[Resumo da Rodada – 02/05] O Jogo da Coxa

A série entre Clippers e Spurs foi certamente a Série das Séries nessa primeira rodada dos playoffs, e todo mundo já sabia disso mesmo antes do Jogo 7 por conta do alto nível jogado, dos jogos inesperados e de um par de finais eletrizantes. Teve até um jogo-surra só para mostrar que a gente achar que a série estava parelha não iria impedi-la de ser inteiramente inesperada. Para consagrar essa série só faltava mesmo um Jogo 7 épico, daqueles pra entrar pra história. E dessa vez, tivemos exatamente o que a gente esperava.

Embora seja comum sermos presenteados com jogos históricos nos playoffs, dificilmente eles acontecem na primeira rodada dos playoffs, quando os confrontos são supostamente menos parelhos. Mas o Oeste desta temporada foi uma anomalia no espaço-tempo: uma mísera derrota no último jogo da temporada regular tirou o Spurs da segunda colocação da Conferência e o derrubou para a sexta vaga nos playoffs, sem mando de quadra. É triste que dois times tão espetaculares como Spurs e Clippers sejam obrigados a se eliminar tão cedo nos playoffs, mas o resultado foi um confronto épico que, embora seja doravante conhecido como “O Jogo da Coxa”, teve presença de todas as principais peças de cada equipe, até mesmo aquelas que não haviam aparecido no restante da série até aqui. Foi um jogo para não ser esquecido.

Portanto, para ajudar a todos os fãs de basquete a contar essa história para os seus filhos, para os seus netos, e para os netos dos seus netos (os poucos de vocês que têm uma alimentação saudável e fazem exercícios regularmente, claro), dividiremos essa peça épica em atos a serem cantados pela vida.


Ato 1 (em que Chris Paul enfrenta um igual, se contunde e deixa o palco; Duncan e Griffin se degladiam)

Como vimos no restante da série, o Spurs se dedicou a povoar seu garrafão defensivo com marcação dupla constante em cima de Blake Griffin usando marcação dupla de Splitter, Danny Green e principalmente Boris Diaw. Por isso, o único espaço confortável para Griffin estar foi sempre da cabeça do garrafão para fora, sendo obrigado a cogitar os arremessos de fora que são seu ponto mais fraco. Durante a série Griffin converteu vários desses arremessos, mas sem grande consistência; no começo do Jogo 7 já chega convertendo um par dessas bolas e desafiando o Spurs a continuar lhe dando espaço. Do outro lado, Duncan tem mais protagonismo do que nos outros jogos, recebendo mais a bola nos “cotovelos” do garrafão e abusando de uma jogada cansativa mas eficiente: cortar do lado direito para o lado esquerdo do garrafão trombando com Splitter no meio, conseguindo um distanciamento do seu defensor (no primeiro quarto, DeAndre Jordan) e recebendo a bola quase colado na linha de fundo, com espaço para virar para dentro. Até o fim do jogo, o Clippers não soube como parar isso efetivamente.

Mas se a partida tinha cheiro de virar um confronto de garrafão, Parker e Chris Paul mostraram que o jogo seria um espetáculo de diversidade. Tony Parker está completamente lascado, todo contundido com lesões no tornozelo, no tendão de Aquiles e no quadril, mas resolveu começar o jogo em modo de ataque, convertendo arremessos de meia distância para fugir de DeAndre Jordan. Finalmente Parker foi um rival à altura para Chris Paul, que se viu obrigado a apertar na defesa e acelerar nos contra-ataques – até que uma bola de três na transição faz Paul levar a mão às costas da coxa esquerda. O jogo está parelho, com intensidade total; indo para o vestiário, em nítida dor, Chris Paul sai de cena.

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Ato 2 (em que Danny Green e Chris Paul vencem as agruras da morte e ressurgem das cinzas; Duncan e Griffin ainda se degladiam; surge no céu uma Lua pequena)

Chris Paul voltando dos vestiários com uma corridinha meia-boca fez com que toda a torcida do Clippers voltasse a respirar – porque, claro, ainda não sabiam que a lesão não estava curada. Ao mesmo tempo, Danny Green fez a torcida do Spurs voltar a respirar por retornar de um coma profundo em que havia se enfiado sozinho ao longo dessa série. Não é como se Green tivesse sido bem marcado ou algo assim; constantemente ficou livre para arremessos fáceis e simplesmente não foi capaz de converter. Mas no Jogo 7 converteu três bolas de 3 pontos importantes e voltou a ser o monstro defensivo dos playoffs passados. Dois dos seus cinco tocos, ainda no primeiro tempo, deram o tom da defesa do Spurs: dobra de marcação dentro do garrafão em cima de Blake Griffin e velocidade na transição defensiva para impedir os arremessos de contra-ataque do Clippers.

Paul e Green estão no jogo, o problema é que em condições físicas opostas: o ala do Spurs está elétrico, acordado, correndo por todos os lados da quadra; o armador do Clippers está literalmente arrastando a perna, a única coisa capaz de lembrar-lhe de que ELE É HUMANO. Por enquanto, ao ver Chris Paul sofrer com sua terrível chaga ao tentar defender Tony Parker, parece que sua decisão de estar em quadra é um equívoco. Ele continua convertendo seus arremessos, mas por quanto tempo será capaz de se manter de pé?, pergunta a plateia. Enquanto isso, Duncan e Griffin ainda fazem mais do mesmo: estão dando um espetáculo de posicionamento e engolindo a defesa adversária. Griffin assusta por ter melhorado tanto seu jogo de pernas e seu arremesso; Duncan assusta porque continua melhorando. Tudo. O tempo inteiro.

Entra na quadra Glen Davis, que tem o tamanho de uma Lua pequena, quando os olhos de todos já estão sangrando de tanto que o Spurs força DeAndre Jordan a cobrar lances livres. Glen Davis altera a gravidade da quadra com seu peso; ele parece não pertencer a um jogo de basquete; olhar pra ele é engraçado; mas para a surpresa de todos, ele pega um rebote ofensivo fundamental que termina em bola de três pontos de Jamal Crawford. Clippers termina o primeiro tempo dois pontinhos na frente.


Ato 3 (em que Chris Paul vence as meras limitações humanas; Duncan e Griffin se degladiam mais um pouco; entra o Bobo da corte)

Duncan continua achando espaço no garrafão e começa a se aproveitar dos rebotes ofensivos que surgem quando DeAndre Jordan não está em quadra. Enquanto isso, Blake Griffin começa a abrir mão dos seus arremessos um passo à frente da linha de três pontos para, ao invés, dar dois passos em direção à muvuca defensiva do Spurs. Atraindo toda a marcação ao se aproximar do aro frontalmente, ele começa a distribuir passes para o perímetro. A arena é tomada por um fantástico cheiro de triple-double, que em breve se concretizará.

Ginobili, que vem tendo dificuldades enormes de ser relevante na série e que cansou de errar importantes arremessos mesmo livre (perdendo por isso espaço para o Marco Belinelli), está em quadra só de passagem. Mas eis que entra o Bobo da corte: Austin Rivers, o famoso filho-do-técnico, consegue fazer uma falta durante o velho truque do Ginobili de fingir um arremesso do meio da quadra. Embora nenhum juiz do planeta dê os lances livres em bolas assim, Austin River é imbecil o suficiente para esperar MUITOS segundos para dar a porrada e acabar acertando o Ginobili tão nitidamente no ar que os juízes, envergonhados e constrangidos, são obrigados a colocar o argentino na linha de bônus.

Dois pontos atrás do placar, o Clippers precisa recorrer a Chris Paul. Ele passa o quarto inteiro com a mão na coxa, em dor excruciante e não conseguindo marcar Tony Parker; por outro lado ele já forçou um arremesso de três idiota no período e converteu. Assim, com 7 segundos para terminar o quarto, Chris Paul se arrasta moribundo pela quadra enquanto TRÊS jogadores do Clippers pedem a bola para um arremesso final. Não. Chris Paul vai arremessar sozinho. É a morte de sua humanidade. Ele arremessa de três torto, dolorido, desequilibrado e sua bola vai parar na tabela – um segundo antes de entrar e gerar 3 pontos no estouro do cronômetro. Clippers entra no quarto período um ponto à frente do placar.

Momento comédia: na jogada final, Blake Griffin levanta a mão para pedir a bola. Chris Paul converte o arremesso e Griffin mantém a mão levantada para um “toca aqui” do seu colega; atravessa a quadra inteira com a mão para o alto; finalmente chega ao lado de Paul e… nada acontece. Chris Paul não é mais humano, não vai ficar cumprimentando pessoas. Griffin mantém a mão para o alto por um tempo que parece toda a extensão da eternidade, até que a câmera desiste dele. A plateia ri.


Ato 4 (em que Chris Paul descobre-se deus; Duncan e Griffin se degladiarão até o fim dos dias; os coadjuvantes mantém o cenário de pé para o final)

Chris Paul força de novo um arremesso em cima do Splitter, resultado da solução que o Spurs inventou para parar Blake Griffin: trocar o defensor no corta-luz e trazer Boris Diaw para fechar o passe para o garrafão na cobertura, algo que Diaw faz com maestria. Mas Chris Paul insiste em acertar arremessos forçados, meio doidos, em cima de defensores maiores do que ele e sem poder usar uma perna. Os céus começam a se abrir.

Como o Spurs insiste em fazer faltas em DeAndre Jordan ele fica de fora do período esperando os dois minutos finais do jogo, quando a tática não será permitida. Nesse período sem ele em quadra, o Spurs erra um milhão de bandejas simples geradas numa movimentação de bola perfeita; para compensar, o Spurs também pega um milhão de rebotes ofensivos contra um Clippers que tem no garrafão apenas Griffin e Matt Barnes. Chris Paul não consegue mais defender na transição e portanto Parker ou Patty Mills estão sempre livres para os rebotes. O Clippers só se mantém em jogo porque JJ Redick e Matt Barnes convertem arremessos de três absurdamente difíceis e importantes. Pelo Spurs, o Velhinho Ginóbili acorda após os lances livres e converte uma bola de três essencial. Danny Green dá um toco fantástico e gera contra-ataque, Tony Parker é mais do que um Chris Paul mono-pernado pode defender. Boris Diaw dá passes precisos e pega rebote de ataque no meio da zona. Jamal Crawford empata o jogo a um minuto do fim. É o festival dos coadjuvantes, apenas preparando terreno para o final épico do espetáculo.

Primeiro Chris Paul arrasta sua perna numa velocidade impressionante e sofre falta no arremesso, colocando o Clippers dois pontos na frente a dez segundos do final. Em seguida Duncan recebe um passe TOTALMENTE merda do Marco Belinelli (que resolveu arremessar porque tinha espaço, aí percebeu que não tinha espaço coisa nenhuma e a um milímetro de distância do chão se livrou da bola nas mãos do Duncan) e consegue uma falta. Ele só tem 50% de aproveitamento nos lances livres da série. Mas é o Duncan, meu deus, é o Duncan, quem em sã consciência duvidaria do Duncan? Ele converte os dois. Jogo empatado a 8 segundos do fim.

O Chris Paul ainda arrasta a perna, mas Danny Green tenta marcá-lo um pouquinho perto demais para impedir um arremesso DOIDO como os outros que Paul já converteu. Esse “pouquinho perto demais” é o bastante para que a perna lesionada seja puxada para o lado de Green, conseguindo espaço para infiltrar no garrafão. Mas Duncan está lá para bloquear a bandeja, o que força Chris Paul a mais uma bola IMPOSSÍVEL, FORÇADA, DESESPERADA, que NÃO DEVERIA SER TENTADA. Ou seja: a mais uma obra de arte, mais uma obra de gênio, porque ela caiu bonitinha usando perfeitamente a tabela. Uma pintura.

Cai a bola, caem as lágrimas, cai a cortina. Fim de jogo.


Epílogo

O que isso significa para o eternamente-amaldiçoado Clippers, para Chris Paul e suas lágrimas, para o Rockets que vai enfrentá-lo, para o Spurs e seu projeto futuro, para o Ginobili que talvez se aposente, e para o Duncan que é cada vez melhor aos 40 anos? Isso é assunto para depois aqui no Bola Presa. Por enquanto, apenas palmas. Vamos curtir o fim do espetáculo.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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