Último capítulo?

Desde que levou um mediano time do Orlando Magic para a Final da NBA em 2009, a carreira de Dwight Howard tem chamado mais a atenção pelo que acontece nos bastidores do que pela sua atuação dentro de quadra. Ontem aconteceu de novo. O mundo da NBA passou o dia no Twitter esperando Howard anunciar, na própria rede social como ele havia prometido, a sua decisão. Só no fim da noite ele mudou seu avatar para uma foto sua com a camisa 12 do Rockets e mudou sua cidade atual para Houston, Texas. Não demorou muito para o General Manager do Los Angeles Lakers, Mitch Kupchak, lançar uma nota desejando o melhor para o pivô em sua nova empreitada.

Dwight Howard

Não faz muito tempo e o mesmo Kupchak estava feliz da vida anunciando a chegada de Dwight Howard para o Lakers em uma troca que surpreendeu o mundo inteiro. Como o Lakers tinha conseguido esse cara? Conseguiu, mas foi o único sucesso que tiveram com Howard. E a troca inteira deu errado para todos os participantes. O Sixers, que recebeu Andrew Bynum, não viu um minuto do pivô em quadra, que agora deve sair do time como Free Agent. Howard deixou o Lakers e Andre Iguodala ontem mesmo anunciou sua saída do Nuggets para o Golden State Warriors. Vencedor mesmo só o próprio Orlando Magic, que viu boas temporadas de Moe Harkless e especialmente de Nikola Vucevic e que a custo de uma temporada esquecível, ganhou também Victor Oladipo na 2ª escolha de quadra.

Apesar do Lakers ter até se humilhado bastante para tentar manter Dwight Howard, colocando outdoors enormes em Los Angeles suplicando para que o pivô ficasse por lá, muitos torcedores estão felizes com a saída dele. Até eu, torcedor do Lakers e com total consciência de que ele poderia ser o futuro da franquia, estou levemente aliviado com sua saída. Mas para entender esse alívio nosso e até a tristeza do Danilo, o outro lado do Bola Presa que torce para o Rockets e não é lá muito fã do Superman, precisamos lembrar de toda a história de Howard desde aquela final de 2009.

A insatisfação do pivô começa já na offseason antes da temporada 2009-10, quando o Magic não foi capaz de segurar o ala Hedo Turkoglu, o grande destaque do time nos Playoffs durante as eliminações de Boston Celtics e Cleveland Cavaliers. Sem o turco, ao invés de uma melhora em busca do pouco que faltou para o sucesso na final, o time ficou menos qualificado e, pior, sem os recursos financeiros para contratar novos jogadores. O que se viu nos próximos anos foram remendos e mais remendos, como a troca por Vince Carter, a de Rashard Lewis pelo aleijado Gilbert Arenas e até a volta de Turkoglu, já longe da boa forma depois de ter fracassado em Toronto e Phoenix. O efeito dominó chegou até a relação entre Howard e o técnico Stan Van Gundy.

O treinador do bigodinho mais firmeza do basquete queria manter o esquema tático semelhante ao da campanha do título, com defesa pressionada no perímetro que forçava os times a encontrarem Dwight Howard no garrafão, e com ataque de muitos passes e o pick-and-roll, antes comandado por Turkoglu e depois por Jameer Nelson. O pivô, porém, não estava satisfeito, ele queria que o ataque passasse inicialmente por suas mãos, queria ser o macho-alfa não só na defesa e confiava que suas jogadas de costas para a cesta deveriam ser o ponto inicial do ataque do Magic. A partir daí as coisas ficam nebulosas, com muitos boatos e histórias que ninguém tem certeza. O que dizem é que Howard conversou com o General Manager Otis Smith e com o dono da equipe, Richard DeVos, exigindo a saída de Van Gundy. O clima devia estar gostoso como aquele jantar de família onde tem mais palavrões do que talheres na mesa. Mas, por incrível que pareça, Dwight Howard abdicou da sua opção de ser Free Agent e ficou por mais um ano em um Magic que ele odiava.

É claro que nada se resolveu nesse ano extra, o do locaute, e ficaram tão feias que no fim da temporada Dwight Howard resolveu mandar tudo a merda e antecipou uma cirurgia que deveria fazer nas costas. O Magic foi eliminado nos Playoffs, Stan Van Gundy mandado embora e o General Manager Otis Smith foi substituído por Rob Hennigan, o responsável pela troca do pivô para o Lakers. A novela de mais de ano, que teve o New Jersey/Brooklyn Nets como personagem principal durante muito tempo, parecia ter acabado com mais um jogador top de linha indo para Los Angeles.

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Eis que chega mais um capítulo do que os gringos estão chamando de Dwightmare Saga, o pesadelo de Dwight Howard. O pivô chegou em Los Angeles com status de o novo grande pivô da franquia que mais teve gigantes dominantes na NBA. Os cartazes mostravam George Mikan, Kareen Abdul-Jabbar, Wilt Chamberlain, Shaquille O’Neal e Dwight Howard. Muita pressão? Muita expectativa? O resultado a gente lembra, acabou de acontecer. Lesões, relação conflituosa com Kobe Bryant, críticas ao esquema de Mike D’Antoni tal qual ele fazia a Van Gundy e muita, muita fofoca. Talvez pior do que a postura de Howard frente a suas insatisfações seja a das pessoas em sua volta, sempre tem um agente, amigo ou o diabo a quatro soltando informações de que pensa isso ou aquilo, seguido da incapacidade do próprio Howard de desmentir as coisas. Como se não bastasse, seus insistentes sorrisos e brincadeiras mesmo nos piores momentos, que muitos podem ver como qualidade, simplesmente não bateram com a cultura do Lakers e especialmente de Kobe Bryant. Segundo o astro-mor do Lakers, faltava à Howard a capacidade de separar a hora das risadas e brincadeiras como conseguiram outros brincalhões da história do Lakers como Shaq e Magic Johnson. Dwight via isso como mais uma encheção de saco, quando ele poderia, finalmente, estar à vontade em um time dele, onde suas opiniões e desejos ditassem as regras?

Não me surpreendeu que Dwight Howard tenha deixado o Los Angeles Lakers, onde ele nunca se sentiu bem. Se ele ficasse, certamente seria pelos motivos errados. A tradição da franquia, Kobe Bryant, os 30 milhões extras que o Lakers poderia oferecer por um 5º ano de contrato e o desejo de continuar sob os holofotes da cidade com mais holofotes no mundo. Até um reality show havia sido prometido à ele caso ficasse em LA. Faria mais sentido o apelo dos outros times, mesmo os piores deles. O Dallas Mavericks não tem chance de título logo de cara, provavelmente, mas estava disposto a ser o time de Howard, o lugar onde ele ditaria as regras e teria pitaco para tudo. O Golden State Warriors oferece um ambiente mais leve, com jogadores mais jovens e de uma geração mais próxima à de Howard, além de um técnico cristão fervoroso para um jogador cristão fervoroso, na hora da comunicação isso pode ajudar.

O Houston Rockets era a equipe com menos apelos fora da quadra, e por isso admiro a decisão do pivô. Chances de mimimi à parte, ele foi para a equipe mais pronta, que mais precisava dele e onde ele tem mais chances de ser campeão da NBA. Será que finalmente Dwight Howard deixou de se importar em ser o centro do mundo, em ser a estrela, em chamar a atenção e só quer ganhar um título de NBA? Seu passado diz que não, mas a decisão indica um passo no caminho certo.

Só não vamos ter certeza de tudo isso antes da hora. Até que provem o contrário, Dwight Howard é o mesmo molecão de sempre, para o bem e para o mal. Dizem que uma das razões para o pivô escolher o Rockets foi a amizade que ele criou com Chandler Parsons, um dos palhaços do Rockets, durante as últimas semanas. O ala falou com Howard todos os dias, mandou mensagens, respondeu qualquer dúvida sobre o time, jogadores e cidade e fez de tudo para convencê-lo. Do outro lado Kobe Bryant dizia que ele não queria convencer ninguém a jogar com ele, que não queria ninguém que depois que as coisas dessem errado falasse “eu não queria, vocês que me convenceram”. Não tem certo e errado, só tem o fato de Howard se sentir melhor ao lado de Parsons do que com Kobe.

Mas embora o Houston Rockets tenha conseguido lidar bem com o recrutamento de Dwight Howard, que começou já no ano passado, antes da troca com o Lakers, como lidar com ele dentro de quadra? Porque algumas coisas se mostram conflituosas aqui, o estilo, proposta e conceito de basquete do Rockets e a maneira como Howard se enxerga.

Asik x Howard

Vamos começar da primeira parte. Como sabemos, Daryl Morey, manager do Rockets, é o mais geek dos gerentes da NBA e investe pesado em estatísticas, novas tecnologias e novas leituras do jogo. O consenso entre os nerds do esporte é que dentro do basquete duas jogadas são valiosas e imprescindíveis: a primeira é a at-the-rim, jogadas no aro como bandejas e enterradas; a outra são as bolas de 3 pontos. As bandejas e enterradas valem bastante porque tem maior aproveitamento do que qualquer outro arremesso no jogo, as bolas de 3 compensam porque apesar do aproveitamento menor, valem 50% a mais. Sabendo disso o próximo passo é saber como conseguir executar bem essas duas jogadas, em outras palavras, bandejas com pouca marcação e feita pelos jogadores certos e arremessos de 3 sem marcação a executados por especialistas no chute. A solução do Houston Rockets é um time com 4 jogadores de perímetro, abertos, todos com capacidade de arremesso e um pivô, Omer Asik, que serve para os bloqueios que liberam espaço para as infiltrações. O resto é basicamente leitura da defesa, quem está mais quente e as decisões pessoais de James Harden (estas nem sempre muito espertas).

Dito isso, onde se encaixa Dwight Howard? No ataque ele pode ser usado de duas maneiras. A primeira no pick-and-roll, fazendo os bloqueios e recebendo passes, mais ou menos como Asik, mas com mais opções de passes e pontes aéreas. A segunda, se aproveitando de mismatches. Times são forçados a enfrentar o Rockets com quintetos baixos e no meio das trocas de marcação na defesa às vezes um cara baixo acaba marcando o pivô. Asik era muito limitado para tirar proveito, fazia menos de 1 ponto por jogo em jogadas de post-up, mas Howard, embora limitado, é melhor. Mas mais do que isso, Howard ajuda na defesa. Sabendo que o que valem são bandejas e bolas de 3, é isso que o Rockets tenta, sem sucesso, defender. A presença de uma potência física como Howard libera o Rockets para colocar sua defesa mais longe do garrafão, fechando os 3 pontos e confiando no pivô para proteger o aro. Mais ou menos o que ele fazia até 2009 no Orlando Magic.

Perfeito, não? Para mim soa como um time pronto para ir lá em cima brigar com San Antonio Spurs, OKC Thunder, LA Clippers e toda a trupe de favoritos ao Oeste. Mas, ei, o que acontece quando Dwight Howard descobrir que ele é um Asik de luxo? Será Kevin McHale será o terceiro técnico seguido ao ouvir críticas do pivô, dizendo que ele não recebe a bola o bastante, que o ataque não começa com ele, que ele quer decidir no último período, que sente que não faz parte e etc, etc, etc? Claro que eventualmente ele vai receber a bola, bem mais que Omer Asik, mas será o bastante para ele? O histórico recente diz que não, mas será que prometeram algo diferente durante o xaveco das últimas semanas? Ou ele entendeu que talvez precise ser mais secundário, especialmente quando as bolas de 3 pontos estiverem caindo? Não respondo tudo isso porque realmente não sei o que esperar da cabeça meio divertida, meio mimada de Dwight Howard. De qualquer forma, a aposta do Rockets foi válida. Há alguns anos problemas de saúde tiraram da franquia a chance de ver o que a dupla Tracy McGrady e Yao Ming poderia ter rendido, veremos o que fazem com James Harden e Dwight Howard.

Dwight Kobe

Para o Lakers a perda é bem simbólica. A franquia de Los Angeles se orgulhava de ser um imã de grandes jogadores, as estrelas eram atraídas para lá quando Free Agents e só saiam se o time quisesse fazer alguma troca. Sair assim, sem deixar nada, é novidade completa. E pior, não é como se sem o salário do Howard o Lakers pudesse sair por aí contratando gente. Para essa próxima temporada, que nem sabemos quando ou se ela verá Kobe Bryant, o Lakers só tem uma ou outra exceção (tipos de contrato pequenos, abertos mesmo para times acima do teto salarial) e os salários mínimos reservados para fechar um elenco.

Mas de qualquer forma, falando como torcedor do Lakers de novo, senti um certo alívio ao ver que o time não estava gastando mais de 100 milhões de dólares na aposta que Dwight Howard levaria o time nas costas até após a aposentadoria de Kobe Bryant. Simplesmente não acredito que ele seja bom o bastante para isso, acho, ao contrário, que a maior chance dele entrar para a história é aceitando ser um Asik de luxo. Não assinar Howard faz o Lakers se livrar de uma “fria”, mas não resolve nada. Pau Gasol foi excelente no final da temporada passada, mas não é mais o grande pivô que levou o Lakers a três finais seguidas. Não sabemos como Kobe Bryant volta de lesão e Steve Nash ainda não conseguiu uma sequência de jogos.

Falando em Steve Nash, sua troca com o Suns tirou do Lakers as escolhas de Draft de 2013 e 2015, mas não do novo fetiche da galera, o Draft 2014. Uma temporada sem Kobe pode significar uma boa posição numa classe cheia de talentos extraordinários. Está próxima temporada é também o último de contrato de TODOS os jogadores do elenco, exceto Steve Nash. Em 2014, além do Draft, teremos LeBron James, Chris Bosh, Dwyane Wade, Luol Deng, Andrew Bogut, Paul George, Marcin Gortat, DeMarcus Cousins e possivelmente Carmelo Anthony como Free Agents. Perder Howard significa ser ruim, mas talvez só por uma temporada. O verdadeiro teste para o ego do Lakers e sua capacidade de atrair grandes nomes acontecerá daqui um ano.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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