Vitória anunciada

E temos um novo campeão! Depois de dois anos de domínio do Miami Heat, o San Antonio Spurs conseguiu o que todo vice-campeão sonha e raramente consegue: uma chance bem sucedida de revanche. Mais raro ainda, conseguiu sua vingança no maior estilo Holanda e trucidou o rival do ano anterior: a média de 15 pontos de diferença nas vitórias foi a maior da história das finais! Até toco do Tiago Splitter pra cima do Dwyane Wade teve pra superar o trauma das Finais do ano passado. Foi a redenção perfeita para um time impressionante.

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No lado derrotado, LeBron James teve muitos jogos incríveis e números incontestáveis, mas em nenhum momento a partir do Jogo 3 ficou parecendo que o Heat teria condição de reagir. Aconteceu o que dissemos no começo da temporada. De repente, aqueles jogadores espetaculares começam a falhar, os coadjuvantes não parecem tão bons assim e os veteranos decisivos parecem simplesmente muito velhos. É uma linha tênue, muitas vezes só exposta quando o adversário do outro lado consegue elevar muito o nível do seu jogo. Chegar em 4 finais foi impressionante e o experimento do Big 3 um comprovado sucesso, mas Mario Chalmers não teve cabeça e Dwyane Wade pareceu não ter pernas para acompanhar o Spurs jogar. As apostas em Michael Beasley e Greg Oden, as cartas na manga para momentos de desespero, não deram em nada.

Enfim, o Spurs levou o basquete a outro nível e só eles nos fizeram ver com clareza essas falhas no Heat. O que eles conseguiram nesse ano foi a exibição de um dos melhores times de basquete de todos os tempos, um dos ataques mais espetaculares e encantadores que eu lembro de ter viso. Muita gente tem lembrado nos últimos dias de como o Spurs passou de “time chato que todo mundo odeia” para “exemplo de basquete bem jogado” ao longo dos anos. Sem dúvida foi uma mudança drástica, e sua explicação deixa claro os motivos do San Antonio Spurs estar no topo da NBA há tanto tempo.

Manu

Quando falamos do Spurs, sempre exaltamos o profissionalismo, paciência e projeto a longo prazo que deixou com que o time pudesse estar entre os melhores enquanto todo o resto da liga fica balançando por altos e baixos. Não é engraçado lembrar que há mais ou menos 10 anos os grandes times do Oeste eram Spurs, Lakers, Wolves e Kings? Mas eles souberam, também, mudar. Claro que acreditaram no trio de Parker, Duncan e Ginóbili, mesmo quando os três passaram por momentos ruins. Ao invés de explodir tudo, como faria uma franquia comum, tiveram a estranha ideia de buscar soluções. Manu Ginóbili passou por exageradas restrições de minutos, Tony Parker ganhou um papel diferente no time e Tim Duncan perdeu peso e mudou sua forma de treinar para se adaptar à lentidão dos 30 e muitos anos de idade. O Duncan de hoje é muito, muito superior ao de 2010, por exemplo.

O Spurs também não foi cabeça dura na hora de ver que o time estava envelhecendo e ficando para trás nas disputas com os times mais jovens e atléticos. Mas de novo mantiveram a cabeça no lugar, nada de trocar Ginóbili por um novato promissor, por exemplo. É tão difícil conseguir estrelas na NBA que eles preferiram manter as deles e apenas tentar cercá-los com jovens capazes de fazer o que eles não conseguiam mais: correr, defender outros caras atléticos, matar bolas de longa distância.

Lembra como todos diziam que o Spurs era velho demais? Então, eles eram mesmo. E as coisas só começaram a mudar anos atrás, quando eles resgataram das cinzas caras como Danny Green e Boris Diaw, quando trouxeram Tiago Splitter da Europa e depois, quando ousaram demais na troca do consolidado e ainda jovem George Hill pelo novato Kawhi Leonard. São eles que correm, que marcam os Durants e os LeBrons e tiram um bocado de pressão dos veteranos, que retribuem fazendo o que todos conhecemos bem. Enquanto muitos times usam o formato Estrelas Jovens-Ajudantes Veteranos (vide Wizards, Thunder, Clippers), o Spurs viu que tinha nas mãos as estrelas veteranas e apostou no Estrelas Idosas-Ajudantes Pirralhos. Some-se isso à tradição do Spurs de treinar seus jogadores e tirar o melhor deles, e temos uma receita de sucesso. Por um instante pareceu que não ia dar tempo, mas aí está Duncan, Parker e Manu ainda jogando bem a tempo de pegar um Kawhi Leonard maduro, um Danny Green que defende e um Splitter que acerta lances-livres.

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Outra mudança estratégica do San Antonio Spurs, a mais essencial para o time deixar de ser chato e se tornar poético, está no estilo de jogo. Nos títulos de 2003 e 2005, um pouco menos no de 2007, o Spurs era o time da frieza, da paciência, da lentidão. Em cada uma dessas campanhas vencedoras, o Spurs esteve entre o 20º e o 27º lugar no ranking de número de posses de bola por jogo, ou seja, eles gostavam, queriam e pregavam um jogo lento. Os conceitos de um time com bons arremessadores e da coletividade estavam lá, claro, mas eles executavam isso de uma maneira muito mais mecânica e lenta, bem lenta, do que hoje. Com Tim Duncan no auge da forma física, o ataque passava na mão dele, em seu demorado ataque de costas pra cestas e, quando a defesa quebrava na tentativa de pará-lo, a bola começava a rodar. As infiltrações de Parker foram crescendo ao longo da última década, mas não eram o que iniciavam todos os ataques. Os contra-ataques eram quase inexistentes (para que atacar antes de Duncan chegar?!) e arremessar bolas de 3 na correria, como fazem Patty Mills e Marco Belinelli, impensável.

Mas o San Antonio Spurs, acompanhando os passos da NBA, evoluiu. Eles descobriram o valor das bolas de 3 pontos sobre as bolas longas de 2 pontos com as estatísticas avançadas, descobriram o alto aproveitamento das bolas de 3 pontos na transição ofensiva, cortesia dos quase sempre fregueses do Phoenix Suns e, por fim, aceitaram que jogar com apenas Tim Duncan de pivô, mesmo que em apenas alguns períodos de tempo, poderia até ajudar mais o ataque deles. Nada mais de Nesterovic ou Nazr Mohammed jogando 25 ou 30 minutos por jogo. Eles cederam e nesta temporada ficaram no Top 10 de times com mais posses de bola por jogo, aceleraram a quantidade, o ritmo e a velocidade dos passes. Enfim, conseguiram somar alguns preceitos antigos que tinham, como a coletividade e o gosto pelo arremesso, com a velocidade e o basquete com menos posições definidas da atualidade. Por mais que o Spurs evoque estabilidade, foi só com mudanças que eles conseguiram se manter entre os melhores.

Kahwki

Como bem disse Ethan Sherwood Strauss da ESPN gringa, ainda nem sabemos como esse time vai influenciar a NBA como um todo. Mais do que já influencia, né? Um país tão acostumado com narrativas baseadas em estrelas e individualidade está enfrentando (e se encantando) com, nas palavras dele, um “basquete comunista europeu”. E nada mostra mais essa faceta estranha do Spurs do que o fato de um dos vários operários, Kawhi Leonard, aparecer como MVP da Final. Um moleque de 22 anos, que nem jogou bem os primeiros jogos, que, segundo o técnico Gregg Popovich, nem tem jogadas desenhadas pra ele, tomou conta das últmas três partidas e ganhou o troféu com méritos. Prêmio que seria de Boris Diaw se o que contasse fosse a série contra o OKC Thunder; de Tony Parker contra o Portland Trail Blazers e Tim Duncan naquela única levada a 7 jogos, a da primeira rodada contra o Dallas Mavericks. Todos tiveram seus momentos.

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O Spurs, time chato do passado, agora é chato por outro motivo. Assim como das outras 4 vezes que foram campeões, deitaram e rolaram na final, sem nos dar o gostinho de disputas emocionantes em partidas decididas por poucos pontos. A única final da história do Spurs a ter esse desfechou foi a do ano passado, que eles perderam. Melhor remédio para lances-livres e rebotes de ataque no último minuto não pesarem é chegar no último minuto vencendo por 15 pontos. Eles sobraram.

Os atropelos do San Antonio Spurs, marcados no recorde de time que mais venceu por 15 ou mais pontos de diferença na história da liga, fica mais claro quando olhamos aqueles jogos-chave ao longo da campanha. Pensem bem, em que momentos vocês começaram a duvidar, pelo menos um pouco, do time de Popovich? Teve o tenso Jogo 7 contra o Dallas Mavericks, que eles venceram por 119 a 96. Depois o Jogo 5 contra o OKC Thunder, quando tinham tomado duas surras e precisavam espantar o fantasma da virada de 2012; venceram por 117 a 89. Por fim, o Jogo 3 das Finais, quando tinham que recuperar o mando de quadra em Miami para não ficar para trás na série. Com Leonard dominando, fizeram 111 a 92. Aula atrás de aula sempre quando a água batia na bunda.

Os Playoffs são cruéis e não são conhecidos por serem justos, mas nesse ano não tem do que reclamar. O San Antonio Spurs foi o melhor time na temporada regular, o melhor no Oeste, o melhor na Final e saiu com o título. Nenhum erro de arbitragem, jogada de sorte, lesão ou acaso conseguiu tirá-los do caminho. Foi tudo tão certinho que a gente se pergunta como não acontece mais vezes! Afinal o técnico, os grandes jogadores e o sistema de jogo eficiente estão aí há anos e esse foi o primeiro título desde 2007.

Já escrevi sobre isso uma vez e retomo um trecho do tal Paradoxo Spurs:

“Mas aí aparece o Paradoxo Spurs: apesar de ser um dos maiores exemplos de sucesso da história da NBA, podemos dizer também que estão entre os times mais fracassados da liga? Ok, talvez não um dos mais fracassados, mas não é impressionante o número de vezes que o San Antonio Spurs chegou aos Playoffs com um dos melhores times e mesmo assim não conseguiu vencer? Os times de 2001, 2004, 2006, 2008, 2011 e 2012 fizeram temporadas dignas de levar o anel de campeão pra casa e todas falharam no meio do caminho. Alguns times, como o que perdeu para Dallas Mavericks em 2006 e o que foi derrotado pelo Memphis Grizzlies em 2011 eram claramente melhores que seus adversários.”

Também já falamos aqui do legado desse San Antonio Spurs para a NBA, que estava consolidado mesmo antes de virar um quinto anel no dedo de Pop. No texto Influência invisível, listamos quantos técnicos, assistentes e General Managers que foram contratados ao redor da liga por levarem no currículo e na bagagem o modo Spurs de pensar o basquete:

“Nada mostra mais a influência Spurs na NBA do que uma singela lista de nomes: já citamos no texto Danny Ferry e Mike Budenholzer, do Hawks, mas Jacque Vaughn, técnico do Magic, foi assistente de Popovich também. Brett Brown, técnico do Sixers, também era assistente de Pop até 2013. Avery Johnson (ex-técnico do Nets e Mavs), foi campeão da NBA como jogador no Spurs, atuando para Popovich, no mesmo time que tinha Vinny Del Negro, ex-treinador de Bulls e Clippers. Sam Presti, General Manager do OKC Thunder, começou sua carreira como assistente de RC Buford, manager do Spurs. Lance Blanks, ex-GM do Phoenix Suns, foi scout do Spurs durante quase uma década, na mesma época em que Dell Demps, hoje GM do Pelicans, trabalhava na diretoria do time. Falando em Pelicans, o técnico deles, Monty Williams, jogou no Spurs e fazia parte da comissão técnica campeã com Popovich em 2005. Por fim, Mike Brown, de volta como técnico do Cleveland Cavaliers, foi importante assistente para Pop durante muitos anos.”

Enxergando as coisas de maneira longe e distante, o título pode parecer algo até secundário. O San Antonio Spurs já é considerada uma franquia-modelo para todos os esportes nos EUA, Tim Duncan, Tony Parker, Manu Ginóbili e Gregg Popovich já tem anéis de campeão e lugar marcado no Hall da Fama do basquete. O time influencia a liga na maneira de gerir, de jogar, de contratar, de draftar e de lidar com super estrelas. Todos os respeitam e querem ser como eles, assim como o Spurs queria ser o Utah Jazz no final dos anos 90. Ganhar um campeonato parecia ser só uma consequência menor de uma revolução muito maior que já está em curso há tempos e que já pode ser considerada um sucesso.

Mas sabemos também que o esporte não funciona dessa maneira. Se o Spurs não tivesse nenhum título pra mostrar, sua influência não seria tão grande, mesmo com os anos e anos de sucesso, das décadas de firmeza entre os melhores times da NBA. E, mais do que isso, atletas vivem de competição e de vitória. Acho que o Duncan até deve ser orgulhar bastante do que ele fez em San Antonio e de como contribuiu para construir tudo isso, mas o que ele realmente quer é entrar na quadra e ganhar jogos! O mesmo vale para todos os outros jogadores e comissão técnica. Ninguém quer tomar outra bola do Ray Allen e pensar “ah, mas pelo menos influenciamos mais na estrutura da NBzzzzzzz”. Todos querem ganhar e o título conquistado ontem é, além de toda a parte simbólica, uma conquista que todo atleta almeja quando está lá ralando, treinado e ouvindo Popovich gritar na sua orelha.

O dia de hoje é, portanto, para celebrar apenas o feito esportivo. Aqueles 12 jogadores conseguiram entrar em quadra e marcar mais pontos do que os outros 12 caras do outro lado, 5 de cada vez, uma cesta de cada vez por mais de 100 jogos. Qualquer coisa maior do que isso, o legado e as lições, estas estavam dadas faz tempo.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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