Dia de Kobe, Paul e Ivan, o terrível

>A rodada de ontem foi mais uma daquelas com 22 times e muitos jogos ruins acontecendo. Sabe como é, calendário apertado, começo de temporada, muitos times cambaleando, outros só cansados. Não é à toa que muita gente passou a madrugada só falando de NFL e UFC. Mas não é por isso que a gente tirou os olhos da bola laranja. Especialmente para ver o último jogo da rodada, o primeiro Derby de Los Angeles da temporada.

E, como já havia acontecido nos amistosos de pré-temporada, o Clippers ganhou. O Lakers defendeu bem, segurou o Clippers a apenas 41% de aproveitamento nos arremessos, mas sempre ficou atrás no placar. Quando tentava encostar via o Chris Paul fazer o que bem entendesse. Mesmo. Foram bandejas de um lado, do outro, arremessos de perto, de longe e até um quase do meio da quadra! Ele até distribuiu o jogo, mas ontem estava em modo de ataque, fazendo carinha de nervoso e batendo pra dentro da defesa do Lakers sem medo. Após o jogo, Kobe Bryant disse que na NBA inteira só Paul e Derrick Rose tem o mesmo espírito competitivo dele.

Pelo Lakers, Kobe conseguiu passar dos 40 pontos pela quarta vez consecutiva na temporada. É o mais velho a conseguir tal sequência. E eu sou do tempo em que ele era o cara que conseguia todos os recordes de “o mais novo a…”. Como tem sido de praxe, Kobe arremessou todos os tipos de bola e, provavelmente devido a macumba e posicionamento dos astros, as bolas não paravam de cair. Era um arremesso mais difícil que o outro, com marcação dupla ou tripla em cima dele e mesmo assim acabou com 50% de aproveitamento e apenas 2 turnovers. Qualquer outro bom jogador da NBA que tentasse os mesmos arremessos teria aproveitamento de uns 20%, um ser humano normal de -15%. Aí aparece uma variação do dilema Tostines: O ataque do Lakers é ruim porque o Kobe arremessa demais ou o Kobe arremessa demais porque o ataque é ruim? A resposta certa é a mais broxante: Um pouquinho dos dois.

Só porque elogiei Matt Barnes, ontem ele jogou mal e perdeu completamente a cabeça, o doidinho dos velhos tempos. O mesmo vale para o jogador outrora conhecido como Ron Artest, que deixou uns cotovelos soltos e rendeu a frase “World Peace is throwing elbows”. Vivemos para ver isso. Já Pau Gasol não foi mal, mas ainda está jogando muito longe da cesta. Possivelmente para evitar o que acontece com Andrew Bynum, que não consegue participar tanto do jogo como há algumas semanas. Muito a se arrumar ainda. Curioso que vale o mesmo para o Clippers, tem muito o que ajustar também. Billups fora de sintonia com Paul, Blake Griffin às vezes perdido no ataque e muitas jogadas de 1-contra-1 mesmo com Paul no elenco. O que vale é que mesmo assim eles ganharam de Heat e Lakers na mesma semana. Muito time sonha em jogar mal assim.

Jogo bom também em Atlanta com o esquizofrênico Hawks contra o Wolves. Até o terceiro período assistimos o Hawks do lado negro da força, que não sabe o que fazer no ataque e joga em velocidade Yao Ming embaixo d’água. Esse time estava tomando pontos do Kevin Love de todas as maneiras possíveis e imagináveis e perdia por 19 pontos. A partir dos últimos minutos do quarto, porém, apareceu o Hawks do bem, com elenco profundo e agressivo. Fecharam o quarto com uma sequência de 8-0 e começaram o último período embalados para buscar o empate. Isso liderados pelas bolas de 3 de Willie Green e a ultra agressividade de Jeff Teague (!). E na hora que o jogo esquentou sabe quem decidiu? Ivan, o terrível. Ivan Johnson, novato desconhecido de 27 anos de idade, um jogador rodado que conseguiu, sem ninguém perceber, uma vaga na NBA.

Foi Ivan quem deu um toco em Kevin Love com o jogo empatado a 1:30 do fim. Depois, no minuto final, Josh Smith não conseguiu tocar a bola para Joe Johnson e a bola sobrou para quem? Ivan, que abriu vantagem para o Hawks. Com o jogo empatado o Josh Smith tentou um arremesso de 3 pontos (levantemos para bater palmas), que obviamente errou e o rebote ofensivo caiu na mão de Ivan Johnson, que sofreu falta e fez os dois lances-livres que ganharam o jogo a 4 segundos do final. Ivan Johnson tem uma história curiosa. Foi banido da liga coreana onde jogava por mal comportamento e por ofender árbitros, depois disso fez boa temporada no Erie Bayhawks da D-League com médias de 22 pontos e 8 rebotes e ganhou uma chance no Hawks. Ganhou ainda mais espaço com a contusão do Al Horford.

O Wolves poderia ter ganho o jogo mesmo depois de jogar fora a liderança, mas Kevin Love cometeu o pecado capital de não confiar no deus Ricky Rubio na última posse de bola e forçou um arremesso de 3 pontos completamente errado. Rubio foi o responsável pelos 5 pontos do Wolves no minuto final de jogo, uma bandeja e uma bola de 3 pontos. A estratégia do Hawks foi de deixar Rubio chutar, sempre fechando a marcação sobre o seu companheiro quando eles tentavam um pick-and-roll. O resultado foi que o armador deu só 2 assistências em jogadas desse tipo e acabou com 18 pontos. Mas claro que Rubio é fantástico e deu assistências em outros tipos de jogadas, acabando com 12 passes decisivos, além de 5 roubos. Boatos também dizem que ele é educado, bonito além de amante gentil e bem dotado.

Tantas linhas e falei apenas de dois jogos! Mas não se preocupem, o resto do dia não foi tão bom. Em Washington o Wizards foi o único time da casa a perder ontem, apanhando do Sixers pelo segundo dia seguido. JaValle McGee até que jogou muito bem, mas não é como se isso fosse o bastante para aquele timeco. O Bobcats chegou a abrir 20 pontos sobre o Warriors e deixou a vantagem escapar, mas venceu no finalzinho com bons jogos do TRIO DE FERRO: Kemba Walker (23 pontos), Gerald Henderson (26) e Byron Mullens (20). Para o Warriors valeu apenas pelas jogadas de efeito de Monta Ellis.

Nada estranho no Bulls segurar o Raptors a apenas 64 pontos e vencer. Estranho mesmo foram os números dos dois times no intervalo: 37 pontos para cada lado, 18-43 arremessos para cada um dos dois times, que também empataram em rebotes (26), assistências (8) e turnovers (3). Nunca havia visto um jogo de espelhos assim. Outro número expressivo, a pontuação do Raptors por quarto. 14-23-15-12. E teve um time que marcou menos pontos que o Raptors, o Sacramento Kings. Fizeram apenas 62 e apanharam feio do Dallas Mavericks. 

O Grizzlies parece ter decidido que se não tem Zach Randolph para comandar o ataque de meia quadra, vão correr. Já tinham feito muitos pontos de contra-ataque contra o Knicks, ontem fizeram mais 23 na vitória sobre o Hornets. Destaque para Rudy Gay que fez todas as cestas importantes no final da partida, outra função de Randolph na equipe. Em Indianapolis o Pacers venceu o Celtics, que continua sem vencer times que tem algum resquício de talento. A vitória foi no estilo Pacers dessa temporada: porcentagem baixa de aproveitamento dos arremessos (37%) mas mesmo assim, de algum jeito, sei lá como, beiram os 100 pontos e vencem. Vai entender! Bom jogo do Beatle Paul George, 17 pontos e uma bela enterrada no final. No Celtics já dá pra enxergar o desgosto e o cansaço nos rostos de Kevin Garnett e Paul Pierce. Vamos torcer para que eles tenham um fim de carreira digno, só isso.

Alguns aplausos, mas as vaias foram mais altas na apresentação do Deron Williams no seu primeiro jogo de vola a Utah. Bizarro que o time titular do Nets tinha ainda mais dois ex-Jazz, Kris Humprhies e Mehmet Okur. Deron acabou com apenas 3-15 arremessos e seu time perdeu mais uma, 107-94. O Jazz aproveita o bom momento de seu calendário para acumular vitórias importantes caso o time queira brigar pelas últimas vagas nos playoffs. Improvável, mas possível. Outra coisa improvável é que o Thunder perca o primeiro lugar do Oeste tão cedo. Ontem bateram no Knicks, que estava ainda sem Carmelo Anthony, sem maiores dificuldades.

Para finalizar, outro dos poucos bons jogos da rodada. O Houston Rockets garantiu a terceira derrota do Portland Trail Blazers desde que falamos que eles estavam imparáveis. Mas foi só na prorrogação. O Blazers perdia por 10 no último período, mas empatou graças a Nicolas Batum, que acertou 6-7 bolas de 3 pontos e ainda conseguiu um tocaço decisivo em Kevin Martin. O Rockets se salvou com uma bola de 3 de Kyle Lowry (mais uma vez fantástico com 33 pontos, 8 rebotes, 9 assistências) no último minuto e depois com Kevin Martin na prorrogação. Em uma jogada decisiva, com o Rockets na frente por 2 pontos e sabendo que o Blazers teria a última posse de bola do jogo, ele fintou um arremesso, cavou falta e acertou os dois lances-livres que confirmaram a 5ª vitória do Houston na temporada.


Fotos da Rodada

– Por que eu fui querer mudar de time? É o Nets, meu deus…

-Te entendemos, cara.
-Totalmente.

Jim Carey brinca de ser técnico do Mavs

Taj Gibson imita Carlos Boozer

E o susto quando um negão desse te pega por trás! 

Kemba Walker mostra que alguma coisa é muito grande.
Vamos usar nossa imaginação agora…

Em público, Gasol? Mãos para fora do cobertor!

Ótimo entrosamento de Barnes e Paul. 

-Não tenha medo, Scooby. É uma máscara! O monstro é na verdade…

>O Spurs sempre será o Spurs

>O Denis analisou o jogo 5 entre Spurs e Grizzlies, comentando sobre as mudanças táticas no Spurs nessa temporada, a defesa do Grizzlies e o arremesso final de Gary Neal que levou o jogo à prorrogação – e então à vitória do Spurs. Mas o site NBA Playbook fez um trabalho tão genial analisando as últimas posses de bola da equipe de San Antonio que é impossível não compartilhar aqui algumas conclusões que essa análise nos traz num mini-post de sobremesa para quem leu o post anterior, prato principal.

1) O Spurs sempre causa medo com as bolas na zona morta

A análise da jogada no NBA Playbook está aqui. Com 14 segundos no cronômetro, o Spurs optou por não tentar uma bola de 3 pontos. Ao invés disso, Duncan recebe a bola no perímetro e dá um passe certeiro para o Ginóbili finalizar com uma bandeja simples. Tony Allen estava marcando o Ginóbili e ele opta por proteger uma possível bola de 3 do argentino, liberando o jogador do Spurs para uma corrida rumo à cesta. Mas porque a ajuda defensiva não bloqueia o caminho do Ginóbili? Porque o Shane Battier, responsável por essa ajuda, está se borrando de medo de deixar alguém (no caso Gary Neal) livre na zona morta. É justo, o banco do Spurs é o banco que mais converte bolas de 3 na NBA, e a zona morta sempre foi uma das principais armas da equipe na época de Bruce Bowen. Quantos jogos o Suns não perdeu por culpa de uma maldita bola de 3 pontos na zona morta? Mas, como o Denis indicou, o Spurs está tentando apenas metade dos arremessos na zona morta que tentou na temporada regular, estão bem marcados e nenhum jogador mais é especialista na área. Mas é isso, os arremessos daquele região vencendo jogos para o Spurs fazem parte do nosso imaginário, e então o Shane Battier preferiu permitir a bandeja do que desgrudar do Gary Neal.

2) O Duncan sempre causa medo mesmo sendo velho e tendo cara de bobo

A análise da jogada no NBA Playbook está aqui. Com menos de 2 segundos no cronômetro e precisando de uma bola de 3 pontos, o Spurs faz uma série de corta-luzes na cabeça do garrafão para liberar alguém pra receber a bola e o Grizzlies faz a escolha correta: ao invés de lutar contra cada corta-luz, os marcadores fazem a troca, ou seja, quem parar no corta-luz passa a marcar o adversário que fez o corta, e quem estava marcando esse jogador passa para o próximo adversário em movimento, evitando assim o corta-luz. Tudo lindo e maravilhoso, até que Shane Battier – de novo – decide que não vai fazer a troca de marcação. Porque para isso ele teria que sair do Tim Duncan, ali paradinho na linha de lance livre, e todos nós sabemos do que o Duncan pode ser capaz quando está livre nos segundos finais de um jogo, né? Mas por ter ficado no Duncan, Shane Battier deixa Gary Neal livre, e graças às trocas seria ele o responsável por fechar no armador do Spurs. Neal arremessa uma bola de 3 com bastante espaço, converte e leva o jogo para a prorrogação, enquanto o Duncan (que só poderia fazer uma bola inútil de dois pontos) estava muito bem marcado. Pois é, na hora final dá cagaço de deixar o Duncan livre, mas era a única coisa inteligente a se fazer.

3) O Spurs sempre recebe ajuda de algum jogador aleatório

O Battier errou nas duas marcações e ele é simplesmente um dos melhores defensores da NBA. Ele tem responsabilidade pelo erro, claro, mas o peso do Spurs, a fama do Spurs, acaba tendo um papel fundamental em como os jogadores reagem ao time na hora de defender uma posse de bola fundamental. Mas no fim das contas, erro de marcação ou não, quem acertou a bola final foi Gary Neal – mais um para a imensa lista de jogadores eleatórios que já salvaram o Spurs em jogos decisivos de playoffs. Mas quão aleatório é o Gary Neal, afinal? Basta dar uma lida nessa história que o Denis publicou um mês atrás no seu filtro semanal:

Vocês sabiam que o Gary Neal, o novato-sensação (como diria a RedeTV!) do Spurs, teve um caminho complicado pra diacho pra chegar na NBA? Eu não sabia. No seu segundo ano de faculdade foi acusado de estupro e perdeu sua vaga no time. No fim ele foi inocentado, pelo jeito foi um caso de sexo entre bêbados em uma festa, mas mesmo com a inocência oficial não foi recebido de volta e teve que caçar outro lugar pra jogar.

Ele acabou indo para uma faculdade bem pequena e sem renome, Towson, onde passou por zilhares de entrevistas para ser aceito. Depois dessa história é claro que passou em branco pelo Draft da NBA e aí foi para Turquia, Espanha e depois Itália, onde milagrosamente recebeu uma chance do Spurs. Aliás, milagrosamente não, por méritos dele e dos melhores olheiros do planeta. Neal é uma das razões para o Spurs ser um dos melhores time da NBA em bolas de 3 pontos nessa temporada. A história dele tem mais detalhes nesse link do Spurs Nation.

>Critérios para o All-Star

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Não não, Nenê

Saiu ontem finalmente a escolha dos reservas para o All-Star Game. Como sempre, tem muita gente indignada com as decisões e falando em complô, teoria da conspiração, alienígenas e na culpa do Justin Bieber (que no fundo é só um adolescente com cara de panaca e todas as ninfetas que quiser, igualzinho a todo mundo quando era adolescente, quer dizer, tirando a parte das ninfetas, claro). O problema é que todas as pessoas descontentes com a escolha dos reservas, achando um absurdo que o Duncan foi escolhido ou que o Nenê vai ficar em casa comendo pipoca, não pararam pra pensar que não existem critérios definidos para chamar os reservas. Isso quer dizer que todos os técnicos da NBA, que participam da votação, precisam bolar critérios próprios que não coincidem entre si. Quando alguém diz que o Nenê merecia ir para o All-Star, com certeza está usando critérios bem diferentes da maioria dos técnicos. Vamos então dar uma olhada em alguns dos critérios possíveis para convocar reservas e quais jogadores ficariam ou não de fora se eles fossem empregados.

Critério “É ritmo de festa”: escolher os jogadores mais legais, engraçados e divertidos

Se o All-Star Game não vale bulhufas e é uma festa para agradar os torcedores e trazer mais audiência para a NBA, então muita gente acha que apenas os jogadores que se encaixam nesse perfil Sessão da Tarde de festa, azaração e curtição deveriam ser chamados. No fundo, faz sentido. É meio ridículo usar a convocação para o All-Star como se fosse uma espécie de prêmio para os melhores jogadores sendo que esses prêmios já existem na forma de MVP, melhor quinteto da temporada, jogador que mais evoluiu, essas coisas. Então o All-Star seria algo único, que premiasse os jogadores mais divertidos e voltados para a torcida.

Pra mim, isso funciona muito bem para os titulares do All-Star, que são definidos pelos votos públicos na internet. Aí a galerinha vota nos “mais legais” e pronto, a festa está garantida. Para os reservas, que são definidos pelos técnicos, não acho que esse critério funcione porque provavelmente os técnicos são chatos e acham legal o Shane Battier e o Joel Anthony, pra fazer corta-luz.

Para os que usam esse critério, Vince Carter e Shaquille O’Neal deveriam ter cadeira cativa no All-Star Game. Da nova safra, muita gente estava exigindo que o Blake Griffin fosse chamado não pelos seus números, mas por aquilo que ele pode fazer na festança, enterrando na cabeça de todo mundo. Na minha opinião ninguém usa esse critério, só os torcedores mais românticos, mas foi ele que levou Blake Griffin para o All-Star esse ano. A imprensa cobrou, os técnicos ouviram, viram as enterradas no YouTube, e acharam que fazia sentido. Caso raro, mas os fãs da festa agradecem.



Critério “Um por todos e todos por um”: escolher os jogadores que fazem parte dos times que estão no topo da tabela de classificação

É desse modo que a mente da maioria dos americanos funciona: os melhores jogadores são aqueles que fazem seus times vencerem. Isso gera distorções bizarras, como um Pistons que não tinha nenhuma estrela tendo quase o elenco todo chamado para o All-Star porque o time estava no topo da tabela. Esse critério é usado também na escolha do vencedor do prêmio de MVP, e nós insistimos que ele é um absurdo. Funciona assim: o jogador, para receber o prêmio, tem que ser muito bom, ter bons números. Mas ele também precisa estar num time vencedor, de preferência no alto da tabela. Mas se ele está num time no alto da tabela, com certeza é porque o resto do elenco também é espetacular. Mas se o resto do elenco também é espetacular, o jogador então é menos necessário do que se estivesse num time ruim, então corre o risco de não ganhar o prêmio. Ué, então o cara precisa ser bom, jogar num time bom, mas o time não pode ser bom demais, senão ele perde? Afinal, o prêmio é para o melhor jogador ou para o jogador mais importante para sua equipe? É um prêmio individual ou um prêmio coletivo, para o jogador-símbolo de uma equipe com um elenco bom e vencedor?

No All-Star Game, não tem esse lance do prêmio de MVP de que apenas um pode ganhar, então a  mentalidade gringa faz com que vários dos jogadores que estão nos times do topo sejam agraciados com o prêmio. No Leste, todos os reservas estão nos 4 primeiros times da conferência: Celtics, Heat e Hawks (apenas o Bulls ficou de fora). O Celtics, líder da conferência, teve 4 jogadores convocados dentro das 7 vagas, mais da metade. Todos eles merecem? Apenas se você levar o critério do “time vencedor” em conta, premiando o líder da tabela. A ideia é que, se o Celtics é bom o bastante para ser o líder do Leste, deve ter os melhores jogadores e então o maior número possível deles deve ser chamado para a festa.

No Oeste, 5 dos reservas estão nos 4 primeiros times da conferência (Spurs, Lakers, Mavs e Thunder). O Spurs, que é o líder do Oeste, levou dois jogadores como reserva. O Duncan está tendo uma temporada mais fraca, é velho, está longe dos seus melhores dias de All-Star, mas a mentalidade de quem usa esse critério é essa: “como levar um reserva só do time que é o melhor da temporada até agora?” O Duncan não vai pelo nome que tem, mesma coisa com o Garnett, não é isso. Não é questão de fama ou cadeira cativa. Eles vão por jogarem nos dois melhores times da NBA no momento. Eu acho ridículo, All-Star não é um prêmio para os melhores times, um cara jogar num time vencedor não deveria lhe favorecer na escolha dos melhores jogadores, mas essa é a mentalidade que predomina na imprensa e nos técnicos. Duncan e Garnett jogam no All-Star porque seus times chutam traseiros, e Kevin Love, Zach Randolph e LaMarcus Aldridge ficam de fora porque seus times fedem. O Kevin Love é ignorado porque sua habilidade “não gera vitórias”, assim como o Monta Ellis, enquanto os próprios técnicos admitem que a vitória depende do conjunto, já que chamam 4 jogadores do Celtics e 2 do Spurs. Paradoxal, inconsistente, mas é o mesmo critério que se usa para o prêmio de MVP e para dizer que “um jogador é melhor porque ganhou mais anéis de campeão”. Se você está bravo porque o Duncan foi convocado mas é daqueles que dizem que o Kobe é melhor porque tem mais anéis, está misturando tudo. O critério, em todos os casos, é de que as vitórias são mais importantes do que tudo para definir a qualidade de um jogador – mesmo que as vitórias dependam do resto do elenco.

Critério “Nerd de estatística”: escolher os jogadores com as melhores estatísticas na temporada

Com esse critério, os jogadores chamados são aqueles que estão tendo o melhor ano estatisticamente. Seria um prêmio para as melhores performances, não teria nada a ver com seus times vencerem ou não. O resultado também é uma certa distorção, porque acaba priorizando jogadores que jogam sozinhos em times ruins, onde é mais fácil pilhar estatísticas, mas pra mim faz mais sentido. O Kevin Love não vai ganhar prêmios individuais ou coletivos ao fim da temporada, nada mais justo então que ele seja escolhido para jogar o All-Star em homenagem às suas atuações na temporada. Chamar reservas apenas de times bons é uma punição a mais para aqueles que estão em times sem chance de nada, é ser jogado definitivamente no limbo, na privada. O cara só perde, que participe ao menos da festa e coma de graça se está jogando bem o bastante. Quando o LaMarcus Aldridge foi informado que não tinha sido convocado, ele disse que já sabia, que já tinha avisado os companheiros que não seria chamado. Isso porque seu Blazers hoje está apenas na oitava posição do Oeste, de modo que passa invisível pelos técnicos se esse critério aqui não for usado. E ele não foi. Zach Randolph, nosso gordinho favorito, passou anos e anos sendo ignorado no All-Star porque seus times eram uma droga (e todo mundo dizia que o Randolph era o culpado por isso). O único jogador que pode mostrar que esse critério foi usado é o Blake Griffin, que tem médias espetaculares e seu Clippers amarga a terceira pior campanha do Oeste, mas ainda acho que ele foi chamado apenas pela cobrança da imprensa de que ele se encaixa na festança do All-Star, critério que vimos acima.

Critério “A primeira vez a gente nunca esquece”: escolher os jogadores que ainda não estiveram no All-Star ou estão tendo a melhor temporada da carreira
Tem gente que acha que perde a graça ficar todo ano indo os mesmos sujeitos para o All-Star Game. A repetição acontece porque os jogadores continuam a ser os favoritos da torcida, ou continuam em times vencedores, ou mantém os mesmos bons números. Mas e se o All-Star levasse sempre sangue novo, os caras que estão se destacando agora e não tiveram oportunidade de ir no ano passado? 
Acho esse critério bem idiota, mas ele sempre acaba sendo usado todo ano. Alguém que poderia ser considerado para o All-Star mas nunca é lembrado ganha comentários como “mas ele quase foi na temporada passada”, “ele ainda não teve uma chance”, e acaba indo jogar. Em geral são jogadores meio mequetrefes ou que ainda não estão em nível de All-Star, como aconteceu com o David West um tempo atrás. Foi também o que no ano passado finalmente levou o Zach Randolph, que merecia há um tempão mas não ia porque seus times sempre fedem. Nesse ano, apenas dois jogadores foram chamados pela primeira vez para o All-Star, Russell Westbrook e Blake Griffin, e eles não se encaixam nesse critério. Mas aqueles que afirmam que o Josh Smith deveria ter sido chamado se encaixam aqui, e o mesmo se aplica ao Nenê. Ele tem um ano melhor estatisticamente do que Kevin Love, LaMarcus Aldridge ou Zach Randolph? Não. Ele joga num time que está no topo da tabela? Não. Ele é um jogador divertido para a festa e vai cravar na cabeça de todo mundo? Não, aliás é por isso que nunca chamam pivôs se podem chamar alas no lugar. O que está do lado do Nenê é que seu ano está sendo muito bom para os seus próprios padrões e não existem muitos pivôs no Oeste, mas isso não é o bastante. Sei que todo mundo queria ver o Nenê indo para o All-Star, eu entendo, mas ele só iria pela falta de pivôs e, após as votações populares, esse lance de posição não importa mais. Como vimos, os critérios usados são outros (melhores times, melhores estatísticas, show) e o Nenê não se encaixa neles. Resta então para os que insistem que o brasileiro vá (e por que, mesmo?) que a imprensa choramingue muito que o Nenê merecia, que ele teve um bom ano, que ele sempre foi ignorado, para que o David Stern o escolha como substituto do Yao Ming, machucado. Mas não vai acontecer simplesmente porque a choramingação por outros jogadores, melhores, é maior. Provavelmente será escolhido alguém de um time entre os 8 melhores, com boas estatísticas. Como o Randolph já foi All-Star, ele não se encaixa nesse critério, então a choramingação deve ser por Love e Aldridge mesmo. 

>Preview 2010-11 / San Antonio Spurs

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 Ele é como qualquer um de nós

Objetivo máximo: Mais um título. O ano é ímpar, afinal.
Não seria estranho: Chegar longe mas perder para Lakers ou Mavs
Desastre: Cair na primeira rodada e ver os cabelos brancos nascerem na cabeça do Duncan

Forças: Time entrosado, técnico espetacular, defesa bem montada e Tim Duncan
Fraquezas: Parte do time está ficando velha demais e a outra parte ainda parece muito inexperiente

Elenco:

…..
Técnico: Gregg Popovich

Eu sempre entro na nossa página da semana dos técnicos para ver o que podemos aproveitar de novo aqui. E o texto do Popovich feito pelo Danilo está perfeito! Como a gente tinha bem menos leitores naquela época e já faz dois anos, acho que vale a pena a reciclagem completa:

“O técnico que todos amam odiar, o técnico que não cansa de ganhar, que faz os nerds das pranchetas terem orgasmos múltiplos e coloca para dormir todo o resto da civilização ocidental contemporânea. Tudo porque Popovich foca seus esforços na defesa enquanto tem fama de ser um dos técnicos mais severos e controladores no ataque (ele é tipo mulher ciumenta). Tente dar um arremesso que Popovich não planejou com antecedência de 48 horas e você será colocado no banco. Para conseguir arremessar uma simples bola, Tony Parker precisa preencher um formulário e autenticar em três vias – seja lá o que isso significar. Mas a verdade é que os jogadores no Spurs apenas obedecem o que está instituído, colocando em prática um ataque maquinal e absurdamente funcional. Duncan estará sempre em posição para seu clássico arremesso usando a tabela, Tony Parker sempre poderá infiltrar e passar a bola para a zona morta e Bruce Bowen sempre estará livre por aquelas bandas, pronto para arremessar de três e ser um bundão. Apenas Ginóbili é inesperado porque ele faz as mesmas coisas de modos extraordinários, com aquelas passadas malucas e destrambelhadas que, segundo o próprio Popovich, matam ele do coração.

Quando falo do Popovich, sempre uso como exemplo sua relação com Tony Parker. O francês tinha uma cota máxima de arremessos que podia dar de trás da linha de 3 pontos (sem brincadeiras!) e, quando começou sua sua carreira no Spurs, era obrigado a passar a bola para fora do garrafão ao invés de fazer as bandejas que hoje lhe são marca registrada. Com o tempo, foi ganhando mais liberdade com o técnico – o que equivaleria a uma mãe dizer que a filha não pode ir para a balada, mas que agora pode passar maquiagem dentro de casa. Para nós, fracassados que perdemos para o Spurs a torto e a direito, sua relação ditatorial com o time, respostas mal humoradas e cara de quem está com uma eterna apendicite nos fazem odiar Gregg Popovich como poucos no mundo. Mas tem mais: “Pop” (como alguém tão mal encarado pode ter um apelido tão fofucho?) era dirigente do Spurs, demitiu injustamente o técnico do time e se auto-proclamou o novo treinador, cargo que exerce desde então. Se ele não fosse um branquelo em um time texano, provavelmente o presidente Bush iria colocar o exército para intervir na questão. E o mais engraçado é que Popovich disse que deve se aposentar assim que acabar o contrato de Tim Duncan, ou seja, provavelmente não quer testar como seriam seus resultados sem um dos melhores jogadores de todos os tempos ao seu lado. Bem, se pudesse escolher, eu também não testaria.

E não adianta me dizer que estou com dor de cotovelo porque sim, estou com dor de cotovelo. O Gregg Popovich ganhou demais na vida, deixa pelo menos um blog na internet dar a entender que o cara é fracassado, tá legal?”

O que eu posso acrescentar é que nos últimos dois anos anos o Popovich ganhou um desafio novo. Ele teve que lidar com jogadores muito jovens que, por serem jovens, oras, não tinham a disciplina e inteligência tática que todos os comandados do Spurs nos últimos 10 anos tiveram. Ele precisou de paciência extra e voltou aos seus tempos de professor para conseguir lidar com DeJuan Blair, George Hill e Roger Mason, que de uma hora para outra viraram peças fundamentais em um time sem a profundidade que já tivera no passado. Mas ele fez um bom trabalho e a pivetada está dando resultado, é de se esperar que ele também tenha paciência e sucesso com o Tiago Splitter, que não é pirralho mas precisa de tempo para se adaptar ao jogo americano.

……
O sucesso na evolução dos pivetes que eu citei acima e o fato do Splitter ser um jogador já bem rodado são os motivos que me fazem pensar que essa temporada é a que o Spurs tem mais chance de voltar ao título desde que disputaram a final do Oeste contra o Lakers em 2008. As últimas duas temporadas serviram apenas para o Duncan parecer mais velho, para o Ginobili e o Parker se machucarem várias vezes e para a pivetada errar bastante e deixar o Pop louco da vida vendo o Roger Mason forçar bolas de três.

Mas depois de dois anos parece que está tudo certo. O Tony Parker chegou a ser envolvido em boatos de troca e falaram por aí que ele estava interessado em ir para o Knicks, mas ele sempre foi bem fiel ao Spurs e acredito que não tenha nenhum problema em ficar lá. Sem contar que pode ir para o Knicks quando for Free Agent e quando o time de NY estiver um pouco melhor, melhor jogar ao lado de Duncan e Manu enquanto ainda pode. O argentino já havia melhorado muito na segunda metade da temporada passada e depois de descansar durante toda a offseason ele deve estar inteiro fisicamente, é o que basta pra ele ser o homem do quarto período no time.

Já Duncan recebeu muitos elogios de Gregg Popovich. “Ele está mais magro e mais bem condicionado. Mais magro do que estava no meio da temporada passada”. E completou com as razões para esse esforço extra, “Ele está levando tudo isso muito a sério. Ele quer voltar a vencer”. Por mais cara de bundão que o Duncan tenha, ele não é bundão. Ele até foi legal e sincero o bastante para dizer que essa nova regra sobre as faltas técnicas é um exagero e um erro da NBA. A derrota para o Suns no ano passado marcou apenas a segunda vez na carreira que Duncan passou três temporadas em sequência sem título! E caras acostumados a ganhar não encaram muito bem derrotas, muito menos depois de tomar uma varrida de um time que até pouco tempo atrás era seu maior freguês. Vamos ver o Duncan a fim de jogar como há tempos não vemos.

Com o trio em forma e motivado o Spurs vai longe, não há dúvida em relação a isso. Mas até aí nada de mais, o Lakers tem seu trio, o Mavs tem elenco forte, assim como Blazers, Nuggets (pelo menos até o Carmelo parar de dar piti) e pelo menos três ou quatro times do Leste. A diferença vai ser nos detalhes: entrosamento, preparo físico e principalmente o elenco de apoio.

Eu fiquei bem encafifado quando o Spurs pagou uma boa grana para reassinar o Richard Jefferson mesmo depois dele milagrosamente ter optado por sair do seu contrato milionário. Talvez tenha sido um pensamento de “ruim com ele, pior sem ele” ou talvez um voto (caro) de confiança. Quando o Richard Jefferson jogou bem no ano passado o Spurs era um time difícil de parar, como foi na série contra o Mavs, mas muitas vezes ele era um Bruce Bowen que não defendia e nem acertava bolas de três, ou seja, um pedaço de carne que se movia. Qual será o que vai entrar em quadra nesse ano? Não sei, mas na pré-temporada ele tem jogado muito bem, inclusive acertando 50% das suas bolas de 3! Se ele for um arremessador de três confiável o Spurs já pode comemorar por ter feito a decisão certa em mantê-lo. Outro que pode ajudar nesse quesito que fez falta no ano passado é o novato James Anderson, embora também não seja nenhum especialista.

No garrafão o Duncan vai contar com a ajuda de Tiago Splitter e DeJuan Blair. O brazuca, em teoria, deixaria o TD jogar mais fora do garrafão, onde eu acho que ele é melhor e daria mais altura para o time, valorizando o lado defensivo. Já o DeJuan Blair deixa o time mais veloz, muito mais forte no rebote ofensivo (o cara nasceu pra fazer isso), mas obriga o Duncan a jogar na posição 5 e às vezes compromete na defesa. Na pré-temporada o Splitter não jogou e o Blair empolgou com médias de 13 pontos e quase 9 rebotes em míseros 25 minutos por jogo. Por isso acho que o brasileiro começa a temporada no banco, mas isso vai ser irrelevante ao longo da temporada, os dois devem revezar nas duas posições do garrafão junto com Duncan e Antonio McDyess e eventualmente até jogar juntos. Tudo depende de treino, de entrosamento e do adversário que vão enfrentar.

Richard Jefferson e James Anderson podem ser a resposta para os problemas de arremesso de três da equipe, Blair e Splitter para o garrafão, mas o Spurs não arranjou ninguém para atuar como defensor de perímetro. Alguns especialista em basquete universitário até apontaram o James Anderson como alguém que pode virar um grande defensor em nível profissional, é esperar para ver. No ano passado eles às vezes colocavam o baixo George Hill para marcar jogadores da posição 2 e 3 só porque ele é o melhor defensor de perímetro do elenco. Era melhor que nada, mas não é solução de problema. Se cruzarem nos playoffs com pontuadores mais altos como Kobe Bryant e Kevin Durant, a coisa pode engrossar pra eles.

No ano passado o Spurs pagou toda aquela grana para o Richard Jefferson e passaram pela primeira vez em muito tempo do limite salarial. Como justificativa disseram que queriam usar os últimos anos de carreira do Duncan e do Ginobili para ir com força total atrás de outro título. Estão certos. Com os dois em forma e com a ajuda do resto do time, que tem chance de ser o melhor elenco de apoio nas últimas 3 temporadas, as chances de voltarem a ser o time chato, pentelho, sonolento e vencedor que a gente conhece são bem grandes. Como disse nessa análise bem mais detalhada sobre o Spurs há uns dois meses, o Spurs ainda não voltou, mas pode voltar.

E pra quem acha que o Spurs não é empolgante, saca só que show é o Duncan!!! Showtime, baby!

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Scola quer seu abraço, vai lá, campeão!

Eu gostaria muito de ter escrito aqui antes do jogo entre Brasil e Argentina a conversa que tive com o Felipe, nosso webdesigner. Saímos para bater um basquete na segunda-feira e conversando sobre o jogo da seleção eu disse: “Acho que o Brasil ganha. Mas pra isso a gente tem que abrir uma vantagem e administrar ela no final. Se chegar no fim do jogo empatado, o Scola vai acertar tudo pra Argentina e o Leandrinho vai errar pro Brasil”.

Juro por Lady Gaga que eu disse isso. Deveria ter postado aqui para pagar de adivinho, porque foi isso o que aconteceu. O jogo foi disputadíssimo desde o primeiro segundo até o último, mas quando era para decidir, o Scola simplesmente não errou. Seja bem marcado, mal marcado, contestado, no arremesso, na bandeja e por fim, pra fechar o caixão, até quando tentou errar um lance livre.
Sobre a Argentina, não achei que fizeram nada de novo, fizeram o que a gente disse desde o começo. Todo o time é inteligente, todo mundo sabe o que fazer em quadra, cometem poucas bobagens e compensam a falta de pontuadores com o Luis Scola. Eventualmente o Carlos Delfino tem boas noites de pontuação e para o azar dos brazucas, o jogo de ontem foi uma delas. Outra zica brasileira foi ter a volta do Fabricio Oberto, que apesar de bem mais lento e velho do que em seu auge, quebra um galho enorme para o Scola com seu bom passe e aproveitamento embaixo da cesta.
O Ruben Magnano tentou parar o Scola usando o Tiago Splitter, o Anderson Varejão, o Guilherme e até o Marquinhos. Tentou trocar a marcação no pick-and-pop, tentou não trocar, tentou macumba e só não apelou para as armas de fogo porque é um gentleman. Tem dias em que não dá certo mesmo. Em algumas jogadas a gente vacilou, é verdade, mas no geral não perdemos o jogo porque marcamos mal o Scola.
Aliás, perder esse jogo não foi nenhuma desgraça. Foi um jogo disputado em que a grande estrela da partida, o melhor jogador em quadra, resolveu a parada nos minutos decisivos, nada mais natural no basquete. Sem contar que nos classificamos em terceiro no nosso grupo e eles em segundo, apesar dos times em nível técnico parecido, não foi absurdo perder o jogo, na teoria eles eram mesmo os favoritos. Mas no que devemos pensar não é só nesse jogo, mas no total do torneio. O Brasil venceu 3 jogos e perdeu outros 3. Os três vencidos foram lavadas, abrimos diferença e matamos o jogo. As três derrotas foram resultados apertados, jogos decididos no último minuto. Quando acontece três vezes em uma semana não é coincidência. O que faltou para o Brasil nesse mundial foi saber decidir jogos. Só.
A defesa do Brasil não é perfeita, mas não consigo imaginar nada melhor desse elenco. Até jogadores que sempre foram criticados (por nós também) por serem defensores fracos tiveram momentos ótimos, como Marcelinho Huertas, o Machado e o Leandrinho. Reafirmo aqui que nunca vi (e provavelmente nunca vou ver) o Barbosa marcando tão bem quanto naquele jogo contra os EUA. O ataque também esteve do jeito que sempre sonhamos. Não temos o nosso Scola/Nowitzki/Durant para colocar a bola na mão e esperar os dois pontos acontecerem de alguma forma, mas o lado bom é que dessa vez sabíamos disso. Em campanhas passadas ficávamos esperando milagres ofensivos de Leandrinho, Marcelinho e Tiago Splitter e eles não apareciam. Dessa vez colocamos a mão da nossa grande estrela no torneio, Huertas, e executamos um ataque coletivo e bem pensado. Quase chorei hoje quando vi que em todo o primeiro tempo a seleção havia cometido apenas 3 erros no ataque. Antigamente eram 3 erros a cada 5 minutos de jogo, geralmente tentando forçar alguma jogada individual idiota.
Temos um bom elenco que demonstrou muita vontade, raça e disciplina. Um técnico que entende de basquete, tem comando sobre o grupo e que melhorou o ataque e a defesa do time. Parece piada dizer isso, mas é verdade: o time melhorou em tudo, agora só falta ganhar.
Saber ganhar jogos apertados é difícil. Até porque muitas vezes é uma questão individual, não de treino coletivo, instrução do técnico. Claro que ter um mongolóide no banco não vai ajudar, mas é o momento do jogo com a defesa mais apertada, jogadores mais tensos e juízes dispostos a deixar o jogo rolar. Não é à toa que os jogos costumam ser decididos em jogadas simples, como uma isolação, um pick-and-roll ou um bloqueio para arremesso. A Argentina usou muitas jogadas durante o jogo inteiro, tanto que no último quarto vimos até Oberto e Jasen aparecerem no ataque, mas quando o bicho pegou foi só pick-and-pop com o Scola ou a isolação dele contra algum marcador brasileiro. Já o Brasil parecia não saber o que decidir, e errou dando a bola na mão de Leandrinho, que tem muitos talentos, mas definitivamente decidir que jogada fazer não é um deles. Quanto menos ele tem a bola na mão, melhor.
Outro que não pode decidir jogos é o Tiago Splitter, e o Brasil também tentou ele na hora H. Geralmente jogadores de garrafão só conseguem decidir jogos em equipes que tem arremessadores muito bons em volta deles. Pensa bem, o Splitter está empurrando o Oberto para perto da cesta e você está marcando o Marquinhos ou o Alex, o que você faz? Corre para forçar um erro do Splitter ou deixa ele marcar a cesta só para não deixar os dois livres? Deixa livre, claro! Se o Splitter conseguir dar o passe, dane-se, qual a chance do Alex acertar uma bola de três? E pior, qual a chance dele acertar com a pressão do fim do jogo? Quase zero. Quem acompanha NBA pode ver isso muito bem. Às vezes o pivô do time é a estrela, mas quem decide é o cara do perímetro. Até porque em fim de jogos os juízes costumam deixar a pancadaria rolar um pouco mais e isso só dificulta o trabalho dos pivôs, que também têm aproveitamento pior nos lances livres. No Lakers o Shaq recebia pouco a bola no fim dos jogos porque ele sofria faltas de propósito, já que fede na linha de lance livre.
Claro que existem exceções, mas todas tem explicação. O Scola e o Nowitzki são jogadores completos. Eles podem receber e bola em fim de jogo porque se precisar eles nem entram no garrafão e resolvem a parada com um arremesso de longe, além de serem bons no lance livre. Outros como o Duncan e o Garnett são passadores acima da média e costumam ter bons arremessadores no time. É só buscar vídeos de qualquer título do Spurs e ver os jogos, quando se arriscavam a dobrar a marcação no Duncan no fim dos jogos ele entregava a bola para Steve Kerr, Stephen Jackson, Manu Ginobili, Bruce Bowen ou qualquer outro grande arremessador que o acompanhou na carreira. O Brasil não tem esses arremessadores, Splitter não é um grande passador e ele não é efetivo quando recebe a bola longe da cesta.
Para a partida de hoje em especial, acho que a melhor decisão teria sido deixar o Marcelinho Huertas trabalhando com vários bloqueios para achar espaço no garrafão. Ele estava com a mão calibrada, confiante e claramente muito motivado. Fez a partida da sua vida e eu esperava ver a paz no Oriente Médio antes de ver ele fazer 32 pontos num jogo, mas foi o que aconteceu. De qualquer forma, seria uma solução para hoje, isso não vai acontecer sempre.
Falando em momentos decisivos, lembrei de um caso interessante na NBA, o Los Angeles Clippers. Infelizmente não tenho mais os números, mas vale pelo caso. Na temporada 2004-05, o Clippers liderou a liga em jogos perdidos por 5 pontos ou menos (ou eram 3 pontos? Jogos apertados, enfim). Era um número assustador de derrotas no fim do jogo. Aquele time tinha o Marko Jaric (o puto que é CASADO com essa deusa) na sua melhor temporada na NBA, Bobby Simmons no único ano em que foi decente, Corey Maggette, Chris Kaman bem pivete e Elton Brand na época em que ainda fazia 20 pontos e 10 rebotes todo jogo. Parecia bom, mas não vencia no final.
No ano seguinte conseguiram a pechicha de trocar Jaric-Lima pelo muso Sam Cassell. Aproveitaram e conseguiram uma troca por Cuttino Mobley, o experiente arremessador que fez história como parceiro e amigo de Steve Francis no Houston Rockets. Com a dupla experiente o Clippers passou a ser um dos times que mais venceu jogos apertados na NBA. E assim chegou aos playoffs, à semi-final do Oeste, e só foi eliminado no jogo 7 pelo Phoenix Suns. Era dito por todos os jogadores e era óbvio para quem via os jogos que a razão da mudança era a presença de dois jogadores experientes e bons na decisão. Quando precisava armar, Cassell armava, no fim do jogo, quando precisavam de pontos, ele ia lá e fazia seu arremesso tradicional, o step back, e matava a parada.

Falta para o Brasil ter esse Sam Cassell para matar as partidas decisivas. Ele poderia ter vencido Argentina, a Eslovênia e os EUA. E ele não é Leandrinho, Huertas, Marquinhos ou qualquer um que estava no elenco desse Mundial. Acho que o Brasil tem seu melhor time em muito tempo, talvez o melhor dos últimos 15 anos, mas com esse pequeno e muito decisivo defeito.

Citando o gênio Dunga, qual o legado dessa seleção? Podemos ver por dois lados, o do time, pensando em resultados; e o social. Para o lado do time não tem legado, foi só o primeiro campeonato importante e serviu para mostrar na prática nossos defeitos e qualidades. Deu pra ver que sonhar com medalha é demais mas com Olimpíada é bem real.
Pelo lado social foi mais importante, mas ainda pequeno. Aquela quase-vitória sobre os EUA deve ter feito muita gente que ignorava o basquete desde o Oscar falar sobre o esporte, e motivado algumas pessoas até a bater uma bolinha. Isso é uma grande coisa. Lembro que comecei a querer jogar tênis quando as TVs começaram a passar jogos do Guga. Não precisei de muito tempo para começar a gostar mais do esporte do que do Guga, aliás torcia até mais para o Patrick Rafter, por ser fã de um bom saque-e-voleio. Mas foi com um brasileiro na mídia que eu tive o primeiro contato com o esporte.
Acredito que a seleção ter bons resultados seja importante para isso. Não torço para o Brasil vencer por amor à nossa pátria, sei que incomoda muita gente mas não dou a mínima pra isso, torço pelo efeito que esses bons resultados podem trazer para o esporte. Gostaria, por exemplo, de descobrir na próxima temporada da NBA um leitor do blog que está começando a acompanhar a liga americana depois de ter se encantando com o Scola na partida de ontem. A presença da seleção nacional chama a atenção e depois o basquete bem jogado por alguém (seja lá em que território esse cara nasceu) conquista o torcedor. É uma fórmula simples e que parece bem encaminhada. Sem contusões e pensando em uma solução para não perder todos os jogos apertados, o Brasil deve estar na briga com os grandes em todas as próximas grandes competições.
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