Playoffs do caos

Posso transformar a narrativa dos Playoffs em algo bem pessoal e egoísta? Esta primeira rodada completamente maluca e imprevisível é só uma maneira de eu não me sentir mal por perder os últimos 45 dias da temporada regular,não é? Não vi Miles Plumlee se consolidar como o terceiro melhor novato da temporada no, veja só, melhor time de 2014, o Brooklyn Nets. Também não acompanhei  de perto o Indiana Pacers se perder em si mesmo na história mais inexplicável dos últimos anos. Ninguém consegue decifrar o que aconteceu com eles, mas pelo menos eu tenho a desculpa que acompanhei de longe, e, melhor, não sou Larry Bird, o único que precisa realmente achar uma resposta para a grande questão da temporada. Também não vi várias outras coisas: quando Steve Blake perdeu espaço para Jordan Crawford no Warriors? O que aconteceu com a defesa do Heat? Em que planeta o Corey Brewer faz 51 pontos em um jogo?

PG

Mas se o fim de temporada pareceu estranho com essas coisas, o que dizer dos Playoffs? Duas semanas de mata-mata e os 82 jogos são jogados no lixo. O Golden State Warriors e sua campanha #FullSquad, que dizia que o time tinha o melhor quinteto da NBA (e os números apoiam a teoria), foram para o ralo com a lesão de Andrew Bogut, e depois ainda perderam Jermaine O’Neal, que machucou o joelho numa falta estúpida e evitável de Glen Davis. Com isso eles precisaram ter a temporada salva com atuações heroicas de Draymond Green e Mareese Speights. Steph Curry teve uma das melhores temporadas da liga, mas na hora H é Draymond Green acertando as bolas decisivas, vai entender. E nem vamos falar de Harrison Barnes, o prêmio Monstars da temporada, que recuperou seus poderes justamente na hora de fazer as jogadas mais importantes do Jogo 1, o que o Warriors venceu em Los Angeles. Será que foi ele que roubou o talento do Roy Hibbert?

Peguei o Warriors como exemplo porque achei legal, mas que tal James Harden se tornando um dos jogadores mais previsíveis e menos eficientes da liga contra o Blazers? E Kevin McHale resgatando a dupla Asik-Howard que tanto deu errado no começo do ano? E Troy Daniels salvando a série. TROY DANIELS, a cobaia criada na D-League. Temos ainda Tony Allen entrando na mente de Kevin Durant e transformando o provável MVP em um jogador comum, que só foi salvo de mais críticas porque joga ao lado de Russell Westbrook, uma espécie de Judas do basquete moderno, o culpado por tudo e por todos, aquele que não pode errar, o burro, o inconsequente. Se eu fosse Durant, passaria a carreira ao lado do armador, melhor jeito de nunca ser o vilão. Em resumo, os Playoffs estão mais estranhos que… não, não tem muitas coisas mais estranhas que estes Playoffs.

Esta é a pós-temporada das jogadas de 4 pontos, dos jogos decididos por uma posse de bola. Das prorrogações decididas nos detalhes.  A primeira rodada onde Vince Carter e Manu Ginóbili duelam como se ainda não existisse a internet de banda larga. É o momento onde a temporada de ressurreição de Al Jefferson é anulada por uma lesão, e que Nenê parece, finalmente, não sentir dor alguma. Não era esse o brazuca “novo Chris Webber” que todos nós esperávamos há mais ou menos uma década? O nível de estranheza destas semanas é tão grande que até as coisas esquisitas de antes parecem, agora, anormais por serem normais. A frase fez algum sentido? Tento explicar: o Bulls perdeu e tomou um cacete do Wizards porque é incapaz de marcar pontos. Soa bem lógico, mas foi assim o ano todo e eles estavam ganhando. Última vez que o Wizards tinha passado da primeira fase dos Playoffs havia sido em 2007, contra o mesmo Bulls, quando Gilbert Arenas apareceu para o mundo. Precisa explicar mais? Posso listar aberrações em todas as séries, em todos os jogos, e ainda vai sobrar o Mike Scott batendo na própria bunda após trucidar o Indiana Pacers.

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Os Playoffs são, também, o momento onde a gente resolve pegar no pé dos treinadores. Na mesma linha da lógica ilógica do Bulls, esse é o momento onde a crítica faz e não faz sentido ao mesmo tempo. Por um lado a corneta é válida, os jogos são importantes e as pequenas decisões de um treinador podem fazer toda a diferença: a teimosia de Tom Thibodeau em não confiar em Carlos Boozer e Mike Dunleavy em momentos importantes das partidas custou ao menos um jogo, aquele onde o Bulls teve apagões no quarto final e não resistiu ao Wizards. Mark Jackson demorou ao colocar Draymond Green no time titular; Kevin McHale não encontrou o cobertor do tamanho certo para ajeitar defesa e ataque do Rockets. Por outro lado, como cornetar um treinador em jogos onde um time abre 20, depois perde por 16, depois vira e ganha por 10? Tudo com os mesmos jogadores em quadra durante boa parte da montanha-russa. As pequenas decisões dos técnicos fazem a diferença, mas o aleatório, o emocional e a sorte, sempre ela, também fazem. Nenhum treinador pede pro Monta Ellis jogar a bola pra fora antes do jogo acabar, pro Andray Blatche jogar a bola para o lado errado, para o Jonas Valanciunas arriscar o goaltending mais estúpido da história; para Tony Allen dar uma rasteira à la Pepe em um jogo já ganho. E também tem vezes que o técnico erra, como quando deixa James Harden em quadra quando o time precisa defender, e dá certo! Alguém mais viu o toco dele no chute do Lillard no fim do jogo 5?

Esta aleatoriedade toda não é boa para os treinadores, fato. Ninguém vai querer saber de probabilidade e do papel do acaso em séries tão disputadas, apenas querem o resultado. Mas o caos pode ser um fator interessante para a gente pensar em nós mesmos e no porque estamos todos em êxtase com estas últimas duas semanas de basquete. Nós, afinal, preferimos o imprevisível?

Vou ser obrigado a generalizar daqui pra frente, então não se sintam pessoalmente ofendidos caso não se encaixem, é apenas uma maneira nada científica de tentar nos analisar. Como comentei aqui na época do locaute, quando surgiu um grupo de desesperados dizendo que só Lakers e Celtics venciam todo ano porque eram ricos (risos), eu respondi que a NBA, embora buscasse uma maior igualdade entre as equipes, não estaria errada se não o fizesse e se realmente Lakers e Celtics dominassem sempre. O futebol europeu está muito bem das pernas em termos de popularidade mesmo com todo mundo conhecendo os melhores times e sabendo quem tem mais chance de ganhar. A própria NBA tem como marcos de popularidade dois períodos de concentração de poder: os anos 80 de Lakers/Celtics e a hegemonia do Chicago Bulls nos anos 90. As pessoas sabiam que o Bulls era o time mais forte, que tinha a maior concentração de talento e queriam vê-los ganhando. Ver Michael Jordan dar um jeito de vencer era mais importante do que a imprevisibilidade.

Já os anos 70, a década mais democrática em títulos na NBA, é considerada um período fraco e ler sobre a época me lembra muito os comentários sobre o nosso Campeonato Brasileiro, quase sempre disputadíssimo e que, por isso mesmo, recebe os críticas do tipo “nivelado por baixo” e “ninguém quer ganhar”. Não acredito nessa história de que o público abraça melhor a paridade, a ideia que qualquer um pode ser campeão. Alguém tem que ser favorito, gostamos do bicho papão lendário e invencível. Mas também não estamos gozando litros com esses Playoffs decidido nos detalhes. O que queremos, meu deus?!

Depois de pensar muito no assunto, a minha conclusão é, pra variar, um meio termo chato: sim, nós gostamos da imprevisibilidade no esporte, mas desde que ela esteja presente dentro de um contexto maior de ordem. Precisamos de alguma paridade para criar a sensação de competição, precisamos saber o que deveria acontecer; e só aí que o caos pode sair da sua jaula.

Lakers

O que eu chamo de ordem é uma espécie de conhecimento prévio, geral e coletivo do que o esporte, o campeonato e os atletas deveriam ser. É por causa dessa ordem que todos os anos existem milhares de criadores e consumidores de “previews“. Nós sabemos que as previsões quase nunca são concretizadas, mas consideramos, mesmo que inconscientemente, que precisamos saber como as coisas deveriam ser antes de ver tudo acontecer. Uma vez contei para um amigo, todo empolgado, que o Paulistano, clube onde eu trabalho, conseguiu se classificar na segunda posição na fase de classificação do NBB brazuca. A reação foi nula, nem feliz, nem triste, nem impressionado e nem decepcionado: era difícil ficar em segundo? As pessoas esperavam isso? Aconteceu algo de diferente? Para se impressionar, como eu estava, era preciso saber que o time não tem um orçamento tão farto como o de outros rivais, que era a primeira vez na história que o time ficava em uma colocação tão alta, que a equipe passou por momentos difíceis na temporada e que, para ser bem honesto, nem tinha elenco para ficar tão bem na fita. Isso sem contar os jogos em casa onde o adversário tem mais torcida, claro.

Só conseguiram apreciar e aproveitar por completo esta classificação aqueles que sabiam o que deveria ter acontecido, porque estes depois conseguiram confrontar isso com o que realmente aconteceu e ver a diferença. Acho que qualquer um de nós faz isso, meio sem querer, ao entrar sem querer no esporte alheio. Seu amigo te leva pra ver um jogo de tênis e é natural que você já pergunte: quem é o favorito? Qual o ranking de cada um? O que você fará com essas informações, seja torcer para o melhor aumentar sua lenda ou para a zebra chocar o mundo, aí é por sua conta.

Por incrível que pareça, creio que boa parte da falta de sucesso do Campeonato Brasileiro em muitos anos tem a ver com isso. Apesar de nós, basqueteiros, criticarmos que só tem futebol na TV, não acredito que somos realmente bem informados sobre o assunto. Temos o hábito de só assistir nossos times jogarem, boa parte da rodada acontece ao mesmo tempo, não vemos as reprises e muitas contratações e vendas são feitas no meio do campeonato, várias envolvendo jogadores que não ouvimos falar. Temos pouco conhecimento tático e não discutimos isso. Quase não se fala em números e quando falamos de técnicos, sempre comentamos seu humor em coletivas de imprensa ao invés das características de jogo. Ainda caímos nas narrativas do “estrelismo” versus o “time arrumadinho”. O primeiro é o time grande que perde, o segundo é o que joga bem e não sabemos o porquê. A NBA, embora também sofra com seus próprios clichês, hoje está infestada de pessoas tentando dar uma nova visão sobre a liga, os times e as maneiras de jogar. O resultado é um campeonato sem narrativa, sem história, sem personagens, sem o tal “aquilo deveria acontecer” versus “isso está acontecendo”.

Se você acompanha o basquete de perto, sabe que o Houston Rockets, guiado por seus gurus estatísticos, investe pesadamente em um esquema tático que abusa das bolas de 3 pontos. Também sabe que o Rio Grande Valley Vipers, seu time na D-League, é um laboratório para explorar as bolas de longas distância. Por fim, ficou sabendo que a equipe resgatou Troy Daniels de lá devido a seu aproveitamento absurdo nos arremessos de longe. Todas essas informações ajudam a entender o contexto e nos faz aproveitar ainda mais o jogo, mas certamente não mudou a sensação de CAOS ABSOLUTO quando este rapaz foi o responsável por uma bola da vitória, fora de casa, na prorrogação e nos Playoffs. A informação criou a ordem e a aleatoriedade deu graça para a situação.

Outros exemplos de como o background é uma boa ferramenta de emoção está nos dois grandes buzzer-beaters da primeira rodada. Quando Vince Carter deu a vitória para o Dallas Mavericks sobre o San Antonio Spurs no Jogo 3, lembrei na hora de seu arremesso errado no segundo final do Jogo 7 da final do Leste de 2001. O mesmo tempo restante, a pressão, a hesitada antes do arremesso da zona morta, a mecânica: tudo igual. Mas dessa vez, mais de uma década depois, a bola caiu. Apesar da importância ser diferente, acrescentar um ar de redenção a um arremesso já espetacular foi o toque perfeito para transformar tudo num momento inesquecível.

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E o que dizer do que vimos na sexta-feira à noite? Damian Lillard colocou mais um arremesso de último segundo no currículo, mas dessa vez dando a primeira vitória de série em Playoff para o Blazers desde 2001! Era a maior seca da liga e quando ela acabou eu só consegui pensar em Brandon Roy. Para quem não lembra (e aí entra a importância da informação passada, da ordem), Roy era o personagem que iria restaurar o Blazers e ser o responsável por essa primeira vitória. Mas justamente quando ele se tornava um dos maiores jogadores da liga, seus joelhos falharam e a reconstrução do time foi para o saco. Para a história, Roy deixou um dos arremessos mais assistidos dos últimos anos, uma bola de 3 pontos, contra o Houston Rockets, com menos de um segundo no relógio, com um arco enorme e resultado perfeito. Lillard repetiu o feito do mesmo jeito, do mesmo lugar, contra o mesmo adversário e só uns anos de atraso. Como disse Nicolas Batum após a partida: “Eu disse para Lillard que ele era o novo Roy”.

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Foi um arremesso que juntou tudo o que gostamos nestes Playoffs, todos os motivos que estamos dando, racional e irracionalmente, para dizer que esta é a melhor primeira rodada de todos os tempos: teve o erro da defesa do Rockets para culparmos o técnico, a partida disputada para a gente ter emoção, o herói para idolatrarmos como o Steph Curry de 2014 e ainda coroou a irracionalidade da pós-temporada: após 6 jogos, o Blazers, time que teve menos vitórias que o Rockets na temporada regular, marcou 670 pontos após a bola de Lillard. O Rockets fez 672. Vida longa à injustiça esportiva.

Que a gente veja o Wizards na final do Leste e o Oeste provando que não tem favoritos. Queremos mais Mike Scott e Draymond Green, mas com Lillard no final. Nós fizemos a lição de casa ao estudar durante o ano todo, que o caos continue!

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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