Aos que perguntam dos dias sem post, explico: Além de NBA, outra sigla de 3 letras domina minha vida, o TCC. Últimas semanas, mil coisas para fazer, sabem como é. Aos que não perguntam dos dias sem post, mas reclamam, xingam e cobram, uma mensagem: Vão tomar no cu. Ufa, sempre um alívio perder leitores chatos. Agora bora falar de basquete.
Ontem o Eduardo Agra, comentarista da ESPN Brasil, ganhou ares de gênio. Deve ter sido uma das poucas pessoas no Brasil e no mundo a realmente apostar no Indiana Pacers contra o Miami Heat. A série ainda está longe de ser decidida, mas ninguém sequer esperava ver o Pacers na frente em qualquer momento do confronto. Eu não sei se o Agra disse as razões que o fizeram pensar que isso aconteceria ou foi só no bolão, de qualquer forma, impressionante. Eu nunca apostaria no Pacers e, pra ser sincero, ainda não aposto. Vou explicar essa aposta enquanto conto como, após a vitória de 94 a 75 na noite dessa quinta-feira, o Pacers abriu 2 a 1 na série.
Uma das razões que me fez apostar contra o Pacers é que o ataque deles é muito ruim. Não no sentido de organização, nisso são até bons, sabem rodar a bola e são pacientes. Poucas vezes um jogador ou outro quer ser herói, geralmente eles tentam jogar como time. Mas falta alguma coisa. Às vezes um passe diferente no garrafão para encontrar Roy Hibbert, ou movimentação de bola mais rápida para encontrar quem ficou livre ou mesmo um jogador que individualmente faça a diferença para atrair marcação dupla. O Pacers é aquele time que daria um salto de qualidade fantástico se adquirisse um armador acima da média. Por incrível que pareça, os 3 primeiros jogos, mesmo com 2 vitórias, comprovam essa teoria: Depois de ter sido o 5º pior time da temporada em aproveitamento de arremessos, com 43,7%, o Pacers piorou nessa série: 40% de acerto no Jogo 1, 37% no Jogo 2 e 43% agora no Jogo 3.
Simplesmente alcançar a própria média foi uma vitória nessa última partida! A melhora se deu principalmente à boa atuação de Roy Hibbert, com 19 pontos e 18 rebotes. Foi a primeira grande atuação de Hibbert em um Playoff onde ele foi marcado por Glen Davis, Chris Bosh e Joel Anthony. Mas… antes tarde do que nunca, né? Tim Duncan, que treinou com Hibbert durante o locaute, mando uma mensagem para Hibbert o elogiando após o jogo. Com algumas cestas fáceis do pivô lá embaixo, o Pacers sofreu um pouco menos no ataque, embora simplesmente não consiga sequer beirar os 50% de acerto. Nos poucos minutos onde eles pegaram fogo pra valer na série, como no 2º tempo do Jogo 3, eles atropelaram o Heat. Aliás o placar do jogo não mostra como o jogo ficou bem disputado durante um bom pedaço, o Miami até chegou a ser bem melhor no primeiro tempo, mas não deslanchou. E não o fez porque às vezes tem cheirado mal também.
O Heat, 5º melhor time da NBA em aproveitamento de arremessos (46,5%) e 6º ataque mais eficiente em pontos por posse de bola, está fedendo. E fedendo bem fedido. As médias de aproveitamento de arremessos do Heat nos 3 primeiros jogos foram de 40%, 34% (!) e 37%. O segundo jogo foi um nojo total, o último ainda foi razoavelmente salvo por grande atuação de Mario Chalmers (25 pontos, 10/15 arremessos), mas que não serviu pra nada porque Dwyane Wade só fez 2 dos 13 chutes que tentou e saiu de quadra com 5 pontos e uma sonora discussão com Erik Spoelstra.
Sobre a discussão:. É o tipo de coisa que a imprensa monta em cima e quem é jogador diz que simplesmente acontece. Não é algo saudável, é sinal de que as coisas estão erradas, mas também não é tudo isso que querem montar. Quem convive com atletas está cansado de dizer que durante o jogo se fala e se faz muita coisa que acabam esquecidas logo depois. Até que algo novo aconteça, esse episódio tem pouco significado. Dwyane Wade forçou arremessos desnecessários para ver se pegava no tranco e Spoelstra o repreendeu por isso. Justo.
Mas a questão que não quer calar é por que diabos o Heat está tão mal. Bom, o primeiro motivo é que os jogadores contratados para acertar bolas de 3 não estão fazendo seu trabalho. O aproveitamento de arremessos de longa distância do Heat na série é de 5 acertos em 42 tentativas. O Pacers faz um bom trabalho de cobertura para não deixar os arremessos sem marcação, mas é um aproveitamento patético mesmo assim, ainda mais para um grupo que tem Mario Chalmers, Mike Miller, Shane Battier e James Jones como supostos especialistas nesses arremessos. E Jones, que estava encostado no banco, até voltou a atuar nos Jogos 2 e 3, mas com 6 erros e nenhum acerto é um jogador completamente dispensável. James Jones é limitado, só sabe chutar, se não acerta é como ter um a menos na quadra.
Já falamos aqui mil vezes de como os arremessos de longa distância são importantes para abrir espaços na quadra. Assim como o Los Angeles Lakers precisa deles para que seus pivôs possam ter mais liberdade e menos marcação dupla, o Heat precisa para que LeBron James e Dwyane Wade ataquem a cesta. O resultado é que no Jogo 1 (apesar da vitória) o Heat só conseguiu jogadas de bandeja, enterrada e finalizadas sob a cesta, 21 vezes. No jogo 3 foram 25. As duas marcas abaixo dos 26 que o Heat teve de média por jogo na temporada. O aproveitamento nessas bolas, de 63% na temporada, ficaram em 57% e 63% nessas duas partidas. No único jogo em que o Heat conseguiu chegar mais na cesta, o Jogo 2, 27 vezes, teve patético aproveitamento de 48%. Isso são 10% a menos do que a média do pior time da NBA em finalizar jogadas sob a cesta, o New Jersey Nets.
Sem as bolas de longa distância, outra maneira para abrir espaço para LeBron e Wade seriam os arremessos de meia distância, que pelo menos são uma boa opção de passe para quando os pivôs fecham o garrafão procurando o toco. Mas os dois responsáveis por isso no Heat são Chris Bosh e Udonis Haslem. O primeiro se machucou e está fazendo falta, o segundo está em fase péssima no ataque. Depois de acertar apenas 2 chutes em 9 tentados nos primeiros jogos, Haslem foi para o banco de reservas e jogou só 7 minutos no Jogo 3.
Jogadas de costas para a cesta nunca existiram no repertório do Heat e não devem ser usadas agora contra um garrafão bem mais altos. No Jogo 3, segundo o SynergySports, em apenas 3 ocasiões o time de Miami finalizou jogadas de “post-up”, quando o jogador se posiciona de costas para seu marcador. Acertou só 1 tentativa. LeBron James jogou mais de costas pra cesta nessa temporada do que qualquer outra vez em sua carreira, mas ainda não é sua jogada de confiança.
Mas esse problema dos chutes de longe e do jogo no pivô não são os mais preocupantes, na verdade. De certa forma o Heat sempre teve esses problemas e isso não os impediu de acabar em 2º no Leste. Uma das razões foi que eles compensavam falhas no jogo de meia-quadra com ataque de transição, o contra-ataque. Isso funcionou bem durante a temporada regular. Com 52% de acerto em arremessos na transição o Heat foi o time o líder na categoria dentro da NBA. Porém, contra o Pacers, nesses 3 jogos, o Heat tem apenas 36% de acerto nessas jogadas. No Jogo 3 de ontem, foram 13 situações de contra-ataque e o Heat acertou só 5 arremessos. O motivo para isso acontecer são dois: Primeiro a boa defesa de transição do Pacers, eles voltam rápido e conseguem contestar as jogadas. A outra razão é a péssima série que faz Dwyane Wade que ou está machucado ou com a cabeça no mundo da lua, porque parece outro jogador. Sem agressividade, sem drible e mal nos contra-ataques, parece jogador comum.
Esse problema também mostra como o Indiana Pacers é um time bem mais atlético que o Heat. Muitos times sabem que precisam parar o contra-ataque do Heat, mas quem consegue correr na velocidade de LeBron James? O Pacers está conseguindo isso, especialmente com George Hill e Paul George. E Danny Granger também é rápido, assim como Roy Hibbert se considerarmos que ele tem a altura de um prédio de 4 andares. A velocidade e atleticismo do Pacers está minimizando a vantagem do Heat, que geralmente é mais rápida e forte que seus adversários. A perda de Bosh deixou o garrafão mais pesado e as péssimas atuações de Wade deixa o time lento, com só LeBron James se destacando fisicamente.
O Indiana Pacers está jogando bem dentro de suas várias limitações, mas só vence a série se o Miami Heat continuar perdido. Sem querer puxar sardinha para as estrelas, mas a série está na capacidade de LeBron James e seus companheiros se adaptarem a essa série. LeBron pode mudar um pouco seu estilo de jogo se Erik Spoelstra deixar. Na teoria LeBron tem jogado algumas partidas como ala de força, o 4, mas na prática não atua assim no ataque. Talvez fosse uma boa experimentar um time com Chalmers, Wade, Miller, LeBron e Anthony. Com o MVP da temporada jogando mais no garrafão. Por alguns minutos poderia dar certo, os 3 jogadores do perímetro tem experiência armando o jogo.
Já Mike Miller e Shane Battier precisam matar aquelas bolas de 3 pontos da zona morta. Ronny Turiaf e Udonis Haslem precisam ser mais ágeis no garrafão, impedindo Hibbert de receber a bola como fez Glen Davis na 1ª fase e Chris Bosh no Jogo 1, se posicionando na frente dele. Ambos precisam, também, contribuir mais com os rebotes de defesa, que tomaram um baque com a saída de Bosh. Por fim, Wade precisa voltar a ser o bom e velho Wade que não perde bandejas sem marcação no fim do jogo (como no Jogo 2) e nem fica se contentando em dar arremessos forçados de longa distância como fez na noite de ontem. Ele é o cara que ataca a cesta, que tem bom passe depois do drible, que faz mil pontos em lances-livres. Sem ele, o Heat é uma versão piorada do que era o Cleveland Cavaliers de LeBron James, que costumava ser eliminado mais ou menos nessa época dos Playoffs.







