NBB no bote da NBA

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NBB no bote da NBA

O que a provável parceria da NBA com o NBB pode representar para os dois lados

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26-09-2014
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NBB no bote da NBA

Defenestrado por Denis

Comentei nessa semana, na nossa página no Facebook, que estava pensando em falar de NBB aqui a partir da próxima temporada. Não decidi absolutamente NADA de como será o próximo ano do blog, mas andei pensando nisso e queria saber o que nossos queridos e amados leitores achavam da ideia. Em geral as respostas ficaram entre duas variáveis: (1) Sim, vai ser legal e (2) Tudo bem, desde que não deixem a NBA de lado.

A ideia não é deixar a NBA de lado, mas apenas dar uma mudada no blog. Acompanhei o crescimento do basquete aqui no Brasil nos anos em que trabalhei como assessor no Paulistano e me sinto interessado e informado o bastante para fazer uma cobertura. Também vai ser legal poder escrever do basquete com maior chance de ir aos jogos, conseguir eventuais entrevistas e oferecer material de primeira mão. Na NBA, que pretendo continuar acompanhando com textos enormes e analíticos como sempre, quase sempre somos obrigados a opinar apenas depois de ler o que foi dito lá fora.

De qualquer forma, foi uma feliz coincidência que dias depois dessa mini enquete facebookiana, o Bala na Cesta chegou com o furo mais interessante do ano no basquete brasileiro: a NBA e o NBB estão próximos de fechar uma parceria de três anos! Parece até combinado. Interessante que você leia, também, a análise que o Bala já fez no blog dele sobre o assunto.

Amistosos do Flamengo contra times da NBA foi primeiro indício da parceria

Amistosos do Flamengo contra times da NBA foi primeiro indício da parceria

Como vocês viram por lá, a parceria ainda não foi oficialmente assinada e anunciada, mas só um desastre poderia cancelar. Sem ser oficial e com os dois lados mudos, só podemos especular a extensão do acordo, e é isso que eu vou fazer aqui!

Começamos comentando o mais óbvio, os motivos que levariam a Liga Nacional de Basquete, que gere o NBB, a assinar uma parceria com a NBA. Há 2 anos que a liga tem dificuldade de encontrar grandes patrocinadores e, sem dinheiro, nada funciona como deveria. O grande mérito da história do NBB são as novas ideias para criar uma liga moderna e organizada, mas sempre o progresso para quando o assunto dinheiro bate na porta. Eles sabem que a liga precisa investir mais em comunicação? Sim. Que sem vídeos dos jogos é difícil atrair novos fãs? Sim. Que times fracos e muito concentrados em só uma parte do país não ajuda na imagem nacional da liga? Sem dúvida. Mas como resolver isso sem as verdinhas? Muitas das responsabilidades acabam ficando nas mãos de clubes, que nem sempre dão a importância necessária ou tem o dinheiro para investir corretamente em todas as áreas.

Nos últimos anos vimos alguns times não conseguirem o mínimo de dinheiro para participarem do campeonato e outros, em outros cantos do país, terem o projeto, a ideia, o público, mas não conseguir tirar a equipe do papel. Tem gente interessada, existem projetos, mas sempre param na grana e a liga não pode ajudar porque ela mesma sofre nas verbas.

A chegada da NBA pode resolver todos esses problemas de uma vez só. Só colocar o nome da liga americana ao lado de alguma coisa que deve ficar umas 100 vezes mais fácil atrair investimento e patrocínio, sem contar o próprio dinheiro que a NBA tem e pode usar para investir em um novo mercado. Também podemos acreditar que eles vão saber usar a grana. Apesar de novos no ambiente brasileiro, tem experiência de décadas e décadas com logística do esporte, marketing esportivo, arbitragem e na evolução de questões técnicas do jogo. TUdo o que precisamos por aqui. Ou seja, não só eles vão chegar aqui dizendo que é importante transmitir jogos pela internet, eles vão dizer que sistema usar, como cobrar, quanto cobrar e como exibir.

Que outra chance a Liga Nacional de Basquete teria como essa? Se associar com alguém que tem dinheiro, reconhecimento na área e know-how de tudo o que envolve esporte. Topar a parceria, seja ela como for, deve ter sido bem fácil. Fica a curiosidade, por enquanto, para ver como isso influencia a outra parceria importante da Liga, a com a Globo, que sempre concentrou a questão da comunicação do campeonato.

O que não devemos esperar, porém, é uma revolução imediata. Posso não ser nenhum mestre em negócios, mas imagino que não se chegue num país estrangeiro, com outra cultura, e se mude tudo de uma vez para deixar o mais ianque possível. Se não dá certo nem com redes de fast food, não dará com uma liga de basquete. Eu apostaria que o primeiro ano será mais de consultoria do que qualquer outra coisa. Dá pra imaginar uma equipe da NBA designada para acompanhar a temporada do basquete nacional para ver os problemas, imaginar soluções e aprender sobre como lidamos com o esporte por aqui.

NBB

Nos últimos dias eu pensei bastante sobre os motivos que levou a NBA a pensar nessa parceria e achei algumas boas razões, embora só eles possam, um dia, realmente listar tudo o que passou na cabeça de negócios dos americanos. Pensem bem, qual seria o caminho natural para uma parceria da NBA em termos de basquete? A Europa. A aproximação até tem acontecido nos últimos anos: diversos amistosos acontecem nos EUA e na Europa, alguns times americanos fazem pré-temporada por lá e até na série 2K já vimos times do velho continente. Mas imagino (relembro, tudo aqui é especulação minha) que algumas barreiras são difíceis de transpor: por exemplo, as ligas europeias não veem a NBA mais como rival do que como parceira? E como lidar com o fato de que o “basquete europeu” é, no fim das contas, uma soma de diferentes ligas, países e com líderes distintos?

Por exemplo, acho que a ACB espanhola se interessa muito por amistosos contra times da NBA, mas uma parceria mais profunda do que isso iria significar o que? Certamente alguns dos salários milionários, em euros, que Real Madri e Barcelona gastam são para segurar por lá astros que poderiam facilmente jogar em muitos times da NBA. É estranha uma parceria entre ligas que lutam pelos mesmos atletas, muitas vezes bem novos e promissores. E se é fechada uma parceria com a Espanha, que já é bem autossuficiente e não desesperada como a LNB, como lidar depois com os times russos, gregos e turcos? É muita dor de cabeça para se meter em um mundo onde o basquete já está enraizado, tem sua cultura e seus grandes campeonatos.

E aí eles podem desviar o olhar para o Brasil: 200 milhões de habitantes, economia forte, público consumidor de basquete, 5º país que mais tem assinantes do League Passs da NBA. O nosso país consegue, ao mesmo tempo, ter história em basquete, com títulos, ídolos e praticantes; mas também não ter muitos times tradicionais, ricos ou mesmo uma liga forte e estabelecida. Para a NBA, o Brasil é como uma tela em branco onde eles podem intervir e se fazer como desejam e, melhor, sem ter que explicar o be-a-bá durante o processo. Pensem bem, a MLB também pode ver no Brasil um país de 200 milhões de habitantes e que não tem liga de beisebol forte, mas aqui eles perderiam uns bons anos só para nos convencer que beisebol é um esporte de verdade e que vale a pena passar 5 horas num estádio enquanto se aprende as regras. O basquete é jogado, aceito e entendido. Mesmo quem não acompanha, não estranha ver uma tabela por aí, sabe o que é e não enxerga como “esporte americano” ou coisa do tipo. É uma situação única e ideal para ser aproveitada.

Varejão NBB

Como eu disse antes, podemos apenas especular o que essa parceria vai trazer a curto e longo prazo, mas eu pensei em coisas que poderiam ajudar os dois lados, tornando o NBB uma liga mais interessante e, ao mesmo tempo, útil para a NBA. Isso, claro, indo além do mais básico: uma liga forte no Brasil rende mais fãs do basquete que, sem dúvida, vão ligar no League Pass para ver os melhores do mundo.

Liga Menor: Há tempos que se discute nos EUA a criação de Ligas Menores, subdivisões, como no beisebol, onde os times da NBA iriam trabalhar os seus jovens jogadores. A ideia mais extrema, longe de virar realidade, teria jogadores saindo do colegial e pulando a faculdade para irem se desenvolver nessas D-Leagues até serem, enfim, chamados para a NBA. Os times profissionais teriam mais controle sobre a formação dos atletas e estes ganhariam salários ao invés de serem escravos das universidades.

O Brasil poderia servir como uma “liga menor” para o desenvolvimento dos mais diversos tipos de atletas. O Houston Rockets descobriu um promissor pivô uruguaio? Bora mandar ele jogar em Bauru por uns dois anos para que os scouts deles o observem de perto. Os salários podem ser pagos por um dos times, pelos dois ou seja lá como for melhor para todos os lados. Talvez isso não funcione com todos, claro, talvez um jovem americano não se sinta à vontade de atravessar o mundo para se desenvolver aqui, mas certamente seria um caminho para talentos latinos, incluindo os próprios brasileiros. Já pensou o NBB infestado com os melhores jogadores argentinos, uruguaios, venezuelanos, dominicanos e porto-riquenhos? Seria demais!

Intercâmbio: Os EUA produzem técnicos a rodo, desde ex-jogadores até estudiosos da área. Agora, no mundo das estatísticas e análise tecnológica do esporte, diferentes empresas aparecem todos os dias com novas ideias e inovações. Com concorrência na NBA, muitos deles poderiam vir para o Brasil para ganhar experiência e, ao mesmo tempo, ajudar em nosso desenvolvimento técnico. E que tal um combinado jovem do NBB disputando as Summer Leagues, como já fazem com a D-League?

Mão de obra: Comprar uma empresa menor é também garantir que tudo revelado por lá pode ser aproveitado pela irmã mais velha. Pensando em longo prazo, a NBA pode investir no NBB para ter acesso mais rápido ao que for produzido aqui. A princípio pode ser apenas o que temos de melhor, os atletas, mas quem sabe, no futuro, também não surjam soluções em outras áreas como o marketing esportivo e a medicina esportiva.

Laboratório: Nos últimos anos virou moda a NBA discutir mudanças de regra, calendário e estrutura do campeonato. Já falaram em uma “Copa” no meio da temporada, valendo um segundo troféu em jogos únicos de mata-mata; linha de quatro pontos; mudança no sistema de faltas técnicas e faltas intencionais; quadras maiores; sistema de rebaixamento. Até o fim das conferências e mais viagens entre os jogos podem ser experimentadas por aqui! Será que o nível do basquete daqui cairia se existissem times em todos os lados do país e os times viajassem mais que o normal? Teste no Brasil.

Liga Sul-Americana: Não podemos esquecer que embora o Brasil seja o ponto de partida na América do Sul, não precisa ser o único atingido. A NBA tem ambição internacional e eu não me surpreenderia se dentro de alguns anos, eles sugerissem a adição de equipes de Buenos Aires, por exemplo, no nosso campeonato. Seria o nosso Toronto Raptors, útil para atrair até mais argentinos, celeiro próspero de jogadores com potencial de NBA.

Leandrinho

Sei que talvez não seja tão bom para nossa autoestima nos enxergar como laboratório e fornecedor de mão de obra para um país rico, mas temos sempre que lembrar que há poucos anos nós não tínhamos campeonatos organizados no país, que a Confederação nacional é uma várzea e que passamos mais de década sem pisar nos Jogos Olímpicos. Difícil sair da lama e ser o poderoso logo de cara. De qualquer forma, assim como estar mal das pernas não era motivo para aceitar todas as ordens da Globo, o mesmo vale para a NBA, embora eu ache que a liga americana tem mais interesse em ver o desenvolvimento técnico do basquete daqui do que a emissora de TV.

Posso estar indo longe demais, admito. Talvez a ideia da NBA seja só ajudar com o básico (estrutura, logística, investimento e comunicação) e manter um elo fechado com um mercado em expansão, mas as possibilidades estão aí e o tempo nos dirá a ambição de cada parte.

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19-09-2014
#Classic

Anticlímax

Defenestrado por Denis

Não tive tempo de escrever sobre a eliminação de seleção brasileira antes, mas imagino que o assunto não vá ficar velho tão cedo. Também penso que é até bom que algumas pessoas leiam isso com a cabeça fria. No Twitter, logo após a partida, vi várias mensagens de torcedores revoltadíssimos, seja com o técnico, com o placar, convocação, estilo de jogo, cotação do dólar, Marina Silva e, claro, putos com o Marcelinho Machado.

Antes de uma análise propriamente dita, é bom lembrar de algumas coisas que não podem ofuscar o nosso entendimento de uma partida em que a Sérvia dominou o Brasil desde o primeiro minuto: algumas críticas amplas podem até seu valor na percepção geral do campeonato, mas transformá-las em motivo da derrota é exagero. Estou aqui falando especialmente das críticas ao elenco, convocação e estilo de jogo que Rubén Magnano decidiu para este Mundial.

BRA SER

O elenco era limitado, mas isso a gente já sabia faz tempo. As opções não eram muitas também, no dilema entre garotos que nunca disputaram um campeonato de seleções importante e veteranos em decadência no desespero de uma última glória, Magnano escolheu o segundo tipo. Nenhum é o ideal, mas alguma decisão tinha que ser feita e ele fez. Com esse grupo em mãos, montou um esquema de jogo adequado: ritmo lento, poucos arremessos de longe e o jogo passando bastante no garrafão, com passes entre os pivôs.

Todas essas características podem receber críticas, mas foi com elas que o Brasil fez ótima fase de preparação, de classificação e assim que o time demoliu com a Argentina. Dava pra ganhar da Sérvia? Às vezes sim, às vezes não. Mata-mata é cruel. Quantas vezes não vemos na NBA, que tem melhor de 7 jogos, um time dominar os primeiros jogos e depois tomar a virada? Mundial não tem esse luxo. E especialmente no basquete internacional, onde depois de Estados Unidos e (ainda) a Espanha, existem uns 10 times basicamente no mesmo nível, tudo pode acontecer. Cair nas oitavas de final ou ficar em 3º pode ser questão de matchup, sorte ou noite inspirada de alguém. Que fique claro, porém, que isso não isenta a frustração. Saber que existe uma chance real de medalha e nunca conseguir é uma sensação horrível, mesmo que não seja de vergonha.

Como bem disse o Balassiano no seu post, a derrota foi mais tática do que emocional. Claro que as faltas técnicas no terceiro quarto chamaram a atenção e atrapalharam bastante, mas o domínio do adversário era claro desde o começo, especialmente pelo fato deles estarem jogando com um time mais leve, aberto e com precisão na linha de 3 pontos. Dá pra lembrar de cabeça um bom número de vezes que os pivôs brasileiros foram obrigados a marcar, sem sucesso, jogadores sérvios bem longe do garrafão. Mas mais do que isso, a agilidade do time sérvio minou os passes entre pivôs brasileiros, que sempre se posicionavam com um na cabeça do garrafão e outro embaixo da cesta.

Imagem de Amostra do You Tube

É aí que voltamos para o assunto que eu tratei no post sobre a partida contra a Argentina: a nossa busca pela narrativa perfeita. Por algum tipo de necessidade que já deve ter sido estudada por outras pessoas, buscamos sempre colocar ordem onde há caos. E o esporte, por estar dentro do grupo de jogos, abre espaço para muitas variáveis impossíveis de serem previstas. O melhor de um dia pode ser o pior no outro sem que muita coisa pareça ter mudado no meio do caminho. Torcedores do São Paulo entendem o que estou dizendo. Mas quando isso acontece não podemos só aceitar e seguir em frente, precisamos criar a história para dar sentido.

Por isso que hoje em dia o jornalismo esportivo é tão importante para a consolidação dos grandes campeonatos ao redor do mundo. Uma liga sem cobertura esportiva, como o nosso NBB por exemplo, vira um campeonato sem narrativa. Vemos os jogos, os resultados, mas não conseguimos encontrar a coerência: para quem devemos torcer? Quem devemos odiar? Quem é o bicho papão e quem é o coitado? Quais as rivalidades e os recordes a serem quebrados? A história deve ser contada e não imagino um editor (ou mesmo leitores) aceitando um texto que diga “perderam porque perderam”. Jogadores dizem isso não só porque boa parte deles têm dificuldade de articulação, mas porque é verdade também.

A necessidade dessa explicação a mais é que fez com que, novamente, surgissem as histórias de time amarelão, desequilíbrio emocional e dificuldades de atuar sob pressão. Se o Brasil estava ganhando e, de repente, perdeu, o que mais poderia ser, né?

Uma teoria pessoal é que a questão emocional sempre vêm à tona quando não entendemos um diacho do que aconteceu. Ela é comum nas Olimpíadas, quando colocamos expectativas exageradas sobre atletas de esportes que mal sabemos as regras e que acabam nos decepcionando. Perdeu no salto com vara, ginástica artística ou hipismo? Só pode ser o nervosismo e a pressão dos Jogos Olímpicos, claro. Às vezes até pode ser, quem sou eu pra definir, mas o padrão na nossa interpretação indica que não estamos abertos para outras coisas. Até no futebol, que em teoria entendemos mais como conjunto, volta e meia recebe explicações desse tipo. Se alguém do nível de Messi ou Cristiano Ronaldo joga mal numa decisão, é porque não lida bem com a pressão, jamais porque recebeu marcação adequada. E o exemplo mais recente é a justificativa padrão do “apagão” nos 7 a 1 do Mineiratzen. O nervosismo foi tão visível ao longo da Copa do Mundo que aqueles gols em sequência não poderiam ser explicados de outra maneira, mas o foco exagerado nas emoções dos atletas ofuscou a análise tática. O meio campo vazio, os espaços nas costas do lateral esquerdo, a saída de bola lenta e previsível, por exemplo. Quando finalmente se voltaram a atenção à parte tática, pulamos do “não foi tático” para o “o Brasil é atrasado taticamente e precisa de técnicos estrangeiros”. Uma análise pontual não dava conta. Quanto maior o resultado, quanto maior a atenção, mais grandiosa precisa ser a história contada.

A derrota do Brasil para a Sérvia, porém, é um caso de uma história fraca em um momento onde o basquete nacional precisava de um poema épico que sobrevivesse por gerações. Não deu, é triste, mas não é motivo para interpretações drásticas.

O que de profundo deve mudar é o mesmo que já devia ser mudado antes de qualquer resultado: a CBB recebe dinheiro de mais para produzir de menos. O basquete é pouco e mal jogado no país, e seus níveis mais altos estão concentrados em poucas regiões do território nacional.  A melhor coisa do basquete daqui nos últimos tempos, o NBB, a LDB Sub-22 (mesmo com suas dúzias de problemas e adiamentos) e algumas revelações pontuais, são méritos da Liga Nacional e de alguns clubes que insistem num negócio nada lucrativo só pelo amor ao jogo. Certamente eles receberão seus louros em uma história que vai ser contada num futuro próximo, a de 2014 ficou restrita à simbólica e importante superação da Argentina. É um grande recomeço.

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16-09-2014
#Curtas e Rápidas

Abismo

Defenestrado por Denis

E os EUA venceram a coisa toda de novo. Desde a derrota para a Grécia na semifinal do Mundial de 2006, a seleção americana não perde um joguinho sequer em partidas internacionais, é um dos domínios mais impressionantes em qualquer modalidade esportiva no planeta, sem dúvida. Sempre gostoso ver os melhores em ação, mas a coisa parece estar degringolando para o ponto em que não faz bem para o esporte. Nesse ano, os EUA não foram nem ameaçados e no elenco só havia dois jogadores (James Harden e Steph Curry) que apareceram em um dos três All-NBA Teams da última temporada. Dá pra dizer que eles levaram um Time C e passaram o rodo no planeta.

James Harden

Nós adoramos super estrelas, recordes e esportistas quase imbatíveis, disso eu não tenho dúvida. Alguém realmente reclamava quando só o Chicago Bulls vencia nos anos 90? Pelo contrário, foi quando muitos de nós realmente começaram a amar o basquete. Outra coisa que encantou futuros fãs basqueteiros foi o Dream Team de 92, outro time que não viu competição na frente. Mas tudo tem um limite.

Por mais legal que tenha sido o domínio de Roger Federer no começo da década passada no tênis, por exemplo, foi mil vezes mais legal quando ele começou a ter duelos épicos contra Rafael Nadal e, depois, Novak Djokovic. No momento, os EUA são um Federer com uma década de dominância e disputando partidas apenas com uns Fabio Fogninis da vida. Vale reforçar: não é que os EUA ganham todos os seus jogos há 8 anos, uns 95% foram surras desleais. Tirando aquele jogo contra o Brasil no Mundial de 2010 e a final de 2008 contra a Espanha, não lembro de cabeça um jogo realmente disputado envolvendo os americanos.

Talvez, se tivesse sido sempre assim eu não ligaria tanto, mas me sinto enganado. Entre 2002 e 2006 acreditamos no boom do basquete internacional: Yao Ming, Manu Ginóbili, Peja Stojakovic, Nenê, Anderson Varejão, Luís Scola, Pau Gasol, Dirk Nowitzki. Carlos Arroyo, Tony Parker, Andrei Kirilenko, Luol Deng, HedoTurkoglu, Mehmet Okur e tantos e tantos outros ganhavam destaque nos mais variados times da NBA e conseguiam números e resultados impressionantes com suas seleções. Todo país no mundo parecia estar revelando ao menos uma super estrela do basquete. Ao mesmo tempo, a seleção americana perdeu dois mundiais, uma Olimpíada e vimos sérvios, argentinos e espanhóis com grandes conquistas internacionais. Os americanos eram os melhores, mas parecia que a era dos atropelamentos tinha ido embora, ou eles levavam a sério ou não tinham chance.

Quase 10 anos depois e a profecia não se concretizou. Todos os jogadores citados tiveram (ou ainda tem) carreiras brilhantes, mas o que veio depois? Talvez eu perca essa por uma rara exceção, mas algum desses caras mencionados foi superado por algum conterrâneo depois? Algum espanhol melhor que Gasol? Não. Algum francês melhor que Parker? Não. Algum russo melhor que Kirilenko? Nem ferrando. E os americanos levam tão a sério que a ideia de que tinham que levar apenas os melhores já foi pro saco. Comprometimento de jogadores de segunda linha já é mais que o bastante.

Muitos países ainda mandam regularmente jogadores para a NBA, caras talentosíssimos como Nicolas Batum, Ricky Rubio, Alex Shved, Jonas Valanciunas ou Ersan Ilyasova, mas nenhum deles ameaça ter a importância que os caras da década passada. Lembram quando todo ano se batia um novo recorde de gringos no All-Star Game? Ano passado tivemos apenas 3: NowitzkiParker (dois dessa geração antiga) e Joakim Noah, um francês nascido na boa e velha América.

Os EUA são bons demais ou o resto do mundo não se interessa o bastante por basquete? O que pode explicar tamanho domínio mesmo 22 anos depois do Dream Team que, como tantos dizem, levou o basquete para todos os cantos do mundo? Como bem disse o Ethan Sherwood Strauss em uma coluna do TrueHoop que inspirou este texto, se o basquete é um “esporte global” como a NBA tenta nos vender (para eles se venderem fora dos EUA), esse abismo entre EUA e resto do mundo não deveria estar diminuindo? Tudo parecia conspirar para isso, mas faltam os resultados.

Slovenia

Todos os países tem representantes na NBA, pessoas que poderiam levar o conhecimento de um lado para o outro. A liga americana até aos poucos abre espaço para técnicos irem lá nem que seja para serem assistentes. A tecnologia também aproxima todo mundo: podemos ver a temporada inteira da NBA, gravar jogos, estudar estilos de jogo. É possível visitar universidades e ver os sistemas de treinamento. Dá pra contratar o Synergy ou outras empresas de estatística e usar as tais “estatísticas avançadas” para estudar e estreitar a diferença. Não consigo dizer se gente do mundo inteiro faz isso ou não, mas certamente não está dando resultado. Curiosamente, a vanguarda do basquete está justamente no país que já está lá na frente.

Naquele período mágico de 2002-2006 parecia que víamos algo novo, uma “escola argentina”, a mistura americana-europeia trazida pela Espanha e uma versão atualizada do velho basquete iugoslavo. Desde então, alguém viu alguma outra inovação? Os times citados ainda realizam bem o que propõe, mas não acrescentaram nada novo. Quem melhorou mesmo foi o time americano, que ao invés de ser engolido no pick-and-roll grego, agora usa as dicas de Tom Thibodeau para ter a melhor defesa dessa jogada em todo planeta. São os EUA que começaram a enfrentar aqueles gigantes europeus usando o magricela do Kevin Durant na posição 4. Pivôs arremessadores nasceram bem longe do continente americano, mas IGNORAR a posição na hora de montar um quinteto foi uma sacada espetacular de Coach K nos últimos 8 anos.

A impressão que eu tenho, vendo de longe e com toda minha ignorância, é que o resto do mundo olha o basquete em termos amplos e simplistas: temos que defender bem e rodar a bola. Os americanos, quando quebraram a cara ao apostar só na individualidade e no contra-ataque, resolveram ir para um campo profundo que outros lugares ainda não ousam pisar. Steph Curry e Klay Thompson são produtos de uma nova NBA que se preocupa demais em como produzir as melhores bolas de 3 pontos possíveis; times estudam isso como se fosse física nuclear. Kenneth Faried é fruto de times que resolveram usar seus homens altos para correr ao invés de jogar de costas para a cesta, uma soma de velocidade, leveza e força que não existe fora dos EUA. Diferentes times da NBA jogam de maneiras distintas e, no meio daquela confusão nem sempre genial, surgem grandes ideias e jogadores que em outras situações teriam fracassado. Nem todo mundo que tenta inovar dá certo, a NBA está cheio de time ruim, mas eles parecem dar mais espaço para diferentes estilos de jogo e de jogadores.

Nos outros campeonatos que eu assisto, embora sem os mesmos milhões de jogos anuais da NBA, a Euroliga e o NBB, eu vejo times bem mais semelhantes entre si. Alguns, como a dupla Barcelona e Real Madrid, tem elencos surreais de bons e o clássico jogo coletivo do basquete europeu. Mas inovação? Nada que faça você bater o olho e identificar uma característica única e inovadora nesses grupos. E se algum time menor tenta inovar e eu não sei (bem possível), não tem sido bem sucedido o bastante para alcançar os maiores campeonatos. A Copa do Mundo 2014 não apresentou nenhuma revolução.

Que o título do San Antonio Spurs e sua legião de gringos não nos engane, a interpretação daquele elenco global é outra: o basquete dos EUA foi o que mais cresceu após todas as derrotas de 2002, 2004 e 2006. A globalização do basquete, no fim das contas, deixou os mais fortes ainda melhores. Os gringos levaram o eurostep e o tal “excesso” de passes para a NBA, que abraçou as ideias. O resto do mundo ficou parado esperando a consagração que nunca veio.

A Copa do Mundo de basquete nunca vai ser interessante o bastante enquanto o abismo não desaparecer.

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