Pelas beiradas

“Recebi alguns conselhos ruins. Peço desculpas pelo circo que causei aos fãs da nossa cidade. Eles não mereciam nada disso. Eu sinto muito, do fundo do meu coração. Farei o que puder para consertar isso e fazer aquilo que vim para Orlando fazer.”

Foi assim que Dwight Howard terminou uma longa novela melodramática mexicana que durou por toda a temporada passada. Descontente com seu Orlando Magic, Dwight havia publicamente pedido para ser trocado, mas vetou algumas equipes envolvidas no processo de trocas com medo de ir parar em algum time ainda pior, e por fim acabou resolvendo ficar no Magic por mais um ano, sem no entanto aceitar uma extensão de contrato. Seu pedido público de desculpas foi uma tentativa de minimizar os danos causados tanto ao Orlando Magic quanto à sua própria imagem.

O Magic, tendo construído um time inteiro em volta de seu pivô, não sabia que rumos tomar frente à indecisão e às exigências de sua estrela – acabou se tornando espécie de refém, tipo um desses relacionamentos românticos em que uma das partes fica “cozinhando” a outra, sem terminar o namoro até arrumar outra pessoa, e aí fica todo mundo no limbo sem conseguir pular do barco. Mas embora o maior dano tenha sido para o Magic, para o Dwight as coisas não foram muito melhores: sua imagem de jogador brincalhão, divertido e carismático tão firmemente construída durante suas participações em All-Star Games foi sendo substituída pela de jogador marrento, reclamão, em constante conflito com seu técnico, exigindo mais a bola, mais destaque, melhores companheiros, um outro time. Obviamente, começou a ser odiado.

A saída de LeBron do Cavs, “cozinhando” sua namorada até literalmente o último segundo quando enfim lhe deu um pé na bunda em rede nacional para trocá-la por uma modelo gostosa, deixou ao menos uma grande lição para os jogadores da NBA: ser um escroto com sua ex-equipe é um desastre comercial de proporções apocalípticas. É claro que Dwight percebeu que havia enfiado o pé na merda e tentou diminuir o estrago, mas já era tarde. Mesmo com sua decisão de ficar mais um ano em Orlando, mesmo com a demissão de Stan Van Gundy, acabou trocado. A bomba foi passada para outras mãos.

Quem é leitor de longa data do Bola Presa sabe que tenho uma relação difícil com o Dwight Howard desde o primeiro minuto. Sua condição física sempre me impressionou, mas sua lenta evolução no jogo ofensivo já rendeu vários posts por aqui. Sou fã do seu humor, do seu jogo alegre, mas por vezes me vejo assustado com sua falta de profissionalismo. Acho sua defesa de cobertura simplesmente impressionante, mas considero sua defesa no mano-a-mano ruim o suficiente para que ele nunca tivesse tocado num prêmio de Melhor Defensor do Ano. Mas, acima de tudo, vejo que sua exigência por participar mais do ataque torna seus times piores, cria problemas no elenco, compromete o plano tático e derruba técnicos. É por isso que quando o meu Houston Rockets começou a abrir espaço salarial (se livrando do todo-poderoso Kyle Lowry, um absurdo) e colecionar novatos para se tornar o time favorito a receber o Dwight em uma troca, tremi. Passei a ter pesadelos terríveis com o pivô, em que ele exigia a bola nas mãos na última jogada para ganhar o campeonato para o Houston e deixava ela escapar como se suas mãos estivessem besuntadas de manteiga, enquanto na arquibancada a Alinne Moraes apontava e ria de mim vendo o jogo apenas de cuecas. Confesso que quando o Dwight foi trocado para o Lakers, suspirei de alívio. E justamente por isso me neguei a pular no trem do “essa troca é injusta, o Lakers está montando um time apelão”. Mesmo o Denis, ciente de que jogar ao lado de Nash seria a chance de Dwight finalmente render ofensivamente, sabia que as coisas não seriam tão fáceis para o Lakers.

A troca que não aconteceu para o Rockets nos ajuda a ver algo muito significativo. Ainda precisando de um pivô, pagaram 5 milhões pelo Omer Asik, então reserva do Bulls, um jogador esforçado e disposto a fazer o trabalho sujo – e que, agora, tem médias de 10 pontos, 11 rebotes e 1 toco em menos de 30 minutos de quadra, e que comete pouquíssimos erros ou faltas no processo. Não pede a bola, não exige jogadas, mas quando a recebe tem um toque sutil e habilidoso embaixo da cesta. Asik compreende suas limitações e ajuda onde pode, o que torna seu time melhor. É com ele titular que o Houston se mantém entre os melhores do Oeste.

De modo algum quero dizer, com isso, que o Asik é melhor do que o Dwight – muito pelo contrário, Dwight é bem melhor jogador. Mas ser “bem melhor jogador” nem sempre ajuda, às vezes acaba virando um grande obstáculo. Explico: por ser essa força da natureza, ter músculos de titânio até no maxilar, uma velocidade lateral absurda e a capacidade atlética de pular por cima de prédios, Dwight é colocado (e coloca-se) em situações em que não tem como ser bem sucedido. Ele é bom demais para o seu próprio bem.

O Orlando Magic dos últimos anos foi criado pensando em ter o Dwight embaixo da cesta para dominar o garrafão e uma baciada de arremessadores em volta dele para punir as defesas que teriam que se concentrar no pivô. Afinal, é isso que se espera de um pivô dominante, não é mesmo? É isso que se espera de um pivô que pode devorar ônibus escolares no café da manhã, não é mesmo? Ele é bom o bastante para dominar o garrafão sozinho, então só é preciso colocar as peças certas ao seu redor, não? Todos nós sabemos como esse experimento terminou: foi um fracasso.

Primeiramente porque Dwight não é um bom passador e tem problemas em conseguir manter a bola quando sofre marcação dupla. Quando as defesas fechavam no pivô, a bola nunca chegava a alcançar as mãos dos arremessadores livres esperando no perímetro. Dwight sempre se viu obrigado a forçar um arremesso com seus movimentos mecanicamente adquiridos, sem qualquer talento para improviso, inteligência, jogo de cintura. Passar a bola para ele sempre impedia os arremessadores de participarem, quebrava o ritmo do jogo, gerava muitos desperdícios e resultava em trocentos lances-livres errados. Nada pior para um armador do que passar várias posses de bola vendo o seu pivô errar lance-livre atrás de lance-livre – era comum ver jogadores do Magic saindo mentalmente do jogo, ou então boicotando o pivô especialmente no fim dos jogos, nas posses de bola mais importantes.

Dwight Howard é um excelente jogador. Por muitas vezes, ele é até espetacular. O problema é que por conta disso insistem no fato de que ele precisa ser Shaquille O’Neal, dominar ofensivamente, pontuar em cima dos outros jogadores “mais fracos”, dar tocos espetaculares que vão parar na arquibancada (ou nas mãos do Gallinari), acertar bolas decisivas. Esquecem que os tempos mudaram e que até Shaquille O’Neal teve dificuldades em ser Shaquille O’Neal nessa nova NBA, com defesas por zona, semi-círculo embaixo do aro e faltas marcadas a cada espirro (assuntos que abordaremos em outro post).

Se Dwight tivesse apenas as funções do Omer Asik, faria tudo com perfeição: rebotes ofensivos, pontos fáceis em bolas que sobram dentro do garrafão, corta-luz para os companheiros, defesa. Mas como ele é melhor que Asik e, portanto, lhe exigem mais do que exigem do Asik, ver Dwight em quadra é uma eterna decepção: alguém com potencial mas incapaz de fazer direito as coisas que não estão naturalmente no seu jogo. Dá pra ver na cara dele a dificuldade que é pegar um passe mais elaborado de Nash, ter que cobrar um lance-livre importante ou ter que bater para dentro da cesta quando lhe dão o espaço. É um jogador em constante sofrimento que acreditou que deve ser mais do que um simples pivô, que comprou toda essa pataquada de “superestrela”, e que nunca vai se conformar de passar um jogo inteiro sem participar ofensivamente em nome do time.

Agora no Lakers, as coisas não mudaram em nada. Só tem ainda a dificuldade adicional de estar mais em exposição em Los Angeles, de ter que lidar com os torcedores exageradamente críticos/chororôs da equipe, e do time estar perdendo a rodo. Então só há mais pressão para que ele domine, para que ajude ofensivamente, para que acerte seus lances-livres, para que receba a bola. E a culpa para o fracasso dessa empreitada cai imediatamente no esquema tático. Já foi culpa do StanVan Gundy que supostamente não sabia aproveitá-lo, Mike Brown caiu logo no comecinho da temporada, e agora é a vez de culparem Mike D’Antoni. Ninguém nunca vai admitir que talvez Dwight simplesmente esteja tentando fazer demais, e que o melhor para o Lakers é que ele participe menos. Jogos em que ele cobre mais de 20 lances-livres precisam ser algo impensável – foram dois nessa temporada contra times mais fracos, Magic e Cavs, e não aleatoriamente foram duas derrotas.

Mesmo esperar dele o que o Lakers tinha com Andrew Bynum é irreal, já que Bynum era incapaz de pular uma gilete mas sabia cuidar bem da bola, cometia poucos desperdícios e era bom cobrador de lances-livres. Por isso Dwight não pode ser um foco do ataque como Bynum era em muitas partidas, ele deve simplesmente estar lá, pronto para aproveitar os passes e os rebotes que certamente virão se o ataque estiver funcionando com os outros elementos do elenco. Nash encontrará o pivô livre em momentos inesperados e, assim, ele terá sucesso. Qualquer coisa além disso é querer aproveitar Dwight nos pontos errados, é ceder à pressão por torná-lo uma estrela que ele não pode ser, e com isso comprometer aquilo que ele pode ser.

Percebo cada vez mais que os torcedores do Lakers esperavam algo diferente dessa troca, algo completamente irreal. Mas o Dwight de verdade, esse aí todo atrapalhado com a bola que às vezes parece passar azeite nas mãos, pode ser justamente a peça necessária para levar o Lakers a um campeonato. Desde que ele faça o que sabe pelas beiradas, de mansinho, sem tentar carregar o mundo nas costas. E quer saber? Funcionou para o Chris Bosh, cujo ego de superestrela (e com ele a vontade de fazer o que não sabia) foi pelo ralo em nome de um bem maior, um título conquistado comendo pelas beiradas.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

Como funcionam as assinaturas do Bola Presa?

Como são os planos?

São dois tipos de planos MENSAIS para você assinar o Bola Presa:

R$ 14

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro e texto do FilmRoom.

R$ 20

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bolões + Vídeo ao vivo para discutir Clube do Livro e FilmRoom.

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro e texto do FilmRoom.

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bolões + Vídeo ao vivo para discutir Clube do Livro e FilmRoom.

Como funciona o pagamento?

As assinaturas podem ser feitas pelo Aplicativo PicPay. Baixe, cadastre-se, busque o Bola Presa e escolha seu plano de assinaturas. Você pode pagar com cartão de crédito ou carregar sua Carteira PicPay com boleto ou depósito bancário. Depois de assinar, escreva para bolapresa@gmail.com para mais detalhes de como ter acesso ao conteúdo exclusivo.

DÚVIDAS SOBRE AS ASSINATURAS? Nos escreva: bolapresa@gmail.com

Assine já!