O que aprendemos com Leandrinho

Quando comecei a acompanhar a NBA, ainda bem moleque, não entendia nada do que estava acontecendo em quadra. A televisão só transmitia um jogo por semana, então era tudo que eu tinha para poder me acostumar com o esporte e todas as suas nuances. Durante muito tempo, minha principal preocupação era somente entender as regras, tendo em vista que eu nunca conseguia entender os motivos de uma hora um lance ser considerado falta e na outra hora não. Saber quem eram os bons times ou os melhores jogadores também era muito difícil, quase impossível. Vale lembrar que tudo isso aconteceu numa época meio-que-longínqua, em que a internet não existia, então encontrar uma matéria de jornal explicando quem eram os jogadores mais importantes da final de conferência que aconteceria numa noite de infância foi algo épico, emocionante, transformador (e que, por simples acaso, me tornou um torcedor do Houston Rockets). Eu finalmente consegui assistir a um jogo sabendo mais ou menos o que esperar dele graças a um infográfico tosco de jornal.

Todo começo é complicado. Sem o conhecimento adequado, o basquete não passa de um monte de carinhas correndo de um lado para o outro tentando colocar uma bola num buraco exageradamente alto. O conhecimento adequado só nasce do costume, da experiência, da insistência e do estudo. O problema é que na maior parte das vezes simplesmente não percebemos isso. Por assistir futebol desde pequenininhos aqui no país do ludopédio, temos a impressão de que futebol é simples e os outros esportes é que são chatos e complicados. Vale pra tudo: ao ser criado pela mamãe sentadão lá no sofá assistindo desenho animado, você adquiriu um conhecimento da linguagem cinematográfica que, com os anos, fez ela parecer natural – enquanto um livro parece estranho, forçado e, em última instância, chato. A linguagem da música pop te acompanha desde o nascimento, é uma segunda pele – enquanto a música clássica parece incompreensível, entediante. É por isso que, sem o costume e as informações necessárias, o basquete é por vezes uma barreira intransponível, complexa em todas as suas variações táticas, em seus trocentos jogadores todos com alguma especialidade, em sua longa história de grandes feitos e estrelas. Faz sentido que começar a trilhar esse caminho seja um bocado complicado.

Hilário

O curioso é que a chegada do Nenê à NBA facilitou muito as coisas. Pela afinidade óbvia com o jogador (nascemos todos na mesma linha imaginária e falamos o mesmo idioma, o que nos liga seja lá por que motivo bizarro), muita gente passou a saber quem acompanhar dentro da liga. Mesmo no meu caso, que estava acostumado com o esporte há anos, confesso que a primeira vez em que assisti a um jogo olhando só para um jogador, dissecando seu posicionamento, foi com o Nenê. A nacionalidade é um filtro de segurança quando a gente acha que o esporte tem informação demais para a gente lidar de uma vez só. Muita gente vai assistir a uma prova de natação numa Olimpíada e não sabe quem são os favoritos, quais são as rivalidades, as histórias pessoais dos nadadores, então pergunta “quem é o brasileiro” e pronto, já tem para quem olhar, vibrar, torcer. Não é aleatório que o MMA no Brasil tenha explodido tão rápido: tem sempre brasileiro participando, o que deixa o público que está assustado de não entender merda nenhuma mais tranquilo, ele não precisa conhecer as histórias e se identificar com um dos competidores porque a identificação da nação já vem pronta. É um facilitador. Conheço muita gente que passou a ver NBA quando o Nenê entrou e, depois de anos acompanhando, já conhece os jogadores, as regras, os confrontos, as táticas o bastante para não se importar mais se o Nenê é brasileiro, marroquino ou finlandês – especialmente porque não faz diferença mesmo.

Uns anos atrás, tinha campanha na internet para tentar levar o Nenê para o All-Star Game mesmo quando ele não jogava bem o bastante. O motivo é simples: o torcedor comum não conhece ninguém na NBA, é uma quantidade absurda de jogadores diferentes com posições malucas, mas o Nenê ele manja, o Nenê ele conhece, nasceu nessa mesma linha imaginária que ele, aqui, ó, pátria-amada-brasil. O Bola Presa sempre foi categórico: deveria ir para o All-Star Game os melhores jogadores, os mais divertidos, os que você mais se identifica, sem esse filtro de nacionalidade. Entendemos que o filtro é um bom modo de entrar no esporte, é um modo muitas vezes necessário (assim como as listas de “quem é melhor”, “quais os melhores times”, etc), mas se ater a ele é um erro.

Dez anos se passaram desde que o Nenê entrou na NBA. Agora ele é a voz de maturidade num elenco cheio de pirralhos no Wizards (e que finalmente está funcionando desde a pausa do All-Star). Outros brasileiros entraram na NBA, trazendo com eles novos torcedores que ganham a facilidade de saber quem acompanhar e eventualmente acabam se apaixonando pela liga como um todo. Anderson Varejão quase conseguiu ser chamado para o All-Star Game esse ano não por campanha de internet, mas por mérito próprio, pelo basquete que joga independentemente do país em que nasceu, e só não foi chamado porque se contundiu antes e ficou fora da temporada (com um coágulo no pulmão, coisa de quem aguenta um atropelamento de caminhão por dia só pra ver se ganha uma falta de ataque). Já temos toda uma geração de fãs especializados em NBA que não precisam mais da muleta dos bairrismos, dispostos a simplesmente assistir ao melhor basquete e aos melhores jogadores que puderem.

Toda essa retrospectiva foi apenas a preparação para podermos falar de um brasileiro: Leandro Barbosa. Isso porque o Leandrinho nos permitirá aprender lições valiosas tanto sobre o Boston Celtics quanto sobre bairrismo e o basquete brasileiro.

Doc Rivers Leandrinho

Assim que o Celtics perdeu Rajon Rondo pelo resto da temporada, parecia que o time ia afundar privada abaixo. Rondo fazia simplesmente tudo em quadra e era constantemente o líder da equipe em pontos, rebotes, assistências e roubos de bola. Quando o Celtics de Garnett, Pierce e Allen foi formado em 2007/08, se tornou campeão com a estratégia “vamos defender como profissionais que no ataque a gente se vira”, dependendo de jogadas individuais e pontos feitos na marra, com o Paul Pierce assumindo o ataque quando a água batia na bunda. Com Pierce mais velho e a evolução espetacular do Rondo, os papeis inverteram mas nada mudou – o ataque do Celtics continuou na base do “a gente dá um jeitinho” mas cabendo ao armador fodão tirar os pontos da cartola. O problema é que quanto mais o Celtics sofria com lesões, cansaço e falta de entrosamento, mais o time deixava a carga ofensiva nas mãos do pobre Rajon Rondo. É um círculo vicioso bizarro: quanto pior o time vai, mais o Rondo tem que fazer tudo sozinho, e com isso o time vai pior, e aí o Rondo tem que fazer mais coisas sozinho. Ou seja, quanto piores os joelhos de Garnett e Pierce, quanto pior a posição na tabela, e quanto pior a autoestima do elenco, mais Rajon Rondo assumia tudo no ataque. Virou a estrela incontestável de um time que não ia a lugar nenhum.

Quando o Rondo virou farofa, o Celtics percebeu que teria que voltar a assumir as responsabilidades tão ignoradas. Começou com aquela famosa “síndrome de time feliz por perder sua estrela”, que já assolou o Wizards de Gilbert Arenas, o Sixers de Allen Iverson e até o Cavs de LeBron James, em que nos primeiros dias da contusão do jogador principal o resto do elenco fica eufórico de ter mais a bola na mão e começa a ganhar uns jogos. Mas a síndrome não dura, os jogos difíceis começam a aparecer, as derrotas surgem, não tem ninguém pra decidir, a autoestima desaba, a saudade bate e aí os times voltam a perder loucamente. As primeiras vitórias do Celtics mesmo sem Rondo não foram surpresa, portanto. Todos participaram mais do ataque e toda ajuda era bem-vinda, com os jogadores do banco de reservas participando mais da rotação – incluindo o Leandrinho. Surpresa mesmo foi que as vitórias continuaram aparecendo, e que o Leandrinho em quadra parecia um jogador completamente diferente daquele que fez tanto sucesso no Phoenix Suns.

Leandrinho não entrava em quadra para segurar a bola como Rondo e criar oportunidades de cesta como fez em toda sua carreira, mas sim para defender – isso mesmo, defender, aquela coisa que ele nunca teve que fazer ao lado de Steve Nash – e tentar criar pontos na marra, no contra-ataque. Suas tendências de atacar a cesta pareciam dopadas com drogas pesadas, e suas limitações defensivas pareciam superadas. Foi aí que comecei a ir atrás do que diabos havia acontecido com nosso Leandro Barbosa (sem contar, claro, as transformações óbvias de se casar com uma chata). A maior pista que encontrei está nessa escondida entrevista dada pelo armador pouco mais de um mês após chegar no Boston Celtics:

[youtube width=”600″ height=”335″]http://www.youtube.com/watch?v=wr54erEuo3U[/youtube]

No vídeo, ele basicamente diz que está se adaptando ao time e aprendendo a defender, já que “de onde ele vem não se joga na defesa”. Frente às risadas, que entenderam que ele se referia ao Suns, ele explica o que ele quis dizer: “estou falando do Brasil”. Sua primeira adaptação ao Celtics foi aprender algo que ele não teve sequer na base. E continua, dizendo que ele aprendeu ali que “quando você defende direito, o resto vem automaticamente“, ou seja, para o Celtics o ataque não é treinado, mas sim consequência da defesa.

Somadas a esse relato, encontrei entrevistas de Doc Rivers e de Paul Pierce elogiando a evolução na defesa do brasileiro e que, com isso, ele conseguiria finalmente ter minutos de quadra. Pareciam empolgados com a possibilidade de que ele fizesse pontos e usasse sua velocidade, mas tudo isso em segundo plano atrás da defesa, e seus talento ofensivo só seria utilizado quando – e apenas quando – ele fosse capaz de defender em alto nível. O problema do Celtics é ser capaz de pontuar mesmo sem Rondo em quadra, mas Doc Rivers não está disposto a simplesmente colocar um talento ofensivo em quadra para ajudar. Se a identidade do time é a defesa, se é assim que eles se definem, então essa tem que ser a prioridade.

Pode parecer idiota (e é um pouco) não usar uma arma capaz de diminuir sua fragilidade num setor, mas essa é a escolha de Doc Rivers, que tem menos de técnico e mais de motivador-estilo-calendário-da-Seicho-No-Ie, e é inegável que isso cria uma unidade, uma identidade, um grupo coeso. O Celtics cada vez mais insiste em ser um grupo e, nesse sentido, parece ser melhor ter um elenco todo jogando “em homenagem ao Rondo, nosso amigo” do que um elenco jogando com o Rondo, com o grupo desinteressado porque cabe à estrela fazer tudo sozinha. O Celtics ainda tem muitas deficiências, perde jogos fáceis, mas agora também vence jogos difíceis na raça mesmo quando o talento não está presente. O Leandrinho se contundiu numa jogada banal mas outro entra em seu lugar – desde que seja capaz de defender, de gritar e de pertencer. A própria troca por Jordan Crawford, conhecido por ser um arremessador porra-louca incapaz de defender, veio pouco depois que coincidentemente me deparei com uma matéria mostrando, em números, como a melhora defensiva do Wizards para essa temporada acontecia sempre que Crawford estava em quadra. É por isso que, apesar das limitações, alguém realmente duvida que o Celtics pode acabar ganhando uma série improvável nesses playoffs mesmo sem mando de quadra, na base da defesa pura e simples e de um ataque na base da cagada? Leandrinho nos ensinou, sem querer, como o Celtics funciona: eles não vão contratar um cara para atacar a cesta e pontuar se ele não der ao time aquilo que o time já tem, ou seja, defesa.

Resta, por fim, outra lição que Leandrinho nos deixa também, mas dessa vez mais caseira, longe da NBA. É um alerta de que o basquete que estamos jogando e treinando no Brasil está muito longe, do ponto de vista teórico, do que funciona lá na melhor liga do planeta. Já ouvi muita gente ligada ao basquete nacional dizer que NBA é outra realidade, que a gente tem que pensar diferente por aqui, e que por isso não assiste aos jogos da NBA e não dá ouvidos para os técnicos gringos. É o equivalente a um técnico de futebol brasileiro que não acompanhe os grandes clubes da Europa e não esteja ligado nas mudanças táticas do resto do mundo, é ao mesmo tempo prepotente e amador.

Talvez nossa identificação com o Leandrinho (e com o Nenê, e com o Varejão, e com o Splitter) seja por ele nascer na mesma linha imaginária que a gente e por isso ter sofrido os mesmos problemas que sofremos na nossa paixão pelo basquete – os mesmos problemas técnicos, táticos, o pouco incentivo, a falta de interesse, o descaso da mídia e dos dirigentes. É só nessa hora que a nacionalidade interessa: se o Leandrinho precisa reaprender a jogar na defesa porque nas linhas imaginárias daqui isso não existe, o armador se transforma num exemplo dos terríveis obstáculos que nossos jogadores brasileiros de basquete precisam enfrentar, e a que estamos todos submetidos. Ao entender que pela questão da cultura do nosso país estamos todos nesse mesmo saco, precisamos então ser capazes de, por alguns instantes, esquecer a nacionalidade e sermos capazes de olhar para o melhor basquete do mundo, onde ele estiver, com a humildade de aprender com ele.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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