Sem receita

Os últimos dias, recheados de grandes contratações, tem sido combustível para uma série de análises sobre quem venceu e quem perdeu na briga que toda offseason oferece aos times na hora de melhorar seus elencos. Os resultados são bem óbvios: os vencedores são Cleveland Cavaliers com LeBron James, Washington Wizards com Paul Pierce e Dallas Mavericks com Chandler Parsons e o desconto na renovação de contrato de Dirk Nowitzki. Os perdedores são Houston Rockets, que perdeu Parsons e não conseguiu Chris Bosh; o Heat, que manteve o time vice-campeão mas sem o melhor jogador da galáxia; e Brooklyn Nets e Los Angeles Lakers, que perderam bons veteranos, Pierce e Gasol, e não conseguem atrair ou manter bons nomes mesmo estando em grandes centros.

Tendo dito tudo isso, surge uma questão: o quanto cada time é culpado ou merecedor de críticas por esses resultados? O quanto de sorte, talento e planejamento envolve a construção de uma equipe vencedora?

Melo

Comecemos por um time que não venceu o offseason, mas se safou de uma grande derrota. O New York Knicks ficou bem próximo de perder Carmelo Anthony para outra equipe, mas conseguiu, no fim das contas, renovar com o ala. O cenário para Anthony em NY não é dos mais animadores, depois de vários anos de resultado mediano, o time piorou muito no ano passado e não vai muito mudado para a próxima temporada. Amar’e Stoudemire e Andrea Bargnani comem boa parte da folha salarial para jogar pouco e continuam lá, Tyson Chandler foi trocado por José Calderón e o time será treinado por um novato na função, Derek Fisher.

Eu, no lugar de Anthony, já teria dado o fora de NY faz tempo! O Chicago Bulls estava lá prontinho para oferecer um bom contrato pra ele. Um time que já é bom sem Derrick Rose, que tem um dos melhores técnicos da NBA, um sistema de jogo definido e que só precisa de mais poder de fogo para dar o último passo rumo a disputa por títulos. Ele era a mudança! O que o Knicks tinha para oferecer e ofereceu era só esperança: daqui um ano acabam os contratos de Stoudemire e Bargnani, daqui 2 anos surge uma nova safra de Free Agents espetacular e pessoas irão vir jogar conosco.

Acho que é a hora de lembrar que dos grandes nomes do Draft de 2003, LeBron James e Chris Bosh têm 2 títulos cada, Dwyane Wade tem 3. Carmelo Anthony só passou da primeira rodada dos Playoffs duas vezes! Nunca vou colocar culpa individual num resultado coletivo, certamente Melo teria melhores resultados se tivesse mais sorte no Denver Nuggets, se tivesse jogado mais tempo no Leste ou se chegasse em um Knicks mais bem organizado. Nada disso é culpa dele. Porém passa a ser um pouco quando ele tem finalmente a chance de definir seus rumos na carreira e foge dos melhores lugares para se jogar.

Bosh

E é aí que temos que dar todos os parabéns para Phil Jackson, novo General Manger e faz-tudo do New York Knicks. Após seu novo contrato, Melo disse que foi difícil recusar um trabalho para o técnico mais vencedor da NBA nas últimas décadas, e que acreditou em seu plano. Ao ler isso, cheguei a conclusão de que para montar um bom time você não precisa de um bom General Manager apenas, mas de alguém com boa lábia e uma imagem muito boa dentro da liga. A ideia de uma troca ou contratação ou argumentação pode vir de qualquer um na diretoria, mas ela deve ser apresentada por alguém que cause uma boa impressão. Vender uma contratação é vender o imprevisível futuro, mas com um tempero romantizado do passado. Ninguém faz isso melhor do que os caras rodados, vencedores e idolatrados da liga: eu venci no passado e, logo, vencerei no futuro. Como se fosse tão fácil, né Felipão?

Dá pra interpretar que o argumento de Phil Jackson para Carmelo Anthony foi mais ou menos o seguinte: cheguei agora e preciso de tempo para arrumar as coisas, espera mais um ano aí, ganhando muito dinheiro, e você fará parte de tudo. Simples assim, e aí um dos melhores jogadores do planeta abraçou e colocou seus últimos anos no auge do basquete nas mãos dele.

Lembra um pouco o que Pat Riley fez com LeBron James em 2010. Foi lá, fez a proposta, mostrou sua coleção de anéis de campeão e disse que sabia o caminho das pedras. Se era pra se juntar com Wade e Bosh, que fosse no time comandando por um vencedor como Riley. Dá pra dizer que o presidente do Heat usou esse artifício mais uma vez em 2014, mas dessa vez não em LeBron, mas de Chris Bosh. Ele tinha a proposta dos sonhos em Houston: seria muito bem pago para ser o veterano que lidera um time jovem, talentosíssimo e que só pediria de Bosh aquilo que ele pode oferecer. Nada de exigir que ele jogue de costas para a cesta ou coisas que já o irritaram no passado. Mas Riley ofereceu o que podia, além do quinto ano de contrato que o Houston não era autorizado, a chance de ser o cara de um time que não quer se reconstruir perdendo, mas se mantendo entre os melhores. Riley garantiu manter o alto nível para os próximos 2 anos e, depois, uma nova reestruturação. Contratou Luol Deng e renovou com Mario Chalmers e Chris Andersen apenas até 2016. Só Bosh e Wade ficam nos planos a longo prazo, claro.

Riley

Não dá pra ignorar que tanto Pat Riley quanto Phil Jackson, além de encantar com suas histórias de sucesso, falam muito em confiança. Pode deixar com eles que tudo será resolvido, há um plano de médio a longo prazo e tudo dará certo. E, importante, será feito em volta desses super jogadores. Isso explica um pouco do fracasso do Houston Rockets nesta offseason.

Eu já tinha achado estranho na temporada passada quando Dwight Howard havia hesitado tanto antes de ir para o Rockets, time que era obviamente a melhor opção para ele em todos os aspectos. Precisou de muita lábia e até de dezenas de mensagens diárias de, vejam só, Chandler Parsons, que se aproximou do pivô para falar das maravilhas de se trabalhar e viver em Houston. Um ano depois Parsons vai embora do time se dizendo decepcionado e frustrado com a maneira que as coisas aconteceram. Abaixo suas palavras em entrevista ao Yahoo!Sports:

“Honestamente, me senti ofendido pela maneira com que o processo foi conduzido. Eles disseram publicamente que queriam uma terceira estrela para o time e eu acho que tinham uma bem na frente deles. É a maneira com que eles me veem como jogador, mas eu acho que ainda nem cheguei perto de todo o meu potencial”.

Depois, ao longo da entrevista, Parsons até diz que entende o que  Daryl Morey, “um manager muito agressivo”, estava tentando fazer, mas claramente há um ressentimento. E não sabemos como James Harden e principalmente Dwight Howard, atraído ao time por Parsons, vão reagir a saída de um dos principais jogadores do time. Mesmo com a chegada do veterano Trevor Ariza para o seu lugar, é uma baita mudança e que claramente não melhora o time a ponto de ambicionar muito mais coisas. Morey não é do meio do basquete, nunca jogou, nunca foi campeão e tenta ser pioneiro no uso de tecnologias e estatísticas na NBA. Ele pode estar se tornando aquele pioneiro que se fere por ser o primeiro a pisar no território, mas pode não sobrevive para aproveitar tudo o que descobriu.

O caso me lembra um pouco o do Minnesota Timberwolves com Kevin Love e o antigo GM, David Kahn. Entre muitos erros e alguns acertos, o agressivo e criativo Kahn chegou a montar bons elencos no Wolves, mas na temporada seguinte tudo era alterado na eterna busca por melhora. Uma vez Love se disse simplesmente cansado de sempre ter que começar do zero todo santo ano. Em geral, jogadores gostam de estabilidade para eles e para seus colegas favoritos. Mudança, só quando está dando tudo errado e com data marcada (como as de Knicks e Heat), não a qualquer momento, como acontecesse com o Rockets. Será que isso não pesou na escolha de Bosh? Os jogadores confiam no que Morey está fazendo? Descartar Jeremy Lin e Omer Asik dois anos depois de lutar tanto por eles não ajuda a reputação.

Parsons

Mas há um mérito nisso tudo. Se o Rockets muda demais, é porque eles não se contentam com o meio da tabela. Daryl Morey sabe que o mesmo time do ano passado teria que evoluir em muita coisa para lutar por um título, e que o caminho mais rápido para essa evolução era a adição de um outro jogador fora de série. A ideia era manter Bosh e Chandler e eles criaram um bom cenário para os dois ficarem, houve planejamento. Apenas não contavam com a decisão de Bosh de ser o capitão que afunda com o navio em Miami; nem com o Dallas Mavericks oferecendo um dinheiro surreal para Chandler. Chegou ao ponto em que reassinar o ala seria garantir pelo menos 3 anos onde o Rockets não teria flexibilidade econômica para novas negociações, dá pra imaginar a agonia de Morey com um mundo onde ele não pudesse trocar ninguém?

O cenário lembra, um pouco, de longe, o do Los Angeles Lakers. O time sai como um grande derrotado dessa offseason, é claro: entrou no Draft e nas negociações por Free Agents sem nem ter um técnico, sem ter um armador e com pouquíssimos jogadores garantidos no elenco. Só depois de perder na briga por LeBron James, Carmelo Anthony, Chris Bosh e até Dirk Nowitzi que se contentaram em reassinar alguns jogadores do ano passado (Jordan Hill e Nick Young) e trocar por Jeremy Lin. Mas talvez a maior humilhação tenha sido quando Pau Gasol recusou uma proposta mais lucrativa do Lakers pela chance de ir para o Bulls.

A proposta de GM Mitch Kupchak é parecida com a de Morey, simplesmente não vale a pena lutar pelo meio da tabela. Se o Lakers não conseguiu quem queria, deixou os nomes medianos para trás e pelo jeito só fará o básico necessário para ter um elenco completo no próximo ano. O problema é que o Houston faz isso já estando no meio da tabela, com tudo para ir para os Playoffs e tudo mais, enquanto o Lakers está no fundo da conferência e prestes a ser ultrapassado por Utah Jazz e Sacramento Kings. O dilema em Los Angeles é conseguir ter espaço salarial para a próxima super estrela, mas ao mesmo tempo criar um time bom o bastante para atrair esse jogador. Quem quer ir jogar num time sem técnico e cujas maiores estrelas, Kobe Bryant e Steve Nash, não dão nenhuma garantia de que estarão saudáveis no próximo ano? O tal “grande mercado”, as cidades interessantes dos EUA, até tem seus atrativos, mas não fazem milagre.

Kupchak

O ponto disso tudo é que para conseguir jogadores bom, além do Draft e de trocas, você precisa ser interessante. Pois é, com toda a subjetividade que a palavra tem nela. Para LeBron James em especial, e só ele, ser um time no noroeste de Ohio é ser interessante. E tanto faz que o Cleveland Cavaliers é uma franquia fracassada, mal dirigida e que tomou decisões péssimas nos últimos mil anos, ele quer ir pra lá para ajudar a resolver. Para o Knicks, quando deixou de bastar estar na maior cidade dos EUA, eles chamaram Phil Jackson para se tornarem mais atrativos, como fez Miami, que juntou os baixos impostos da Flórida e as praias com Pat Riley e um histórico recente de vitórias.

O Lakers, por outro lado, vive um momento de indecisão. Alguns acham que Mitch Kupchak daria o fora depois que o antigo dono do time, Jerry Buss, morreu no ano passado. Ele ficou, mas está na corda bamba e dependendo de boas contratações para se segurar no cargo, uma dessas escolhas é do técnico. Que jogador de alto nível escolha ir para um time sem treinador? Não faz sentido. E se jogar ao lado de Kobe não é das coisas mais fáceis, o que dirá de um Kobe que volta de duas lesões sérias aos 30 e muitos anos de idade?

No momento, o Lakers apela para sua história e para as raízes de alguns jogadores. Será que ano que vem Kevin Love quer voltar para sua amada Califórnia, onde jogou pela UCLA? Será que Kevin Durant que sair de Oklahoma City e viver ‘onde tudo acontece’? É pouco para um time se apoiar nisso, espero que o planejamento seja maior do que isso. Mas o pior é que pode dar certo.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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