[Resumo da Rodada] Dellavedova entra na cabeça de todo mundo

O mais legal da Final da NBA não é o basquete pelo seu talento em estado puro, raramente os melhores jogos estão nessa fase, mas pelas emoções a flor da pele. Lembra que no último post eu tinha citado o pessoal tirando conclusões como doidos no Twitter? Ontem foi pior. Pessoas que estão no conforto do seu lar e sem necessariamente ter um time do coração em quadra PERDEM A CABEÇA durante a decisão. É tanta coisa em jogo, tanta jogada que pode mudar tudo, que toda a calma, imparcialidade e análise profunda vai para o ralo. Nem Kobe escapou ontem e vomitou uns clichês online.

Digo tudo isso para partir para o outro lado: se nós aqui estamos enlouquecendo com o peso de uma decisão, só imagina o turbilhão que se passa na cabeça de jogadores, árbitros e técnicos que estão lá de verdade decidindo os jogos! Se não me engano, uma vez foi o Guga que disse que em uma final de Roland Garros os seus pensamentos iam de “vou atropelar, esse título é meu” a “sou muito ruim, não tenho chance” em poucos segundos. Os esportistas vivem para esses momentos e não é de se espantar que o psicológico pese mais em situações assim do que em qualquer outro momento da temporada.

O Jogo 3 dessa final entre Cleveland Cavaliers e Golden State Warriors teve, a meu ver, um enorme fator psicológico decidindo o resultado, ele só demorou alguns quartos para aparecer. Mesmo com uma torcida barulhenta e enfurecida contra, o Warriors fez um bom primeiro quarto e soube controlar o ímpeto de LeBron James, que atacou com tudo nas primeiras posses de bola querendo marcar seu território. A abordagem tática pensada por Steve Kerr apresentou alguns ajustes que melhoraram muito a movimentação de bola da equipe.

Para evitar as dobras de marcação que Steph Curry estava recebendo a cada pick-and-roll, o armador do Warriors passou mais tempo no mano a mano, ganhando mais espaço para driblar. Com essas fintas, aliás, ele infiltrou mais vezes no garrafão ao invés de só arremessar. Não que seja uma má ideia para ele chutar de longe, mas eles precisavam mexer mais a defesa do Cavs, criar espaços para linhas de passe. Com a ajuda do resto do elenco, que passou a se mexer mais durante os lances, o ataque pareceu bem menos estagnado. Mais do que em qualquer momento dos outros jogos, o Warriors passou mais a bola e não teve medo de pisar no garrafão. Um problema, porém, não foi resolvido: a pontaria.

Ao longo da partida o Golden State Warriors criou 39 arremessos sem marcação (o SportVU da NBA conta como “sem marcação” um arremesso onde o defensor mais próximo está a 1,06 m do arremessador), mas acertou apenas 13 deles, aproveitamento de 33%. Bisonhamente, tiveram acerto maior (45%) nos arremessos com marcação. O Cavs teve uma bola precisa a mais sem marcação apesar de ter criado 9 (!) a menos durante o jogo. Dá pra resumir dizendo que o Warriors cria melhores arremessos e tem os melhores arremessadores, mas mesmo assim não ganha o duelo de chutes de média e longa distância. Olha a cabeça pesando aí, amigos.

Não surpreende que mesmo com a melhora tática do primeiro tempo, o Cavs continuou com o domínio do jogo: ritmo lento, vantagem no placar e um nível de confiança que crescia lance a lance. Foi só no terceiro período, porém, que tudo isso entro no nível hardcore psicológico. O pessoal do Warriors, claramente frustrado em não ver seu estilo de jogo em quadra, começou a jogar para o alto a parte tática e a forçar arremessos difíceis em sequência. Para um time que adotou como identidade a defesa e a raça, ver o adversário frustrado assim é a glória. O Cavs passou a apertar ainda mais a defesa, se arriscando em roubos de bola, exagerando na busca pelos tocos e se animaram ao ponto até de acelerar o ritmo do jogo e buscar alguns contra-ataques! Tudo o que você não quer é entrar na correria com o Warriors, mas estava tudo dando tão certo que dane-se e até ponte aérea pro LeBron rolou como se ele ainda jogasse com Dwyane Wade em Miami. Em um momento de puro caos, a vantagem do Cavs chegou aos 20 pontos!

Para contornar o péssimo momento ofensivo, o técnico Steve Kerr usou em diversos momentos da partida uma arma que muita gente pensou que nem seria adotada nessa série, David Lee. Além dele pouco ter jogado ao longo do ano, nenhuma de suas características indicavam que ele teria utilidade. Se o Warriors quer substituir Andrew Bogut com o mesmo tamanho, usa Festus Ezeli. Se querem tirar Draymond Green e manter o time ainda alto, costumam ir para Mareese Speights e sua capacidade de criar pontos do nada. Se a ideia é mudar o estilo de jogo por completo, colocam Draymond Green de pivô e Harrison Barnes, completamente aberto na linha dos 3 pontos, na posição 4. Tudo o que David Lee é bom (rebotes, pick-and-roll, passe) é feito com a mesma qualidade por Draymond Green, que defende infinitamente (INFINITAMENTE mesmo) melhor. Em que situação ele iria entrar?

O ponto ontem é que Kerr não queria mudar o time, o que ele queria era que Green voltasse a jogar bem como no restante da temporada. Irritado, fazendo faltas bobas, dando passes fantasmas e sem acertar arremessos ele não é tão valioso quanto parecia até outro dia. Então lá entrou Lee, do fundo do banco para tentar resolver uma final da NBA fora de casa. E deu resultado. Nos 13 minutos que passou em quadra, Lee conseguiu 11 pontos, 4 rebotes, 2 assistências e viu seu Warriors ter saldo de +17 pontos. Muito desse saldo positivo é culpa da volta da pontaria de Steph Curry, mas muito da pontaria de Curry é culpa da eficiência de Lee no pick-and-roll. Tudo relacionado.

Até na defesa, onde Lee é péssimo, o Warriors teve um estranho caso de sucesso. O Cavs ficou tão tentado a atacar Lee que às vezes saiu de sua estratégia que estava dando certo só para ir abusar do mismatch. Não deu resultado algum. O Cavs começou o período final vencendo por 20 e poucos minutos depois viu a diferença cair para apenas um dígito e, depois, um ponto! Com o jogo praticamente perdido o Warriors fez o que deveria fazer sempre, jogou sem hesitar. Steph Curry passou por cima de Matthew Dellavedova, que novamente fazia partida absurdamente boa, abusou dos bloqueios, não pensou para arremessar e nem se preocupou com turnovers durante as pressões que sofria quando tentava puxar contra-ataques. Dos 35 pontos do Warriors no quarto final, 25 foram da dupla Curry e Lee. 

O problema para o Warriors foi ter encostado no placar tarde demais. Quando o fizeram, o jogo estava muito perto do fim e virou aquela terra de ninguém parecida com os primeiros dois jogos da série. Nos últimos 5 minutos de um jogo de basquete qualquer lance mínimo tem valor dobrado, qualquer erro dos juízes tem peso de mudar o vencedor e por aí vai. As duas bolas que decidiram o jogo a favor do Cavs, por exemplo, foram ataques ruins que deram certo: em uma bola Matthew Dellavedova quase se embananou todo, mas de alguma forma surreal e divina, jogou a bola pra cima, tomou falta de Curry, e ainda fez a cesta. ILUMINADO. Na posse de bola seguinte LeBron James só ficou parado, não executou nenhuma jogada, mas aí pulou, fez uma cesta de 3 pontos e do nada a vantagem estava em 7 de novo.

Depois disso Steph Curry ainda meteu duas bolas surreais de 3 pontos, errou uma completamente aberto após Iman Shumpert cobrar o pior fundo-bola da história do basquete profissional, e vimos os árbitros quase entregarem a paçoca ao esquecerem que podiam usar o replay para salvar a pele deles em um lance duvidoso. Isso tudo minutos depois de não terem marcado um TACKLE que LeBron James deu em Steph Curry ao se jogar no corpo do armador do Warriors, quase uma compensação por não terem marcado aquela falta grotesca de Iguodala sobre LeBron no jogo passado. Como eu disse no começo do texto, o peso da final é grande em nós que estamos aqui assistindo em casa comendo pipoca, imagina pra eles! Juízes fazem asneiras, jogadores fazem asneiras e Matthew Dellavedova se joga no chão. Essas são as únicas certezas que temos de um fim de jogo nesta final da NBA.

Se o Cavs aprendeu alguma coisa com esse jogo, foi que estar jogando melhor não quer dizer que você é o melhor time. Eles merecem estar na frente da série, isso está claro para todo mundo, mas nos poucos minutos em que não DERAM A VIDA para defender, o Warriors os engoliu sem dó. Lembram dos turnovers na prorrogação do Jogo 1? E a ridícula transição defensiva preguiçosa no começo do quarto período de ontem? Piscaram e o Warriors tava lá marcando pontos. Eles acharam uma fórmula para frustrar o melhor ataque da NBA, o desafio é se manter no topo da performance por 48 minutos seguidos com um elenco lotado de jogadores machucados. Não é fácil o que eles estão fazendo, mas estão. Ontem Dellavedova fez 20 pontos, se jogou no chão 8 vezes, correu como um condenado e saiu direto do vestiário para o HOSPITAL porque estava com uma crise séria de câimbras. LeBron James quebra recorde atrás de recorde em uma das performances mais dominantes da história das finais e nem assim eles conseguem algum respiro. É esse o nível de intensidade ou eles estão perdidos.

LeBron

Já o Warriors, como disse Klay Thompson após o jogo, sabe que pode vencer se jogar no seu nível mais alto. Mas o nível de preocupação só cresce quando se passaram 3 jogos completos e a gente só viu esse nível mais alto durante uns 4 ou 5 minutos somados. Lembro da final de 2004 quando fiquei esperando em vão o momento em que meu querido LA Lakers ia embalar contra o Detroit Pistons, ou quando a gente achava que em algum momento os contra-ataques do Miami Heat iam pegar de jeito a defesa do Dallas Mavericks em 2011. A série ainda está chegando em sua metade e dá muito tempo do Warriors colocar as coisas para funcionar, não é hora de desespero total, mas não dá pra ficar tranquilo.

Como ajuste tático, Steve Kerr deve buscar alguma coisa que injete caos nessa série, o tal caos controlado que ele tanto é fã. Até agora o Cavs tem tido muito sucesso em controlar o ritmo do jogo e cada vez mais LeBron James parece estar confortável nesse esquema tático onde ele não é tão perturbado. Preocupante para o Warriors que ontem o Cavs não dominou os rebotes de ataque (longe disso, aliás) e mesmo assim venceu com um altíssimo aproveitamento nos arremessos. Talvez seja a hora de dobrar mais vezes sobre LeBron, mudar a estratégia defensiva, forçar o Cavs a trocar passes, forçar turnorvers e tentar aumentar o ritmo da partida.

A presença de David Lee e Festus Ezeli, que foram muito bem no último jogo, pode ser até bem vinda, mas não é tão necessária. Eles ofereceram ontem o que Andrew Bogut e Draymond Green deram ao longo do ano, se os titulares voltarem a jogar o que sabem, Kerr não precisa apelar para quintetos obscuros e nunca utilizados. Mas Lee vai ser fundamental se Green continuar atuando no mesmo nível ofensivo das últimas partidas, olho nele.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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