Adeus, Serge Ibaka: o Thunder não tem medo

Se você é como a gente e sempre gosta de um pouquinho de bagunça para chacoalhar a NBA, deveria estar empolgado antes do início do Draft 2016, que rolou na quinta-feira. Eram poucas as escolhas entre as dez primeiras que não fossem alvo de sérias especulações. O Philadelphia 76ers, claro, iria manter sua primeira e assegurar Ben Simmons, mas eles mesmos pareciam tarados pelo armador Kris Dunn e pareciam dispostos a oferecer bastante coisa para Boston Celtics, Phoenix Suns ou Minnesota Timberwolves para entrar na jogada.

Se essa informação do Marc Stein é totalmente verdadeira (às vezes times vazam coisas exageradas para que o público tenha outra percepção deles), o Sixers ofereceu o máximo que poderia. Eles perderiam um bom jogador (Covington), duas escolhas de primeira rodada (importantes, mesmo no fim da primeira rodada, para remontar o time) e um de seus jogadores mais promissores, Nerlens Noel, para ter um único jovem jogador, uma incógnita como qualquer outro novato. O Celtics pode não ter topado por preferir quem escolheram, Jaylen Brown, a Noel, já que podem ter visto o resto do pacote como um mero mimo: o Celtics já tem trocentas escolhas de Draft e jovens jogadores, nem teria o que fazer com tudo isso.

O negócio com o Chicago Bulls também não rolou, visto que pelo jeito Gar Forman parecia mais interessado em negociar Jimmy Butler com o Timberwolves pela escolha 5:

Mas não rolou…

O armador Kris Dunn era o alvo principal do Wolves e eles o conseguiram, mas a tentação de ter Butler faria com que eles abrissem mão do jogador. O problema? O Bulls queria, além de Dunn, Zach LaVine. O Wolves, como o pessoal tem dito faz tempo, estaria mais interessado em abrir mão de Ricky Rubio.

Depois que o negócio morreu, o Sixers apareceu com o mesmo pacote para o Wolves, mas aí o amor por Dunn foi maior do que a vontade de ver como a dupla Nerlens Noel e Karl-Anthony Towns no garrafão.

Com todos os negócios caindo pelas tabelas, quem poderia nos salvar? E foi aí que Sam Presti e seu Oklahoma City Thunder, a dupla com mais BOLAS para fazer trocas bombásticas, se misturou com o Orlando Magic para a grande troca da noite:

O grande Serge Ibaka, aquele que tinha sido favorito na frente de James Harden na hora de formar o BIG 3 do Thunder, estava de saída em troca de Victor Oladipo, Ersan Ilyasova e a 11ª escolha do Magic, onde eles selecionaram Domantas Sabonis, o promissor filho do GENIAL Arvydas Sabonis. De um lado, o Thunder abria mão daquele jogador que eles tinham definido manter ao invés de Harden há alguns anos, e o protagonista da formação small ball que eles encontraram no meio da série contra o Golden State Warriors; do outro, o Magic estava trocando um de seus mais promissores jovens jogadores (para alguns, O MAIS promissor), Oladipo, e, como se não bastasse, ainda um bom jovem pivô, que ainda tem um bônus de estar em um contrato de novato, que se torna uma pechincha cada vez mais obscena com o aumento do teto salarial da liga.

Quem se deu bem? Quem se deu mal? E, mais importante, quais as motivações de cada lado? Vamos lá

[image style=”” name=”on” link=”” target=”off” caption=”A animação de Ibaka a cada vez que ele completava 10 minutos sem tocar na bola”]http://bolapresa.com.br/wp-content/uploads/2016/06/Serge-Ibaka.jpg[/image]

Sem medo de nada

Podemos falar o que quisermos sobre o General Manager Sam Presti, mas não vamos jamais chamá-lo de medroso. Pelo jeito ele aceita qualquer consequência para o seu time, mas desde que ele não seja passivo na situação. James Harden não aceita uma renovação mais barata? Troca. Enes Kanter assina um contrato gigantesco em Portland? Igualamos a oferta e depois nos viramos. Reggie Jackson dá a entender que quer sair na primeira oportunidade? Troca antes que vire farofa. Sam Presti não aceita perder jogador por nada, e o único cara que não renovou e não foi trocado até hoje foi, por razões bem óbvias, Kevin Durant.

O congolês Serge Ibaka entrará, na próxima temporada, em seu último ano de contrato com o Thunder. Será ao mesmo tempo que Russell Westbrook e, talvez, o próprio Durant (se ele fizer o mais provável, que é assinar um contrato de um ano com o clube agora em Julho). Some-se isso ao contrato enorme de Enes Kanter, a renovação com Steven Adams e não há aumento salarial que dê conta de tanta gente com contratos milionários.

Na hora de decidir qual deles não manter, Ibaka foi o escolhido por Presti. Outrora visto como uma estrela esperando para explodir, hoje o ala vive uma certa mini-decadência. Fisicamente ou tecnicamente ele não parece tão pior que há alguns anos, mas seu papel no time foi caindo e sua disposição para aceitar isso não parece a mesma. Olha o que ele disse em março desse ano, pouco antes dos Playoffs:

“Você joga com tanta intensidade na defesa, aí você vai para o ataque e fica lá parado no canto por 4, 5, 6 às vezes 8 minutos e sequer toca na bola. Sou humano, é difícil”.

A impressão é que Ibaka até aceitava o seu papel de stretch-4, mas assim como ocorreu com Kevin Love em Cleveland, isso foi minando sua cabeça e confiança. São jogadores que não estavam acostumados a serem tão secundários antes, mas que se veem na obrigação de “se sacrificar em nome do grupo”. Deu muito certo com Love, que deve estar cheirando champanhe até agora, mas nem tanto com Ibaka. Ambos se esforçaram, mas duvido que não sonhem com times onde possam mostrar o que podem.

No caso de Ibaka o sacrifício foi ainda maior. Na defesa, o técnico Billy Donovan decidiu que o melhor para o time era usar uma formação alta, com Steven Adams de pivô e Ibaka ao seu lado. Mais pesado e menos versátil, Adams virou o protetor oficial do garrafão e da cesta, enquanto Ibaka cada vez era enviado para situações estranhas. Contra o LA Clippers, estava lá fora marcando pick-and-rolls com Blake Griffin, contra o Warriors volta e meia sobrava na zona morta fazendo meia defesa em Harrison Barnes. Contra, sei lá, o Charlotte Hornets, saia correndo atrás de Marvin Williams. Era um especialista em tocos correndo atrás de arremessadores a metros e metros da cesta. O small ball generalizado da liga o colocou em muitas furadas.

Vejam as médias de Ibaka nos últimos 4 anos em pontos, bolas de 3 tentadas, rebotes e tocos

2012-13: 13.2 pontos; 0.7 3PA; 7.7 rebotes e 3 tocos

2013-14: 15.1 pontos; 0.7 3PA; 8.8 rebotes e 2.7 tocos

2014-15: 14.3 pontos; 3.2 3PA; 7.8 rebotes e 2.4 tocos

2015-16: 12.6 pontos; 2.4 3PA; 6.8 rebotes e 1.9 tocos

É um raríssimo caso da NBA atual onde alguém passa a arremessar mais de três pontos e mesmo assim pontua menos. Seu aproveitamento foi de 37% no primeiro ano que começou a arremessar pra valer e 32% nesse ano, nada mal, mas o ponto é que não estavam explorando suas maiores qualidades. Nos dois primeiros anos citados ele tentava apenas 7% de seus arremessos da linha dos 3 pontos e 90% logo em torno do aro (enterradas, bandejas e ganchos bem curtos), nos dois anos seguintes foram 20% dos arremessos vindo da linha dos 3 pontos e apenas 70% lá pertinho da cesta.

Na defesa ele também estava mais longe da área pintada, com sua média de tocos foi despencando. De ser o melhor disparado da NBA na categoria, virou um cara ainda bom, mas bem mais comum. Se ele não estava sendo usado em sua melhor versão e parecia cada vez mais afastado e desinteressado, por que não trocá-lo? Nesse ritmo seria bem razoável imaginar que ele daria o fora na primeira oportunidade.

Um bom motivo para não trocá-lo, porém, está diante do nosso nariz: em poucos dias Kevin Durant será mais xavecado que qualquer garota de vestidinho curto no carnaval. Na hora de convencê-lo a ficar (algo que parecia mais fácil depois do time jogar tão bem nos Playoffs), terão de deixar claro como o time pode ser MELHOR ser Ibaka e com Oladipo, Sabonis e Ilyasova no seu lugar. O congolês joga com esse grupo faz tempo, tem a confiança de todos e, mais importante, foi peça importante no small ball que o Thunder descobriu na série contra o Golden State Warriors. Aquela formação com Russell Westbrook, Dion Waiters, Andre Roberson, Kevin Durant e Serge Ibaka funcionou por todos serem atléticos, velozes, de braços longos e arremessadores, ela não é possível, não do mesmo jeito, com Steven Adams ou mesmo Enes Kanter como o solitário pivô. É uma perda com a saída, mas eles torcem para que não seja algo decisivo o bastante para que chegue ao ponto de irritar Durant.

Deve-se pensar no que se ganha em troca também. Antes, existem as questões contratuais: Ilyasova, Oladipo e Sabonis, juntos, ganham 15 milhões no próximo ano, apenas 2,5 milhões a mais que Ibaka sozinho, e com a diferença de dois deles, com a exceção sendo Ilyasova, terem contrato garantido por mais anos, não há o risco de irem embora por nada.

Na quadra, os três trazem suas qualidades, algumas que Ibaka também tinha, outras não. Victor Oladipo, o maior nome dessa troca para o Thunder, oferece algo que o time há tempos procurava, algum ala que possa manter o alto nível defensivo do time, como faz Andre Roberson, mas que também seja um perigo no ataque, como é Dion Waiters. Embora o jovem jogador ainda esteja se encontrando na liga, com um arremesso de média e longa distância em formação, e altos e baixos nas suas tentativas de jogar como armador principal, é um cara capaz de marcar seus 17 pontos por jogo, puxar contra-ataques, criar lances por conta própria e que provavelmente não se incomodaria em vir do banco, algo que já fez até no fraquíssimo time do Orlando Magic, sem reclamar. Se conseguir manter os 35% de aproveitamento nos 3 pontos já está mais do que bom para não ser esquecido pelas defesas.

Vale lembrar que uma bola de 3 de Oladipo (e outra de Durant e mais uma de Westbrook) fez parte de um dos finais de jogo mais espetaculares da última temporada:

Claro que será um desafio para Billy Donovan encontrar os minutos em quadra para Westbrook, Roberson, Oladipo, Waiters e Cameron Payne, mas como todos são bem dotados fisicamente, dá pra imaginar vários deles usando os minutos na posição 3 também, dando descanso para Kevin Durant. Oladipo também pode herdar minutos na armação caso Payne não ganhe a confiança do treinador em seu segundo ano como profissional.

Ilyasova faz, ao menos no ataque, o que se pedia de Ibaka. Fica na linha dos 3 pontos, parado e acerta seus arremessos. Ele fez 37% dos seus arremessos de longe ao longo da última temporada, mas com ótimos 40% desde que havia sido trocado para o Magic. Pode manter isso com o espaço que vai receber só de jogar no mesmo time que Westbrook e Durant. Por fim, Domantas Sabonis é novato e talvez passe por um processo de adaptação mais longo, mas tem características para conquistar minutos nesse time: é ágil, não foge de contato físico e sabe o que fazer quanto é envolvido em um pick-and-roll. Não parece ser atleticamente espetacular, mas mostrou em Gonzaga que joga com força e intensidade. Quando pegar físico para enfrentar os outros pivôs da NBA, deve conseguir render bem. Até lá vai rachar minutos com Adams, Kanter e Ilyasova.

Meu palpite é que o Thunder, com essa troca, tenta manter o alto nível para essa temporada, com Oladipo e Ilyasova dando contribuições diversas para compensar a perda de Ibaka, mas ao mesmo tempo o time pensa no futuro. E se Kevin Durant sair esse ano? Ou se ele e Westbrook saírem juntos ano que vem? Se isso acontecer, Oladipo é um bom jeito de começar uma reconstrução, Sabonis já é um bom jogador de garrafão escolhido numa boa posição do Draft. De mãos abanando, como um Brooklyn Nets, eles não vão ficar.

[image style=”” name=”on” link=”” target=”off” caption=”Ibakando Vucevic”]http://bolapresa.com.br/wp-content/uploads/2016/06/Vuc.jpg[/image]

Em busca do veterano

O Orlando Magic surpreendeu muita gente com essa troca, e não foi de um jeito simpático.

Não sei se o Magic foi roubado, mas essa pode ser a sensação daqui algum tempo. Desde o ano passado que comentamos que o Magic terminou sua parte de acumular jovens jogadores e que estava na hora de formar um time: encontrar uma identidade, um jeito de jogar, definir o papel de todo mundo e, se possível, achar um ou dois veteranos para ajudar a pivetada a crescer na liga. Não aconteceu em 2015-16, o time ainda parecia um bando aleatório de jogadores bons, legais, mas perdidos.

Legal que eles resolveram dar uma cartada dessa, mas… foi caro, né? Por tudo o que falamos acima sobre Ibaka, desde seu contrato estar entrando no último ano até seus números decadentes, era possível pensar que talvez o Magic pudesse consegui-lo sem precisar abrir mão de um ótimo arremessador, um dos seus mais promissores jovens jogadores e mais uma escolha de primeira rodada. Se Ibaka for embora ano que vem, vão chorar a cada cesta de Sabonis e Oladipo nos seus novos uniformes. É muito talento indo embora para um mero aluguel de um cara. Só no período de extensão de contrato, daqui um ano, que saberemos se o risco valeu.

De qualquer forma, existem benefícios indiretos com essa negociação. Existia uma sensação de que ninguém ganhava com Oladipo, Evan Fournier e Mario Hezonja dividindo minutos. Os três parecem bons, mas todos precisam de tempo de quadra para mostrar isso. O melhor defensor, mas pior arremessador, dos três foi embora,  e é hora dos gringos que ficaram mostrarem que a decisão do Magic foi acertada. Sem Ilyasova, também abrem-se minutos para o que muitos acreditam ser agora o grande jovem talento do time, Aaron Gordon. É bem provável que, agora, Gordon, Ibaka e Vucevic dividam os 96 minutos das duas posições de garrafão, aproveitando a versatilidade do trio. Todos são bons arremessadores e Ibaka surge como, finalmente, o especialista em tocos que o time há tempos sonha. Sei que Nikola Vucevic tem sido uma máquina de double-doubles nos últimos anos, mas estou sonhando desde já com a versatilidade, capacidade atlética e defensiva de uma combinação Gordon-Ibaka no garrafão. Eles podem trocar com qualquer um na defesa, pular muito alto, sair na cobertura, acompanhar o time nos contra-ataques, enterrar qualquer bola. Se bem treinado e entrosado pelo novo técnico, Frank Vogel, a combinação pode acabar sendo o grande trunfo da troca.

É uma situação delicada para o Orlando Magic porque é um trabalho duplo de convencimento: precisam fazer Ibaka se sentir envolvido no time, como já não se sentia no OKC Thunder, e satisfeito com seu papel em quadra, para convencê-lo a assinar um novo contrato ano que vem. Por outro lado, precisam torcer para que Ibaka responda bem a essa mudança e volte a jogar naquele nível de poucos anos atrás, senão ELES MESMOS não estarão convencidos a encher o cara de grana em 2017. Foi uma troca que PODE dar muito certo, mas foi muito cara e eu não cravaria seu sucesso tão cedo.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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