🔒[Clube do Livro] “Joel Embiid vê você”, de Dotun Akintoye

Bem vindos a mais um episódio da série Clube do Livro do Bola Presa. Nesta edição vamos analisar a reportagem “Joel Embiid te vê”, do jornalista Dotun Akintoye, publicada na ESPN em 16 de julho de 2025. O texto, que daria tranquilamente pra ser publicado como um pequeno livro, é um dos mais completos perfis do pivô Joel Embiid publicado na imprensa desde que ele chegou na NBA em 2014. Mesmo sempre brincalhão e falastrão, o camaronês MVP da liga em 2023 nunca foi de se abrir muito. Neste texto ele abre sua casa para Akintoye e revela os motivos de ser fechado, suas inseguranças e como conduziu sua vida e carreira até agora.

No episódio falamos sobre a carreira do pivô, sua personalidade e principalmente sua relação com o Philadelphia 76ers. Abaixo do player você pode ler a tradução da matéria.


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JOEL EMBIID VÊ VOCÊ

embiid

LEVOU meses para chegar até aqui. Meses de espera, aguardando Joel Embiid jogar, não jogar, decidir se vai dizer algo ou não sobre uma temporada que parecia tão promissora.

Estamos na sua sala do piano. Ele está reclinado em um sofá que parecia espaçoso até ele acomodar seu corpo comprido nele. Veste um conjunto combinando — bermuda de listras finas e camisa com gola esporte. Seu filho, Arthur, espreita pelos cantos do corredor para ver o que estamos fazendo. Sua esposa, Anne de Paula, está no andar de cima se preparando para a comemoração do aniversário dela naquela noite. Decorações estão sendo arrumadas na sala de jantar. É o fim de março, nove dias antes da cirurgia no joelho que pode definir boa parte do futuro de Embiid no basquete.

Ele costumava se divertir com entrevistas. Antes mesmo de jogar uma partida na NBA, enquanto passava dois anos afastado se recuperando de cirurgias no pé direito nos verões de 2014 e 2015, era um queridinho da mídia, ao mesmo tempo fabulista irônico e confessor involuntário.

Mas não depois do último ano. Hoje em dia, ele está desconfiado, um pouco distraído pelo jogo dos Phillies que assiste no celular. Fico imaginando se ele não vai, educadamente, me mostrar a porta. Conversamos fiado um pouco. Ele parece entediado.

Ele faz isso com pessoas novas — se mostra pouco, finge não observar enquanto avalia e mede.

Pergunto se podemos começar, oficialmente. Ele concorda.

Embiid tem muitos motivos para desistir disso. Acha que se explicar será distorcido em autodefesa, o que virarão como reclamação. E olhe ao redor — seu segundo filho, uma filha, está para nascer. Os pais estão amparados. A família está garantida por gerações. Ele é inspiração em Camarões.

Estamos em seu luxuoso casarão colonial de pedra, uma mansão no topo de uma colina suave nos subúrbios da Filadélfia. As toalhas de mão, em pelo menos um dos 11 banheiros, têm suas iniciais bordadas — do que ele poderia reclamar?

“Eu me importo como vão me lembrar no basquete, mas como homem, não”, Embiid diz. “Como homem, ninguém pode falar nada de mim.”

Estamos a poucos metros um do outro, e me pego me inclinando para frente na cadeira para ouvi-lo. Sua voz é tão baixa que parece destacar outras dimensões dele. Este é o Joel Embiid introspectivo, solitário, que poucos conhecem.

Os amigos são protetores, quase paranoicos. Veem Embiid como ele mesmo se vê, alguém cercado por todos os lados. Ou seja, amam-no nos próprios termos dele.

“Quando você ganha a confiança dele, é meio intoxicante”, diz um. “É como se você tivesse atravessado esse campo de força onde ninguém entra.”

Então pergunto logo: “Em quem você confia?”

“Hmm”, Embiid diz, após alguns segundos de silêncio. “Quer dizer, uhh.”

Ele me encara, sua atenção se aguça como se perguntasse: O que você acha que sabe?

“Nunca fui de ter muitos amigos”, ele diz finalmente. “E mesmo com os que considero próximos, nunca tento aprofundar em nada.”

“Por quê?” pergunto.

“Família quieta. Pai, extremamente calado. Mãe, calada também… Desde pequeno, nunca dava para se abrir sobre nada.”

Ele espera que eu entenda. Somos da mesma região, países vizinhos na África Ocidental e Central. Revisamos juntos nosso breve inventário da diáspora: Surras. Pais exigentes. Mães à altura.

O que é ser amado por essas pessoas: “Você sabe que te amam… Mas não é aquele amor de ‘Vem cá me dá um abraço’. Isso não acontece. Nunca tive isso.”

A necessidade de defendê-los: “A forma como fui criado também é uma das principais razões de eu estar aqui.”

A necessidade de rejeitar também: “A forma como fui criado não é a forma como crio meus filhos.”

Talvez seja o passado em comum. Talvez porque começou terapia no outono. Talvez os seis meses vivendo no vácuo do basquete — torcedores à beira da rebelião, relação com os 76ers estremecida, auge interrompido por uma temporada perdida aos 31 anos, justo quando parecia atingir o ápice — talvez agora ele precise falar.

Todo mundo fala. O discurso Embiid, digamos assim; uma narrativa feita para atribuir uma sentença de culpa sobre por que sua habilidade sobrenatural não gerou título nem chegada às Finais. E agora pipocam também balanços de carreira, obituários resumidos. O The Ringer, citando as lesões, recentemente classificou Embiid — MVP da liga em 2023 — como o 84º melhor jogador da NBA. O Bleacher Report botou ele em 66º de todos os tempos.

Depois da cirurgia para reparar o menisco em fevereiro de 2024, Embiid passou a temporada 2024-25 entre se recuperando e jogando sentindo dor. Disputou só 19 jogos e foi ele mesmo em poucos deles. Agora, está no que chama, com razão, de a “offseason mais importante” da vida, reconstruindo o corpo de novo, se preparando para iniciar o que espera ser, se tudo der certo, seu capítulo final como jogador de elite. Não é exagero pensar no fim — talvez estejamos assistindo. Se for, então quem foi Joel Embiid?

Ele foi incompreendido. Não está isento de culpa nisso. Foi dominante, depois ficou limitado ou ausente. Foi alvo de ressentimento por isso.

Até sua dor mais profunda foi jogada na cara dele. No início da temporada de calouro, em 2014, o irmão Arthur, de 13 anos, morreu atropelado por um caminhão. No dia em que Arthur morreu, Embiid ignorou várias ligações. Quando atendeu, veio a notícia terrível.

Até hoje, ligações telefônicas ainda provocam um calafrio, um corte rápido de pânico — morreu alguém. De fato, ele quase nunca atende chamadas ou responde mensagens. As notificações ficam desligadas.

Quem precisa falar com ele o faz pela assistente ou pela esposa. As respostas dele podem demorar meses.

“Tenho fama de não responder bem mensagem”, Embiid me fala, acrescentando que provavelmente tem 10 mil mensagens não lidas.

“Você está brincando”, falo.

Ele pega o celular, toca na tela e se inclina para mostrar. Mais de 9.500 SMS não lidos e 875 chamadas perdidas. Algumas mensagens de gente de anos atrás.

“Eu simplesmente não consigo”, diz, se recostando.

Pergunto quem se irrita mais com isso na vida dele.

“Todo mundo”, ele responde.

EMBIID ESTÁ FICANDO À VONTADE, esticando as pernas. Pergunto a ele por que algumas pessoas que o adoram o chamam de brincadeira de babaca.

“Eu gosto de provocar muito”, ele diz. “Eu não diria que sou um babaca.”

Ele pensa por um segundo, depois admite: “Às vezes, eu posso ser um babaca.”

Conheci Embiid pela primeira vez em Chicago, no final do ano passado, depois que ele voltou de uma ausência de sete jogos devido a problemas no joelho esquerdo. Conversa solta e alegre tomava conta do vestiário dos visitantes no United Center, um clima de comemoração. O veterano armador dos Sixers, Kyle Lowry, pediu quatro bandejas de asinhas do famoso Harold’s Chicken de Chicago.

Após um começo frio contra os Bulls, Embiid voltou ao normal em uma vitória por oito pontos. Ágil e destrutivo, uma revolução de jogadas híbridas que vem somando habilidade sobre habilidade há anos. Observe-o raciocinando em quadra, alternando, como fez naquela tarde, de valentão no garrafão a artista do arremesso girando na meia-distância, até se tornar um arremessador ritmado nos cotovelos e topo do garrafão. Veja o estudo de vídeos, os treinos, o trabalho meticuloso. É o talento trabalhando em si mesmo, moldando e remodelando.

Ele marcou mais pontos sozinho do que os Bulls no segundo quarto.

Seu ataque foi um detalhe comparado ao que fez com o então-armador dos Bulls, Zach LaVine, no fim do segundo quarto. LaVine atacou Embiid em velocidade após um bloqueio, cortando para a esquerda e desequilibrando Embiid. O que aconteceu em seguida foi ao mesmo tempo muito devagar e muito rápido. Embiid girou, virou as costas para LaVine por um momento. Contra 99% da NBA, LaVine venceria o duelo nessa posição. Mas Embiid saiu do giro entre LaVine e a cesta. Os dois saltaram juntos, o impulso de Embiid levando-o para trás, uma mão alta transformando o que parecia uma enterrada de LaVine em um arremesso contestado e errado.

Nenhum técnico no mundo ensinaria isso. Nenhum exercício prepara para isso. No auge, não há comparação para Embiid. Nem Nikola Jokic, nem Luka Doncic, nem Shai Gilgeous-Alexander, que apesar de seus dons ofensivos não conseguem transformar o interior da defesa em um buraco negro. Nem Giannis Antetokounmpo ou Anthony Davis, que apesar da versatilidade não conseguem alcançar um transe de puro arremesso.

Dava para sentir no vestiário: se Embiid estivesse saudável o suficiente para jogar daquele jeito, esse time poderia alcançar qualquer coisa. Era começo de dezembro e ainda havia tempo para esperança.

Embiid olhou para a bandeja do Harold’s Chicken, pegou uma asinha e foi para seu armário. Depois de esperar um pouco, encarou a coletiva com a imprensa.

Perguntei como ele encontrou o ritmo após começar errando os sete primeiros arremessos. Ruído branco do pós-jogo.

“Eu só tive sorte e comecei a acertar os arremessos”, disse Embiid.

Recusando-me a ser mais esperto, perguntei: “Parece mesmo que é sorte?”

“Sim, é sorte.”

Eu fiquei bem na frente dele. Sua expressão ficou congelada, fingindo tédio. Ele manteve aquilo por um segundo tenso antes de um sorriso começar a surgir nos cantos de sua boca.

Todos caíram na risada.

Essa é uma experiência típica com Joel Embiid, na qual ele decide o quanto você está blefando ao observar enquanto você tenta adivinhar o quanto ele está blefando.

Durante seu primeiro ano na universidade do Kansas, Embiid às vezes fingia que seu inglês não era bom o suficiente para entender as pessoas. Começou a contar uma história exótica naquela época: que, quando menino em Camarões, vagou sozinho pela selva e matou um leão como rito de passagem.

“As pessoas realmente acreditavam nele”, lembra o técnico universitário Bill Self. “Havia muitas coisas que ele fazia por diversão, mas nunca o conheci como alguém de muita conversa, ao se expressar de verdade.”

As piadas funcionavam como abrigo, um lugar para se esconder. Em vez de ser conhecido, ele se contentava em ser conhecido como esperto.

Observando-o no vestiário em Chicago, imaginei-o olhando para seus companheiros universitários, tentando não rir da credulidade deles. Um repórter perguntou quanto ele teve que se esforçar para voltar para esse jogo.

“Confie no processo”, disse Embiid, fazendo referência à estratégia de perdas dos Sixers de 2013 a 2016, de onde vem seu apelido. O sorriso desapareceu.

Mas a hostilidade fria não combina com ele. Ele é sensível, prestes a mostrar suas feridas. “Tenho que dar respostas curtas, porque quando dou respostas longas, tentam distorcer minhas palavras”, disse Embiid, virando-se para alguns companheiros.

“Boa resposta! Boa resposta!” gritou Tyrese Maxey do seu armário.

Estávamos no rescaldo de um ciclo de mídia perturbador. Tudo começou no fim de outubro, quando um jornalista do Philadelphia Inquirer mencionou o filho de Embiid e seu irmão falecido em uma coluna que criticava a falta de profissionalismo e a incapacidade de Embiid de manter a forma. A coluna sugeria que havia distância entre o comportamento de Embiid e suas declarações públicas sobre jogar em homenagem à memória do irmão.

“Já fiz demais por esta cidade, me colocando em risco”, respondeu Embiid dias depois. “Já fiz demais por esta p… cidade para ser tratado assim.”

Quando o colunista apareceu no vestiário no dia seguinte, os dois ficaram cara a cara. “Da próxima vez que você falar do meu irmão morto e do meu filho de novo, você vai ver o que eu vou fazer com você”, disse Embiid. A briga terminou quando Embiid empurrou o colunista e a equipe dos Sixers interveio. A NBA suspendeu Embiid por três jogos sem salário.

Meses depois, a coluna ainda o incomoda.

“Não me importa se a NBA quiser me multar em $1 milhão, $2 milhões, $5 milhões, $10 milhões, eu faria de novo”, diz Embiid. “Se ele viesse falar comigo assim como fez, eu empurraria de novo.”

Embiid não parou de se culpar por ter deixado o irmão em Camarões para jogar basquete em 2011. Francois Nyam, um de seus agentes em 2014, ligou para Embiid na noite em que Arthur morreu. Ele diz que a primeira coisa que Embiid conseguiu dizer, após chorar muito, foi: “Foi minha culpa. Sou um pedaço de m…”.

A família de Embiid planejava estar junta na noite do draft em 2014, mas após a primeira cirurgia dele no pé, os médicos mandaram não viajar. Ele ficou em Los Angeles, na casa do agente, enquanto Arthur ficou com amigos da família na Costa Leste antes de retornar a Camarões. O acidente aconteceu quase quatro meses depois. Os irmãos não se viam havia três anos.

“Isso nunca vai mudar”, sussurra Embiid. “Eu ainda sinto isso.”

SEMANAS DEPOIS da briga no vestiário em novembro, os Sixers fizeram uma reunião a portas fechadas para tratar o início calamitoso de 2-11 do time.

No dia seguinte, detalhes da reunião vazaram. Maxey, que Embiid considera um dos melhores amigos, cobrou Embiid por chegar atrasado aos compromissos da equipe e por abalar o moral do grupo.

Embiid disse a um repórter: “Quem vazou isso é um grande filho da p…”. Ele prometeu encontrar o responsável.

“Eu sei quem vazou”, Embiid me diz durante uma ligação tarde da noite, após o fim da temporada.

“Sério?”

“Sim, mas não vou — o passado é passado”, diz Embiid. “O que posso dizer é que é difícil conviver com pessoas que fazem esse tipo de coisa.

“Isso remete à questão de confiança. Depois que você cruza esse limite — não dá para esperar que eu participe de outra reunião do time. Simplesmente não vai acontecer.”

“Do jeito que você fala, parece que essa pessoa ainda está por perto”, digo.

“Não sei”, ele responde.

“Vamos lá, Joel, você sabe quem está no seu time agora”, digo, rindo.

“A free agency acabou de começar”, ele diz. “Não sei o que está acontecendo.”

“Então pode ser que essa pessoa não esteja na próxima temporada”, digo.

“Não”, ele disse. “Pode ser que ela ainda esteja por aqui.”

FAÇA UMA VIAGEM sentimental: Um jovem Joel Embiid assiste Kobe Bryant conquistar seu quarto título em 2009 e se apaixona pelo basquete. Ele começa a jogar sério aos 16 anos. Em julho de 2011, é descoberto em um acampamento em Yaoundé, capital de Camarões e cidade natal de Embiid. Dois meses depois, deixa a família para trás e se muda para os EUA como um prospecto cru, mas talentoso. Ele evolui numa velocidade milagrosa, é recrutado por diversos programas de elite e acaba em Kansas após presenciar o Late Night in the Phog em Lawrence. Ele é a terceira escolha no draft da NBA de 2014. O resto você já sabe.

É um conto de fadas, que obscurece um período de ruptura profunda para Embiid. Ele foi primeiramente guiado pelo então jogador da NBA e conterrâneo camaronês Luc Mbah a Moute e por Nyam até a Montverde Academy, uma escola preparatória a oeste de Orlando, Flórida. Depois de lutar por tempo de quadra no primeiro ano, Embiid foi transferido novamente, desta vez para a The Rock School em Gainesville, Flórida.

Com a ajuda de seu novo treinador na The Rock, Embiid foi morar com uma família anfitriã. O primeiro pensamento de Marcy Hansen ao ver o Joel Embiid de 18 anos foi que não haveria como ele conseguir dormir no colchão de solteiro recém desocupado de sua filha.

Ele estava perto de 2,13 metros. O sotaque era forte, o inglês, hesitante. Se alguém perguntasse em que cidade morava, o melhor que conseguia responder era “Flórida”. Hansen logo percebeu que ele estava em dificuldade. Mentia para os pais ao telefone, insistindo que estava bem, e depois afundava em um silêncio melancólico.

Sempre houve algo solitário em Embiid, algo que ele não consegue explicar direito. Uma das memórias de infância mais vívidas dele é de uma viagem em família à França, quando tinha cerca de 12 anos. Mas, enquanto todos saíam para passear, Joel teimosamente se trancava no apartamento da tia, jogando videogame. Os pais passaram a deixá-lo de fora das viagens seguintes para a França, levando apenas os dois irmãos.

“Desde então, nunca mudou de verdade”, ele diz.

Hansen estava desesperada para animá-lo e se conectar com ele. Fez cookies com gotas de chocolate, trouxe comida chinesa para o almoço. Esperava que seu filho se aproximasse dele pelo basquete, mas Joel era muito fechado.

“Foi estranho para mim”, Embiid recorda. “Cheguei lá e uma das primeiras coisas que vi foram armas.”

O marido de Hansen, Ric, é veterano e caçador entusiasta. O pai de Embiid, Thomas, era oficial do exército de Camarões, mas Embiid não sabia que as pessoas viviam com tantas armas em casa.

“Acho que ninguém entende meu ponto de vista”, diz Embiid. “Por que eu era reservado, por que gostava de ficar no meu quarto, por que tentava trancar a porta… Eu estava meio assustado.”

O basquete pouco consolava. Embiid mal criava laços com os colegas de time; eles percebiam a distância e o deixavam em paz. Contou ao técnico que preferia os dormitórios de Montverde, onde dividia quarto com outro estudante internacional que também falava pouquíssimo inglês.

“Ele foi jogado em um mundo totalmente diferente e depois lançado em outro mundo, em menos de um ano”, lembra Hansen. “Provavelmente ele não deixou a gente entrar tanto quanto eu gostaria.”

Eventualmente, Ric Hansen procurou o técnico de Embiid, e organizaram para Joel ir morar com um dos assistentes do time.

As lembranças de Embiid desse período costumam ser vivas e totalmente superficiais: Ele estava na sala, era simpático, alto, comia algo doce, parecia desatento até soltar uma tirada afiada, surpreendendo as pessoas. É querido, faz falta, recebe torcida à distância.

Nada passava ileso à desconfiança de Embiid, nem mesmo avaliações sobre seu talento. “Ele não sabia que seria um jogador D-I, o que é meio louco para mim”, diz Freddy Bitondo, amigo e ex-companheiro em The Rock. “Ele me dizia coisas do tipo: ‘Se o basquete não der certo, eu só vou para uma faculdade por quatro anos e arrumo um emprego.’ E eu olhava pra ele, tipo: ‘Cara, você está destruindo nos treinos; do que você está falando, irmão?’”

Ao chegar em Kansas, Embiid estava convencido de que passaria o primeiro ano redshirt e passaria cinco anos lá. “Você vai ser o melhor cara que já tive”, Self disse a Embiid.

No fim do primeiro ano, na primavera de 2014, Embiid era cotado como primeira escolha do draft. Procurou Self e confessou que não se sentia pronto. Não sabia como se alimentar de forma saudável. Nem dirigir, sabia.

“Na verdade, decidi ficar”, diz ele. “Na minha cabeça, era tipo: ‘Não mereço isso. Só fiz 11 pontos de média.’ Eu não sabia muito sobre basquete. Não entendia como todo o sistema funcionava.”

Mas as pessoas mais próximas — o pai, Mbah a Moute e Nyam — disseram a Embiid que era hora de ir. Ele fez as malas e mudou-se para a mansão do agente em Los Angeles.

Lá, enquanto se recuperava da primeira cirurgia no osso navicular, lembra de ter voltado tarde uma noite e perceber que não sabia o código para entrar. Então, fez o que qualquer adolescente faria: pulou a cerca, com o pé direito recém-operado engessado, e disparou o alarme de intrusos.

Na época, ele estava a menos de três anos de distância do time JV em Montverde, onde certa vez pegou um passe longo sozinho embaixo da cesta, só para saltar desajeitado, passar do aro e sair pela linha de fundo. Sua vida acelerava numa velocidade que não conseguia compreender, impulsionada por uma narrativa sobre si mesmo em que não acreditava, promovida por pessoas em quem não confiava.

“Nunca soube o quão bom eu era”, diz Embiid. “Sobre o que essas pessoas estão falando? O que vou fazer com isso? Vou acreditar no que dizem?”

NO MOMENTO em que Adam Silver anunciou Embiid como a terceira escolha do draft da NBA de 2014, a transmissão da ESPN cortou para Embiid olhando fixamente para a câmera.

“Ele parece confuso”, Bill Simmons, então colunista da ESPN, comentou na transmissão. “Arrumem um café para o Joel.”

Depois, Embiid explicou que o vídeo estava com atraso, e a transmissão exibiu sua reação real — ele vibrou e sorriu. Mas, de certo modo, ele nunca compensou totalmente esse atraso.

Embiid e os 76ers esperaram dois anos para que seu pé se recuperasse. Na época, saíram notícias de que ele não estava levando a sério a reabilitação nem a alimentação. O terceiro ano na liga (mas primeiro em quadra) foi interrompido por uma lesão no menisco do mesmo joelho esquerdo que ainda o incomoda. Algumas semanas depois de os 76ers encerrarem sua temporada, ele subiu ao palco em um show do Meek Mill, arrancou a camisa e dançou sob aplausos. O então presidente de operações dos 76ers, Bryan Colangelo, repreendeu Embiid publicamente. Embiid tinha “ultrapassado o limite, em termos de percepção”, disse Colangelo.

Na temporada seguinte, 2017-18, ele foi filmado comendo um hambúrguer à beira da quadra enquanto recebia massagem no pé de um fisioterapeuta antes de um jogo. Surgia ali uma primeira versão da polêmica sobre Embiid: Joel é preguiçoso. Ele não se importa.

“Ainda vejo muita gente falando, comentando sobre as besteiras que eu fazia quando era moleque, no meu segundo, terceiro ano na liga”, ele diz. “Comecei a jogar basquete aos 16 anos. Você não chega nessa posição sendo preguiçoso.

“Começar tão depois dos outros, ter que aprender o jogo na velocidade que aprendi, vindo para um país novo, sem saber a língua, aprendendo outra cultura, me adaptando, ficando sozinho… Nada disso teria acontecido se eu não fosse focado.”

Pergunto de que maneira ele se sente responsável por ser mal interpretado.

“Passa por todas as narrativas da mídia”, diz Embiid. “Não tenho prestado atenção. Então, não sei o que aconteceu.”

Ele tá brincando, claro. Qualquer momento espero que ele sorria.

Mas ele não sorri. Em vez disso, ele repete, com a voz mais urgente: “Passa pelas narrativas.”

Joel arruma desculpas.

“Não são desculpas. Quando você se machuca todo ano e todos sabem disso, é a verdade”, ele diz. “Agora, você acredita que, se ele estivesse 100%, teria chance de vencer? Acho que muita gente acredita, porque já mostrei isso na temporada regular quando estive saudável.”

Agora, é ele quem se inclina para frente.

“E se eu fizesse assim: ‘Quer saber? Vou ficar só na minha a temporada toda e jogar de boa, com média de 25? Ou 20.’ E nos playoffs, vou lá e faço média de 30. Isso faria eu parecer ótimo? Provavelmente. Se eu saísse de média 23 para 30 — um cara que cresce nos playoffs. Oh meu Deus. Joel Jordan. Sei lá.

“Aquela série contra o Brooklyn, dois anos atrás, é um exemplo perfeito. Me dobravam em toda jogada. No meio da quadra, assim que eu pegava na bola, o técnico dizia: ‘Vai pra cima.’ E sabe o que aconteceu? Eu não liguei, porque a gente passava a bola, acertava os arremessos e ganhava. Mas adivinha? Isso derrubava as estatísticas.

“Então, se essa é a narrativa que está rolando, eu não me importo, porque sei o que passo e o que está acontecendo. Ninguém está no meu corpo pra entender o que sinto.”

“Que outras narrativas?”, ele pergunta.

Joel se importa demais com prêmios individuais.

“Se você está numa posição de ganhar um MVP, não importa quem você seja, vai atrás disso, porque eu nunca achei que estaria aqui, pra começar. Segundo: quando cheguei na liga, pensei, ‘Talvez eu vire um grande defensor.’ Nunca achei que seria tão bom ofensivamente.”

Ele acaba voltando aos playoffs, incomodado: “É basicamente dizer que ele joga mais duro na temporada regular do que nos playoffs, o que não faz sentido, porque se olhar os minutos, eles aumentam. E você joga mais. Faz mais dos dois lados da quadra.”

Ele faz um desvio pelos números de plus/minus nos playoffs, que estão entre os dos grandes do basquete, e se repreende por parecer seu treinador e confidente, Drew Hanlen, que, com 13 minutos de ligação comigo, já tinha me mandado o link com as estatísticas do Embiid nos playoffs.

“Quer mais uma?”, pergunto.

“Quero, sim”, diz ele.

Joel é talentoso, mas não tem o algo a mais, o intangível para liderar.

“Ninguém é vencedor até ser de fato. Eu topo essa narrativa porque ainda não fui. Charles Barkley, grande jogador, né? Mas nunca ganhou. [Allen Iverson] nunca ganhou… Mas isso não quer dizer que não foram grandes. Foram incríveis.

“Cada um lidera do seu jeito. Eu lidero dentro de quadra”, continua Embiid. “Com o tempo você cresce, aprende muito. Se perguntar para meus colegas hoje, vão te contar uma história bem diferente dos de uns anos atrás, porque naquela época, eu não estava nem presente.”

“Por quê?”, pergunto.

“Não sei”, ele responde, deixando de lado a batalha contra os críticos para olhar para si mesmo. “Acho que tem a ver com como fui criado. Não quero dizer solitário, mas vim para os EUA sozinho. Sempre me ensinei a não confiar em ninguém.”

NO VERÃO de 2014, os 76ers estavam há um ano no “Processo” do então GM Sam Hinkie. Até ali, tudo que Hinkie tinha conseguido era um pivô lesionado (Nerlens Noel) e um calouro do ano com defeitos, logo seria trocado (Michael Carter-Williams), que não sabia arremessar.

Embiid chegou à Filadélfia naquele outono já declarado fora da temporada 2014-15 inteira, após cirurgia no osso navicular do pé direito. Ele tinha 20 anos, visto como um redentor, e uma nuvem de incerteza pairava sobre ele e o time.

Para aliviar a pressão, resolveu atuar como o piadista. Adorava zoeira nas redes sociais, forçava um romance via Twitter com Rihanna e embarcou em uma carona com a Vice Sports onde satirizava histórias de que bebia jarras de Shirley Temple.

Seus ex-treinadores na Flórida e Kansas mal o reconheciam. “Eu não sabia que ele tinha essa habilidade, nem que queria ter, de ser o centro das atenções”, diz Self. “Na minha cabeça, pensava: ‘Jo, o que você está fazendo? Fica quieto! Sai das redes sociais.'”

Nos bastidores, Embiid estava em crise. Devastado pela morte do irmão, vivia sozinho no Ritz-Carlton no centro da Filadélfia, como se não esperasse ficar muito tempo por lá. Jogava videogame, se alimentava mal e mal dormia. O pé não se curava. Não podia jogar basquete. Boatos diziam que chegara perto dos 300 pounds. Pensou em desistir.

“Ele estava por um fio”, conta um amigo.

O relacionamento dele com os 76ers desmoronou. Embiid achava que havia algo errado na lesão, mas o time dizia que era preguiça, me contaram várias fontes. Frustrado, parou de aparecer na reabilitação e nos treinos e cortou a comunicação com o time.

“Tive que virar um babaca”, diz Embiid. “O que eles pediam pra eu fazer, eu só dizia: ‘Não vou fazer.'”

Os 76ers, sem saber como agir, responderam multando-o repetidas vezes. Embiid diz que parou de contar quanto foi multado naquele ano quando o valor bateu 300 mil. “Vale a pena”, lembra de pensar. “Eles não me escutam, e não vou ficar colocando meu corpo em risco.”

Hinkie, por sua vez, correu para modernizar o setor de saúde e desempenho dos 76ers pensando em Embiid. Até ali, a recuperação dele era supervisionada por um estagiário.

Hinkie contratou David Martin, que estava há 21 anos no Australian Institute of Sport. No ano seguinte, Martin respondeu perguntas mensais por email — o maior desafio profissional da carreira. Uma chamou atenção: Como montar uma equipe e tratamento para um pivô de 7 pés com lesão no osso navicular?

Numa das primeiras reuniões, Hinkie desenhou um quadrado e depois outro dentro daquele, ocupando cerca de 90% da área do primeiro. O primeiro era o tempo total de Martin. O segundo, o tempo dedicado a deixar Embiid saudável.

Hinkie ressaltou que a combinação de tamanho, habilidade e talento de Embiid era extremamente rara. Martin já havia trabalhado com forças especiais e campeão do Tour de France, mas ouvindo Hinkie, achou que aquilo era o auge da carreira.

Em junho de 2015, Hinkie e Martin voaram para LA para encontrar Embiid e o Dr. Richard Ferkel, que operara o pé de Embiid um ano antes. A notícia era ruim. O pé não tinha cicatrizado. Embiid ficou quieto. Martin era um estranho no recinto. Sentia Embiid o observando.

“Ele tem um olhar penetrante”, conta Martin. “Você percebe ele te olhando de um jeito. Como quem diz, ‘Não me enrola.'”

Embiid lembra o sentimento: decepcionado, mas também justificado. Ele estava certo, e seus críticos na franquia estavam errados. Havia, sim, um problema com o pé. Ele não estava inventando dor nem dando desculpa. Uma lição difícil de desaprender; é fácil virar prisioneiro das próprias vitórias.

Um vago e contraditório “eles” começou a se formar na cabeça de Embiid: os técnicos, diretores e médicos que, como diz um amigo, “o deixaram de lado”. Achava que queriam manter o emprego, que queriam que ele jogasse machucado — para se provarem certos ao escolhê-lo, certos ao não quererem escolhê-lo, vender ingressos, provar que ele não vendia ingressos. Tanto faria se a carreira dele durasse 18 meses ou 18 anos.

Lealdade passou a ser fundamental pra ele, e sua busca por isso, sua disposição de testar isso nos outros, virou maneira de traçar seu caminho dentro da franquia. Ficou numa bolha, acumulando e descartando seguidores.

Martin, ansioso para mostrar que não abandonaria o jovem astro, muitas vezes ficava na Filadélfia com Embiid em vez de viajar com o time. Um dia, notou uma pilha de notas de 20 dólares na mesa do apartamento de Embiid. Martin sugeriu guardar o dinheiro; o tráfego no apartamento era intenso — nutricionistas, treinadores, pessoal da limpeza.

Não, Embiid disse, se alguém pegasse algo, ele saberia.

“Você tá testando isso?”, Martin perguntou. “Quer ver se alguém vai te roubar?”

Embiid ficou calado.

“Ou talvez esteja me testando”, disse Martin. “Quer saber se eu pegaria seu dinheiro.”

Eles riram.

“Não é que eu faça isso com as pessoas”, Embiid me conta. “Só vou deixar ali, e se sumir, vou saber quem pegou.”

“Porque já aconteceu; já sumiram dinheiro ou outras coisas”, diz ele.

“Quando isso aconteceu, nem precisei confrontar. Só pensei: ‘OK, beleza. Era isso que eu precisava.’ Agora sei com quem não devo falar e nunca confiar.”

DEPOIS DA SEGUNDA cirurgia de Embiid no verão de 2015, Martin reuniu um pequeno núcleo protetor de defensores.

Kim Caspare, uma fisioterapeuta experiente, rapidamente se tornou uma peça fundamental do grupo. No que outros viam como preguiça em Embiid, ela enxergava medo — esse era um jovem que não confiava em seu corpo, nos conselhos que recebia ou nas intenções de quem os dava. Embiid precisava de “uma família ao redor dele”, lembra Caspare de ter pensado. “‘Eu só preciso cuidar desse cara, porque ele está machucado.’”

Caspare começou como consultora, mas se tornou uma influência tão estabilizadora para Embiid que o Sixers a contratou em tempo integral em 2019 como fisioterapeuta. Sua passagem inicial deveria durar quatro semanas, mas ela acabou trabalhando com Embiid por nove anos.

Quando Embiid conheceu Caspare, sua fama de não cumprir compromissos já estava consolidada. Mas Caspare diz que isso nunca foi um problema entre eles. “Nunca, em nenhum momento, Joel deixou de aparecer quando combinamos”, ela diz. “Mas vi nesses [nove] anos que ele faltou para muita gente.”

Embiid não se submetia à estrutura tradicional de comando das equipes da NBA. “É a NBA. As pessoas erram com convicção o tempo todo”, diz Martin. “Elas falam alto, com autoridade, e esperam que outros as escutem — e o Joel não é facilmente manipulado.”

A reputação de Embiid dentro da organização era tóxica. Todos comentavam: equipe médica, treinadores, massagistas, repórteres, até estagiários cuja principal função era pegar rebotes.

“As pessoas sussurram nos corredores”, diz Martin.

Embiid era um gigante enigmático, o rosto encoberto pelo moletom, andando devagar e sem dizer nada, aparecendo e desaparecendo, ao que parecia, à vontade. “Ele simplesmente não falava com ninguém do time”, diz uma pessoa a par da situação. “Literalmente completamente calado.”

A situação ficou tão ruim que Martin preparou uma pesquisa confidencial para os membros do departamento de performance. Eles deveriam responder perguntas de múltipla escolha sobre vários jogadores, incluindo Embiid: Você acha que esse cara algum dia será MVP? All-Star? Titular em um time campeão? Jogador de rotação? Você acha que ele vai acabar na Europa?

Os resultados foram desanimadores. “Ninguém acreditava no Joel”, Martin me contou. “Eles simplesmente não se importavam com ele.” Martin estava convencido de que Embiid nunca seria capaz de se recuperar em um ambiente tão hostil. Decidiu então ir até Hinkie e o dono Josh Harris pedir para levar Embiid para fora do país, para o Aspetar, um hospital ortopédico e de medicina esportiva em Doha, no Catar. Depois de alguma resistência, o time cedeu.

Desesperado para fazer a viagem valer a pena, Martin agendou uma série de consultas com especialistas. Embiid frequentemente faltava a esses compromissos. Quando Martin lhe perguntou o que estava acontecendo, Embiid explicou que queria manter a rotina da NBA. Os jogos acontecem à noite; os jogadores dormem e acordam tarde. Isso fez sentido para Martin — um dos objetivos da visita era melhorar o sono de Embiid. Quando mudou as consultas para a tarde, o problema de faltas e atrasos acabou. Embiid gostou tanto do Aspetar que a equipe o enviou duas vezes, uma em fevereiro de 2016 e novamente para uma estadia de duas semanas no final de março daquele ano.

Um padrão havia surgido. Quem era leal a Embiid e investido em seu futuro criou uma espécie de organização dentro da organização do 76ers. Os aliados de Embiid o viam como ferido, talentoso, sozinho e precisando de apoio. Martin, tentando entender como lidar com Embiid e explicar seu comportamento, começou a ler sobre como trabalhar com crianças superdotadas. Eles reforçavam suas tendências (ele não se comunicava, então viravam intermediários, encobrindo atrasos) para tirar o máximo que podiam dele, ainda que nem sempre o melhor.

“Talvez eu devesse só ter falado: ‘Levanta dessa mesa e vai pra quadra’”, diz Caspare. “Mas eu não fiz isso porque talvez ele levantasse da mesa, fosse pro vestiário e não fizesse nada. Então eu não podia arriscar.”

Perguntei a Martin se ele acha agora que pode ter mimado Embiid nesse início crucial da carreira.

“O Joel é realmente único”, diz Martin. “Quando você passa algum tempo com ele, parece que não precisa seguir todas as regras. Tem muita regra estranha na NBA, muita coisa esperada culturalmente, feitas pra deixar dono confortável, gerente geral poderoso, técnico inteligente, e equipe de apoio respeitada.”

“Não sei se estou sendo perspicaz”, continua Martin. “Ou se estou só criando uma justificativa elaborada pra ele.”

Anos depois, é difícil para quem apoiou e defendeu Embiid diferenciar entre prejudicá-lo com mimos e salvar sua carreira.

“Se você realmente voltasse no tempo, estivesse lá naqueles momentos, veria que ele estar hoje na liga, e virar MVP, é um milagre”, diz um dos membros do círculo de Embiid. “Tem técnico de alto nível, executivo de alto escalão da liga que não acreditava que ele pisaria em quadra novamente.”

“ACHO QUE AS PESSOAS ESQUECEM que ele teve uma lesão séria em Golden State”, diz Nurse. “Mas até aquele momento, ele estava jogando o melhor basquete da vida dele.”

Foi um dos melhores basquetes que já vimos.

Os Sixers estavam 26-7 com Embiid em quadra antes de ele machucar o joelho esquerdo em Golden State, em janeiro de 2024. Ele tinha média de 35,3 pontos em 34 minutos, superando a temporada de Wilt Chamberlain em 1961-62 e caminhando para ser apenas o segundo jogador da história a marcar mais de um ponto por minuto. Ele fez pelo menos 30 pontos em 22 partidas consecutivas, a quinta maior sequência de 30 pontos na história da NBA. Ele registrou 16 jogos seguidos com pelo menos 30 pontos e 10 rebotes, igualando Kareem Abdul-Jabbar como a segunda maior série do tipo.

Em dezembro de 2023, os Sixers tiveram 8 vitórias e 1 derrota com Embiid em quadra. Ele teve médias de 40,2 pontos e 12,6 rebotes, com incríveis 60,6% de aproveitamento nos arremessos.

Houve também atuações de destaque. Um jogo de 51 pontos e 12 rebotes em uma vitória fácil sobre o Minnesota Timberwolves no fim de dezembro. Depois, em janeiro, uma explosão de 70 pontos e 18 rebotes contra os Spurs, no estilo tradicional — ele acertou apenas uma de suas duas tentativas de três pontos.

Após o jogo em Golden State, Embiid perdeu os dois meses seguintes, se recuperando de uma cirurgia no menisco do joelho esquerdo. Ele voltou perto do fim da temporada, claramente limitado, para tentar levar o time aos playoffs. Os Sixers venceram os oito jogos finais e se classificaram para o play-in, onde ganharam do Miami Heat e avançaram para enfrentar o New York Knicks na primeira rodada.

Embiid parecia dominante no começo do Jogo 1, começando com 4 de 5 nos arremessos. No segundo quarto, ele fingiu um arremesso, invadiu e jogou a bola contra a tabela, pulando por cima de Mitchell Robinson para enterrar sobre OG Anunoby. Foi uma jogada incrível, ousada, um dos grandes destaques dos playoffs, até que ele caiu e seu joelho esquerdo bambeou, fazendo-o cair no chão.

Deitado de costas, uma câmera de cima mostrou suas mãos entrelaçadas sobre a cabeça, o lado esquerdo do rosto congelado. Ele fez um retorno improvável no segundo tempo do Jogo 1, mesmo com os 76ers derrotados. E após uma derrota polêmica nos segundos finais do Jogo 2, Embiid concedeu entrevista após o jogo em seu armário, cabeça baixa e mão sobre as sobrancelhas, tentando esconder a paralisia no rosto.

Ele ficou desafiador, irritando-se quando um repórter perguntou algo em francês. “Não vou falar em francês”, cortou Embiid. Ele prometeu que os 76ers venceriam a série.

Mas a pressão do retorno apressado da lesão começava a pesar. Ele havia sido diagnosticado com paralisia de Bell dias antes do início da série, após começar a ter enxaquecas. Estava sem ritmo físico devido à lesão, mancando visivelmente, preocupado com o joelho grotescamente inchado, passando por tratamento quase 24 horas por dia e sendo forçado a jogar muitos minutos nos jogos mais críticos da temporada. Sua visão estava turva, a cabeça doía. Mal dormia, pois o olho esquerdo não fechava.

Caspare começou a submeter Embiid a uma bateria de exercícios para ajudá-lo a se orientar no espaço, movendo a cabeça inteira para escanear os arredores, já que seu olho não se movia como antes.

“Eu sentava ao lado dele no vestiário”, contou seu ex-companheiro Nicolas Batum. “Eu via o joelho dele antes e depois de cada jogo.”

Batum balançou a cabeça. “Eu vi o joelho dele”, repetiu. “Não faço ideia de como ele conseguia nem andar.”

Embiid não sabe como conseguiu continuar jogando. Hanlen perguntava após cada jogo se ele iria continuar. “Eu dizia: ‘Não. Sem chance nenhuma’”, conta Embiid.

Quase ninguém sabia o quão ruim estava. Informações sobre ele são escassas nos melhores momentos; em crise, ele se fecha completamente. Embiid estava “sozinho em sua agonia”, diz Caspare. “As pessoas não sabem exatamente o que acontece. Acham que é o joelho. Mas não é só o joelho. É o joelho dele, é o olho, é todo o sistema dele.”

No meio das sessões de tratamento madrugada adentro, Embiid olhava para Caspare, com os olhos exaustos. “Não sei se consigo de novo”, dizia. “Não aguento mais um minuto.” Mas logo depois se animava de novo: “OK, vou tentar mais um minuto.”

Embiid passava por uma montanha-russa de emoções: desanimado, preocupado com a saúde a longo prazo, dominado pela dor, desesperado para jogar, desesperado para ser salvo de si mesmo, com medo de decepcionar o time e os torcedores, cauteloso para que ninguém descobrisse em que condição ele realmente estava.

Na manhã de 25 de abril, dia do Jogo 3, Caspare saiu da casa de Embiid após outra maratona de tratamento. Ela já tinha visto o suficiente. Mandou uma longa mensagem para Embiid às 2h29.

Dizia, em parte: “Você consegue se dar um pouco de graça e compaixão? Estou aqui para lembrar que você merece isso. Quem liga para o que as pessoas pensam sobre seu olho? Você pode falhar. Você pode perder. Mas não pode sentir vergonha nem desespero. Não há lugar para esses sentimentos. Você lutou. Foi uma luta corajosa.”

Ela tentou dar a ele uma saída, preocupada que seus esforços haviam atingido proporções “esmagadoras”. Sugeriu que jogasse com uma restrição severa de minutos, mesmo sendo playoffs: “Talvez a gente converse com o time. Joel quer ir lá e dar tudo de si, mas o time precisa impor um limite rígido de minutos, te restringir a 25 minutos.”

Independentemente da decisão dele, ela prometeu: “Você pode fazer qualquer coisa. E estarei com você, aconteça o que acontecer.”

Ela não recebeu resposta naquela manhã ou tarde. Embiid apareceu na mesa de tratamento na arena no horário de sempre. Ela começou a prepará-lo. Entregou o celular a ele.

“Você leu isso?” perguntou Caspare.

“Sim”, disse Embiid.

Eles trocaram um olhar — ele ia jogar. Embiid marcou 50 pontos naquela noite, em um Jogo 3 de vida ou morte, seu recorde pessoal nos playoffs.

Os Sixers perderam a série em seis jogos. Embiid teve médias de 33 pontos, 10,8 rebotes e 5,7 assistências. Nos finais dos jogos, não tinha mais nada a oferecer quando o efeito da adrenalina acabava e a dor tomava conta. “Eu sabia que só aguentava uns dois quartos”, diz ele. “Meu corpo só dizia: ‘Não, chega.’ Não havia o que fazer. Acho que chutei uns 10% no último quarto.”

Embiid olha para a série com ambivalência. “Nessas situações, você gostaria que alguém lá de cima tomasse seu lado e dissesse: isso não está certo”, ele diz. “Você não vai jogar.”

“Já tive que parar o Joel algumas vezes”, diz Martin, que deixou o time em 2019. “Quando ele entra no modo competitivo, é difícil ter uma conversa significativa… E isso era antes de ele ser super famoso.”

Embiid teme que, muitas vezes, tenha feito a escolha errada, permitido ser convencido a voltar às quadras cedo demais, forçado a si mesmo por conta da imagem que queria construir como jogador e pessoa, forçando o corpo ao limite e ficando vulnerável a lesões recorrentes. Esse é um dos sentimentos que ele tenta trabalhar na terapia.

“É basicamente o famoso ‘se correr o bicho pega, se ficar o bicho come’. Porque se você não joga, cria-se toda uma narrativa… Nunca liguei para os comentários de ‘moleza’”, Embiid me diz ao telefone. “Só me importava o time e os companheiros. Nunca quis sentir que estava abandonando eles. E, obviamente, isso volta à terapia, por não querer decepcionar ninguém.”

“No fim das contas, acho que foram decisões minhas. E tenho que conviver com elas.”

Semanas antes, em casa, quando mencionei a série contra o Knicks, ele parecia ter feito as pazes de um jeito diferente com suas escolhas. Perguntei se ele ia tomar medidas para se proteger caso ninguém mais fizesse.

Ele me olhou nos olhos e disse: “A gente pode ficar aqui e eu te dizer que vou mudar, mas eu me conheço. Não acho que isso vai acontecer… Eu sempre quero jogar.”

GRANT HILL, O diretor geral da USA Basketball, assistiu Embiid se esforçar na série Knicks-Sixers da beira da quadra, como comentarista. Admirou o fato de Embiid jogar machucado, mesmo achando que não era “a coisa mais inteligente”. Hill passou um ano recrutando Embiid para os Jogos de Paris, que começariam mais tarde naquele verão.

Tudo começou com uma visita à casa de Embiid no outono de 2022. Embiid havia se tornado cidadão da França e dos Estados Unidos. Sua lealdade olímpica estava em aberto. Hill sabia que a Team USA precisava de um pivô capaz de competir com o tamanho e a força física do basquete internacional. O time dos Estados Unidos de 1996, em que Hill jogou, tinha Shaquille O’Neal, Hakeem Olajuwon e David Robinson.

“Ele trouxe uma dimensão que nosso time não tinha fazia tempo”, diz Hill. “Em outras Olimpíadas, tínhamos pivôs muito móveis, que sabiam trocar marcação, mas não eram exatamente uma presença no garrafão, com todo respeito.”

A reunião, que Hill imaginava durar apenas 15 minutos, se estendeu por quase duas horas e impressionou Embiid. “Ele foi lá só para me conhecer”, diz Embiid. “Eu gostei disso.”

Hill ficou igualmente impressionado. “Ele era muito reflexivo, inteligente, envolvente”, diz Hill. “Tinha muita profundidade… Não sei se ele é retratado corretamente.”

Embiid não deu pista sobre para onde inclinava, e os dois ficaram em contato durante os 12 meses seguintes. Hill visitou os Sixers em Boulder, Colorado, em 4 de outubro de 2023, driblando os repórteres que acompanhavam o time. Noticiou-se que a França queria uma resposta de Embiid até 10 de outubro. Embiid não gostou do ultimato: “Falei, ‘Não, vocês não vão fazer isso comigo.’”

O telefone de Hill tocou na manhã seguinte. Embiid disse que iria jogar pela Team USA. Era 5 de outubro, aniversário de Hill. “Foi o melhor presente de aniversário que ganhei naquele dia”, diz Hill.

Quando Embiid se apresentou ao acampamento da Team USA no começo de julho, ele “não estava no seu melhor”, diz Hill. “Mas tivemos paciência… sabíamos que precisaríamos dele.” Ele vinha treinando diariamente com Hanlen e Caspare ao lado nas semanas anteriores ao acampamento. Quando a Team USA já estava na França, preparando-se para o primeiro jogo da fase de grupos contra a Sérvia, Hill diz que Embiid “era o melhor jogador em quadra.”

Embiid se empolgou nos detalhes. Ficou animado ao fazer bloqueios para Steph Curry. Mas logo ficou doente [“Muito doente”, diz Caspare. “Ninguém sabe o quanto.”] sob a chuva na cerimônia de abertura, viajando de Paris a Lille separado do resto do time. Jogou apagado contra a Sérvia no primeiro jogo do torneio e ficou fora do segundo por ordem dos médicos.

Sua presença foi vital na fase de medalhas, principalmente na semifinal, novamente contra a Sérvia. Pela primeira e única vez nos Jogos de Paris, a Team USA ficou atrás no quarto período, até Embiid e Curry liderarem a virada. Embiid fez sete pontos seguidos.

“Não venceríamos a Sérvia sem ele”, diz Hill. “Nossa paciência com ele valeu a pena.”

Mas nada com Embiid é simples. “Ele está aumentando o risco de lesão em uma situação na qual não está ganhando nada além de surfar na onda de outros all-stars”, escreveu um experiente comentarista da Filadélfia antes do início da fase de medalhas.

Até a escolha de Embiid por representar a Team USA foi criticada. Alguns diziam que ele deveria tentar a classificação com Camarões, enquanto do lado francês reclamaram que Embiid havia buscado uma vaga na equipe e acelerado a cidadania com esse objetivo.

Com o início da temporada dos Sixers e o joelho de Embiid sem responder bem à preparação, o episódio olímpico perdeu brilho. Um novo capítulo foi adicionado ao debate sobre Embiid: a busca por glória em Paris teria lhe custado a saúde.

Embiid e seu círculo descartam rapidamente essa ideia. “Compare com meu jeito de jogar contra Nova York”, diz Embiid. “Não, isso não me prejudicou.” Suas responsabilidades em Paris eram limitadas e o tempo de quadra, irregular. Ele diz que não estava 100%, mas o joelho e o corpo estavam bem.

“Ele estava bem para assinar o contrato, e bem para ganhar ouro”, diz Caspare. “Estávamos bem.”

OS 76ERS VACILARAM enquanto Embiid perdeu 17 dos primeiros 21 jogos da última temporada por lesão e suspensão da liga. Lesões de Paul George e do promissor novato Jared McCain agravaram o problema. O público ficou ávido por respostas. As velhas dúvidas de Embiid, aquela sensação de desgraça iminente que acompanhou algumas de suas contusões, começaram a dominar. Pós-temporada após pós-temporada, um rosto quebrado, um polegar estilhaçado, uma entorse no LCA, uma hiperextensão, rupturas de menisco, paralisia de Bell.

“Todo ano, você começa a se perguntar: ‘Por quê?’”, disse ele aos repórteres durante a série contra o Knicks. Em dezembro, ele voltou ao assunto, dizendo que lutava para não se sentir mal consigo mesmo.

E junto ao azar, vinha sempre isso: “Ele é tão grande e tão ágil”, diz Caspare. “São duas coisas contraditórias quando você salta, pousa, apoia e empurra.” Embiid é grande, denso e alto, mas possui características de atletas menores: ritmo, coordenação, fluidez assustadora. Martin compara Embiid a um caminhão manobrando como uma Ferrari. “É muita inércia”, afirma. “Basta uma pequena angulação fora do lugar e as articulações vão sofrer com esse abuso.”

Seu brilho anda lado a lado com seu risco. Sempre testemunhamos ambos.

E além desse risco estava o seguinte: ele nunca silenciou totalmente suas próprias dúvidas. As perguntas que persistiam em sua mente desde os tempos em The Rock, quando deixava os companheiros espantados com a ideia de levar uma vida normal, ou quando foi até o escritório de Self querendo redshirt e depois querendo ficar mesmo depois de virar unanimidade como escolha número 1 — essas vozes só foram apaziguadas recentemente.

Embiid ganhou seu primeiro MVP em 2023, mas só na temporada seguinte Hanlen sentiu que Embiid realmente assumiu todo seu talento. “Teve muitas vezes em que eu dizia: ‘Você é melhor do que pensa’”, comenta Hanlen. “No ano passado [2023-24], foi a primeira temporada em que, pra mim, ele teve o modo ‘f— it’. Ele simplesmente sabia: ‘Cara, sou bom o bastante pra impactar o jogo do jeito que quiser’.”

Embiid diz que, antes de machucar o joelho esquerdo contra o Golden State, estava perto do que considera sua forma final: 35, 12 e 7 rebotes com 50-40-90. “Já tinha visto de tudo. Não existia nada que pudessem jogar em cima de mim que me tirasse do eixo”, afirma. “Dos 16 aos 29 anos, e mesmo nesses 13 anos jogando basquete, perdi uns cinco anos em jogos… Do meu ponto de vista, foi uma progressão normal para quem começou a jogar tão tarde.”

A lesão do ano passado ameaçou desfazer todo esse trabalho, não só fisicamente, mas também psicologicamente. “Te digo que confiança, acreditar, isso pesa muito”, diz Caspare. “Ele nunca acreditou de verdade nele mesmo até bem recentemente, e aí ele se machuca pra valer.”

As pessoas próximas começaram a perceber o quanto ele estava mal. No fim das contas, foi Jameer Nelson, amigo, ex-jogador e hoje assistente de GM dos 76ers, quem procurou Embiid em setembro e indicou um terapeuta em quem confiava.

“Eu disse: ‘Nem a pau. Não acredito nisso aí’”, diz Embiid.

Mas ele confiou em Nelson, então começou a ir — e continua indo.

“Até hoje, estou 100% comprometido”, afirma Embiid. “Mas não vou dizer que um dia minha crença na terapia vai ser 100%.”

As sessões lhe deram uma narrativa sobre si mesmo, uma explicação que ele usa frequentemente. “Ceder à pressão de ter que jogar, de ter que ir pra quadra, não poder decepcionar os outros, esse tipo de coisa”, Embiid me conta. “Esse provavelmente é um dos motivos de eu estar nessa situação agora.”

A incerteza sobre o joelho reacendeu velhas tensões entre Embiid e o front office dos Sixers.

Depois de meses de incerteza, falsas reestreias e inchaços recorrentes, Embiid não aguentou mais. Em fevereiro, antes de uma derrota para o Milwaukee Bucks, Embiid disse a Lisa Salters, da ESPN, que precisaria de outra cirurgia, o que teria surpreendido a organização. Morey reconheceu essa surpresa na nossa reunião.

“Se você não quer me ouvir, eu preciso achar um outro caminho, garantir que vão me ouvir”, diz Embiid. “Quando falei isso pra Lisa, acho que era um pedido de ajuda… Parece que todo mundo se recusa a admitir o que realmente está acontecendo.”

NICK NURSE SAIU para comandar o treino enquanto Morey e eu permanecemos na sala de reuniões. Conversamos sobre o trabalho dele, sobre estar no meio da história de Embiid enquanto tantos falam como se estivéssemos no fim, sobre segurar vários futuros possíveis na cabeça ao mesmo tempo.

“É exatamente assim que penso”, disse Morey. “Pouquíssimas pessoas entendem isso de verdade.”

Mas a história pede um final. Então eu perguntei.

Perguntei a Morey sobre um possível futuro em que o joelho de Embiid não se recupere, um futuro em que ele nunca mais seja um jogador em nível de MVP.

Morey fez uma pausa.

Em setembro, ele e os donos dos 76ers apostaram $192,9 milhões contra esse futuro, uma extensão de três anos que pagará quase $70 milhões a Embiid aos 34 anos. Eles também apostaram no contrato de quatro anos e $212 milhões de George, um jogador habilidoso mas em declínio, cujo valor como terceira opção de elite só se justifica se ele for o complemento de uma superestrela campeã. Embiid é o tipo de jogador em quem se dobra a aposta, triplica. Você perde o emprego por causa dele. Some. Hinkie sumiu. O mentor de Hinkie, Morey, talvez ainda suma.

“Quer saber, retiro o que eu disse”, falou Morey. “Eu não acho…”

Morey nunca terminou a frase. Pensar nesse futuro percorreu seu corpo e toda a sala. Suas palavras se desfizeram numa gargalhada. Ele riu, e o responsável pela comunicação dos 76ers, que estava na sala, riu também, e eu ri, e nem sabia o motivo.

Morey levantou da cadeira e foi até a porta. “Hoje vou escolher pensar positivo”, disse ele, e saiu.

Visito Embiid novamente uma semana após sua cirurgia em abril, entro pela mesma porta, uso o mesmo banheiro, coloco as mesmas coberturas de sapato, caminho pelo mesmo corredor pálido, sento na sala do piano e espero. Ele está assistindo beisebol no celular novamente quando entra, com o joelho esquerdo envolto em gaze. Veste uma camiseta da Team USA, shorts dos Sixers e chinelos felpudos. Essa é sua segunda operação nesse joelho em 14 meses. Ele já começou a reabilitação.

Ele está resfriado. Sua voz está rouca, ainda mais baixa desta vez. Ele parece exausto.

Conto a ele o que aconteceu com Morey e depois faço a mesma pergunta para Embiid.

Ele me lança um olhar impenetrável. “Também estou a ponto de levantar e sair,” diz ele.

E tudo acontece de novo. Ele começa a rir em um chiado. Um membro da equipe dele que está sentado na sala começa a rir, e eu também começo a rir.

Quando acaba, Embiid está tossindo, com lágrimas nos olhos.

“Vai dar certo,” ele diz quando nos acalmamos. “Confio em mim, confio em Deus. É só fazer as coisas certas. Vai valer a pena. Então, não existe essa dúvida de se não vai dar certo.”

Pedi para os dois olharem para o abismo, para um futuro com salários que não conseguiriam justificar, carreiras que não poderiam salvar. Ambos riram na minha cara e disseram, é claro que não.

Mais cedo, fiz a ele uma versão mais ampla dessa pergunta. Pedi que imaginasse um futuro em que tivesse terminado de jogar basquete, independentemente das vitórias e derrotas que os próximos anos trouxessem.

Ele falou sobre escapar, viajar com a família, aproveitar os frutos do seu trabalho. Seu rosto estava cheio de expectativa. “No fim, vocês nunca mais ouviriam falar de mim,” diz ele. “Mal posso esperar.”

A SALA DO PIANO — ocupada por grandes pufes escuros, cortinas altas, uma lareira de mármore — parece saída de um catálogo. Às vezes Embiid e Arthur sentam-se ao piano para tocar algumas teclas, mas as únicas pessoas que realmente tocam são a irmã de Embiid ou Nurse quando algum deles aparece.

Mas acima do sofá onde Embiid se senta está pendurado um quadro, um retrato de Embiid vestido como um aristocrata. No peito, ele segura um Goldendoodle. Eu rio quando vejo pela primeira vez.

Embiid me conta que pegou o quadro do set de uma gravação da Mountain Dew. Um presente de brincadeira, quase não valeria menção, exceto pelo fato de ser a única coisa na sala que parece uma decisão feita por Embiid.

O Goldendoodle do quadro é Klaus Hinkie De Paula Embiid. De Paula é o sobrenome da esposa de Embiid. Hinkie é por Sam, o GM que o draftou e foi forçado a sair antes de Embiid jogar uma partida sequer na NBA. Klaus é o personagem favorito de Embiid em “The Vampire Diaries”, uma série que ele já reassistiu talvez 10 vezes.

Tudo isso parece engraçado até Embiid me contar que reassiste seus seriados favoritos para conseguir dormir à noite.

E não resta mais nenhum riso quando descubro que o cachorro dele, Klaus, morreu em outubro de 2020 por causa de ferimentos internos após um elevador fechar sobre ele. Como muitas das piadas de Embiid, o quadro contém fragmentos de sua dor.

“Perdi meu melhor amigo hoje de manhã!” Embiid postou no Instagram. “Conhecendo meu histórico, cachorros em casa sempre foi algo inédito e impossível, mas ter você me ensinou algo diferente sobre esse mundo em que vivemos.”

“Esse foi meu primeiro cachorro,” Embiid me conta depois pelo telefone. “Quando você tem isso, e tragédias como a do meu irmão, você não quer esquecer. Você sempre quer…”

Seu filho, Arthur, que vinha entrando e saindo da conversa, brincando de esconde-esconde, indo escovar os dentes a contragosto, volta, tendo perdido a luta para não ir dormir.

“Posso ganhar 21 abraços?” Arthur pede.

Eu escuto eles contarem os abraços.

“OK, te amo,” Embiid diz.

Quando Arthur sai, Embiid continua: “Não sei como as pessoas lidam com a morte. Mas eu sempre senti que preciso de coisas para me lembrar por que estou fazendo isso. A razão de eu estar nessa posição é porque me forcei por causa do que aconteceu com meu irmão. … A mesma coisa com o nascimento do meu filho.

“Às vezes, quando você passa e olha aquilo, meio que te faz lembrar. Mas, ao mesmo tempo, às vezes também tem efeito negativo. Quando volto para casa em Camarões, como fiz ano passado … tem muitas fotos do meu irmãozinho por toda a casa.

“Você vê, e simplesmente começa a chorar.”

“EU ESPERO QUE UM DIA alguém faça uma série ou, sei lá, escreva um livro sobre isso”, diz Embiid sobre seu tempo nos Sixers. “Passamos de GMs tendo contas falsas. E então tivemos grandes caras que draftamos, mas mesmo assim, aconteceram coisas que ninguém nunca conseguiu entender. O drama, Sam Hinkie sendo demitido, trazendo os Colangelos. Muita coisa aconteceu. E é disso que estou falando quando falo de continuidade. Começa lá em cima.”

De tantas maneiras que importam, ele está no topo. Por três gestões diferentes na diretoria, três treinadores principais, uma galeria de coadjuvantes fracassados, interrompidos rápido demais ou ainda em ascensão — Ben Simmons, Jimmy Butler, James Harden, Tyrese Maxey — Embiid tem sido a continuidade dos 76ers, e os modos como aprendeu a carregar ou evitar essa responsabilidade moldaram os 76ers à sua imagem.

Embiid aprendeu o jogo de forma solitária. Era autodidata, assistia a vídeos de Hakeem Olajuwon e replicava os movimentos. Impressionava Self e seus companheiros de Kansas com a rápida evolução de suas habilidades. Uma noite, antes de Kansas enfrentar New Mexico, Embiid entrou no quarto de um colega com o laptop aberto. Olha esse movimento, disse. Amanhã vou fazer isso.

E fez. Embiid pegou um alley-oop errado no contra-ataque, recuou para cima do defensor no garrafão e o deixou parado com um dream shake, finalizando com uma bandeja reversa por baixo. “Ooh! Ooh!” gritou o comentarista. “Olajuwon!”

Quando Hanlen e Embiid trabalham algo novo, Hanlen demonstra o movimento enquanto Embiid o circula, fazendo perguntas e narrando o que está vendo. “Mostra de novo. Mostra de novo. Mostra de novo”, diz Embiid. Depois, “Peguei.”

Mas a solidão inquieta em que cultivou seu talento não serve para liderar uma equipe. “Nunca quis ser um líder vocal”, Embiid me conta. “Meu jeito de liderar seria pela ação. Quando eu piso na quadra, seja jogando duro, carregando o time, fazendo o que for para nos botar em posição de vencer, foi assim que sempre me vi liderando.”

Seu primeiro treinador na NBA, Brett Brown, tentou guiar Embiid para o exemplo de outro pivô naturalmente quieto, Tim Duncan. Mas Duncan tinha a organização dos Spurs ao seu redor. Embiid tinha o Process, e todo o seu caos. E tinha uma conta no Twitter, onde assumia uma persona diferente daquela que companheiros e técnicos conheciam em privado.

“Você tenta se encontrar. Você realmente não sabe quem você é”, Embiid me diz, exasperado por como as tolices da juventude ainda o acompanham. “Tentei me tornar um pouco mais sério porque senti que aquilo era mais eu. … O lado zoeiro, que ainda faço, não consegui continuar porque aquilo simplesmente não era eu.”

A temporada e meia ao lado de Harden, com quem se tornou próximo, acelerou a evolução de Embiid como líder. Essa ligação ensinou a Embiid que a proximidade fora da quadra se traduzia em sucesso dentro dela. Maxey foi um dos grandes beneficiados dessa mudança. Foi Embiid quem aproximou Hanlen e Maxey. E no verão passado, quando Maxey assinou um novo contrato com os 76ers, creditou a Embiid o fato de ter sido o primeiro a apoiá-lo vocalmente. No training camp dos Sixers em outubro, Embiid foi o primeiro a destacar o promissor novato McCain.

Embiid fala sobre Harden com profundo carinho. Acredita que os 76ers desistiram rápido demais daquela formação. O que era necessário depois da queda no Jogo 7 contra Boston, em 2023, era ajustar detalhes, não um novo recomeço.

“Sempre volto a esse ponto, a continuidade”, diz Embiid. “Quando parece que você tem algo, ao invés de construir em cima, simplesmente começa tudo de novo. E tem sido assim todos os anos.”

FALTA DE CONTINUIDADE é mais do que só uma reclamação organizacional para Embiid, tem sido uma característica de sua vida desde que se dedicou ao basquete na adolescência. E, com os 76ers, as saídas são em parte por escolha dele.

Ele se recusa a se envolver nas decisões de elenco, só para depois reclamar delas. A saída de Jimmy Butler é o exemplo mais óbvio. Suas razões para isso estão enraizadas em sua própria história pessoal.

Ele se pergunta o que teria acontecido com ele se os 76ers tivessem uma estrela já estabelecida, com influência suficiente para trocá-lo no início da carreira.

“Sempre disse a mim mesmo que nunca seria responsável por alguém perder o emprego, ser trocado, ser demitido”, diz Embiid. “Não me pergunte se devemos contratar ou trocar alguém.”

É uma postura de princípios, mas também um desejo de ter algo que seu talento e status não lhe permitem: inocência. Quando Embiid joga sua obsessão recente de videogame, “MLB The Show”, ele faz trocas e mais trocas até seu time ficar invencível, só então joga, garantindo no faz de conta o que não pode ter na vida — uma garantia contra suas dúvidas, seu silêncio, seu azar, sua fragilidade, sua cumplicidade.

“Ninguém sabe disso, mas nem o James [Harden] fala comigo”, Embiid me conta. “Essa é a parte que não gosto de ser ‘o cara’, porque isso te coloca no meio dessas situações. Porque se você perguntar ao James, ele provavelmente acha que tive algo a ver com ele não estar aqui. E eu fico tipo: ‘Ganhei o título de cestinha. Você foi o líder de assistências. Tínhamos um pick-and-roll imparável.’”

“Dói quando você sente que não fez nada de errado”, continua. “Quando acha que tem esse tipo de relação com alguém… você perde muito.”

EMBIID CONVIDOU MARCY e Ric Hansen para um jogo dos Sixers no outono passado, em Orlando. Eles esperaram perto dos vestiários após o apito final, tirando fotos com Nurse e alguns jogadores até que Embiid estivesse vestido. Marcy me enviou uma foto dos três naquela noite. Embiid, usando um agasalho creme, está entre ela e Rick, com os braços ao redor dos dois.

“Ela é uma das minhas pessoas favoritas”, diz Embiid sobre Marcy. “Ela foi ótima comigo.”

“Nós conversamos sobre o filho dele”, diz Hansen sobre o reencontro. “E eu sei que ele está passando por coisas. Mas sinto que ele se estabilizou, ele está bem.”

Ela começa a chorar baixinho.

“Queria poder vê-lo mais. E ele provavelmente nem entenderia isso”, ela diz. “Sou mãe. E dei meu coração a ele como mãe. E nem sei se ele realmente recebeu dessa forma.”

Kim Caspare tem filhos de 5 e 2 anos, mas os amigos chamam Embiid de seu filho mais velho. Na primeira vez que conversamos, ela estava a caminho de liberar a babá. Quando menciono uma foto dela abraçando Embiid após ele ganhar o prêmio de MVP, ela começa a soluçar.

“Eu sei quantas horas nós investimos e ninguém soube… 365 dias, acho que trabalhamos 355 desses dias naquele ano”, ela diz. “Finalmente, ele foi reconhecido. Ele carregou um time inteiro. O 76ers não era tão bom naquela época. Ele foi o cara que os colocou no topo. Ele foi isso. Ele foi o cara.”

Ela e Embiid pararam de trabalhar juntos após as Olimpíadas. Não havia mais como equilibrar o trabalho com Embiid e as necessidades da família dela. Ela trabalha principalmente no escritório em Nova York, atendendo atletas de toda a NBA.

As pressões da primavera e verão de 2024 — a série contra o Knicks, a correria para chegar a Paris, a preocupação com a saúde de Embiid com uma grande extensão contratual em jogo — afetaram a relação profissional deles.

“Me senti muito impotente às vezes”, ela diz. “Perdi o meu cara. Ele não está presente. Não sei. Foi estranho.” Ele ainda aparecia por ela. Ainda se dedicava. Mas se afastou.

Embiid sabe que trabalhar com ele na preparação física é um trabalho que consome tudo. Ele entende o motivo de Caspare ter que se afastar, mas se dependesse dele, e da situação familiar dela, eles ainda estariam trabalhando juntos.

Estamos ao telefone e ouço algo em sua voz, algo reservado, bem diferente da pessoa que agora há pouco contava abraços com o filho.

“Posso te perguntar algo pessoal?”, digo, o que é ridículo. Tudo sobre o que falamos é pessoal.

Um pequeno silêncio. “Claro”, ele responde.

“Esse relacionamento está bem?”

“Se você quer honestidade”, ele diz. “Vou ser honesto.”

Sua voz ganha um tom mais duro: “Todos nós temos um trabalho a fazer e o meu, obviamente, é entrar em quadra e entregar resultado.”

Depois suaviza; ele está prestes a mostrar as feridas: “Simplesmente não era mais a mesma coisa. Senti que tudo mudou quando as coisas ficaram ruins.”

E agora dá para ouvir, ele acha que encontrou mais uma traição, mais um abandono. Não consegue perceber que, talvez desta vez, os papéis se inverteram: “Você quer que as pessoas estejam lá quando tudo vai bem, e quando as coisas vão mal, quer as mesmas pessoas em quem confia. E senti que não foi assim.”

Ele e Caspare trocam mensagens a cada alguns meses. Quando seus relacionamentos azedam, geralmente caem no silêncio. Ele se recolhe no seu vasto espaço de privacidade. Caspare acha que esse é o primeiro ano em que não será convidada para a festa de aniversário de Arthur.

“Nunca se sabe com Joel”, ela diz.

Perguntei se isso era difícil para ela.

“Dediquei minha vida inteira a ele — nove anos”, ela diz. “Sim, é meio difícil de aceitar.”

QUANDO EMBIID E EU conversamos pela última vez, no fim de junho, ele me diz que está fazendo algumas mudanças nesta offseason.

“Não vamos forçar nada”, ele diz. “Na minha carreira inteira, sinto que nunca seguimos essa abordagem.”

Uma semana antes, Morey disse estar otimista de que Embiid voltaria a tempo do training camp em setembro.

“Não temos um cronograma”, Embiid me diz. “Espero que seja mais cedo do que tarde.”

Pergunto se a organização apoia essa nova postura paciente dele.

“Não sei como eles se sentem. A única coisa que diria é — isto é um negócio”, Embiid me diz. “Tudo gira em torno de resultado… Se eu voltar cedo demais e não for eu mesmo, adivinha? Você não ganha nenhum jogo.”

Embiid, que diz que a única “mancha” em sua carreira é não ter anel, passou os playoffs como um retrato de desejo frustrado, dor demais para ver os jogos, dor demais para não mergulhar nas estatísticas. “Não quis saber dos playoffs”, ele diz. Por causa da reabilitação, não pisou em quadra. Restou só mandar mensagens ao amigo Tyrese Haliburton dos Pacers, para animá-lo na campanha até as finais.

Foi Haliburton quem trouxe Embiid de volta ao jogo. “Ele meio que me convenceu, continuou tentando me fazer assistir”, diz Embiid. Ele ligou a TV para ver Haliburton eliminar o Knicks nas finais do Leste.

Ignorou também as finais até que o fascínio pelo Jogo 7 se tornou irresistível.

Quando Haliburton saiu machucado, a cerca de cinco minutos do fim do primeiro quarto, com o tendão de Aquiles rompido, Embiid desligou a TV revoltado. “Inacreditável”, ele diz. “Cheguei a derramar uma lágrima.”

ESTAMOS FALANDO DE ARREPENDIMENTO. Ainda em seu quarto de piano com cortinas altas. Agora, já é começo de noite, a luz começa a escurecer.

“Eu queria que alguém tivesse me dito”, Embiid começa a dizer. “Sabe, quando você é jovem…”

Ele para, desvia para uma confissão surpreendente, não solicitada. Chegou atrasado à arena na noite em que marcou 70 pontos. Um dos maiores feitos de pontuação no basquete foi protagonizado por um jogador que teve que correr para vestir o uniforme, amarrar o tênis às pressas e pular o aquecimento. Ele se mostra meio envergonhado, meio orgulhoso ao dizer isso.

Eu o observo, tento ler sua expressão. Não acredito nele de início. “Você não acabou de dizer casualmente que chegou e fez 70 pontos sem aquecer, né?”

Ele me olha e diz: “Acho que sim.”

E por um segundo, não consigo dizer, depois de horas conversando com ele, meses observando-o, se isso é um daqueles testes de credulidade. Mas então seu sorriso começa a aparecer, devagar e astuto, até se abrir em risada, e eu entendo — ele está falando sério.

Ele me leva em uma viagem sentimental, por caminhos conhecidos. Primeiro, admite: “Esse não é o jeito certo. O certo seria chegar, fazer seu aquecimento.”

Então consegue, quase, se encarar: “Quando era mais novo, eu ainda cuidava de mim, mas não o suficiente.”

Ele dá um passo sem fôlego adiante, quase tocando o cerne escuro da questão, a narrativa que sustenta todas as outras, E se Joel fez isso consigo mesmo, e se a culpa é dele: “Não sei se isso poderia ter influenciado em algumas das lesões que tive.”

Antes de se recolher ao refúgio, ao consolo: “Como você impede alguém de dar uma cotovelada no seu rosto?”, ele pergunta. “Como impede alguém de cair no seu joelho? Não dá pra impedir. E aconteceu, uma ruptura de menisco, porque alguém caiu no seu joelho. Não importa o tipo de preparação que você faz.”

Suas fraquezas e seu azar não são mais verdadeiros do que sua coragem, sua força, seus sacrifícios, sua ascensão impressionante. Ele fez e é feito de tudo isso.

“Não é como se eu não tivesse me preparado. Eu me preparei”, ele diz. Embiid se agita, com os punhos enfiados na frente da camiseta, e mal consegue conter o turbilhão de questões não resolvidas. Ele se aprofunda. Não há lugar nele mais seguro que esse, nem narrativa mais perspicaz ou justificativa — ele está olhando em perspectiva. O quanto percorreu, quanto custou e quanto fez, o milagre disso tudo.

“Porque se eu não tivesse me preparado e não tivesse trabalhado duro, não tem como você começar a jogar aos 16 e chegar nesse nível, é impossível, não importa o que digam, e…”

E você sabe o resto.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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