O que Taj Gibson tem a ver com a Alinne Moraes

O timing do post é péssimo, eu sei. Jogo da NBA no Brasil parece que já aconteceu 100 anos atrás e, espero, as vaias ao Nenê sejam um assunto comentado por ninguém. Mas só hoje sobrou um tempo decente para escrever e espero que ainda seja relevante saber como foi a rápida passagem do Bola Presa pelo Rio de Janeiro. Antes atrasado do que nunca, como disse Jason Kidd após o título de 2011. E se não disse, deveria.

Passei um certo nervosismo ao longo de toda a semana que antecedeu a partida. Não são muitos os eventos que envolvem a NBA aqui no Brasil e entre todos estes, que cresceram nos últimos 10 anos, nenhum chegava aos pés de uma partida de verdade entre duas equipes da liga. E eu teria, pela primeira vez, uma credencial de imprensa, conseguida via Bola Presa, para cobrir o evento. A princípio era um sonho, mas quando chega a hora não dá pra parar e se perguntar: que raios eu vou fazer lá?

Taj Gibson

Não vou nem começar a pisar no terreno do quanto é difícil falar com os caras de lá. É legal, mas já ficou meio batido a entrevista que não rendeu nada virar um texto sobre como a entrevista não rendeu nada. O legal seria manter o nosso estilo, mas aproveitar a chance para fazer alguma coisa diferente, ao vivo. O plano começou a falhar quando, por trabalho, não consegui ir para o Rio de Janeiro na terça-feira, quando começaram as festividades. Enquanto lá tinha praia, sol, mulher, eventos promocionais, treinos abertos e Derrick Rose, eu ficava aqui andando de trem e, vendo a vida passar pelo computador da firma. Eu teria pouco mais de 24h para tentar alguma entrevista e algo que justificasse a bendita credencial.

Como um doido, fiquei tentando contato com a assessoria de imprensa dos dois times. Achei que talvez tivesse alguma chance deles me conseguirem alguns cinco minutos para eu falar com alguns de seus jogadores mais interessantes e menos conhecidos. Já sabia que Derrick Rose não ia falar uma palavra interessante, mas talvez desse para arrancar algo de outros. Daria para falar com Jimmy Butler, que tem uma das histórias de vida mais impressionantes da NBA atual. Nada de ficar preso e condenado a morte como DJ Mbenga, mas ele foi abandonado pela família, viveu na casa de amigos durante toda a adolescência e nem era um ‘prospect‘ conhecido quando saiu do colegial, tendo que passar numa faculdade menor antes de ser visto pela tradicional Marquette. Tinha tudo pra dar errado não só no basquete, mas na vida, e tá aí jogando tão bem que o Bulls pensa duas vezes em renovar com Luol Deng. Também queria falar com Nazr Mohammed pra saber se ele concorda comigo que sua carreira poderia ter sido muito melhor (e mais milionária) caso o small ball não existisse, ou ainda com o jovem e misterioso Jan Vesely, o tcheco beijoqueiro que mescla momentos ótimos com outros onde parece que não é um jogador profissional. Assunto nunca falta.

Claro que desanimei em não participar de tudo e perder uma chance de ouro dessa. Sempre me perguntei se o Bola Presa teria a mesma qualidade se tivéssemos acesso a mais pessoas e informações. Afinal, se por um lado é frustrante, por outro é bem cômodo que a gente nunca tenha Kobe Bryant ou LeBron James ao nosso alcance, não temos como fazer entrevistas ruins e nem temos pressão alguma por furos ou coisa do tipo. Mas agora não tinha desculpa, os caras estavam aqui. Decidi, no entanto, relaxar. Não dava pra ir antes e não tem nada menos nossa cara do que forçar a barra. Ninguém ia morrer por falta de entrevistas exclusivas e eu não queria perder meu único fim de semana livre no mês me estressando para ouvir um jogador falar. Era NBA no Brasil e eu só queria ver um bom basquete ao vivo, o que viesse a mais era lucro.

E relaxar foi a melhor coisa que eu fiz. Ao invés de fazer plantão em hotel para escutar um sonoro “both teams will play hard” de algum jogador mal humorado, usei meu sábado de manhã para ir no belo Aterro do Flamengo jogar um basquete maroto sob um sol de, ao que parecia, uns 200ºC.  Não fui jogar sozinho, marquei lá com colegas de Liga Bola Presa de Fantasy, que criamos no primeiro ano de blog, lá em 2007/08. Criei a liga pensando só em jogar com algumas regras que eu gostava, mas o negócio cresceu num nível que hoje a galera lá troca dezenas de e-mail por dia, criaram amizades, contatos de trabalho e até dormiram um na casa do outro. Eu sabia disso tudo, mas ver ao vivo, acontecendo na minha frente, foi bem emocionante. Claro que eu não ia admitir que estava emocionado na frente de 20 marmanjos de todos os cantos do Brasil, mas foi bem bonito pra mim. Boa parte daquelas pessoas virtuais, que se juntaram por uma ação inicial minha, todos jogando basquete, dando risada, sendo amigos, horas antes de ir ver um jogo da NBA no Brasil. Não tinha visto nem sombra de um jogador do Bulls na minha frente, nenhuma perspectiva de entrevista, e a viagem já tinha tido aquele momento de que tinha valido a pena.

Acabei deixando o pessoal ir lá comer e beber e fui pagar de jornalista. Chegar mais cedo no ginásio, pegar credencial, ver aquecimento, entrevistas coletivas e toda a papagaiada da profissão. Tive a companhia do Fábio Balassiano, que me ajudou com tudo ao longo da viagem, e fui lá ver qual era. Comes e bebes para a imprensa numa sala com computadores não interessavam, nem levei computador, fui para a quadra assim que ela foi liberada. Lá, o paraíso. Todos os jogadores B de Wizards e Bulls se aquecendo, arremessando e simplesmente existindo. As impressões que tive durante o aquecimento e até durante o jogo foram muito óbvias, mas daquelas que são as únicas que você consegue balbuciar quando vê alguma maravilha ao vivo. Imagine você conhecendo a Alinne Moraes, vendo aqueles olhos brilhando na sua frente, o que você diria aos amiguinhos do colégio no outro dia? “Mano, ela é muito linda”. Ou seja, você só repetiria o que todo mundo sabe há uma década. Pois foi o que eu fiquei fazendo enquanto estava lá. Fiquei impressionado com a agilidade do Mike Dunleavy para o seu tamanho, com a envergadura do Tony Snell, com a força do Nenê, a velocidade do John Wall, o tamanho dos braços do Carlos Boozer. Tudo o que eu já sabia, mas que ao vivo era ainda mais impressionante. Eu mesmo me frustrei na hora, querendo fazer observações mais originais, mas o óbvio já era surreal.

Por sorte nem tudo foi assim. Depois de ver Taj Gibson fazer o aquecimento mais longo de todas as pessoas não chamadas Ray Allen, treinando arremessos de meia distância ad infinitum, ele começou a treinar seus movimentos de costas para a cesta. Vocês não tem noção de como ele tem recursos ofensivos! Quer dizer, pelo jeito não o bastante para fazer isso num jogo válido da NBA, mas mesmo assim ele ficou lá mostrando giros, ganchos e ótimo jogo de pernas. Posso dizer com alguma certeza que o jogo como um todo foi fraco, e mesmo assim o jogo de melhor nível técnico que já vi ao vivo. Queria ter visto Derrick Rose, óbvio, a galera toda ficou frustrada, queria ter visto o John Wall fazer um jogo menos medíocre, mas o nível dos caras ruins, ao vivo, era bom demais. Outra coisa menos óbvia? O quanto os técnicos reclamam com os árbitros. Na TV dá pra ver acontecer algumas vezes, mas ao vivo deu pra perceber que acontece o tempo todo, em toda santa falta. Não deixam nada a desejar para os resmungões do basquete nacional. E era só um jogo de pré-temporada. Tom Thibodeau só não reclama quando está ocupado demais sentindo desgosto pelos turnovers do seu time, e as caras e bocas do treinador só não foram melhores do que duas coisas na partida: as cheerleaders do Wizards dançando Show das Poderosas e, claro, Benny The Bull: o mascote de todos os mascotes. Perdi alguns lances da partida assistindo aquele touro de pelúcia obrigar um segurança do ginásio a limpar o chão e o grande momento da noite foi ver Benny trollar uma criança durante uma atividade profissional e tirar dela qualquer chance mínima de ganhar um brinde.

Não achei vídeos do Benny no Rio, mas tem do Air Benny, que também conquistou a galera:

[youtube width=”600″ height=”335″]http://www.youtube.com/watch?v=15BqCyPU7DM[/youtube]

 

O que me broxou durante a partida foi ver o pessoal em volta de mim. 95% dos jornalistas presentes estavam ocupados demais escrevendo as matérias sobre o jogo e desesperados atrás de fotos e não puderam aproveitar nem um pouco do que estava realmente acontecendo na quadra. Os portais exigem o texto pronto assim que o jogo acaba, logo não dá pra ver o jogo e, consequentemente, escrever algo mais profundo sobre ele. Não precisa demorar duas semanas como a gente, mas essa cobrança de imediatismo é patética e, como a velocidade de Wall e os olhos da Alinne Moraes, fica mais impressionante quando vista ao vivo. Mas pior que isso foi ver que quase todas as matérias focavam nas vaias para o Nenê, como se o patriotismo do pivô não tivesse sido um assunto abordado nos últimos 10 anos. As vaias foram divididas, não vieram de todo o ginásio, e foram devidamente respondidas com aplausos após os acertos do pivô. Foi só isso. Por que damos tanta moral para as asneiras absurdas que o Oscar fala? Ele nem deveria estar lá, mas já que estava, que batam palmas e tapem os ouvidos. Essa história forçada de que temos que respeitar os ídolos do passado, como se fossem entidades atemporais, causa constrangimentos constantes porque tudo o que dizem vira notícia, rende respostas e comentários. Não é porque alguém foi bom dentro de uma quadra ou campo que a pessoa tem algo relevante a dizer. A maioria não tem, na verdade. Não é segredo que o mundinho dos atletas, desde sua estrutura até as pessoas que ficam nas orelhas deles dando conselhos, não gera incentivo algum para que eles pensem de maneira crítica, então por que escutá-los? Acertar bolas de 3 pontos faz o patriotismo do Oscar ser mais relevante que o de um velho ranzinza com saudade da ditadura? Ignorem os dois, o Oscar e o velho, por favor. Especialmente quando outros assuntos mais importantes estão acontecendo em volta deles.

Ao fim da partida, mais entrevistas coletivas. Eu não tinha nada a perguntar de oficial, não iria publicar em lugar algum, mas decidi participar com uma coisa aqui e outra lá, só pra ver qual é. Falei com Randy Wittman sobre os pirralhos que ele colocou em quadra, e ele me respondeu que deu espaço para os reservas porque eles tinham sido péssimos no jogo anterior. E completou dizendo que no seguinte daria mais tempo aos titulares, porque eles tinham sido horríveis naquela tarde. Sinto a mesma coisa treinando o Criciúma no Football Manager. Com Nenê eu tentei falar, mas não consegui. Todo mundo levantou a mão, desesperado para perguntar sobre as vaias, e conseguiram. Foram 5 ou 6 perguntas, todas iguais, todas respondidas da mesma forma, com um Nenê depressivo. Queria que ele falasse sobre como é ser para os jogadores de hoje do Wizards o que Juwan Howard foi pra ele no seu ano de novato, mas não tive a chance. Se bem que pelo humor do Nenê, não sei se ele tava na vibe de falar do Juwan Howard. Ia acabar falando de Jesus de novo.

Antes da partida, na coletiva do Pippen, quis saber dos tempos dele de Portland Trail Blazers. A sua fama mundial é pelo legado no Bulls, mas ele esteve a pouquíssimos minutos de desbancar Phil Jackson, derrotar o Lakers em 2000 e levar o Blazers, como claros favoritos, a uma final contra o Pacers. Poderia ter se aposentado com 7 anéis, um a mais que Michael Jordan, e um título sem a sombra de ninguém. Ele me respondeu que o jogo 7 que perdeu para o Pistons no começo da carreira, ainda no Bulls, o machucava mais. Também que se importaria mais com aquela derrota e com seu legado se não tivesse seis títulos de NBA nas costas. A vida não foi ruim pra ele, né? Depois dessa coletiva, como disse no outro post, consegui, ao lado do Bala, falar com o John Paxson.

Não foi grande coisa quando olhamos de fora. Algumas perguntas e só. Mas é o Complexo de Alinne Moraes de novo, na hora, ao vivo, é tudo o máximo. Cheguei a ficar sonhando, na hora, como seria legal comandar o blog lá dos EUA, podendo fazer mais entrevistas e levar informações e detalhes que podem ser colhidos pelos meus olhos e não pelo League Pass. Escreveria em português, para o Brasil, claro, interesse zero em querer impressionar gringo, mas seria diferente contar de lá. Tem gente que ganha a vida viajando o mundo pra reportar Fórmula 1, por que não um correspondente de NBA? Acho que não faria tanto sucesso quanto o Oscar dizendo para a gente respeitar nossos símbolos e armas, mas seria legal.

Logo depois do jogo tiver que correr de volta para São Paulo, no domingo iria trabalhar de novo. A sensação de missão cumprida não teve nada a ver com o que fiz no evento, que foi pouco, superficial e completamente pensado apenas em satisfazer o meu desejo pessoal de ver um jogo da NBA ao vivo, de perto. A satisfação foi pelos anos e anos de blog, que renderam um encontro ótimo com leitores de longa data (certamente a parte mais legal), com o Balassiano, que eu não conheceria se não fosse pelo Bola Presa, e com uns outros dois ou três jornalistas que me abordaram do nada (como eles sabem minha cara?!) para dizer que leem o blog e que estavam honrados (!!!) em me conhecer. O meu grande desgosto em ter que trabalhar todos os dias é a inutilidade e efemeridade do que faço, colocando toda minha energia em coisas que somem, sem ninguém perceber, em questão de horas. Mas a sensação que tive lá é que de o tempo dedicado ao Bola Presa não foi todo assim. Grupos de pessoas se formaram ao redor dele, outros tantos se inspiraram, outros só deram risada com alguns textos. E eu, pessoalmente, tive a chance de ver o Taj Gibson treinar do meu lado porque tinha um pedaço de plástico escrito “Bola Presa” pendurado no pescoço.

Já li várias mensagens falando de como o Bola Presa foi importante para algumas pessoas, não precisava ter ido ao jogo para perceber que temos leitores fieis. Mas é como a Alinne Moraes, ao vivo é diferente.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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