[Resumo da Rodada] Uma questão de ritmo

Mesmo com duas vitórias seguidas do Cavs, liderando a série e podendo na noite de ontem abrir um 3 a 1 que NUNCA sofreu virada na história das Finais da NBA, o discurso padrão é que o Warriors é o melhor time – basta que “joguem aquilo que sabem” para que sejam campeões da NBA. Ainda que a afirmação seja verdadeira, ela camufla a questão principal da série: o Cavs não deixa ninguém do planeta jogar aquilo que sabe, e é aí que reside a chave do título dessa temporada. O Warriors pode perder o troféu mesmo sabendo jogar mais basquete e voltar pra casa com o título moral que não enche barriga de ninguém. O mérito do Cavs é justamente tirar qualquer equipe de seu plano de jogo, de seu basquete eficiente.

Por isso foi tão legal ver Steve Kerr afirmar na entrevista coletiva que o Warriors é a melhor equipe, que basta manter o mesmo estilo de jogo do restante da temporada, que os jogadores só precisam insistir no modelo, que o quinteto titular continuaria sempre o mesmo, e aí começar o Jogo 4 com uma série de ajustes que transformaram a partida e, consequentemente, a série inteira. Não basta saber jogar, é preciso fazer os ajustes para que o basquete que você sabe fazer possa ocorrer em quadra – o jeito mais prático é dar spray de pimenta para a torcida impedir o Cavs de entrar em quadra, claro, mas essa abordagem é um pouco mais polêmica.

O principal ajuste do Warriors foi tirar Andrew Bogut do quinteto titular (e do jogo, num todo) e colocar Andre Iguodala. Quem acompanhou nossas análises do Warriors nesses playoffs sabem bem como damos valor para o papel do Bogut, não apenas na defesa mas também como válvula de escape para as infiltrações dos jogadores de perímetro no ataque. Toda vez que os jogadores mais baixos do Warriors infiltram para atacar a cesta e recebem a defesa na cobertura do pivô adversário, Bogut surge por trás para receber um passe pelo alto. Pode acontecer uma ou duas vezes no jogo apenas, mas é o suficiente para que a defesa de cobertura da equipe adversária fique totalmente comprometida, ajustes precisem ser feitos para impedir as infiltrações e aí sobre espaço para arremessos de fora.

Sentar Bogut tirou da equipe esse caminho mais do que conhecido para pontuar, mas acrescentou alguns elementos que mais do que compensaram no confronto contra o Cavs. Primeiramente, colocar Iguodala no quinteto titular faz com que LeBron James tenha o homem que melhor lhe marcou na série até agora sendo responsável pela sua defesa desde o primeiro segundo de jogo. Isso não apenas impede que LeBron e o Cavs entrem num ritmo bom logo de cara, abrindo uma vantagem muito larga no placar, mas também poupa outros jogadores que cometem faltas demais ao tentar marcar a estrela adversária. Além disso, Iguodala aumenta o ritmo do jogo correndo para os contra-ataques enquanto os jogadores de garrafão do Cavs são mais lentos para voltar para a defesa. Por fim, Iggy ainda melhora o espaçamento da equipe, dando mais uma opção no perímetro e facilitando a rotação da bola em busca dos melhores arremessos.

David Blatt, técnico do Cavs, entrou imediatamente num dilema: contra um time sem pivôs e com Iguodala em quadra desde o princípio, deve ou não manter Timofey Mozgov no jogo? Na defesa ele é obrigado a marcar Iguodala no perímetro o tempo inteiro, algo que já teve que fazer em alguns curtos momentos dos jogos anteriores com resultados muito variados. Nessa situação o pivô precisa defender o arremesso de fora e abrir mão da cobertura defensiva no garrafão que é sua responsabilidade, ou então partir para a cobertura protegendo o aro e deixando o perímetro desprotegido para um arremesso livre. Fora isso, Mozgov não tem como acompanhar Iggy nos contra-ataques, permitindo que o Warriors possa correr mais na quadra usando passes longos nas costas da defesa. Mas no ataque Mozgov tem sido essencial para os rebotes ofensivos, para corta-luz e para receber passes rápidos de LeBron quando a defesa está muito ocupada com o caminho para a cesta ou com a linha de fundo. Sem Bogut para incomodá-lo, o estrago que o russo pode fazer no garrafão é ainda maior.

Foi assim que o primeiro quarto de jogo se transformou em um duelo de turrões, um campeonato pra ver quem cede primeiro: Steve Kerr tira Iguodala para ter alguma chance de marcar Mozgov e impedir os rebotes ofensivos, ou David Blatt tira o Mozgov para ter como acompanhar o ritmo do Warriors nos contra-ataques e marcar o perímetro?

Pois bem: nenhum dos dois cedeu e os dois arcaram com as consequências. Mozgov virou um dos principais focos do ataque do Cavs, recebendo a bola sempre que possível e terminando o jogo com 28 pontos, recorde da carreira. Além disso conseguiu 6 rebotes de ataque, criou espaço para parte dos outros 6 rebotes de ataque de Tristan Thompson, sofreu uma infinidade de faltas e converteu seus lances livres. Já Iguodala atrapalhou a vida de LeBron desde o começo, recebeu passes longos em contra-ataques simples e, ao ser marcado por Mozgov, tornou a vida do Cavs um pesadelo: quando o pivô ia para a cobertura, Iggy arremessava; quando o pivô marcava de perto, Iggy tinha velocidade e espaço suficientes para passar a bola e encontrar alguém capaz de atacar a cesta ou girar a bola. Foram 22 pontos para Iguodala, incluindo 4 bolas de três pontos.

E se nos números os dois jogadores foram quase equivalentes, em termos de ritmo de jogo Iguodala gerou uma surra: mesmo podendo arremessar mais do que arremessou, mostrando insegurança em alguns momentos, sua presença em quadra contra Mozgov colocou o foco da defesa do Cavs no perímetro e abriu o caminho para o aro, criou falhas na transição defensiva, acelerou o jogo e colocou o Warriors de volta em sua zona de conforto, de velocidade e bom uso dos espaços.

O jogo de velocidade não apenas tira o Cavs de seu jogo característico como também é tudo que os corpos combalidos de seus jogadores não querem ter que lidar. Depois de ter literalmente ido parar no hospital devido à intensidade das câimbras que sofreu ao fim do Jogo 3, Dellavedova estava exausto tendo que marcar Stephen Curry. Mais um ajuste esperto tornou Curry mais efetivo do que nas outras partidas: contra Dellavedova, Curry simplesmente insistiu no drible e nas infiltrações, motivado não apenas pelo cansaço do adversário mas também pela ausência de Mozgov fechando o caminho para a cesta. Essas infiltrações viraram pontos fáceis ou então passes para a zona-morta, a região da quadra em que é mais necessário ter um bom pulmão e um par de pernas descansadas, já que o defensor da zona-morta é o mesmo que tem que marcar a passada para a linha de fundo e dobrar na infiltração do garrafão, precisando cobrir toda essa faixa da quadra num período muito curto de tempo. Como a gente sabe que vai acontecer, uma hora os arremessos do Warriors vão cair se forem dados em boas situações como aquelas que Curry criou em cima do marcador australiano. Respiro de esperança com duas bolas de três pontos logo de cara no terceiro quarto para diminuir a vantagem para menos de 10 pontos, Dellavedova tomou um par de infiltrações do Curry na cabeça de repente, colocou a língua pra fora e com 3 minutos corridos no quarto já estava sentado no banco se hidratando e tentando cuidar das câimbras que retornavam.

O Cavs chegou a dobrar a marcação no Curry no perímetro, antes mesmo dele começar o drible, e os resultados mostram perfeitamente a dinâmica da série até aqui. Curry se viu obrigado em todas as vezes a se livrar da bola, passando rapidamente e iniciando uma movimentação de bola que terminava quase sempre com algum jogador do Warriors no garrafão sendo perseguido por defensores mais altos, ou então com Iguodala livre no perímetro, onde machucou o Cavs mas possui aproveitamento menor do que a maior parte dos outros arremessadores da equipe. Ou seja, dobrar no Stephen Curry deu sempre um resultado melhor do que deixá-lo driblar contra seus defensores, e foi com essa estratégia esporádica que o Cavs conseguiu diminuir a vantagem no placar para apenas 3 pontos no terceiro período. Mas o problema é que essa decisão ACELERA o jogo a níveis absurdos de videogame. Pense bem: o Curry precisa se livrar da bola e o Warriors precisa passar a bola rapidamente para se aproveitar do espaço gerado pela marcação dupla; enquanto isso os jogadores do Cavs precisam correr loucamente para tentar cobrir o espaço, perseguindo os jogadores do Warriors e voltando para o garrafão; e em caso de jogada errada do Warriors, o resultado é um contra-ataque imediato do Cavs, correndo para a outra cesta. O jogo vira uma putaria completa, ganha uma intensidade muito grande no ataque e na defesa da equipe de Cleveland, e tudo isso com jogadores que já tiraram seus pulmões para lavar. Funcionou no meio do terceiro quarto, mas no final do mesmo período o Cavs já não tinha fôlego para o restante do jogo. LeBron sentou 2 minutos, a vantagem foi pra dois dígitos. Dez minutos depois, o Cavs já estava jogando “garbage time”, com um elenco composto apenas por jogadores reservas num jogo perdido antes mesmo de terminar.

Por vários momentos no jogo o Cavs se manteve ali na zona desejada dos 5 pontos de diferença, mas não soube passar no placar porque fez muita merda. O ataque truncado foi muito bem defendido, a insistência em Mozgov tirou o ritmo dos arremessadores e a falta de oxigênio levou a decisões estúpidas e muita dificuldade em criar espaço na marra. O modesto quase-triplo-duplo de 20 pontos, 12 rebotes e 8 assistências do LeBron foi uma coleção de trombadas de um homem exausto contra uma parede humana coletiva – e uma eventual trombada contra uma câmera fotográfica, claro, que abriu um ROMBO na cabeça do coitado.

LeBron só voltou pra quadra com aquele corte horrível porque naquele ponto da exaustão já não devia estar mais sentindo o corpo. No segundo tempo, LeBron sofreu marcação dupla FORA do garrafão, no perímetro, forçando que ele se movimentasse mais e eventualmente abrisse mão da bola. Pelo bem dessa série (mas não pelo bem do Warriors, claro) precisamos de um intervalo de uns 2 meses até o próximo jogo para que LeBron e o Cavs possam se regenerar numa câmara criogênica.

Vale lembrar que dobrar no LeBron e colocar cinco jogadores pra pular em cima do Mozgov pra encher o saco significa deixar arremessadores do Cavs livres, mas exaustos e sem ritmo vale muito a pena. JR Smith errou todos os OITO arremessos que deu no perímetro; ao todo o Cavs acertou apenas 14% das bolas de fora (4 em 27 tentativas) e os jogadores não chamados LeBron, Mozgov e Tristan Thompson (esse último se aproveitando da marcação nos dois anteriores e de rebotes a rodo) arremessou 42 bolas e acertou apenas 7. Desastre.

O Warriors foi mais feliz em impor o jogo que sabe fazer, abrindo mão de algumas coisas (como os rebotes ou a marcação no garrafão) em nome daquilo que realmente faz a diferença para a equipe: ritmo de jogo. O cansaço do Cavs não foi evidente no primeiro quarto, talvez nem no segundo, mas é uma coisa que vai engolindo a equipe aos pouquinhos: é uma cobertura atrasada na zona morta aqui, um arremesso que deu bico de aro ali, até que a vantagem no placar não possa mais ser alcançada. Se você pensar nas Finais como um grande jogo com 7 períodos, a tendência é que isso aconteça não apenas nas partidas individuais, mas nesse jogo amplo também, com o Cavs se exaurindo mais e mais nas partidas que restam. Mesmo com dois dias de descanso até o próximo jogo, o Cavs precisa arrumar um modo de impedir que o Warriors possa acelerar a bola dessa maneira, ou não adiantará ter Mozgov, Thompson e LeBron engolindo o garrafão. O Warriors abaixou a cabeça, admitiu as dificuldades e ajustou o ritmo para um frevo frenético diante de uma plateia em Cleveland emudecida. É a hora do Cavs responder transformando essa dança em uma valsa lenta.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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