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16-09-2014
#Curtas e Rápidas

Abismo

Defenestrado por Denis

E os EUA venceram a coisa toda de novo. Desde a derrota para a Grécia na semifinal do Mundial de 2006, a seleção americana não perde um joguinho sequer em partidas internacionais, é um dos domínios mais impressionantes em qualquer modalidade esportiva no planeta, sem dúvida. Sempre gostoso ver os melhores em ação, mas a coisa parece estar degringolando para o ponto em que não faz bem para o esporte. Nesse ano, os EUA não foram nem ameaçados e no elenco só havia dois jogadores (James Harden e Steph Curry) que apareceram em um dos três All-NBA Teams da última temporada. Dá pra dizer que eles levaram um Time C e passaram o rodo no planeta.

James Harden

Nós adoramos super estrelas, recordes e esportistas quase imbatíveis, disso eu não tenho dúvida. Alguém realmente reclamava quando só o Chicago Bulls vencia nos anos 90? Pelo contrário, foi quando muitos de nós realmente começaram a amar o basquete. Outra coisa que encantou futuros fãs basqueteiros foi o Dream Team de 92, outro time que não viu competição na frente. Mas tudo tem um limite.

Por mais legal que tenha sido o domínio de Roger Federer no começo da década passada no tênis, por exemplo, foi mil vezes mais legal quando ele começou a ter duelos épicos contra Rafael Nadal e, depois, Novak Djokovic. No momento, os EUA são um Federer com uma década de dominância e disputando partidas apenas com uns Fabio Fogninis da vida. Vale reforçar: não é que os EUA ganham todos os seus jogos há 8 anos, uns 95% foram surras desleais. Tirando aquele jogo contra o Brasil no Mundial de 2010 e a final de 2008 contra a Espanha, não lembro de cabeça um jogo realmente disputado envolvendo os americanos.

Talvez, se tivesse sido sempre assim eu não ligaria tanto, mas me sinto enganado. Entre 2002 e 2006 acreditamos no boom do basquete internacional: Yao Ming, Manu Ginóbili, Peja Stojakovic, Nenê, Anderson Varejão, Luís Scola, Pau Gasol, Dirk Nowitzki. Carlos Arroyo, Tony Parker, Andrei Kirilenko, Luol Deng, HedoTurkoglu, Mehmet Okur e tantos e tantos outros ganhavam destaque nos mais variados times da NBA e conseguiam números e resultados impressionantes com suas seleções. Todo país no mundo parecia estar revelando ao menos uma super estrela do basquete. Ao mesmo tempo, a seleção americana perdeu dois mundiais, uma Olimpíada e vimos sérvios, argentinos e espanhóis com grandes conquistas internacionais. Os americanos eram os melhores, mas parecia que a era dos atropelamentos tinha ido embora, ou eles levavam a sério ou não tinham chance.

Quase 10 anos depois e a profecia não se concretizou. Todos os jogadores citados tiveram (ou ainda tem) carreiras brilhantes, mas o que veio depois? Talvez eu perca essa por uma rara exceção, mas algum desses caras mencionados foi superado por algum conterrâneo depois? Algum espanhol melhor que Gasol? Não. Algum francês melhor que Parker? Não. Algum russo melhor que Kirilenko? Nem ferrando. E os americanos levam tão a sério que a ideia de que tinham que levar apenas os melhores já foi pro saco. Comprometimento de jogadores de segunda linha já é mais que o bastante.

Muitos países ainda mandam regularmente jogadores para a NBA, caras talentosíssimos como Nicolas Batum, Ricky Rubio, Alex Shved, Jonas Valanciunas ou Ersan Ilyasova, mas nenhum deles ameaça ter a importância que os caras da década passada. Lembram quando todo ano se batia um novo recorde de gringos no All-Star Game? Ano passado tivemos apenas 3: NowitzkiParker (dois dessa geração antiga) e Joakim Noah, um francês nascido na boa e velha América.

Os EUA são bons demais ou o resto do mundo não se interessa o bastante por basquete? O que pode explicar tamanho domínio mesmo 22 anos depois do Dream Team que, como tantos dizem, levou o basquete para todos os cantos do mundo? Como bem disse o Ethan Sherwood Strauss em uma coluna do TrueHoop que inspirou este texto, se o basquete é um “esporte global” como a NBA tenta nos vender (para eles se venderem fora dos EUA), esse abismo entre EUA e resto do mundo não deveria estar diminuindo? Tudo parecia conspirar para isso, mas faltam os resultados.

Slovenia

Todos os países tem representantes na NBA, pessoas que poderiam levar o conhecimento de um lado para o outro. A liga americana até aos poucos abre espaço para técnicos irem lá nem que seja para serem assistentes. A tecnologia também aproxima todo mundo: podemos ver a temporada inteira da NBA, gravar jogos, estudar estilos de jogo. É possível visitar universidades e ver os sistemas de treinamento. Dá pra contratar o Synergy ou outras empresas de estatística e usar as tais “estatísticas avançadas” para estudar e estreitar a diferença. Não consigo dizer se gente do mundo inteiro faz isso ou não, mas certamente não está dando resultado. Curiosamente, a vanguarda do basquete está justamente no país que já está lá na frente.

Naquele período mágico de 2002-2006 parecia que víamos algo novo, uma “escola argentina”, a mistura americana-europeia trazida pela Espanha e uma versão atualizada do velho basquete iugoslavo. Desde então, alguém viu alguma outra inovação? Os times citados ainda realizam bem o que propõe, mas não acrescentaram nada novo. Quem melhorou mesmo foi o time americano, que ao invés de ser engolido no pick-and-roll grego, agora usa as dicas de Tom Thibodeau para ter a melhor defesa dessa jogada em todo planeta. São os EUA que começaram a enfrentar aqueles gigantes europeus usando o magricela do Kevin Durant na posição 4. Pivôs arremessadores nasceram bem longe do continente americano, mas IGNORAR a posição na hora de montar um quinteto foi uma sacada espetacular de Coach K nos últimos 8 anos.

A impressão que eu tenho, vendo de longe e com toda minha ignorância, é que o resto do mundo olha o basquete em termos amplos e simplistas: temos que defender bem e rodar a bola. Os americanos, quando quebraram a cara ao apostar só na individualidade e no contra-ataque, resolveram ir para um campo profundo que outros lugares ainda não ousam pisar. Steph Curry e Klay Thompson são produtos de uma nova NBA que se preocupa demais em como produzir as melhores bolas de 3 pontos possíveis; times estudam isso como se fosse física nuclear. Kenneth Faried é fruto de times que resolveram usar seus homens altos para correr ao invés de jogar de costas para a cesta, uma soma de velocidade, leveza e força que não existe fora dos EUA. Diferentes times da NBA jogam de maneiras distintas e, no meio daquela confusão nem sempre genial, surgem grandes ideias e jogadores que em outras situações teriam fracassado. Nem todo mundo que tenta inovar dá certo, a NBA está cheio de time ruim, mas eles parecem dar mais espaço para diferentes estilos de jogo e de jogadores.

Nos outros campeonatos que eu assisto, embora sem os mesmos milhões de jogos anuais da NBA, a Euroliga e o NBB, eu vejo times bem mais semelhantes entre si. Alguns, como a dupla Barcelona e Real Madrid, tem elencos surreais de bons e o clássico jogo coletivo do basquete europeu. Mas inovação? Nada que faça você bater o olho e identificar uma característica única e inovadora nesses grupos. E se algum time menor tenta inovar e eu não sei (bem possível), não tem sido bem sucedido o bastante para alcançar os maiores campeonatos. A Copa do Mundo 2014 não apresentou nenhuma revolução.

Que o título do San Antonio Spurs e sua legião de gringos não nos engane, a interpretação daquele elenco global é outra: o basquete dos EUA foi o que mais cresceu após todas as derrotas de 2002, 2004 e 2006. A globalização do basquete, no fim das contas, deixou os mais fortes ainda melhores. Os gringos levaram o eurostep e o tal “excesso” de passes para a NBA, que abraçou as ideias. O resto do mundo ficou parado esperando a consagração que nunca veio.

A Copa do Mundo de basquete nunca vai ser interessante o bastante enquanto o abismo não desaparecer.

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05-09-2014
#Classic

Tem como ser diferente?

Defenestrado por Denis

Estava desenhado desde o começo e está confirmado: o Brasil enfrenta a Argentina nas oitavas de final da Copa do Mundo de basquete. Justo eles que eliminaram os brasileiros tantas vezes nos últimos anos e que foram os responsáveis por deixar ainda mais clara a má fase do nosso basquete local nos últimos 15, 20 anos.

O Brasil não alcançou e dificilmente irá alcançar a Argentina no que diz respeito a resultados nessa geração: a deles tem uma medalha de ouro olímpica, final de Mundial e tantas outras grandes performances em torneios importantes. Por aqui o Brasil tem o 5º lugar em Londres-2012 e nenhuma vitória em mata-mata de torneios grandes. Por que seria diferente agora?

 

Brasil Basquete-Fiba

O Brasil tem algo a seu favor dessa vez, mesmo que por pouco: a idade. Quando a Argentina estava disputando finais em 2002 e 2004, Tiago Splitter, Nenê, Leandrinho e Varejão estavam apenas nascendo para o cenário internacional, não à toa ainda vemos todos estes na NBA enquanto alguns decisivos representantes da Argentina, como Fabricio Oberto e Pepe Sanchez não jogam mais. Outros, como Walter Hermann e Andrés Nocioni, estão a anos-luz do que já foram um dia. Os brazucas, embora também um time longe de ser novo e onde nem todos estejam no auge, ainda tem caras como Huertas, Splitter e Nenê jogando em altíssimo nível, naquele momento em que a técnica está no alto e o físico ainda não compromete.

Então se fica difícil para recuperar os resultados, pelo menos o Brasil ganha em tempo para conseguir correr atrás de um pouco de prejuízo. Para fazer isso, o time deve passar pela própria Argentina, como numa vitória simbólica para devolver as merecidas derrotas no último Mundial, em 2010, e nas Olimpíadas. Nestas duas derrotas, escrevi coisas aqui no blog que um leitor bem lembrou aqui nos comentários:

“Eu gostaria muito de ter escrito aqui antes do jogo entre Brasil e Argentina a conversa que tive com o Felipe, nosso webdesigner. Saímos para bater um basquete na segunda-feira e conversando sobre o jogo da seleção eu disse: “Acho que o Brasil ganha. Mas pra isso a gente tem que abrir uma vantagem e administrar ela no final. Se chegar no fim do jogo empatado, o Scola vai acertar tudo pra Argentina e o Leandrinho vai errar pro Brasil”.

“A impressão que fica é que a Argentina ganhou a batalha tática, mas que o Brasil se recuperou dela a tempo quando acertou, finalmente, a defesa. Aí chegou nos minutos finais com chances e a experiência parece ter contado: erros bobos do Brasil, Argentina cozinhando o jogo. Não é à toa, afinal apesar da média de idade até parecida, os Argentinos disputam seu 3º mata-mata olímpico seguido, os brazucas estão todos fazendo suas estreias em Olimpíadas.”

No primeiro caso, falava do Mundial e, no segundo, claro, das Olimpíadas. O que mudou de lá pra cá? Ainda confio mais em Scola do que em Leandrinho para decidir jogos, mas o Brasil fez bom trabalho finalizando algumas partidas disputadas na fase de preparação e mesmo na Copa do Mundo. As partidas contra Eslovênia, França e Sérvia exigiram frieza no final e, mesmo ainda precisando de um matador, deu tudo certo. A defesa é boa, Huertas virou mais importante do que as ISOs de Leandrinho e o time parece bem menos afobado. Talvez tão chamativa quanto a incapacidade de fazer bolas de 3 do time de Rubén Magnano, é a disciplina do grupo, que quase sempre reconhece a fraqueza e joga com paciência e procura as bolas mais próximas do aro.

A disciplina e paciência não nasceram do nada. Isso acontece porque o que foi citado no texto das Olimpíadas mudou. Com tantas derrotas, o Brasil agora tem rodagem. Não os jogadores, todos já eram antes de 2012, mas o grupo. Não tenho dúvidas de que o que fez Rubén Magnano levar tantos jogadores já em decadência na carreira (Giovanonni, Machado e Larry, em especial) é porque eles estão jogando junto faz tempo. Colocar um outro pirralho poderia ser útil a longo prazo, mas poderia dar a mesma merda da experiência de antes. Esse grupo já jogou junto, já perdeu junto e aprendeu na marra. Como diz o PVC no futebol, é um grupo com cicatrizes. Todos somam a urgência por resultados e a união de terem crescido (perdendo) juntos. A soma disso é um time sem problemas aparentes de ego inflado e hero-ball.

Como qualquer bom time experiente, o Brasil tem um ritmo de jogo absurdamente lento e com pouquíssimos desperdícios de bola. Falta, como bom time experiente, ter a frieza de saber superar aquele chato rival que te fez freguês.

A primeira vitória contra a Argentina em grandes torneios seria simbólica porque esse é um time de redenção como um todo. No campo da interpretação que fazemos dos esportes, sempre tão influenciado pela força do resultado em cima da narrativa do percurso, a vitória é necessária para mostrar para todos o caminho que o basquete nacional tem feito, do fracasso absoluto à ascensão. É o certificado que o basquete nacional precisa para comprovar uma aparente reviravolta.

Brasil

Por um lado, o Brasil entrou com tudo na globalização da NBA no começo da década passada. Temos lá Nenê, Varejão, Splitter e Leandrinho com papeis de destaque e carreiras longas em times importantes. Eles abriram as portas para uma geração que ainda pode conquistar seu espaço lá, como Bruno Caboclo e Vitor Faverani. Também temos Huertas brilhando há tempos na melhor liga nacional fora dos EUA e, por fim, um grupo de Marcelinho Machado, Alex, Guilherme Giovanonni e, agora, Marquinhos, que venceu praticamente tudo o que podia e que não podia no campo doméstico nos últimos 15 anos.

Por outro lado, mesmo sendo um ótimo grupo de sucessos individuais, eles conviveram numa época sombria de basquete desorganizado, táticas atrasadas e pífios resultados internacionais. Não surpreende ninguém que mesmo todo esse sucesso, dominante aqui dentro para alguns, de destaque no exterior para outros, não tenha dado em nada em nível de seleção. Tudo isso aconteceu numa década onde até campeonato sem campeão a gente teve por aqui!A modalidade perdeu espaço na mídia e talvez tenha perdido praticantes (difícil dizer sem dados concretos), e ficou praticamente impossível fazer jornalismo basqueteiro nacional se focando só na quadra. Não dá pra ignorar política, organização, falências, brigas e tudo mais. É como se a seleção fosse um reflexo da modalidade no país ao invés dos jogadores que entravam em quadra.

Foi só depois de um tempo que, apesar de tudo, as coisas começaram a virar. Se a mídia, com toda a razão do mundo, deixou o basquete de lado, a modalidade tem uma das maiores redes de sites e blogs específicos – e não remunerados – entre qualquer esporte no Brasil. Pessoas dedicam tempo valioso de suas vidas para assistir, escrever e comentar. Isso não é pequeno. Também vimos o nascimento do organizado NBB, que melhora aos pouquinhos e empolga quem acompanha de perto. Ano passado o NBB teve Playoffs emocionantes, times que empolgaram pela parte tática, vários bons estrangeiros, um torneio Sub-22 e até jogos transmitidos pela internet. Sonhamos com mais e vemos muitos erros, mas é inegável que a coisa está andando. E pô, temos um gringo campeão olímpico comandando a seleção! Por mais chato que ele seja com a imprensa às vezes, por mais que tenha tido um ou outro campeonato ruim no currículo, não há argumentos contra sua capacidade de montar grandes equipes.

Essa geração brasileira no basquete viu tudo do pior, mas também fez parte de algumas reestruturações que estão levando o esporte, mesmo que em câmera lenta, de volta a um lugar de destaque. Um resultado melhor que o de Londres, uma semi-final, talvez uma medalha, seria importante, simbólico e um fecho narrativo espetacular para mostrar essa curva em ascensão. Também, claro, a tal redenção de um grupo que teve carreiras individuais espetaculares e que não merece ficar na nossa sempre exagerada narrativa esportiva como um grupo que nunca rendeu nada em conjunto.

Splitter

O jogo com a Argentina, neste domingo, adiciona um tempero extra a essa história. Eles, por serem vizinhos e historicamente inferiores no basquete, eram o constante tapa na cara de tudo o que estávamos fazendo errado. Ele revelavam jogadores, tinham estilo de jogo próprio, seleção organizada e um campeonato que… bom, eles tinham um campeonato! Um tempo atrás isso era invejado por nós. Derrotá-los seria como dizer que estamos aprendendo e estamos prontos para pelo menos tentar rever nosso domínio continental. É o gol de honra do Brasil.

Não é sem querer que não toco em temas táticos neste texto. Acho que está mais do que provado que o Brasil sabe enfrentar a Argentina ou qualquer outro time grande do mundo e que, apesar de suas limitações, tem sido um dos melhores times desta Copa do Mundo de basquete. A Argentina, também todos sabemos, joga bem mesmo desfalcada e com maus momentos. Os dois times se conhecem, os dois vão ter apagões no meio do jogo. Eles vão forçar Huertas a arremessar, o Brasil vai tentar tudo para limitar Scola. O jogo é o jogo de sempre, para o Brasil o importante agora é transformar a parte jogada em história. Falta só o resultado.

São conclusões demais para um jogo e um campeonato, não tenho dúvida. Na hora do jogo pode acontecer qualquer merda para qualquer lado e isso faz parte do jogo. Não deveríamos julgar tanto pelo resultado e a melhora do basquete nacional continuará em curso mesmo com um 7 a 1 na nossa fuça, mas é assim que funcionamos. A devastadora narrativa esportiva está nos calcanhares da seleção, pronta para atacá-los: ficará para a história a geração perdida ou os heróis que olharam para o abismo mas se recusaram a fazer parte dele. Não conhecemos o meio termo.

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04-08-2014
#Especiais

[Tradução] Kyle Korver: o próprio ataque

Defenestrado por Denis

Nosso parceiro Thiago Waldhelm nos ajudou com mais uma empreitada de tradução. Dessa vez pedimos para ele traduzir o excelente texto que Zach Lowe, do Grantland, fez com Kyle Korver, ala do Hawks. 

Há anos que Lowe é o cara que melhor cobre a NBA nos EUA e esse texto mostra bem a razão: ele sabe ler o jogo, comentar, sabe contar histórias, consegue boas fontes e escolhe os melhores assuntos. Agradeçam ao coleguinha Thiago por mais uma tradução!

…..

KK2

Conforme a segunda rodada do Draft 2003 prosseguia preguiçosamente, o Nets observava os times à sua frente colhendo todos os jogadores nos quais a equipe de New Jersey tinha interesse. O time, ainda saboreando o recente título da Divisão Atlântica e uma aparição nas Finais da NBA, estava com tão pouco dinheiro que considerou vender sua escolha para financiar o esquadrão da Liga de Verão.

Sem nenhuma de suas escolhas preferidas à mesa, o alto escalão do Nets selecionou o ala Kyle Korver, da Universidade de Creighton, com a 51ª escolha – e imediatamente vendeu seus direitos de Draft para o Sixers por 125.000 dólares. Este valor cobriu a Liga de Verão. Com o dinheiro que sobrou, o Nets comprou uma nova fotocopiadora.

Assim, a equipe de New Jersey se tornou a primeira em uma longa fila de times que subestimaram Korver e vivem com o arrependimento, enquanto ele continua a melhorar seu jogo, mesmo tendo entrado nos trita-e-poucos anos. A evolução de Korver em um jogador beirando o status de estrela surpreendeu a todos, inclusive o ala de 33 anos, e a jornada alcançará seu mais recente ápice nesta semana, quando ele competirá por uma das 12 preciosas vagas na escalação da seleção dos EUA que irá para a Copa do Mundo FIBA.

“Nós trocamos um bom jogador pela Liga de Verão”, diz Rod Thorn, que era o GM do Nets na época. “Foi simplesmente uma coisa que tivemos que fazer. Pelo menos, foi assim que eu racionalizei.”

Korver é uma peça antiga, mas adequada para sobreviver na linha de frente da evolução da liga. Ele é um espécime de uma raça em extinção, que corre em volta de bloqueios longe da bola, bem no estilo Reggie Miller, e depois solta arremessos catch-and-shoot, pontuando o suficiente deles para fazer a matemática avançada valer a pena. “Ninguém mais joga assim”, afirma Steve Clifford, técnico do Hornets. “Pra ele, planejamento de jogo é um prato cheio.”

Mas os arremessos e a habilidade de leitura da quadra que Korver possuem fazem dele um personagem ideal dentro de uma liga que valoriza mais as bolas de 3 e requer mais movimento nos dois lados da quadra – mudanças que a liga ajudou a gerar através de alterações nas regras. “Durante os últimos quatro ou cinco anos, o jogo se tornou muito mais propício para a maneira que ele joga”, constata Jerry Sloan, que treinou Korver em Utah.

Ele se tornou um passador de bola inteligente, e se movimenta muito no ataque, por vezes fora das jogadas desenhadas, o que às vezes irrita a comissão técnica de Atlanta. Ele é um ótimo defensor longe da bola, sua cabeça sempre girando, observando todos os jogadores na quadra sem perder de vista seu jogador. Em Atlanta, Korver encontrou o técnico e o sistema perfeitos para alavancar seus arremessos sem precedentes em novas e aventurosas maneiras.

“Ele foi uma prioridade enorme pra nós”, diz Danny Ferry, que atraiu bastante crítica por, na última offseason, renovar com Korver em um contrato de 4 anos e 24 milhões de dólares. “Não importava a direção que tomaríamos no último verão, ele era parte do que estávamos construindo aqui.”

Muitos GMs atuais dizem que ter deixado Korver passar no draft foi um dos piores erros de suas respectivas carreiras. Maurice Cheeks, último técnico de Korver no time da Philadelphia, ainda se lembra de estar parando o carro no estacionamento da arena em Sacramento no fim de 2007, quando Ed Stefanski, então GM do Sixers, o telefonou para avisá-lo que a franquia estava negociando o californiano (que estudara em Iowa). Cheeks alega que só conseguiu dizer uma coisa: “Por quê? Por quê? Por quê?”

O Sixers precisava abrir tanto espaço salarial quanto minutos para Thaddeus Young, de acordo com Stefanski. Mesmo assim, negociar Korver não foi fácil. Ele já estava entre os melhores arremessadores da liga, e era uma figura amada pela comunidade da Philadelphia, onde Kyle criara uma fundação para ajudar crianças da cidade. “Nossa gerente de relações comunitárias estava literalmente aos prantos quando contamos pra ela”, diz Stefanski. “E todas as garotinhas da cidade queriam me matar. Pais e mães vinham me dizer que eu tinha trocado o jogador favorito da filha deles.”

O Jazz terminou o restante da temporada em com a marca de 38 vitórias e 12 derrotas depois de receber Korver em troca de Gordan Giricek e uma escolha de primeira rodada, mas o deixaram ir para Chicago como Free Agent após terem escolhido Gordon Hayward no Draft 2010. “Nós o adorávamos”, afirma Sloan, “mas quando selecionamos Hayward, seu valor aqui diminuiu.”

Korver se tornou uma peça na engrenagem dos reservas em Chicago, mas o Bulls o mandou para Atlanta por nada mais que uma trade exception em julho de 2012. Cheeks topou com Tom Thibodeau em Las Vegas durante a Liga de Verão, e logo os dois se viram conversando sobre o valor de Korver – e, segundo Cheeks, sobre o arrependimento de o terem perdido, que ainda os assombra.

Korver obteve a maior marca da carreira em média de minutos jogados na última temporada, e acertou absurdos 47,2% de seus chutes de 3. Chegou a receber alguma consideração para o All-Star Game, mas não tanto quanto deveria ter recebido, já que ele não domina a bola. Ele ganha bastante bem – somou 45 milhões na carreira, até o momento –, apesar de ainda doar grande parte disso para a igreja de seu pai e para outras caridades; e ele está na lista final de 19 nomes para o selecionado americano que saiu esta semana. Korver é peixe grande, agora, e nem ele mesmo acredita.

“Ele nunca foi um daqueles caras”, brinca Marcus Elliott, fundador e diretor do Projeto Pico de Performance P3 em Santa Barbara, e o homem a quem Korver credita a ajuda para salvar sua carreira. “Ele estava me contando, outro dia, ‘Mas agora eu sou um daqueles caras. Estou recebendo ligações para fazer isso e aquilo. A Seleção Americana me convocou.’ E isso o surpreendeu pra caramba.”

Korver USA

Budenholzer, técnico do Hawks, e Korver amam o balé de constante movimento do basquete, e Budenholzer visiona uma escalação apenas com atiradores de 3 bombardeando a cesta. Ele quer que seus jogadores sugiram ajustes, e isso entrosa muito bem com a natureza inventiva de Korver. “Todo técnico diz que tem uma política de portas abertas”, afirma Korver. “Bud diz isso de verdade.”

É um contraste gritante com a primeira temporada de Korver na Philadelphia, quando Randy Ayers, o técnico do time, empurrou Korver pra longe da linha de três pontos. Ayers queria que seu novato desenvolvesse um jogo de meia distância e atacasse a cesta antes de chutar de três.

Isso mudou quando o Sixers demitiu Ayers e contratou Jim O’Brien, que havia acabado de sair do Celtics, antes da segunda temporada de Korver em 2004-05. Logo no primeiro treino do time, Allen Iverson correu num contra ataque dois contra um com Korver cobrindo a lateral. Iverson passou pra Korver, que estava atrás da linha dos 3 pontos. Korver driblou a bola duas vezes, acertou um chute a 5 metros da cesta, e esperou o aplauso.

O’Brien estava lívido. Gritou pra Korver olhar para a linha de três. Disse que se Korver passasse a oportunidade de chutar uma bola de três, livre, mais uma vez sequer, ele o removeria do jogo. Korver se lembra de um pensamento voando em sua mente durante a bronca de O’Brien: Que maravilha!

Korver liderou a liga em bolas de 3 convertidas naquela temporada, se estabelecendo como talvez o arremessador mais perigoso da liga. Mas ele não seria classificado como um jogador plantado no canto da quadra esperando tranquilamente. Ele gostava demais de se movimentar pra isso. Korver cresceu em Lakewood, uma cidadezinha incorporada na Grande Los Angeles, e ele se apaixonou pelo Showtime Lakers dos anos 80. “Todo mundo naquele time corria, infiltrava, passava a bola”, diz Korver. “Pra mim, aquilo ainda é o basquete perfeito.”

Ele se tornou um mestre na movimentação de pés características de Reggie Miller e Ray Allen, na qual correm ao redor de bloqueios, recebem a bola em velocidade máxima, plantam os pés no chão e se elevam para chutar. Ele transformou o ataque do Bulls dessa maneira. Mas queria se levar ainda mais longe, e encontrou a comissão técnica perfeita para isso em Atlanta.

O Hawks sob a liderança de Budenholzer não vai encurralar a bola em jogadas isoladas e pick-and-rolls parados no meio da quadra. O técnico quer construir um tipo de Spurs do Leste, com a bola dançando de um lado para o outro num indefensável borrão de passes, entregas de bola mão-a-mão e bloqueios.

Budenholzer também entende que os melhores arremessadores não se valorizam, necessariamente, só por estarem parados lá. Bons arremessadores têm certa atração gravitacional, e podem mudar o alcance desta força na quadra conforme se movem. Uma defesa pode ir pelos ares se essa força colide com outro objeto – um jogador do mesmo time bloqueando para Korver, ou um jogador da defesa se dando conta que Korver o manobrou a um bloqueio sagaz pelas costas.

Nenhum técnico na liga liberou tanto a amplitude do jogo de Korver quanto Budenholzer. Korver não é um jogador de pick-and-roll tradicional; ele não tem agilidade para sair driblando a bola a 6 metros da cesta, ziguezagueando entre adversários ao longo do caminho. Mas Budenholzer adaptou um tipo de espécie híbrida de pick-and-roll para sua estrela secreta – uma curva em alta velocidade na qual Korver recebe um passe curto ou mão-a-mão, sonda a defesa com um drible ou dois, e então faz um passe extra:

Korver ainda adicionou um floater a seu repertório só pra esse tipo de jogada:

Não parece um pick-and-roll, mas funciona como um. É até mais mortal quando os jogadores que fazem o bloqueio arremessam bem de 3, como Paul Millsap e Pero Antic. Não há nenhuma escolha certa para a defesa, apenas escolhas dolorosas que são menos piores que outras.

Korver consegue punir qualquer escolha com suas habilidades de drible e passe relativamente novas. “Ele evoluiu demais”, diz Millsap, que também jogou com Korver em Utah. “Ele era o cara-parado-no-canto. Agora ele coloca a bola no chão, e acerta pull-ups. Além de ser um passador muito subestimado. Todo o seu estilo de jogo está num outro nível.”

Aprender coisas novas numa fase tão avançada da carreira na NBA requer diligência. Korver devora filmes, e, junto com Quin Snyder, um assistente do Hawks na última temporada, treinou durante horas para diminuir minimamente a velocidade quando sai dos bloqueios como um foguete – uma desaceleração ínfima que permite a Korver mapear suas opções de passe. O ala não precisava fazer isso quando apenas recebia e chutava.

“Kyle é único no sentido de que jogadores da idade dele que tiveram sucesso geralmente não estão abertos a tentar coisas novas”, comenta Snyder, agora técnico do Jazz. “Isso os deixa desconfortáveis.”

Sloan concorda. “A maioria dos caras simplesmente continuam do mesmo jeito depois de jogarem por 10 anos.”

Korver não está satisfeito com seu progresso nessas jogadas, mas sabe que será melhor nelas do que seria se quisesse fazer pick-and-rolls no mesmo estilo dos armadores dominantes da NBA. “Não vou me matar para ser medíocre naquilo”, ele diz. “Quero encontrar coisas nas quais sou realmente bom, dentro do sistema que usamos. O conceito de Bud de o que pick-and-roll pode ser é um pouco diferente – tipo, comigo pegando a bola enquanto corro. E isso pode ser muito bom pra mim.”

O Hawks recompensou Korver desenhando jogadas inovadoras para ele, incluindo esta peculiar, onde ele faz um bloqueio para um pivô do Hawks antes de girar e receber a bola de um ala que está de costas para a cesta:

Imagem de Amostra do You Tube

O time de Atlanta conseguiu enganar quase toda a liga com esta jogada, e uma vez que ela entrou nos relatórios de observação, o Hawks desenhou contragolpes – alguns para Korver, e alguns nos quais ele era uma isca:

Imagem de Amostra do You Tube

Ninguém tem muita certeza da origem da jogada, apesar de Budenholzer e Korver pensarem que a idealizaram durante um jantar com vinho. “Nós temos que descobrir qual garrafa estávamos bebendo”, brinca o técnico.

Korver adora jogadas combinadas como esta porque elas o permitem se movimentar. Às vezes ele surpreende Budenholzer ao quebrar jogadas com cortes e bloqueios improvisados. Ele não consegue ficar parado, mesmo quando certo desenho de jogada precisa que ele fique. “Bud sempre fica bravo comigo quando me mexo demais”, Korver diz. “Acho que ele estava só me fazendo um favor com aquela jogada.”

“Às vezes dá certo” quando Korver se movimenta de maneiras inesperadas, analisa Budenholzer, “e às vezes é como ‘Que diabos você está fazendo?’ Você acaba com três caras parados um do lado do outro.”

Korver realmente adora se movimentar. Ele cobriu no mínimo dois metros no segundo anterior a 61% de seus chutescatch-and-shoot” de 3 pontos, a quinta maior margem de arremessos “em movimento” dentre os 30 melhores jogadores que tentaram bolas de 3, segundo dados das câmeras de rastreamento SportVU cedidos exclusivamente ao Grantland. Ele acertou 44,6% destes chutes de 3 “em movimento”, marca que também é a quinta melhor dentre os mesmos 30 jogadores.

Agora vem o número matador: Korver acertou 58% de “chutes parados de 3”, que são classificados como qualquer tentativa de bola de 3 nas quais ele se moveu menos de dois metros no segundo anterior ao arremesso. Isso detonou o resto dos 30 jogadores; Kyle Lowry vem na segunda posição, com 53%. Um chute de três “parado” de Korver vale por volta de 1,75 pontos, o que o torna apenas ligeiramente menos valioso que uma bandeja.

Isso é loucura. É por isso que defesas reagem a qualquer movimento de Korver com puro terror, e Budenholzer usa este terror contra os oponentes nos momentos decisivos. Shelvin Mack acertou um floater fácil nesta saída de bola numa prorrogação contra o Cavaliers após todos os cinco defensores, incluindo o de Mack, se ligarem no show de Korver:

O medo é real. Os gurus da Stats LLC, a empresa por trás das câmeras SportVU, desenvolveram duas métricas inéditas projetadas para medir a quantidade de atenção que um jogador no ataque recebe dos defensores quando não está com a bola na mão.

A primeira, nomeada “nota gravitacional”, mede a freqüência com que defensores estão realmente defendendo um determinado jogador longe da bola. Korver teve a quarta maior nota, atrás apenas de Kevin Durant, Carmelo Anthony e Paul George. A segunda – “nota de distração” – é uma tentativa relacionada a medir a freqüência com que o defensor de um jogador se distancia dele para patrulhar a ação próxima da bola. Nesta categoria, Korver teve a nova mais baixa da liga (A metodologia é complexa, incorporando dados de localização específica de todas as posses gravadas pela NBA e levando em consideração tendências de jogadores que ficam próximos ao fundo da quadra).

“Eu subestimei quanta atenção ele recebe da defesa”, diz Budenholzer. Korver é quase o próprio ataque. “Você não aprecia isso até que vê todo dia”. Korver também não teria predito isso cinco anos atrás.

Korver

Korver chegou ao P3 em Santa Barbara há meia década com um joelho esquerdo arruinado, alguma dor nos cotovelos, e um estilo de jogo que lhe estava escapulindo (Muitos jogadores da NBA usam o P3, inclusive todo o time de Utah em vários momentos por volta dos últimos cinco anos. Mais times estão consultando Elliot sobre a saúde e o prognóstico de certos jogadores). Elliot fez Korver passar por três horas de testes nos quais o jogador pulou em placas de força, se moveu de um lado para o outro, e executou outros movimentos específicos do basquete. Elliot mediu a força que Korver colocava em seus membros inferiores em cortes e pulos, e os números foram perturbadores.

Korver quase não tinha “energia muscular”, e a pouca que tinha estava isolada em sua perna direita. O ala havia sido submetido a cirurgia para retirar um esporo ósseo de trás de sua rótula esquerda, e apesar de o ferimento ter curado, ele ainda não era capaz de gerar qualquer cinética ao jogar o peso no pé esquerdo.

“Ele era assimétrico”, afirma Elliot. “Pelos padrões da NBA, ele tinha uma deficiência.”

Se continuasse forçando sua perna direita, Korver poderia ter sofrido alguma lesão ali ou em alguma região relacionada.

“Eu não tinha certeza do destino da carreira”, lembra o jogador.

Elliot gradualmente re-treinou o corpo do atleta com exercícios projetados para fortalecer sua perna e melhorar sua mecânica de salto e de finta. Korver nunca pularia alto ou correria rápido, mas se conseguisse começar a se mover antes de seu oponente e alcançasse a velocidade máxima mais rápido, talvez suprisse a minúscula abertura que ele precisa para arremessar.

“Seria ótimo se ele pulasse um metro de altura, mas ele não consegue”, diz Elliot (os dois têm uma piada interna sobre como Korver tenta conseguir pelo menos uma enterrada por temporada. Na última, Korver não conseguiu, e Elliot está enchendo o saco do amigo). “Mas a questão não é quão alto ele sobe. É quão rápido ele consegue chegar lá. Se dois caras pulam 90 centímetros, mas um deles chega lá mais rápido, este tem uma vantagem.”

Agora, Korver está entre os melhores 20% dos clientes de Elliot que jogam basquete em termos de quão rápido ele consegue gerar força – tanto vertical quando horizontal.

Elliot diz que nunca teve um cliente mais compromissado. Korver se mudou com sua família para Santa Barbara para que pudesse morar perto do P3, e Elliot tem que usar medidas drásticas para que Korver tire pelo menos um tempo de folga após a temporada da NBA. Permanecer saudável é mais trabalhoso conforme um jogador envelhece. Uma falha gritante na mecânica corporal vai se manifestar em uma lesão para a maioria dos jogadores mais rodados da liga, segundo Elliot. “A temporada de 82 jogos da NBA é bem próxima do limiar do que o corpo humano aguenta.”

E Korver? Há quatro temporadas ele não perde tempo significativo de quadra, e os dados mostram que ele é um jogador simétrico, agora – capaz de atacar com a mesma força tanto do lado esquerdo quanto do direito da quadra.

Resistência física e mental na academia não são o suficiente. A vida pessoal de Korver – que é casado, tem um filho, e raramente vai a festas – nunca interferiu em seu trabalho. “Ele possui uma prática de vida ótima”, confirma Elliot. “Com alguns caras, você nunca sabe se eles vão chegar no horário. Talvez eles peguem um vôo de última hora para as Bahamas com alguma garota que encontraram na noite anterior. Kyle não tem nenhuma baboseira dessas.”

O jogador também está disposto a se testar de maneiras não convencionais. Elliot o apresentou ao misogi, o ritual japonês anual de purificação que alguns atletas adaptaram em um desafio anual de resistência. Korver e Elliot fizeram stand-up paddle no percurso de 40 quilômetros entre as Ilhas do Canal e Santa Barbara, ano passado. Korver talvez tenha se superado com o misogi que fez neste verão.

Surfistas de ondas gigantes desenvolvem capacidade pulmonar segurando uma pedra grande, afundando até o fundo do oceano, e correndo distâncias curtas no assoalho oceânico. Korver e quatro amigos decidiram voltar às Ilhas do Canal, encontrar uma pedra de 40 quilos, e correr um percurso de 5km submersos segurando a coisa (eles se dividiram em dois times, cada um usando uma pedra diferente e correndo percursos de 5km diferentes). Cada participante mergulhava, encontrava a pedra, corria o máximo que podia com ela, e a largava para o próximo amigo encontrar. Os que esperavam sua vez usavam cintos de peso e acompanhavam na água de um metro e meio a 3 metros de profundidade.

Demorou cinco horas. “Estávamos realmente preocupados com a possibilidade de alguém desmaiar”, conta Korver. Eles também estavam preocupados com tubarões. (Korver é o único cliente de Elliot que o acompanhou em um misogi. Aaron Gordon, um novato do Magic, demonstrou interesse, segundo Elliot.)

“Ele quer procurar e tentar toda e qualquer possibilidade que possa torná-lo melhor – tanto como jogador quanto como pessoa”, diz Elliot.

Korver shoots

Korver está esperançoso de entrar para a seleção dos EUA, mas se não conseguir, ele ficará feliz em passar tempo com sua família e continuar o que ele vê como um projeto de longo prazo digno em Atlanta. O Hawks não conseguiu grandes coisas no mercado de Free Agents nesta offseason, apesar de ter um espaço salarial gigantesco e um núcleo intrigante, e Korver diz que outros jogadores da liga não vêem Atlanta como um lugar desejável de se jogar.

“Há uma percepção ruim cercando a franquia, no momento”, completa, “mas vamos mudar isso.”

Korver tentará ficar parado quando Budenholzer quiser e se familiarizar mais com os princípios defensivos do time. O jogador é um defensor sólido, apesar da reputação de deficiência no setor. Os times nos quais jogou defendem mais ou menos no mesmo nível estando ele em quadra ou não, de maneira geral. E a ênfase da liga na movimentação da bola e nos arremessos é vantajosa para suas habilidades na defesa também.

Na NBA atual, os alas precisam cobrir muito chão na quadra conforme o ataque adversário move a bola, e Korver está sempre se movendo na direção certa. Ele é hiper alerta, olhando para todos os lados da quadra e computando o que os outros oito jogadores estão fazendo a cada segundo, sem perder seu jogador de vista.

Ele sabe quando ajudar do lado oposto, quando ficar mais próximo a um arremessador no canto da quadra do lado da bola, quando fingir ajuda, e quando uma crise está a caminho. Sua movimentação em quadra aqui é típica:

“Ele é um ótimo defensor coletivo”, diz Budenholzer.

Ele vê colapsos enquanto eles acontecem, e desliza alguns passos extras dentro do garrafão:

“Os alas precisam se movimentar mais no jogo de hoje”, afirma Clifford, técnico do Hornets. “E se você assistir os vídeos, ele está sempre atento.”

O pior defeito de Korver é provavelmente que ele ajuda demais, indo parar no garrafão para abafar uma ameaça que não é tão séria. “É a mesma coisa que acontece no ataque, quando ele não consegue ficar parado”, explica Budenholzer. “Ele só quer estar envolvido e ajudar seus companheiros, e às vezes ele ajuda mais do que devia.”

Ele nunca será o tipo de atleta explosivo e de braços longos que pode atuar fechando completamente a ala; há uma razão pela qual Jarrett Jack consegue acertar o arremesso no clipe acima. Mas ele trabalhou bastante para melhorar sua defesa individual, com um jogo de pés rápido e preciso que consegue conter jogadas um-contra-um de jogadores individuais superiores.

O’Brien, seu antigo técnico no Sixers, diz que Korver teve dificuldades na defesa no início de sua carreira, mas que admira sua melhora, de longe. “Se ele precisa estar em algum lugar na defesa, ele estará lá; e ele estará lá 100% do tempo.”

O Hawks ainda envia ajuda quando Korver enfrenta uma jogada de post-up, mas fizeram isso bem menos no final da temporada que no começo. Korver se mostrou à altura do desafio, e mesmo quando o matchup se mostrava um problema para ele, ele ficava bravo se o Hawks enviasse marcação dupla, de acordo com Budenholzer.

Korver está animado com o que tem diante de si em Atlanta. Certamente está feliz de ter entrado logo no começo da tutela de Budenholzer. “Nos dê mais um ano ou dois”, diz. “Será bom pra valer.”

(Texto de Zach Lowe)

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