A NBA em busca da normalidade

Foram reuniões e mais reuniões, encontros virtuais e muitas ligações entre o comissário Adam Silver e representantes do sindicato dos jogadores e dos donos das 30 franquias da NBA para resolver uma série de questões espinhosas, confusas, inéditas e alcançar um único objetivo: não mudar nada.

Depois da temporada mais maluca de sua história, com crise diplomática, paralisação por pandemia e final sem torcida numa Bolha da Disney em OUTUBRO, tudo o que a liga, donos e jogadores queriam para 2020-21 era voltar ao normal. No mundo dos sonhos a temporada começaria no fim de Outubro como sempre, acabaria no tradicional Junho, todos os ginásios estariam recheados de torcedores gastando dinheiro e ninguém precisaria cortar salário de ninguém. Só que a realidade é bem diferente: a temporada acabou tarde e obrigatoriamente empurrou o campeonato seguinte para depois do normal, a pandemia está muitíssimo longe de acabar nos EUA, a Bolha não salvou a liga de perder muito dinheiro e não vai ter torcida lotando ginásio tão cedo. Todo mundo concorda que o normal é mais legal, mas o mundo conspira contra. E na hora de achar a segunda melhor opção depois do normal, começam as discordâncias.

Como sempre diz o Danilo nos nossos podcasts, democracia é quando todos estão insatisfeitos. E foi trabalhando um pouco do que todo mundo não queria que Adam Silver conseguiu a aprovação de donos e jogadores para fazer uma temporada que começa em 22 de Dezembro e acaba em meados de Julho. Até o início do campeonato teremos uma maratona para fazer todo General Manager ficar louco, não tomar banho e dormir no escritório por semanas a fio: as trocas devem ser liberadas em 16 de Novembro, o Draft acontece dia 18 de Novembro, as negociações com Free Agents irão nos enlouquecer em 20 de Novembro e os times já estarão reunidos para treinar em 1º de Dezembro. Vale saber como a NBA chegou nessas datas e quais regras vão reger o campeonato nesse período.


CALENDÁRIO

NBA-Xmas

Como explicamos no nosso Guia da Offseason, a briga aqui era complexa: a NBA queria uma temporada que acabasse antes da Olimpíada de Tóquio, para não competir com o maior evento esportivo do planeta, os donos dos times estavam dispostos a esperar até MARÇO para ter mais chance de uma vacina liberar a torcida de volta nos ginásios, já os jogadores, especialmente aqueles que foram longe nos Playoffs, queriam descanso para o corpo e a mente até pelo menos Janeiro. Mas quem venceu foram as emissoras de TV, que queriam começar o quanto antes, de preferência a tempo de salvar a clássica Rodada de Natal, responsável por três das dez maiores audiências da temporada passada, as únicas partidas de temporada regular da lista.

O motivo da vitória da TV é óbvio: dinheiro. As redes ABC, TNT e ESPN, além das redes regionais, pagam uma fortuna pelos direitos de transmissão da liga e querem passar o maior número de jogos para faturar, então quanto mais cedo começar o campeonato, melhor. Como os outros meios de ganhar dinheiro estão em crise no momento, donos e jogadores acabaram cedendo. Esperar a vacina poderia dar certo, mas poderia resultar numa espera vazia. E embora os jogadores tivessem motivo para querer descanso até Janeiro, afinal aceitaram passar MESES fechados num hotel longe da família e da vida em sociedade, a maioria acabou percebendo que as perdas financeiras seriam mais custosas que um mês a menos de recuperação física e mental. Mesmo o veterano e cansado LeBron James, que postou no Instagram sobre sua frustração com a MENOR OFFSEASON da história dos esportes americanos, eventualmente aceitou que muita gente ia perder dinheiro se decidissem esperar.

Na luta pela normalidade, a NBA montou um calendário que acaba em Julho, só um mês depois do padrão. Mas como acabar um mês depois se estão começando com DOIS meses de atraso? Menos jogos, mas não muito. Serão 72 partidas para cada time na temporada regular ao invés de 82. Não sabemos ainda como serão as viagens e se haverá ajustes, como times de Leste e Oeste jogando menos entre si, mas só dez jogos a menos e apenas um mês de diferença de duração é uma baita normalidade para uma situação tão atípica. Além de quem jogou até o fim da temporada passada, existem outros perdedores nessa história: atletas que se machucaram na Bolha, como Ben Simmons, terão menos tempo de recuperação; times que trocaram de técnico (foram muitos) terão menos tempo de treino; e gerentes que planejavam reformular um elenco inteiro terão não só menos tempo para executar seus planos e terão que ver o entrosamento nascer ao longo da temporada. E não quero pensar em como vai ser corrida a vida da galera responsável por receber novos jogadores no time, que tem que correr atrás de mudança, casas para alugar, escolas para os filhos e etc.


TETO SALARIAL E MULTAS

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A NBA anunciou junto ao novo calendário que o teto salarial desta temporada seguirá sendo de 109 milhões de dólares e o limite do luxury tax, o teto acima do teto que marca quem vai pagar multas e ter restrições para contratar, vai continuar em 132 milhões. Normalmente esses números são definidos pela soma dos ganhos da liga no ano anterior, o BRI (Basketball-Related Income), mas se isso fosse feito nesse ano haveria uma queda brusca nos números, prejudicando todos os times que haviam feito seu planejamento com um número próximo do ano anterior, como de costume. A ESPN americana projetou que o teto salarial cairia para meros 90 milhões caso nenhum acordo fosse feito, colocando praticamente todos os times acima do limite de gastos e travando a contratação de novos jogadores.

Embora a parte do teto salarial tenha sido um alívio, a do luxury tax desagradou os times. A maioria havia se planejado para a projeção de 139 milhões feita antes da última temporada começar e argumentou que a manutenção poderia engessar algumas equipes. A liga passou por cima das reclamações, mas fez um agrado: as multas de times que passarem do luxury tax terão desconto proporcional à queda da arrecadação desta temporada. Quanto mais desastrosa for o ano financeiramente, mais desconto a galera recebe. Para times que já planejavam pagar multas, como o Golden State Warriors, é um alívio.

A NBA também determinou que para os próximos anos o teto salarial vai sempre subir no mínimo 3% e no máximo 10% em relação ao ano anterior, independente do que acontecer financeiramente com a liga. A ideia é manter algum grau de previsibilidade para que todos os times possam fazer planejamento a longo prazo. É também uma resposta ao que aconteceu em 2016, quando o teto salarial SUBIU quase em quase 25 milhões de dólares de uma vez só após a assinatura de um contrato bilionário entre a NBA e as emissoras de TV. Naquela ocasião a liga havia sugerido um aumento gradual do teto para que os times não gastassem tudo de uma vez e para que todos os jogadores desfrutassem do aumento, mas o sindicato foi contra, a disparada foi caótica e quem faturou nessa foram os Luol Dengs e Timofey Mozgovs do mundo. Sem contar que foi o que permitiu o Warriors entrar na briga por Kevin Durant. Foram tantos arrependidos que dessa vez todos estão contentes em agir em câmera lenta.


ACORDO COM OS JOGADORES

Irving-NBPA

Como dissemos acima, o principal medo dos jogadores era perder dinheiro e por isso aceitaram começar a temporada um mês antes do que antes haviam dito ser o ideal. Mas a NBA também deu seus agrados financeiros aos atletas para evitar uma briga mais longa e desgastante rumo a um acordo. Para explicar esse acordo é preciso entrar em detalhes da CBA, o contrato assinado por liga e sindicato dos jogadores de tempos em tempos. Parece burocracia chata, mas juro que é legal entender aos poucos o complexo sistema que faz o campeonato funcionar.

A cada rodada de negociação sobre a CBA, o tema mais discutido costuma ser a divisão do BRI (o acima citado PIB da liga) entre times e atletas. No passado os jogadores chegaram a ganhar 57% de tudo o que a NBA faturava numa temporada, mas derrotas dos atletas nas últimas rodadas de negociação deixaram tudo em 50-50. Mas como sabemos o quanto se faturou numa temporada apenas após o seu final, como fazer esse meio a meio com os atletas ao longo do ano? Como ficam seus salários?

Os jogadores recebem de seus times a cada 15 dias um valor proporcional ao contrato que assinaram para toda a temporada. Mas 10% desse pagamento fica retido num fundo gerido pela NBA. Ao final da temporada é computado quanto foi faturado no ano (em direitos de TV, venda de produtos, ingressos, etc.) e caso os jogadores não tenham recebido seus 50% de direito na soma dos salários pagos, o dinheiro restante é liberado desse fundo. Caso os jogadores já tenham atingido o suficiente, a grana fica com a NBA.

O sistema funcionava bem até agora, mas a queda brusca causou uma situação inesperada. Muitos jogadores achavam que tinham assinado contratos enormes e surgiu o medo que tivessem que devolver (ou não receber) muito disso já que os 50% do BRI é menor do que qualquer um poderia imaginar. O novo acordo com a liga, porém, diz que nessa próxima temporada, em caso dos jogadores receberem em salário mais de metade do BRI, apenas os tradicionais 10% serão descontados, e o resto do valor será dividido e descontado ao longo das próximas duas temporadas. Nesses anos seguintes o desconto salarial não vai poder passar de 20% por ano. Os grandes prejudicados por isso são os jogadores que nem estão na NBA agora: quem chegar só ano que vem talvez tenha que pagar por prejuízos de uma temporada da qual não jogou. Faz parte, como não estão na liga agora não têm como negociar. São vítimas de mais um malabarismo que visa manter as coisas o mais parecida com o que era antes do tsunami que foi 2020.


CORONAVÍRUS

NBA Bubble

Se tem uma coisa que pode jogar todos esses planos da NBA no lixo ou causar mais reviravoltas é o personagem que começou tudo: o novo coronavírus. O controle da epidemia da Covid-19 nos EUA é o próximo passo para termos um tiquinho mais de normal em 2020-21, mas nada é garantido. Uma diminuição drástica nos casos no país (o que hoje parece absurdamente improvável) ou uma vacina que entre com urgência no mercado podem salvar a questão do público ao vivo nos ginásios, mas difícil GARANTIR isso agora.

Uma notícia do Shams Sharania nesta quarta-feira (11) diz que a liga está planejando um protocolo para liberar parcialmente o público desde o começo da próxima temporada. Ele não serviria para todos os times, já que alguns estados americanos podem proibir eventos com público, mas necessariamente envolve capacidade reduzida nos ginásio e testes negativos de torcedores que vão ficar perto da quadra. Segundo o apurado, todos os torcedores deverão usar máscara o tempo todo, praticar distanciamento social e vidros deverão ser colocados atrás dos bancos.

Todo cuidado é pouco, porque dessa vez jogadores, técnicos e demais membros do mundo da NBA não estarão mais fechados numa Bolha, então é bem possível (até provável) que tenhamos casos positivos ao longo da temporada, como vimos na MLB e na NFL, ligas que não se fecharam totalmente. O alcance do vírus e a gravidade dos casos pode determinar o quanto o calendário da liga seguirá como o planejado. Com elencos pequenos em comparação a outros esportes, muitos casos em um mesmo time pode forçar cancelamento de partidas e reorganização do calendário.

Há até ainda discussões nos bastidores sobre mais bolhas: Final numa nova bolha, decisões de conferência confinadas, pequenas bolhas espalhadas pelo país onde alguns times se juntam e jogam entre si seguidas vezes. Ninguém quer, mas tudo já foi cogitado e pode voltar à tona caso a maionese desande nos próximos meses. Decisões erradas podem manchar a imagem que a NBA construiu tão bem ao fazer o experimento que melhor soube driblar a Covid-19 nos esportes em 2020. Só que depois de tanto tempo planejando e executando um plano metódico e exemplar em Orlando, é hora de sair do casulo e fazer tudo o que julgavam impossível e não recomendável meses atrás. Tudo o que todo mundo quer é um campeonato que lembre aquele NORMAL, veremos se isso ainda é possível.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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