O melhor time ruim

O largo DeMarcus Cousins é um dos grandes pivôs da nova geração do basquete americano. Em uma época de small ball é cada vez mais necessário ter um pivô que, sozinho, tome conta do garrafão. É possível argumentar que não é o fim dos pivôs na NBA, apenas o fim dos pivôs medíocres. Logo, quando se acha um dos poucos que se pode confiar, e Cousins parece ser um deles, deve se apostar tudo no cara, certo?

 

Em teoria sim, mas na prática as coisas são mais complicadas. Parece óbvio que uma franquia que está há quase 10 anos sem produzir um time decente deva colocar todas suas fichas nesse pivô de apenas 22 anos que conseguiu médias de 18 pontos e 11 rebotes na última temporada, além de ser um dos raros caras da sua posição a acabar a temporada com média superior a 1 roubo e 1 toco por partida. Cousins é pesado, mas ágil, uma combinação que Shaquille O’Neal já mostrou que pode ser impossível de ser defendida.

Porém, em menos de 2 meses de temporada 2012-13, Cousins já foi suspenso por um jogo por dar uma porrada nas partes baixas de OJ Mayo. Depois suspenso por dois jogos por ofender um comentarista de San Antonio que tinha falado mal do pivô. Por fim, discutiu com o técnico Keith Smart em um pedido de tempo e depois novamente no vestiário, de onde nem voltou para o 2º tempo contra o LA Clippers na última sexta-feira. Agora está suspenso por tempo indeterminado. Ele também é segundo colocado (atrás de Matt Barnes e Carmelo Anthony) em faltas técnicas na temporada, são 7 em 23 jogos. Isso sem contar seu histórico de brigas com técnicos, foi Paul Westphal antes de Keith Smart e confusões no seu ano de faculdade em Kentucky e até nos tempos de colegial.

É importante lembrar que o Kings já tenta bancar Cousins faz um tempo. O Paul Westphal foi mandado embora justamente depois de ter entrado em conflito com o jogador, mais ou menos uma coisa Neymar e Dorival Júnior mas com menos penteados estranhos e sem os comentários do Neto na TV. Se ele foi suspenso por tempo indeterminado agora não é porque fez algo mais grave que antes, mas porque não para de fazer bobagens.

E prefiro usar a palavra “bobagem” à “indisciplina“. Dependendo do caso não é ruim ser indisciplinado, o cara pode ter seus motivos para não obedecer. Mas o que Cousins faz são bobagens. Reclamações gratuitas no meio de jogos difíceis, não voltar para a defesa porque está bravinho que não recebeu um passe, faltas duras, quase agressões, quando está frustrado na defesa. Sem contar as brigas com técnicos só porque toma broncas.

Já começaram os boatos de troca do DeMarcus Cousins, claro, mas será que o Kings vai topar? Eu apostaria que ainda não, mas é uma possibilidade real. Se o Kings for trocar alguém talentoso, acho que o fariam com Tyreke Evans. Ele não tem tanto problema de brigas ou explosões emotivas, mas de comprometimento, treino, liderança e vontade de melhorar o seu próprio jogo e o time. Depois de uma das melhores temporadas de novatos de todos os tempos, um dos pouquíssimos jogadores a acabar seu primeiro ano de profissional com pelo menos 20 pontos, 5 rebotes e 5 assistências de média, nunca mais jogou nesse nível. No fim das contas o Kings não deu uma extensão de contrato para Evans e ele será um Free Agent Restrito ao fim da temporada 12-13.

 

Pensando sobre o que o Kings deveria fazer, lembrei de outros casos de jogadores considerados “problemáticos” no começo de suas carreiras. Caras de temperamento explosivo como Ron Artest e Rasheed Wallace, talentosos-preguiçosos-irresponsáveis como JR Smith e Andray Blatche e até que não são de causar problemas extra-quadra, mas que não chegaram na NBA com a cabeça de um jogador profissional, como JaVale McGee e Tyson Chandler. O que todos eles tem em comum? De um jeito ou de outro todo mundo se acertou (McGee está melhorando, juro), o talento falou mais alto, mas em nenhum caso o beneficiário foi o time que investiu nele quando eram novos.

O Ron Artest saiu cedo do Bulls e jogava muito no Indiana Pacers, é verdade, mas foi o maior responsável por desmontar aquele favorito ao título de 2004 e colocar a franquia num limbo de que só saíram agora em 2012. Ele começou a render de verdade, com mais responsabilidade e jogo de equipe no Houston Rockets e depois no Los Angeles Lakers. Mesma coisa com Rasheed Wallace, rendeu muito no Portland Trail Blazers, claro, mas virou uma referência positiva ao time, não o cara que estragava tudo quando perdia a cabeça, quando foi para o Detroit Pistons.

O mesmo vale para os outros. JR Smith é excelente e faz ótima temporada pelo Knicks, mas nunca deu nada para o time que investiu nele quando era um pirralho, o Hornets. Andray Blatche afundou o Wizards por anos até finalmente começar a jogar bem pelo Brooklyn Nets nesse ano. Já comentei uma entrevista do Tyson Chandler que ele admite, hoje, que não estava nem um pouco preparado para a NBA quando chegou à liga em 2000 no Chicago Bulls. Foi começar a jogar bem mais de 5 anos depois, no Hornets, e chegou a seu auge no Dallas Mavericks, uma década depois de ser draftado.

Em alguns casos a mudança tem a ver com a idade. Caras como JR Smith e Tyson Chandler chegaram adolescentes na NBA e precisavam de tempo para amadurecer como pessoa e depois como jogador. Em outros casos é uma questão de liderança, Rasheed Wallace precisou ter a companhia de Ben Wallace, Chauncey Billups e Larry Brown para se acalmar e saber seu papel no time. No caso do Ron Artest ele foi atrás de tratamento psicológico e não à toa sua psiquiatra recebeu agradecimento especial na entrevista pós-título mais épica de todos os tempos. Fiquei muito feliz ao ler hoje que o Andre Drummond, de apenas 19 anos, levou sua mãe e sua irmã para morar com ele em Detroit para ajudá-lo com a transição para a vida adulta da NBA. Segundo o jogador, foi “a melhor coisa que fiz até hoje”.

 

 

Meu ponto é que realmente não sei o quanto vale a pena apostar em jovens jogadores que tenham qualquer tipo de problema de comportamento, maturidade ou até problemas psicológicos, como era o caso de Artest. Não duvido, por exemplo, que o Royce White vai achar seu espaço na NBA. Mas será que vai ser no Houston Rockets? Talvez a relação entre jogador e equipe já esteja desgastada demais e ele acabe dando o fora. Deixe-me dizer melhor com outras palavras: o talento fala mais alto e vale a pena apostar nesses caras com problema de comportamento, sim, só não sei quando.

Relembrei todos esses casos porque procuro tomar muito cuidado quando falamos dos tais jogadores-problema. Alguns deles tem comportamento e/ou distúrbios psicológicos que qualquer outra pessoa tem, mas são mal vistos simplesmente porque nós enxergamos atletas de um jeito diferente. Eles devem ser peças mecânicas de uma grande engrenagem, o time, ao mesmo tempo que são grandes companheiros, líderes (embora submissos ao técnico) e exemplos para as criancinhas que assistem basquete. Simplesmente esperamos demais deles.

Então não acho o DeMarcus Cousins um babaca, ou um desperdício de talento. Acho que ele é um dos melhores pivôs da NBA já hoje e tem tudo pra ser ainda melhor nos próximos anos, mas que por enquanto não sabe usar esse talento todo a favor do seu time. Porém o Sacramento Kings não tem esse privilégio de enxergar as coisas com um olhar humano, para eles é competição e negócio. E precisam tomar uma decisão logo. Vão manter DeMarcus Cousins e Tyreke Evans arriscando deixar a situação dos dois insustentável? Ou trocam eles com times que estão em busca de jovens talentosos antes que corram o risco de perdê-los por nada?

No lugar deles eu não faria essa troca, faria outras. Acho que o Kings sofre com problemas de liderança e de bons exemplos. E bom exemplo no sentido de chegar cedo no treino e estudar o adversário, não de fazer caridade. No ambiente competitivo da NBA os próprios jogadores possuem um respeito imediato e quase sagrado aos chamados “jogadores vencedores”. São caras que já conquistaram um anel de campeão da NBA, que disputam Playoffs todos os anos, que já acertaram bolas decisivas ao longo da carreira. Dentro da liga, aliás, em todos os esportes, jogadores veteranos também são automaticamente escutados. Na sua firma talvez o cara mais velho seja ignorado pelo recém-formado de gel no cabelo que se acha um gênio, mas o esporte nutre uma adoração aos caras que estão na ativa há muito tempo.

Outro dia o Jeff Van Gundy comentou a melhora do Andray Blatche no Nets em uma transmissão da ESPN. O ex-técnico disse que muitas vezes jovens jogadores que estão em times que só tem pirralhos, o caso do Wizards, não tem parâmetro de como funciona a NBA. Eles fazem daquele jeito e acham que é sempre assim. Aí aparece um Kobe Bryant com 34 anos estudando vídeo do adversário na madrugada, no avião, ou Ray Allen chegando no ginásio 5 horas antes do jogo para treinar arremessos e eles quebram a cara. Para Van Gundy, o segredo da melhora de Blatche é o fato de estar em volta de Deron Williams, Joe Johnson e Gerald Wallace, simples assim.

Mas quem no Sacramento Kings tem uma história na NBA? Quem poderia sentar para conversar com DeMarcus Cousins? O John Salmons?  Travis Outlaw? Aaron Brooks?

[youtube width=”600″ height=”335″]http://www.youtube.com/watch?v=9yQOi1fBmmQ[/youtube]

Apostar em times jovens é muito arriscado. O OKC Thunder é o exemplo máximo de como isso deu certo, mas eles deram sorte de achar um grupo de escoteiros que são obedientes, esforçados e que tem uma amizade enorme entre eles. É um caso quase único numa liga onde os times jovens costumam fracassar enormemente. E o Kings, sem pensar nisso, como reforçou seu time para essa temporada? Com o Aaron Brooks, um ainda jovem armador irresponsável que só sabe arremessar (mas arremessa pra cacete!) e com o novato Thomas Robinson. Não resolveu nada.

Outro dia comentei no Twitter como a defesa de transição do Kings era a maior piada da NBA. Tentem ver um jogo deles (de madrugada, todos os outros acabaram e sobra o Kings) e prestem atenção em como voltam para a defesa depois de errarem um arremesso. Um volta trotando, outro conversando (xingando) o juiz, um terceiro fazendo sinal negativo com a cabeça e dois fingem marcar o contra-ataque adversário. Alguém dá um puxão de orelha? Nada. Quando o técnico faz, DeMarcus Cousins o xinga. E Keith Smart não teve um bom histórico ao lidar com um time jovem na sua temporada pelo Golden State Warriors há dois anos, diga-se de passagem.

Um técnico que saiba lidar e cobrar os jovens, como está fazendo Michael Dunlap no Bobcats apesar das derrotas, seria um ótimo começo. Só ver o que Doug Collins faz com o jovem e limitado Sixers. E será que não dá pra trocar bons talentos como Jason Thompson ou Jimmer Fredette, o jogador mais consciente do time, disparado, por um veterano? Ou mesmo o Francisco Garcia com seu atraente contrato expirante e Chuck Hayes, o pivô anão mais esforçado da história. É possível. Até porque o veterano não precisa ser uma estrela, Tyreke Evans e DeMarcus Cousins tem esse papel. Por enquanto.

Para encerrar, o melhor vídeo do DeMarcus Cousins na internets:

[youtube width=”600″ height=”335″]http://www.youtube.com/watch?v=DPvYAWz2ZfM[/youtube]

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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