Aqueles já antigos e tradicionais desenhos que mostram o aproveitamento de um jogador ou time de cada lugar da quadra. Atualmente o site que faz melhor trabalho com esses números é o Vorped. Eles tem dados de todos os jogadores nas últimas temporadas e estes podem ser filtrados por jogo, por temporada ou até por quarto. Aliás, vamos usar uns dados deles e ver se vocês conhecem seus ídolos. Tentem descobrir, sem colar, quem são os responsáveis pelos arremessos das imagens 1 e 2. Valendo!

    

Adivinharam? Mas estava tão fácil! A primeira imagem mostra os locais de arremesso de LeBron James em 4º períodos durante toda a temporada regular passada. A segunda imagem tem o mesmo filtro, mas é de Kobe Bryant. A primeira constatação é óbvia: Kobe Bryant é uma metralhadora. Ele arremessa muito mais que LeBron (e qualquer outro jogador) em últimos períodos. Por outro lado, com LeBron podemos ver como ele concentra seus chutes no lado esquerdo da quadra. Que é, como mostra o próprio Vorped, o lado onde ele tem melhor aproveitamento. Isso é muito curioso porque no começo de sua carreira os marcadores de LeBron davam, na cara dura, o lado esquerdo para ele jogar. LeBron chegou na NBA dominando, era assustador, mas tinha defeitos e um deles era atacar a cesta batendo a bola com a mão esquerda. Forçaram tanto ele a jogar desse lado que agora é sua zona de conforto, onde acerta mais chutes e onde um marcador deve impedir ele de ir em um 4º período.

Mas os shot charts exibem uma limitação, eles analisam apenas os arremessos. Não falam como foram criados, em que momento da jogada foram tentados e não vão alem do chute. Não identificam rebotes, não dão conta de assistências ou qualquer outra coisa. São úteis, mas apenas para uma função muito específica.

Pensando em dar um passo a mais nessa análise espacial do basquete, uma empresa americana chamada STATS,LLC criou um sistema chamado SportVU que monitora qualquer quadra ou campo de jogo com 19 câmeras. Depois de capturadas as imagens o sistema deles consegue monitorar, arquivar e transformar em estatísticas as movimentações dos dois times, da bola e até dos árbitros. Identificando quem é cada jogador só pelo número em sua camiseta, coisa do século XXI mesmo. Lembram no Campeonato Paulista (não sei como foi nos outros Estaduais Brasil afora) que a Globo começou a mostrar quantos quilômetros cada jogador correu e um mapa de calor indicando em que parte do campo eles haviam passado mais tempo? A Globo contratou a STATS para fazer esse serviço. No basquete eles fazem a mesma coisa e 10 equipes da NBA no ano passado contrataram a STATS para testar esse programa: Wolves, Knicks, Rockets, Warriors, Thunder, Spurs, Celtics, Bucks, Raptors e Wizards.

Alguns resultados usando o SportVU começam a aparecer. Um deles é de Kirk Goldsberry, pesquisador de Análise Geográfica e professor assistente na Michigan State University. Ele usou a análise espacial em vídeo da SportVU para criar um mapa que mostra onde caíram os rebotes da NBA na temporada passada de acordo com a posição dos arremessos.

[kml_flashembed publishmethod=”static” fversion=”8.0.0″ movie=”http://courtvisionanalytics.com/wp-content/uploads/2012/07/rebounds1.swf” width=”600″ height=”450″ targetclass=”flashmovie”]

Get Adobe Flash player

[/kml_flashembed]

Esse gráfico confirma com precisão gritante o que Dennis Rodman dizia sobre os rebotes caírem sempre no lado oposto de onde foram arremessados. Tá bom que isso é uma coisa que a gente já sabe faz um tempo, mas nunca é demais ter a confirmação estatística e tão detalhada. Sem contar que achávamos que muitas coisas eram verdade e depois descobrimos que eram só lenda, sempre bom ter apoio de outras áreas.

Em um post no fórum APBRMetrics, o próprio Kirk Goldsberry diz que seu estudo não é completo, mas que tem alguns pontos positivos importantes. “Esse estudo faz a gente pensar nos arremessos errados de uma nova maneira. O efeito ‘Kobe-assist’ algo que merece ser aprofundado”. A tal Kobe-Assist que Goldberry se refere é aquela jogada onde um jogador ataca a cesta atraindo os pivôs adversários, que deveriam cuidar do rebote. Aí mesmo quando a bola não cai o rebote fica fácil para o time atacante. Alguns no fórum da APBRMetrics também chamam de “Derrick-Rose-Assist”. Goldsberry diz que esse estudo não analisa a situação onde esses arremessos são tentados e que isso é uma limitação, mas obviamente é algo bem interessante e importante.

Outro gráfico que Goldsberry fez usando o SportVU dá mais detalhes sobre aproveitamento e localização dos arremessos no último ano:

 

 

É muito legal ver os pontos em branco, são basicamente pontos da quadra ignorados pelos jogadores da NBA, considerados ruins e de baixo aproveitamento. Em compensação, além da área próxima à cesta é possível ver como o arremesso de 3 da zona morta é o mais valioso de toda a liga: Seu aproveitamento em porcentagem é quase igual aos arremessos de média distância e valem 50% mais.

Uma outra coisa confirmada aqui é que o aproveitamento dos arremessos é levemente melhor no lado direito (LeBron é exceção), mas, por incrível que pareça, isso não quer dizer que os times tentem mais arremessos do lado direito da quadra. Também não dá pra ignorar que a melhor liga de basquete do mundo beirou os 35% de aproveitamento em todos os arremessos fora aqueles colados à cesta. Esse ano de locaute teve números piores que a média dos últimos anos, mas mesmo assim é algo preocupante. O arremesso de meia distância é, como gostam de dizer os caras da velha guarda, uma arte perdida.

(FOTO)

Mas o uso do SportVU vai muito além desses mapas. Muito mesmo. Em alguns dados divulgados no site da empresa para demonstrar o produto eles dão detalhes muito reveladores sobre o Kevin Durant. Sabiam que ele tem aproveitamento de 40% nos seus arremessos quando bate a bola mais de 5 vezes antes do chute? E que esse número sobre para para 55% quando ele só pega a bola e arremessa? Será que devemos reclamar tanto assim de ter o Russell Westbrook comandando o ataque enquanto Kevin Durant fica longe da bola só tentando ficar livre?

Dos 10 times que usaram esse produto, poucos divulgaram resultados. Um dos que mais falou sobre a experiência foi o Wolves, que até fez um especial dizendo detalhes sobre a instalação das câmeras especiais no topo do Target Center e falando sobre o sistema. Reproduzo aqui o que Brian Kopp, vice presidente da STATS,LLC disse ao site do Wolves.

“A primeira coisa analisada são as que podemos fazer só vendo o jogo. Quantas vezes tal jogador toca na bola em determinada área da quadra? Qual sua eficiência na cabeça do garrafão ou perto da cesta? Você poderia contar essas coisas manualmente, mas seria um saco. Depois tem a questão dos rebotes, com nosso sistema podemos contar quantos rebotes são pegos por um jogador sozinho, quantos são com outros jogadores em volta, além de medir a movimentação dos jogadores em bloqueios que evitam que o adversário pegue o rebote. Por fim temos a análise física, podemos medir a velocidade e espaço coberto por um jogador, podendo até afirmar quando ele cansou”. (Aqui estão a Parte 2 e Parte 3 do especial do Wolves)

Uma das conclusões mais interessantes da análise do time de Minnesota foi que Kevin Love está nos níveis “max” ou “sprint” (algo como “arranque” em português) de velocidade com mais frequência que qualquer outro jogador analisado pelo sistema em qualquer time. Ou seja, Love pode não ser o cara mais atlético da NBA, mas ninguém se esforça mais do que ele em quadra. Isso deixou orgulhoso o técnico do time, Rick Adelman, mas também preocupado. Correr mais e jogar no limite aumenta o risco de contusões. A análise pode ser um jeito de dedar preguiçosos, mas também pode servir para avisar um jogador quando ele pode maneirar.

 

O grande desafio para quem tem esse sistema é descobrir o que é útil e o que não é, porque o que não falta é material novo. Sabia que agora eles conseguem medir a altura de cada arremesso e descobrir quais são os mais precisos? E que dá pra ver a variação de altura entre os arremessos certos e errados de cada jogador? Caras como Ray Allen, Kevin Martin e Chase Budinger arremessam exatamente na mesma altura seja em erros ou acertos, já Jamal Crawford arremessa cada hora de um jeito. E o prêmio Derek Fisher de arremesso mais alto não vai para Derek Fisher, mas para Ersan Ilyasova, que deixa a bola a 4,7 metros do chão no ponto máximo do arco de seu chute. Coisa de doido saber de tudo isso!

Mas dá pra conseguir coisas mais relevantes do que isso. Por exemplo, analisaram resultados de infiltração rumo à cesta. Pegaram todos os jogadores que tiveram pelo menos 40 infiltrações começadas a pelo menos 6 metros da cesta computadas pelas câmeras (vale lembrar que não foram filmados todos os jogos da última temporada, só os dentro dos ginásios dos times que compraram o serviço) e foram ver os melhores aproveitamentos. O líder foi Carmelo Anthony, o Knicks conseguiu 1.66 pontos por posse de bola (número fantástico!) em toda posse que teve uma penetração de Melo. Seu aproveitamento de arremesso nessa jogada foi um comum 57%, mas ele conseguiu sofrer faltas em 1/4 das tentativas. Em outras palavras, mesmo que Melo seja apenas comum no aproveitamento direto de suas infiltrações, o Knicks rende melhor quando ele faz isso. Seja pelo rebote de ataque, seja pelo passe que ele dá depois da infiltração ou pela defesa quebrada pelo ataque.

Lindo isso, não? Mas se eras assim tão bom, Carmelo Anthony, por que o ataque do Knicks não foi bem na temporada passada? Simples, ele infiltrou dessa maneira apenas 3.1 vezes por partida. Embora Anthony seja famoso por seu arremesso de meia distância, o Knicks foi um time melhor quando ele atacou a cesta. Outra coisa, a análise pelas câmeras mostra que Anthony foi muito mais eficiente do que Amar’e Stoudemire nas posses de bola onde eles recebiam a bola na cabeça do garrafão, posição característica dos alas de força, a posição 4. Mais do que nunca fica óbvio que o Knicks funciona melhor que Melo nessa posição fazendo uma dupla falsa de garrafão com Tyson Chandler. O lugar de Amar’e nesse time? Deveria ser reserva.

Claro que a interpretação é sempre nossa no fim das contas. Lendo esses mesmos dados o Mike Woodson pode ter uma ideia completamente diferente sobre o seu Knicks. Assim como o Rick Adelman que vai decidir como lidar com a energia eterna do Kevin Love. Mas isso pode definir uma época diferente para os técnicos, se antes eles eram considerados especiais por enxergarem coisas que os outros não viam, hoje os melhores vão ser os que tomarem as melhores decisões em relação ao que todo mundo vê, contabiliza, filma, analisa, coloca em planilha e transforma em estatística.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

Como funcionam as assinaturas do Bola Presa?

Como são os planos?

São dois tipos de planos MENSAIS para você assinar o Bola Presa:

R$ 14

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro e texto do FilmRoom.

R$ 20

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bolões + Vídeo ao vivo para discutir Clube do Livro e FilmRoom.

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro e texto do FilmRoom.

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bolões + Vídeo ao vivo para discutir Clube do Livro e FilmRoom.

Como funciona o pagamento?

As assinaturas podem ser feitas pelo Aplicativo PicPay. Baixe, cadastre-se, busque o Bola Presa e escolha seu plano de assinaturas. Você pode pagar com cartão de crédito ou carregar sua Carteira PicPay com boleto ou depósito bancário. Depois de assinar, escreva para bolapresa@gmail.com para mais detalhes de como ter acesso ao conteúdo exclusivo.

DÚVIDAS SOBRE AS ASSINATURAS? Nos escreva: bolapresa@gmail.com

Assine já!