[Resumo da Rodada] Enfim o duelo

O Jogo 4 dessas finais foi o jogo da teimosia: Steve Kerr insistiu com Andre Iguodala no time titular, David Blatt insistiu com Timofey Mozgov tomando conta do aro. Sem que nenhum dos dois abrisse mão de sua estratégia, o Warriors querendo correr e o Cavs querendo dominar o garrafão, o resultado foi um Warriors ligeiramente mais confortável – e a gente sabe o que acontece quando a equipe de Steve Kerr fica confortável, né: vitória.

O Cavs saiu de quadra consciente de que precisava diminuir ainda mais o ritmo, algo que Mozgov não permite porque seu retorno para a defesa causa passes para Iguodola nas suas costas. Além disso, dobrar a marcação no Curry mostrou que o Warriors pode até cometer mais erros com a tática, mas isso acelera o jogo de uma maneira que deixaria o grande colisor de hádrons orgulhoso.

Foi estranho ver então que o Jogo 5 começou EXATAMENTE como o jogo anterior: Iguodala e Mozgov titulares, um jogo medonhamente feio e amarrado, uma tonelada de erros, 3 minutos sem ninguém abrir o placar, e de repente uma sequência de pontos do Warriors surgida em contra-ataques rápidos e transições ofensivas nas costas dos jogadores de garrafão adversários. Se as coisas continuassem naquele ritmo, não precisaríamos chegar ao fim do jogo, bastaria passar uma reprise da partida anterior e pronto. Levou só mais um par de minutos para o David Blatt sentar Mozgov no banco e não vermos mais sinal do gigante russo. Para conseguir resultados diferentes, é preciso fazer coisas diferentes.

É preciso entender que essa série não é sobre colocar os melhores jogadores em quadra ao mesmo tempo. Existem tantos ajustes no processo de impor seu ritmo de jogo em cima do adversário que, às vezes, é preciso abrir mão de algumas peças fundamentais. O Warriors já abriu mão nessa série de Andrew Bogut alguns jogos atrás, agora foi a vez do Cavs descartar Timofey Mozgov. Caríssimos, é com enorme grau de estranheza que apresento-lhes o ano de 2015 e sua bizarra FINAL DA NBA SEM PIVÔS. São novos tempos.

Mas sem um pivô em quadra, tornando a correria liberada, como o Cavs acreditava ter uma chance? Pra começar, tratando Tristan Thompson como um pivô capaz de correr. O time teve que rever todos os seus duelos defensivos com isso, a começar por Thompson defendendo Iguodala, escolhendo Iggy mais uma vez para ser o homem deixado de fora do cobertor curto. Com isso JR Smith teve que perseguir os arremessadores no perímetro e LeBron teve que descer sua defesa em direção ao garrafão nas coberturas. Está longe de ser a defesa ideal que o Cavs gostaria de impor na série, mas aumentar a velocidade da transição defensiva era essencial para impedir os pontos fáceis do Warriors e o aumento do ritmo de ataque correspondente. Sim, é uma defesa pior do que aquela que vimos no Jogo 4, mas é uma defesa mais eficiente em não tomar bolas nas costas e portanto mais eficiente contra um aspecto específico do plano do Warriors, forçando-os a explorar outros aspectos em que supostamente sentem-se menos confortáveis ao longo do jogo. Ou seja: é o que tem pra hoje.

Enquanto isso, manter o ritmo lento no ataque do Cavs foi um desafio à parte. Tristan Thompson foi mais acionado do que nunca nas movimentações ofensivas, sendo levado a explorar sua altura contra defensores menores e continuando o processo de obrigar o Warriors a povoar o garrafão. O problema é que rapidamente percebemos que o Thompson tem dificuldades em LEVANTAR a bola, uma falha comum em pivôs inexperientes. Cercado por defensores menores, jogadores de garrafão deveriam manter sempre a bola o mais alta possível, com as mãos erguidas, para finalizar imediatamente assim que o passe se completa, antes que os defensores possam se aproximar ou cometer faltas. Mas Thompson recebe a bola, leva ela ao chão, faz umas fintas que dão tempo dos defensores se aproximarem, e aí tenta arremessos pouco equilibrados cercado por milhões de formigas. Ainda assim, ele era a principal presença no garrafão ofensivo do Cavs e foi sobrecarregado com passes e chances de arremesso para impor o domínio no garrafão. O aproveitamento nem importo muito, é mais para atrair a marcação mesmo.

É que sem um pivô real em quadra o Cavs sofreu para dominar os rebotes, não criou tantas oportunidades de rebotes de ataque, e precisou que Thompson e LeBron ocupassem o garrafão para criar algum espaço para os arremessos de perímetro. Foi aí que vimos um LeBron James taticamente impecável: iniciou quase todas as suas jogadas de costas para a cesta, atacou o garrafão, alimentou Tristan Thompson e acionou Iman Shumpert e JR Smith para arremessos no perímetro, em geral no lado oposto ao da bola.

Por vezes LeBron teve chances de subir o ritmo, atacar a cesta e apostar na correria, mas com raríssimas exceções soube manter o plano de jogo perfeitamente: esperar o ataque do Cavs se posicionar, colocar pressão dentro do garrafão, evitar os turnovers e os arremessos que dão rebotes longos e consequentemente se tornam contra-ataques velozes. Foi um jeito artificial de diminuir a cadência do jogo dos dois lados da quadra mesmo tendo um time bem mais baixo do que o elenco que o Cavs está acostumado a colocar em quadra.

O problema é que o Warriors não conseguiu correr tanto quanto gostaria, mas sobrou espaço para atacar o garrafão, brigar por posicionamento perto do aro e ter novas oportunidades de arremesso com rebotes ofensivos. Stephen Curry continuou driblando pra cima do Dellavedova, mas dessa vez com menos jogadores altos colocando-se entre ele e a cesta, já que LeBron e Tristan Thompson passaram a maior parte do jogo cuidando da entrada do garrafão pelos lados, na zona morta. Curry driblou como quis na cabeça do garrafão e encontrou mais espaços para arremessar do que em qualquer outro momento da série. Sofreu poucas dobras de marcação, prova de que o Cavs aprendeu o impacto que essa defesa tem no ritmo de jogo, mas como resultado enfiou 7 bolas de três pontos ao longo do jogo.

Foi bastante estranho ver que as escolhas defensivas do Cavs claramente não eram suficientes para incomodar o Warriors, mas que o resultado delas no ataque até que compensou: LeBron destruiu dentro do garrafão e JR Smith finalmente teve espaço para arremessar com confiança. Antes do jogo, David Blatt fez questão de arrancar na faca o superego do JR Smith, tirando dele qualquer medo de atrapalhar, incomodar ou estragar o bagulho: recebeu carta branca para arremessar e a promessa de que, caso não estivesse funcionando, seria Blatt quem deveria se preocupar, não o jogador. Com 4 bolas de três pontos e 14 pontos totais ainda no primeiro tempo para JR Smith, o Cavs pareceu um time mais versátil, com mais opções para desafogar o garrafão e chegou a liderar o placar. Foram as bolas de Curry do outro lado que atrapalharam a festa. O segundo quarto terminou com o Warriors apenas um ponto à frente no placar.

O que tivemos foi claramente um jogo amarrado, parelho, com 20 mudanças de liderança e 10 empates ao longo da partida. O Cavs esteve mais perto daquilo que pode considerar seu ritmo ideal na série, ainda que para isso tenha aberto mão dos rebotes, dado espaço para o Curry na cabeça do garrafão e deixado Iguodala com o mesmo espaço que teve na partida anterior. Conseguiu limitar os desperdícios de bola, os contra-ataques do Warriors e a correria na própria movimentação ofensiva. Nas atuais circunstâncias, não dá pra fazer muito melhor do que isso taticamente. Chegou ao quarto período com o placar parelho, chegou a liderar o jogo por 1 ponto a cerca de 7 minutos para o fim.

Mas o Warriors, percebendo que não corria mais tantas chances de gerar rebotes ofensivos a rodo, resolveu apertar a defesa no perímetro e continuou evitando as dobras no LeBron. Com uma defesa mais disposta a fechar espaços na linha de três pontos, JR Smith fez um incrível total de ZERO pontos na segunda metade do jogo. Isso forçou LeBron James a forçar arremessos de fora para desafogar o garrafão, incluindo uma bola insanamente distante que qualquer jogador não chamado Stephen Curry teria vergonha em tentar.

Aos poucos, bem aos poucos, o Cavs foi desmontando. O Curry continuou acertando seus arremessos de fora enquanto as bolas do Cavs não entravam, LeBron passou a ter mais problemas para entrar no garrafão, o Cavs foi diminuindo a intensidade defensiva, e de repente – como uma roupa muito curta que explode frente a um derradeiro brigadeiro comido a mais – o Warriors encaixou uma série destruidora de contra-ataques e acabou com a partida. Os 5 minutos finais simplesmente DESTRUÍRAM as chances de uma análise estatística do jogo, porque a quantidade de arremessos forçados do Cavs, desperdícios de bola, contra-ataques tomados e rebotes de ataque cedidos no pedaço final do jogo comprometeram os totais do restante da partida. Quando o Cavs poderia pensar que ainda havia esperança, que LeBron poderia tirar algo da cartola, aparecia Stephen Curry novinho em folha contra um defensor mais cansado do que nunca e lá ia uma bola de três pontos a mais para a conta. Foram 37 pontos para o Curry, finalmente números à altura dos 40 pontos, 14 rebotes e 11 assistências que o LeBron gerou em seu processo de manter costurado o plano tático – até que ele rasgasse quando submetido à pressão. Foi o duelo que tanto queríamos ver nos playoffs, uma luta épica entre dois dos melhores de todos os tempos.

Mas nessas horas é preciso lembrar que os dois times abriram mão de peças fundamentais ao longo da série – seja por ajustes táticos, seja por lesões – e que de repente percebemos que um jogador “secundário” do Warriors, colocado como AJUSTE, é simplesmente um jogador que até uns anos atrás acreditava-se ser a estrela capaz de carregar sozinho a franquia do 76ers. Como raios isso aconteceu? O resultado é que Iguodalapassou a temporada inteira no banco de reservas e num Jogo 5 amarrado sai de quadra com 14 pontos, 8 rebotes e 7 assistências, abrindo a quadra, forçando Tristan Thompson para fora do garrafão com arremessos sólidos e criando boas jogadas para o resto do elenco no perímetro. No dia do duelo épico, Iggy fez de novo a diferença, como já vem fazendo em toda a série. E com ele em quadra, o banco ainda ofereceu Leandrinho criando jogadas na cabeça do garrafão e desafogando o ataque com 13 pontos marotos. É simplesmente coisa demais acontecendo.

O Cavs pode fazer alguns poucos ajustes de execução para o próximo jogo, e é até capaz de que vença uma partida que chegue no final bem amarrada e confusa. Mas é que essa hipótese exige muito mais acontecimentos fora da curva do que aquela em que o Warriors simplesmente vence no final da partida porque o Cavs não consegue controlar tudo aquilo que precisa – por falta de peças, de versatilidade, de pulmão. Esse Jogo 5 era essencial e foi uma honra ver um esforço tão monumental por parte do Cavs e do LeBron James. Mas por todos os ângulos que se olhe, nada parece suficiente para o Warriors – um time maior, em todos os aspectos; um time tão grande, tão grande, que é até maior do que a simples soma de suas partes.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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