Ainda há espaço para o post-up na NBA?

No intervalo de um jogo do Dallas Mavericks contra o New Orleans Pelicans transmitido na última semana de 2019 pela TNT, Shaquille O’Neal e Charles Barkley criticaram o técnico Rick Carlisle e o ala Kristaps Porzingis pela sua atuação ao longo da temporada e em especial pelo primeiro tempo do jogo que estavam cobrindo. Segundo os ex-jogadores, Porzingis estava recebendo pouco a bola e sendo pouco agressivo quando a tinha em mãos, geralmente evitando entrar na garrafão e se contentando com arremessos contestados sobre defensores mais baixos.

Os exemplos do vídeo são bem autoexplicativos: no alto de seus 2,21m de altura, Porzingis nunca pisa no garrafão e pouco usa sua vantagem colossal de tamanho sobre os adversários para chegar mais perto da cesta. Em todos os casos ele simplesmente vira para arremessar, se posiciona ainda mais longe do garrafão e até passa a bola para outros companheiros. Em nenhuma ocasião ele faz um post-up, o tradicional ataque de costas para a cesta tão famoso entre os gigantes da história da NBA. Faltava saber se isso era uma decisão do jogador ou plano de jogo do técnico Rick Carlise. Foi o que perguntaram a ele logo depois do jogo e o treinador resolveu esclarecer a situação de uma vez por todas:

“O post-up não é mais uma boa jogada, simplesmente não é boa. Não é boa nem para um cara de 2,21m de altura. É uma situação de baixo valor, os números do nosso ataque são ótimos quando Porzingis espaça a quadra na linha dos três pontos. Você sabe, somos um time historicamente bom ofensivamente. E quando qualquer um dos nossos jogadores entra no garrafão, nossa efetividade cai muito. É contraintuitivo, entendo isso, mas é um fato”.

O treinador tem razão quando diz que o time é bom em nível histórico quando falamos de seu ataque. O time tem a média até aqui de 116,8 pontos a cada 100 posses de bola, simplesmente a melhor marca desta temporada e da HISTÓRIA DA NBA, pouco a frente do Golden State Warriors de 2018-19, do Golden State Warriors de 2016-17, do Los Angeles Lakers de 1986-87 e do Chicago Bulls de 1991-92, todos na casa dos 115 pontos marcados a cada 100 posses de bola disputadas. É esquisito ver o SEXTO colocado do Oeste, atualmente numa fase nem tão inspirada, como o melhor ataque da história, mas é o que os números indicam. Alguma coisa eles estão fazendo muito certo.

Os números também são claros ao indicar que os post-ups não são, em geral, uma boa opção ofensiva. Nesta temporada, por exemplo, esse tipo de ataque tem rendido apenas 0,86 pontos a cada posse de bola. Pior tipo de jogada, disparado, muito atrás de jogadas de mano-a-mano, qualquer arremesso de 3 pontos, pick-and-roll e por aí vai. Uma posse de bola qualquer da NBA nesta temporada rende, em média, 1,08 ponto. Fugir do post-up é fugir de uma jogada abaixo da média. E se o Mavericks não precisa se preocupar com seu ataque e o post-up é ruim em praticamente todo lugar, por que essa discussão ainda existe?

É importante notar que o tema foi trazido à tona especialmente por Shaq e Barkley, dois jogadores da velha guarda que fizeram vida, carreira e fortuna na base do jogo dentro do garrafão. Embora Barkley fosse um jogador bem ágil e capaz de criar boas jogadas no perímetro, ele buscava o jogo de força perto da cesta para pontuar. Era a identidade de ambos e eles sequer eram exceções em seu tempo, o post-up era o que o basquete pedia e para muitos era até sua essência. Dizer “o post-up é obsleto” para caras como eles é como dizer que a nova geração nada tem a aprender com eles e que suas carreiras são meras peças de um museu que nenhum jovem que visitar. É claro que eles vão lutar.

Um outro ponto importante da discussão é a altura de Porzingis. O mesmo Shaq, por exemplo, já elogiou o ataque de Golden State Warriors baseado nas bolas de 3 pontos de Steph Curry e ele mesmo disse que se jogasse no basquete atual provavelmente tentaria ser mais completo do que foi ao longo da carreira, se comparando ao estilo de Giannis Antetokounmpo nos tempos atuais. Embora Giannis seja um jogador que muitas vezes atua a partir do perímetro, que ataca com a bola na mão, ele usa sua força física e tamanho para se impor no garrafão. Porzingis, por outro lado, tem um estilo que é quase independente do seu tamanho. Se seu plano de jogo é virar e arremessar, para o técnico adversário é quase irrelevante colocar para marcá-lo um defensor de 1,95m ou 2,10m, já que ambos não vão bloquear o arremesso de qualquer forma.

Para a dupla de veteranos e para muitos outros, não tirar proveito de algo tão fora da curva quanto sua altura é um desperdício imperdoável. Pela visão de Rick Carlisle, por outro lado, a discussão morre nos números. O time está pontuando bem assim, ter os jogadores abertos facilita a vida de todos os outros em quadra, qual o sentido de insistir no contrário? Só para de vez em quando vermos Porzingis enterrar na cabeça de um pobre coitado?

Os técnicos da NBA parecem ter superado o assunto. O The Ringer publicou dados coletados com a ajuda do SynergySports e mostrou que se as jogadas finalizadas em post-ups começaram a rarear há alguns anos, nesta temporada podemos estar vendo sua morte definitiva:

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No nem tão distante 2014, metade dos 30 times da NBA terminavam mais de 10% das suas posses em post-ups e NENHUM deles finalizava suas posses menos de 5% das vezes dessa forma. Agora em 2019-20, apenas UM time, o Philadelphia 76ers de Joel Embiid, tem o post-up como arma ofensiva em mais de 10% de suas posses. O número de times abaixo dos 5% pulou para DEZOITO. Em outras palavras, é uma jogada de exceção, uma coisa para poucos e em situações isoladas.

Em uma outra matéria sobre o tema, Jackie MacMullan e Kirk Goldsberry discutiram na ESPN o tema por causa de um outro jogador. De novo Shaquille O’Neal e Charles Barkley puxaram o tema, dessa vez com apoio de Patrick Ewing, para dizer que era Joel Embiid quem também deveria passar mais tempo no garrafão, dominar jogos, enterrar na cabeça alheia e etc. No texto, MacMullan mostra que em 2013-14 a NBA tinha 15 jogadas de post-up a cada 100 posses de bola, o número que nem era dos maiores caiu quase pela METADE nesta temporada, hoje são oito.

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A pergunta que não quer calar é como isso foi acontecer. Tudo começou no ano 2000, quando a NBA tomou uma de suas maiores decisões em seus 75 anos de história e decidiu acabar com a chamada “defesa ilegal”. Até então os times só podiam marcar jogadores de maneira individual, ninguém podia ficar flutuando em alguma área da quadra sem um rival por perto, era preciso estar grudado a um adversário o tempo todo. A marcação dupla só era permitida no jogador que estava com a bola na mão. Com isso, o jogo era muito focado em qualquer situação de mano-a-mano, seja no perímetro seja no garrafão, favorecendo bons pivôs a tirarem proveito do seu jogo de post-up.

A mudança das regras permitiu que os times da NBA utilizassem finalmente a defesa por zona ou qualquer outra variação híbrida já pensada numa quadra de basquete. Em uma discussão que merece um texto próprio, vale apontar que os treinadores demoraram demais para mudar suas defesas, mas em doses homeopáticas elas foram sendo aplicadas para, por exemplo, congestionar o garrafão e evitar que pivôs recebessem passes muito próximos da cesta. Dobrar a marcação ficou mais fácil e turnovers por pivôs ficaram mais comuns. Alguns anos antes a NBA já havia criado uma regra que só deixava os jogadores de garrafão passarem cinco segundos de costas para a cesta com a bola na mão, uma raridade que me custou um tempinho para achar um exemplo, mas que existe:

Essas mudanças de regra não foram obras do acaso, mas parte de um plano da NBA para deixar o jogo mais veloz, ofensivo e  dinâmico em comparação com o que víamos nos anos 1990 e começo dos anos 2000. O jogo de costas para a cesta, que já não era necessariamente a coisa mais eficiente do mundo para todos os jogadores, agora estava mais difícil e justo no momento em que as estatísticas começavam a dominar o esporte e a mostrar que, vejam só, três vale muito mais que dois. No momento em que as bolas de 3 pontos dominaram a liga de vez, o post-up foi dando passos cada vez maiores para o abismo.

Com tantas dificuldades, quem em 2020 ainda joga de costas para a cesta? São poucos os que usam isso como arma principal e dá literalmente para contar com os dedos quantos jogadores ao redor da liga conseguem ter isso como a base de seu ataque e ao mesmo tempo ser peça fundamental de um ataque funcional. O líder disparado na NBA é Joel Embiid, com 10.3 post-ups por jogo e principal responsável pelo Philadelphia 76ers ser o time solitário da estatística acima como única equipe a ter mais de 10% de suas posses de bolas terminadas em post-ups. Ajuda que Al Horford e Ben Simmons aparecem no Top 20 também, claro. Embiid tem bons 53% de aproveitamento nesse tipo de lance e é disparado o que mais sofre faltas ao tentar post-ups entre os que tem muito volume neste tipo de lance.

É impressionante que apenas DEZ jogadores em toda a NBA tenham míseros cinco post-ups ou mais de média por jogo. A maioria não transforma esses lances em mais de três arremessos por jogo e o aproveitamento não é dos mais sedutores. Apenas Embiid, Karl-Anthony Towns, Domantas Sabonis e Kevin Love estão acima dos 50% de acerto. Oitavo e décimo em média de post-ups, o jovem DeAndre Ayton e o veteraníssimo Carmelo Anthony tem aproveitamento na casa dos 35%, que é curiosamente a média geral da NBA para arremessos de 3 pontos. Estes, porém, valem 50% mais pontos.

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Na entrevista de Rick Carlisle ele até diz que volta e meia colocam Luka Doncic em situação de post-up, especialmente quando ele está sendo marcado por um armador muito mais baixo. Em média acontece menos de uma vez por partida, mas o número é baixo porque ele depende demais do adversário. O esloveno busca o lance várias vezes contra alguns rivais e sequer pensa nisso contra outros. Seu aproveitamento é de espetaculares 55%, mas em uma amostragem bem pequena.

O alto aproveitamento o coloca no SEGUNDO LUGAR de toda a NBA em pontos por posse de bola em jogadas de post-up, segundo ranking da SynergySports. O líder, com ridículos 82% de acerto é outro jogador de perímetro, Jaylen Brown. Na lista ainda vemos outros jogadores que não são de garrafão como o novato RJ Barrett e o ala Miles Bridges. O que todos abaixo têm em comum, com exceção do já citado Embiid, é o volume: a lista dos melhores é também uma lista dos que tentam pouco o post-up, dos que só vão para o lance quando estão muito bem posicionados e contra o defensor ideal. Novamente, essa se tornou uma jogada de exceção.

Post

Depois de dito tudo isso, afinal vale ou não vale a pena usar Kristaps Porzingis mais próximo da cesta para que ele abuse dos baixinhos com seu jogo de post-up? O Dallas Mavericks não vai mexer muito em um sistema ofensivo que está voando e a declaração de Rick Carlisle indica que não vão ser ex-jogadores gritando na TV que vão fazer ele rever seu trabalho de sucesso. Mas já defendemos até em um podcast do Bola Presa que gostaríamos de ver um pouco mais do gigante letão além de só arremessos de média e longa distância. Não só Porzingis é gigante, mas ele também tem controle de bola bom para sua posição e, importante, custou muito caro ao time. Se a ideia é tê-lo aberto na quadra disparando arremessos de três, era mais fácil e barato ter ido atrás de qualquer ala arremessador por aí ao invés de torrar jovens jogadores e escolhas de Draft no negócio com o NY Knicks. Claro que tem o importantíssimo lado do impacto defensivo na equação, mas no ataque seria interessante ver algo a mais.

Alguns eventuais post-ups poderiam ser interessantes para assustar times que colocam jogadores bem baixos para marcar Porzingis. Mas o mundo vai além de post-ups e arremessos de três: Porzingis poderia colocar a bola no chão e com uma passada larga chegar na cesta, ou poderia de vez em quando correr em direção à cesta depois de um bloqueio e não se contentar só com o pick-and-pop. O desejo vale especialmente para os minutos que ele passa em quadra sem Luka Doncic, que é quem mais tira proveito do seu espaçamento na linha dos três pontos na hora de comandar o ataque.

Eu não sou ninguém para dar palpite para Rick Carlisle, um dos melhores técnicos da NBA neste século e que é assessorado por inúmeros ótimos assistentes, conselheiros e que possui uma equipe de análise estatística com números que jamais vamos sonhar em ter. Sem contar que ficar dando pitaco em um time que está produzindo ofensivamente de maneira tão historicamente positiva parece mera picuinha e encheção de saco, sei de tudo isso. Mas não acho que seja irrelevante lembrar que Kristaps Porzingis já foi chamado de “unicórnio” por saber fazer muito mais coisas além de arremessar. Talvez ele apenas esteja recuperando as pernas depois de mais de um ano parado, mas talvez seja importante pensar em alternativas para quando um jogo mais difícil pedir algo novo. Curiosamente, parece uma repetição das centenas das que tivemos nos tempos de Kevin Love ao lado de LeBron James no Cleveland Cavaliers.

Porzingis

Há uma diferença na forma em que nós, que analisamos o jogo, e os treinadores devem abordar os números no basquete. Para quem está de fora, os números ajudam a explicar o passado. Eu faço um texto mostrando o desempenho de um jogador ou as tendências de um time e uso números para mostrar como foi o processo para chegar onde estamos. Fim. Para um técnico vale tudo isso, mas o trabalho dele não acaba com a mera compreensão, é preciso agir. Se os números indicam que algo está dando errado, é função do treinador tomar uma decisão difícil: abandonar o plano, insistir por mais tempo ou fazer ajustes para tentar melhorar? Há algumas temporadas demos o exemplo da combinação Derrick Favors e Rudy Gobert no Utah Jazz, que sofria em render junto em quadra. O técnico Quin Snyder tinha tudo para desistir de Favors e emplacar o small ball desde o começo dos jogos, mas eventualmente acabou achando pequenos ajustes que fizeram a dupla, a partir da segunda metade da temporada, sempre sair de quadra com saldo positivo.

Se o post-up tem salvação, ela passa pelas mãos de técnicos que possam pensar em maneiras de explorar isso de novo. E, vejam só, isso já está acontecendo. Passou despercebido para muita gente, mas o post-up era parte bem importante do Golden State Warriors de Steve Kerr nas últimas cinco temporadas. A diferença é que quando Draymond Green ou Andrew Bogut recebiam a bola nessa posição, a ideia era usá-los como CRIADORES de jogadas, não como finalizadores. A posição de Green obrigava um defensor a ficar próximo a ele (senão era só virar e fazer uma bandeja) e deixava espaço no perímetro para Steph Curry, Klay Thompson e Kevin Durant executarem bloqueios entre eles, correrem de um lado para o outro e ficarem livres para bandejas ou arremessos de longa distância. Era o post-up sendo usado para criar os mais modernos dos arremessos:

Nesta temporada o Los Angeles Lakers tem usado muito LeBron James atacando no post-up. A ideia é capitalizar em cima do desespero que é ver LeBron chegando cada vez mais perto da cesta, muitas vezes sendo marcado por um jogador mais baixo e mais fraco, consequência direta do adversário ser obrigado a colocar seus defensores mais altos e fortes em JaVale McGee e Anthony Davis. Enquanto o time inteiro adversário fica hipnotizado pelo post-up de LeBron, ele distribui assistências com sua visão de jogo já consagrada:

O post-up do jeito que o conhecíamos está praticamente morto mesmo. Se renascer é por causa de um jogador fora da curva que pode fazer o que James Harden faz pelas jogadas de mano-a-mano, mas ela não deixa de ser uma exceção. De qualquer forma, o basquete ainda é um jogo que pode, mesmo que só eventualmente, premiar alguém que é mais alto que o adversário e que tem habilidade para tirar proveito de estar perto da cesta. O que a velha guarda precisa entender é que o jogo mudou e que as coisas não vão acontecer do mesmo jeito que eram antes. O post-up pode se tornar o lugar dos melhores passadores, não dos mais altos e mais fortes, vai saber.

No último dia 8 o Denver Nuggets visitou o Dallas Mavericks de Rick Carlisle. Precisando de uma cesta para virar o placar nos últimos segundos, o técnico Mike Malone desenhou uma jogada com um bloqueio de Jamal Murray para Nikola Jokic. O pivô ganhou espaço para receber a bola e a jogada ainda forçou uma troca de marcação, deixando o pobre Tim Hardaway Jr na marcação daquele monumento gigante sérvio. Enquanto Dwight Powell decidia não dobrar a marcação pelo medo de deixar Murray livre, Jokic partiu rumo a cesta e fez a cesta que decidiu o jogo. Um post-up para vencer uma partida em 2020!

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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