[Clube do Livro] The Midrange Theory, de Seth Partnow

Clube do Livro - FilmRoom

Bem vindos a mais um episódio da série Clube do Livro do Bola Presa. Nesta edição vamos analisar um dos capítulos do livro “The Midrange Theory”, de Seth Partnow. O autor é um dos editores do Nylon Calculus, site muito influente na área dos estudos e uso de dados no basquete, e trabalho por três anos na área de pesquisa do Milwaukee Bucks. Ele escreve hoje para o The Athletic e em 2021 lançou “The Midrange Theory” para explicar como o basquete mudou ao longo dos anos devido ao uso maior de estatísticas e demais formas de análise de desempenho.

Por aqui vamos discutir o capítulo nove deste livro, o “Caçando Fantasmas: Avaliando a Defesa”, onde Partnow discute as dificuldades históricas dos entusiastas das estatísticas em medir desempenho defensivo com números.


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9. Caçando Fantasmas: Avaliando a Defesa

“As controvérsias mais ferozes são sobre assuntos para os quais não há boas evidências de um lado ou de outro.”
—Filósofo Bertrand Russell

Como contar todas as coisas que não acontecem? Em março de 2021, o presidente de operações de basquete do Philadelphia 76ers, Daryl Morey, participou do Rights to Ricky Sanchez, um podcast popular focado nos Sixers. Quando perguntado sobre o estado das métricas públicas que medem o impacto defensivo individual e como elas se comparam aos modelos proprietários das equipes, Morey riu: “Eu diria que as métricas defensivas públicas ‘all-in-one’ são todas muito ruins. Acho que, internamente, algumas equipes têm algumas razoáveis, mas nenhuma realmente boa.”

É com certo constrangimento que só agora, depois de mais de oito capítulos e dezenas de milhares de palavras, nossa atenção se volta à questão da avaliação da defesa. Esse atraso não foi um descuido, mas sim um reflexo do estado do conhecimento sobre defesa do ponto de vista estatístico. Simplesmente sabemos mais — muito mais — sobre como avaliar habilidades ofensivas e produção do que sabemos sobre defesa. Existem alguns métodos que são “razoáveis”, como diria Morey, para medir o impacto defensivo. Mas poucos que realmente descrevem as habilidades que geram esse impacto — em grande parte porque tendemos a pensar na defesa de maneira errada.

Olhos Longe da Bola

A maioria das estatísticas envolve ações ao redor da bola. Cada número representa um momento em que um jogador arremessou, recebeu ou perdeu a posse. Focar na bola dá uma boa ideia do papel ofensivo e do valor de um jogador, mas essa abordagem nos diz pouco sobre sua defesa.

Para começar, o nível de envolvimento é diferente. Os melhores defensores marcam a bola com menos frequência do que os melhores jogadores ofensivos a utilizam. Já mencionei em vários momentos que, embora a revolução estatística do beisebol tenha sido bastante útil para a análise do basquete, ela às vezes nos leva a caminhos errados. A defesa é um dos principais exemplos desse tipo de desvio, a começar pelo conceito de usage (uso da posse).

No ataque do beisebol, não existe usage. A ordem dos rebatedores é fixa; quando chega a vez de um jogador, ele vai para o bastão. No basquete, não há turnos. Stephen Curry poderia, teoricamente, arremessar em todas as posses do Golden State Warriors. Já Mike Trout, no beisebol, será responsável por no máximo um nono das aparições no bastão do Los Angeles Angels.

A capacidade do ataque de escolher quem será o protagonista da jogada torna impossível a existência de um “defensor referência”. Mesmo que o ataque jogasse apenas no um contra um, não haveria um único marcador que fosse o foco de atenção em noites consecutivas se seu time enfrentasse Curry e os Warriors em um jogo e Joel Embiid e os 76ers no seguinte.

Claro, os ataques da NBA são muito mais avançados do que apenas jogadas de mano-a-mano. Especialmente nos playoffs, as estratégias ofensivas buscam explorar os defensores mais fracos da equipe adversária. Seja forçando esses defensores a marcarem os principais jogadores ofensivos ou exigindo que defensores mais lentos — seja fisicamente ou na tomada de decisões — façam escolhas difíceis, os piores defensores são visados enquanto os melhores são evitados ou minimizados.

Se analisarmos a média de usage dos jogadores que cada defensor marcou como uma métrica de “uso defensivo”, veremos que a distribuição de usage ofensiva é muito mais ampla do que a defensiva. Segundo dados de rastreamento das últimas temporadas, a média de usage dos adversários que um jogador defendeu variava entre 18% e 22% para 90% dos jogadores, enquanto apenas um em cada quatro jogadores tinha taxas de usage ofensiva dentro de uma faixa tão estreita. Isso demonstra que a defesa é, por natureza, muito mais colaborativa do que o ataque na NBA atual.

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Mesmo analisar as responsabilidades defensivas dentro do conceito de usage perde um pouco o ponto. Na maioria das posses ofensivas, um ou dois jogadores serão os principais responsáveis pelo resultado da jogada. Os outros jogadores em quadra importam, mas o jogador com a bola é o mais relevante. É por isso que os ataques dão a bola aos seus melhores jogadores com mais frequência

Na maioria das posses defensivas, todos os cinco defensores estão pelo menos moderadamente envolvidos. Embora alguns jogadores cheguem perto, nenhum jogador da liga fica com a bola por mais da metade do tempo em que seu time está no ataque. A maior parte das contribuições defensivas de um jogador ocorre longe da bola — mesmo quando ele está marcando o eventual arremessador.

Lembre-se da bola de três pontos de Duncan Robinson que abriu o Capítulo 2, quando ele se livrou da marcação o suficiente para receber o passe, posicionar os pés e arremessar. Se a bola entrasse ou não, já era um mau resultado para a defesa. Mas essa falha pouco teve a ver com o que qualquer defensor fez depois do passe. A essa altura, o destino da jogada já estava praticamente selado. O sucesso, nesse caso, teria sido Robinson nunca conseguir espaço para receber e arremessar. Mas como podemos contabilizar todas as vezes em que um jogador ofensivo não conseguiu se livrar da marcação?

Equilibrar o que é bom e ruim sempre é um desafio, especialmente quando cada defensor tem múltiplas responsabilidades em cada posse, que às vezes o puxam para direções opostas. Isso nos leva à questão central da avaliação defensiva: quem leva o crédito ou a culpa? Muitas vezes, conceder um arremesso livre de três pontos não é principalmente culpa do marcador direto do arremessador. Algo mais aconteceu na posse para permitir que o jogador ficasse livre, e pode ser necessário voltar alguns segundos na jogada para identificar exatamente onde ocorreu a falha.

Cinco Defendendo Cinco

No mesmo episódio do podcast Ricky Sanchez, Morey opinou que a razão pela qual a defesa é difícil de medir é porque “depende muito do que o técnico quer que eles façam.” Se não sabemos o que cada defensor deveria fazer, como podemos determinar de quem é a culpa por Robinson ter se livrado da marcação?

Um defensor individual conseguir parar um jogador com a bola sozinho é um ótimo resultado. No entanto, os técnicos perceberam há muito tempo que os armadores da NBA são bons demais para que isso seja uma expectativa realista em todas as posses. Falhas defensivas vão acontecer, e cada equipe ensina sua própria dança altamente complexa de ajuda, recuperação e rotação para mitigar essas falhas. Quando Morey menciona “o que o técnico quer que eles façam” na defesa, ele está falando sobre isso.

As poucas estatísticas defensivas que temos hoje são influenciadas por essas preocupações táticas. Um exemplo notável vem do basquete universitário: ao interpretar os modelos de projeção de draft, analistas aprenderam a rebaixar mentalmente jogadores de perímetro que saem de Syracuse, porque o esquema de zona usado pelos Orange permite que seus defensores acumulem roubos de bola de maneiras que não refletem necessariamente sua habilidade individual.

Esses efeitos contextuais são mais sutis na NBA, pois não há a mesma diversidade estilística que existe no basquete universitário. Mas, se uma das principais utilidades da análise estatística é comparar o desempenho de um jogador com o de outro, a comparação deve ser, se não exatamente maçãs com maçãs, pelo menos entre frutas semelhantes.

Criar um “box score defensivo” é uma sugestão frequente. A ideia parte de um princípio correto: conquistas defensivas merecem ser registradas tanto quanto as ofensivas. Talvez, se um “triplo-duplo defensivo” fosse possível, começaríamos a notar e valorizar essas contribuições da mesma forma que distribuímos louros ofensivos.

O problema é que simplesmente não funciona, porque a defesa desafia a maneira como estamos acostumados a contabilizar as coisas. O lado defensivo do jogo não é apenas o reflexo invertido do ofensivo. Além da dificuldade normal em atribuir crédito corretamente, o alto grau de cooperação exigido na defesa torna o defensor mais próximo da jogada ainda menos responsável pela criação de uma estatística ofensiva do que um jogador ofensivo pelo seu próprio feito.

Voltemos ao nosso arremessador livre. Muitas vezes, o espaço que ele conseguiu para arremessar é um produto do design da jogada.

Não que os times queiram ceder arremessos livres — pelo menos, não mais. Hoje, a maioria dos jogadores representa pelo menos uma ameaça plausível da linha de três pontos. Mas a coreografia de ajuda e rotação que compõe um esquema defensivo dá a cada defensor regras sobre quando deve deixar seu marcador para ajudar em outro lugar e quando não deve.

Na maioria das vezes, as equipes preferem evitar situações onde precisem ajudar e depois se recuperar. Mas os jogadores da NBA são talentosos, assim como seus técnicos. Os ataques são desenhados para colocar os jogadores certos nas melhores posições, forçando uma defesa a se dividir entre múltiplas coberturas, o que frequentemente resulta em um arremesso livre para três pontos. A falha que resultou nesse arremesso, muitas vezes, ocorreu bem antes da assistência para o arremessador.

Determinar quando e por quê a estrutura defensiva de um time foi quebrada exige uma análise detalhada que não se adapta bem a uma solução estatística abrangente. Assim, as melhores ferramentas disponíveis atualmente operam em um nível mais geral. As métricas baseadas em RAPM (Regularized Adjusted Plus-Minus) ajudam nesse sentido. Elas fornecem, pelo menos, uma estimativa de quais jogadores estão mais associados a dificuldades do ataque adversário em pontuar enquanto estão em quadra. Entender como ou por quê um jogador tem esse impacto é complicado, mas pelo menos temos algum indicativo de que determinado jogador está fazendo algo certo. No entanto, todas as ressalvas sobre amostras pequenas, encaixe dentro de um sistema e variância da eficiência dos arremessos adversários ainda se aplicam.

Controle e Compensação

Essa incapacidade de medir a defesa corretamente não é nova, tampouco suas consequências. Inúmeros estudos ao longo dos anos já mostraram que o ataque tende a ser mais valorizado financeiramente do que a defesa.

A aplicação da análise estatística não mudou muito esse cenário, embora tenha alterado algumas de suas nuances. A figura do volume scorer — o jogador que acumulava pontos sem eficiência e era visto como uma estrela incontestável — hoje é tratada com muito mais ceticismo. No entanto, isso apenas levou a uma alocação mais eficiente dos salários dentro do ataque, em vez de transferir recompensas do ataque para a defesa.

Vale destacar que o simples fato de os jogadores ofensivos serem melhor remunerados não prova que suas contribuições estão supervalorizadas. Pelo menos em nível individual, o ataque parece ser mais importante.

O ataque determina, em grande parte, o estilo do jogo. Quando analisamos características como ritmo (pace) ou perfil de arremessos, fica claro que o ataque tem aproximadamente o dobro do controle em relação à defesa, tanto na NBA quanto no basquete universitário masculino. Conceitualmente, isso se deve ao fato de que é o ataque que tem a posse de bola e pode decidir como cada jogada será executada.

Parte dessa vantagem ofensiva vem da capacidade de escolher onde colocar a bola a cada posse. Daí surgem os “go-to guys” e a ampla dispersão do usage ofensivo, já mencionada antes.

Além disso, os jogadores ofensivos são melhor pagos porque suas habilidades são mais versáteis. Um grande pontuador é útil independentemente do adversário. Um ala que sabe pontuar trará valor ao seu time mesmo que o adversário tenha uma defesa de elite composta por Tony Allen, Marcus Smart e Scottie Pippen combinados. Apenas ocupar a atenção de um defensor desse nível já contribui para o ataque.

Por outro lado, um grande defensor de garrafão pode não ter tanta utilidade contra equipes que raramente jogam dentro do garrafão, pelo menos não com sua principal habilidade. Embora seja valioso ter um marcador que possa anular os poucos pivôs dominantes da liga, é mais fácil justificar pagar um jogador que pode contribuir em todos os jogos da temporada.

Mesmo se o estilo ofensivo de um jogador ficar ultrapassado, ele ainda pode ser útil. Se for suficientemente bom, sua habilidade contra a corrente pode até aumentar seu valor — um exemplo disso é Joel Embiid, que domina o garrafão em uma liga cada vez mais focada no perímetro.

Por outro lado, um jogador pode ver seu impacto defensivo se tornar obsoleto conforme a NBA evolui ofensivamente. Ao considerar um contrato de longo prazo — que normalmente carrega os maiores valores anuais —, o risco de que um jogador se torne “injogável” é um argumento adicional para evitar gastar fortunas em defesa.

Por fim, o simples fato de que o ataque é mais fácil de medir o torna uma aposta mais segura. Assinar um contrato ruim ao avaliar erroneamente um jogador é uma das maneiras mais rápidas para um gerente geral se tornar um ex-gerente geral. Portanto, não é surpresa que os grandes investimentos normalmente sejam feitos em jogadores ofensivos, em vez de defensores que podem acabar não valendo tanto assim.

Esforço Visível

Não estou aqui para criticar o basquete universitário. O produto da NCAA não é do meu gosto, mas tento não julgar. Com uma exceção: quando comentaristas ou torcedores afirmam que o basquete universitário é melhor porque os jogadores “realmente se esforçam na defesa”.

Há dois problemas com essa afirmação. Primeiro, é uma bobagem. Claro, você pode encontrar compilações de lances em que James Harden simplesmente desiste de uma jogada defensiva. Mas isso é a exceção, e não a regra — mesmo para defensores considerados preguiçosos. Se você realmente observar como os defensores trabalham longe da bola, tentando navegar pelos incontáveis bloqueios e movimentações que um ataque moderno impõe, verá que eles estão se esforçando.

Os jogadores da NBA são simplesmente mais inteligentes ao trabalhar do que os universitários. Todos nós tivemos mais energia do que bom senso aos 18 ou 20 anos, então isso não deveria ser uma surpresa. Se analisarmos os dados de rastreamento, jogadores no primeiro e segundo ano da NBA tendem a fazer mais trabalho na defesa do que nos anos seguintes. Não por coincidência, esses mesmos jogadores também tendem a ser defensores piores.

O segundo problema, e mais insidioso, com a ideia de que jogadores universitários “realmente jogam defesa” é que esforço e defesa não são sinônimos. Execução defensiva exige reconhecimento rápido e reação instantânea. Requer técnica, compreensão e disciplina. Claro, é preciso se esforçar para que essas qualidades tenham efeito, mas trabalho sem direção é trabalho desperdiçado.

Na verdade, atividade sem propósito pode ser até pior do que falta de esforço. Um defensor preguiçoso pelo menos pode ser contado para ficar parado em um determinado local. Seus companheiros sabem onde ele estará e podem se ajustar. Já um novato se movendo a toda velocidade em direções aleatórias a cada jogada? Isso é muito mais difícil de compensar.

Mas o olho humano é naturalmente atraído pelo movimento. O defensor que corre, gesticula, bate no chão e age de forma intensa parece estar fazendo algo. Em resumo, ele está mostrando esforço visível. Supervalorizar esse tipo de esforço é violar a famosa máxima de John Wooden: “Nunca confunda atividade com realização.”

Às vezes, os jogadores que demonstram muito esforço visível são, de fato, defensores de elite. Outras vezes, nem tanto. Em muitos casos, esse esforço é necessário justamente porque o jogador não tem o reconhecimento precoce e o posicionamento adequado, que são marcas de um defensor que trabalha de forma mais inteligente. Além disso, o excesso de esforço pode ser contraproducente. Um dos problemas comuns do estilo defensivo “peste físico” — muito comum entre os jogadores mais esforçados — é que eles concedem muitos pontos na linha do lance livre.

Por exemplo, esses jogadores tendem a cometer mais faltas em situações de bônus — faltas longe da cesta que dão dois lances livres ao adversário. Exceto por cometer uma falta em um arremesso de três pontos, provavelmente não há erro pior para um defensor. Dar dois lances livres transforma uma posse com expectativa de algo entre 0,9 e 1,0 pontos para o ataque em uma com expectativa de 1,5 a 1,6 pontos. Além disso, diminui a expectativa da posse ofensiva seguinte. Simplificando, provavelmente custa cerca de um ponto por falta.

Agora, essas faltas acontecem. Defesa na NBA exige contato físico, e muitas dessas situações estão no limite entre o que é permitido e o que é falta. Ainda assim, alguns jogadores são consistentemente ais propensos a usar as mãos demais e, por isso, acabam cometendo mais faltas. Na última década, estes foram os maiores culpados desse tipo de erro:

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A coluna de “faltas extras” representa a taxa na qual cada jogador cometeu mais faltas além da média, levando em conta o tempo de jogo e as mudanças da liga.

Ocasionalmente, essas faltas valem a pena, sendo apenas o custo de algumas tentativas extras de roubar a bola ou cavar faltas de ataque. Chris Paul foi pego com a mão no pote de biscoitos mais do que a maioria, mas também é um dos melhores ladrões de bola da NBA. Frequentemente entre os líderes em roubos ao longo de sua carreira, ele também se destaca nos modelos de RAPM que estimam seu impacto forçando turnovers de todos os tipos.

Paul à parte, a lista está cheia de jogadores que demonstram “esforço visível”. Alguns parecem ter causado um forte impacto defensivo de acordo com o DRAPM e outras métricas, mas há também alguns que possuem reputações defensivas “de elite”, enquanto as métricas de impacto sugerem que eles foram apenas muito bons. Essas faltas extras podem explicar parte da discrepância entre reputação e impacto; como cada falta a mais em situação de bônus custa cerca de um ponto, a taxa com que essas faltas são cometidas é uma boa estimativa do quanto as faltas prejudicaram o impacto defensivo do jogador.

O mesmo excesso de agressividade que leva a essas faltas desnecessárias também pode resultar em faltas em arremessadores. Embora os dados sobre a localização das faltas em arremessos não sejam perfeitos, Avery Bradley e P.J. Tucker estão entre os 10 jogadores que mais cometeram faltas em arremessos de média distância e de três pontos nas últimas temporadas. No entanto, tendemos a notar as faltas cometidas em arremessos contestados, mas temos dificuldade em contabilizar todas as faltas que não aconteceram devido a desafios mais controlados.

O Mito da Defesa Contra Arremessos de Três Pontos

Mesmo as lições mais difíceis já aprendidas sobre a avaliação adequada de estatísticas no basquete falham quando aplicadas ao lado defensivo da quadra. Por exemplo, sabemos que, para valorizar a contribuição de um jogador na planilha de estatísticas, a contribuição marginal para os totais da equipe é mais importante do que a simples acumulação de números. Para diferenciar entre inflar estatísticas baseadas no princípio de que ‘colocamos cinco jogadores em quadra por 48 minutos’ e trazer um impacto real, precisamos considerar a eficiência com que o jogador utilizou os minutos, arremessos e posses de bola necessários para alcançar esses números.”

Seguindo esse raciocínio, por que não comparar a eficiência normal dos arremessadores adversários com o aproveitamento registrado contra cada defensor individual e usar essa diferença para medir a defesa?

Por mais elegante e direta que essa ideia pareça, ela equivale a tentar modelar padrões a partir do ruído atmosférico. Embora existam algumas situações específicas — como a proteção do aro — em que essa abordagem pode fornecer insights, esses são casos excepcionais. De maneira geral, a porcentagem de arremessos permitida não é um bom indicador da qualidade da defesa individual.

Para esclarecer, não estou dizendo que todas as defesas contra arremessos são irrelevantes. Claramente, há formas melhores e piores de contestar um arremesso. Um bloqueio limpo no momento do arremesso é uma contestação perfeita. Por outro lado, não fazer absolutamente nada — ou pior, cometer uma falta — é um fracasso total.

Mais do que isso, ações como ‘se aproximar de um arremessador’ reduzem previsivelmente os percentuais de acerto. Os dados disponíveis publicamente permitem que isso seja analisado em faixas de distância entre o arremessador e o defensor. Como os dados de rastreamento estimam o posicionamento dos jogadores com base na ‘massa central’, essas distâncias são medidas de peito a peito, e não pela proximidade da mão contestadora em relação à bola no momento do arremesso. Um defensor com envergadura típica da NBA pode estar a uma distância de cerca de um metro e vinte do arremessador e ainda assim alcançar a bola com o braço estendido.

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Este gráfico ilustra o grau em que a proximidade defensiva afeta os resultados, pelo menos de forma agregada. A precisão aumenta gradualmente à medida que a distância do defensor mais próximo cresce, até que o arremessador tenha cerca de três metros de espaço. A partir desse ponto, os arremessos se tornam basicamente arremessos de treino, que a liga como um todo converte em torno de 41% das vezes durante os jogos. Mas se a distância defensiva é o principal determinante da precisão nos arremessos de média e longa distância, ainda precisamos perguntar: até que ponto estar mais próximo, em média, dos arremessadores adversários é uma habilidade individual, e até que ponto é resultado de esquemas defensivos, emparelhamentos e das circunstâncias naturais do jogo?

Além disso, embora chegar mais perto dos arremessadores ajude a forçar mais erros, isso também faz com que potenciais arremessadores optem por fazer outra coisa com a bola. O modelo de avaliação que compara acertos e erros falha em considerar um segundo desfecho defensivo, talvez ainda mais positivo e sustentável: marcar o jogador de forma tão eficaz que o arremesso nem sequer aconteça.

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Isso ilustra bem o problema da medição estatística da defesa individual. No ataque, a combinação entre a tomada de decisão e a capacidade de execução do jogador pode ser analisada conjuntamente. Na defesa, isso não acontece da mesma forma. Tentar replicar essa abordagem no lado defensivo resulta, na melhor das hipóteses, em uma medição de quem um jogador marcou e uma grande quantidade de variação aleatória.

Proteção do Aro

Na entrevista ao Ricky Sanchez, Morey comentou: “Os pivôs são um pouco mais fáceis de avaliar defensivamente do que os jogadores de perímetro. Isso porque os pivôs geram muito valor defensivo por sua capacidade de dificultar arremessos no garrafão, desencorajar ataques à cesta e, por fim, garantir o rebote defensivo. Esse é o aspecto mais mensurável da defesa.”

Enquanto a defesa contra arremessos de três pontos individualmente não é um fator estatístico confiável, o oposto ocorre com a defesa no garrafão. Isso pode ser provado estatisticamente, mas também faz sentido conceitualmente. Como mencionado anteriormente, contestar um arremesso de três pode levar o jogador a não arremessar. Mas perto do aro, isso não ocorre com tanta frequência.

Diferentemente dos arremessos de três pontos, onde uma defesa próxima reduz a porcentagem de acertos a tal ponto que o arremesso nem deveria ser tentado, mesmo os arremessos fortemente contestados perto da cesta ainda são opções razoáveis. Especialmente ao considerar a maior probabilidade de faltas no arremesso ou rebotes ofensivos em tentativas próximas, raramente é um grande erro para um jogador ofensivo pelo menos tentar pontuar no garrafão. Assim, uma proporção maior das chances de pontuação resulta em um dos ‘resultados verdadeiros’ — acertos ou erros — com muito menos casos de um potencial arremessador optando por outra ação, como acontece nos arremessos de três pontos.

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Em parte devido à amostra mais limpa resultante, a porcentagem de arremessos de campo permitida em tentativas contestadas no garrafão é relativamente consistente entre os defensores, especialmente entre alas-pivôs e pivôs. Jogadores ofensivos geralmente têm dificuldades para finalizar contra Rudy Gobert ou Brook Lopez, enquanto tendem a ter muito mais sucesso contra Enes Kanter e Kevin Love.

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Vendo o Tabuleiro Todo

Ainda há um elemento de esquema tático e contexto envolvido na proteção do aro. A frequência com que cada jogador está em posição para contestar arremessos no garrafão é, em parte, uma função das táticas defensivas; quanto mais agressivamente um pivô sai para marcar no perímetro, menor será o número de arremessos que ele contestará perto da cesta. Essa relação é um dos pontos centrais da popularidade da drop coverage nos últimos anos, na qual pivôs menos móveis, mas muito altos e fisicamente robustos, recuam na defesa do pick-and-roll, quase convidando os armadores adversários a tentarem bandejas e floaters contestados.

Isso leva a alguns problemas diferentes. O primeiro não é novidade: distinguir a contribuição individual do jogador do contexto da equipe. Mas o problema maior é que a defesa deve ser analisada de forma holística. É preciso ter cuidado ao examinar a defesa em detalhes microscópicos, pois focar demais em um aspecto pode nos cegar para os compromissos e trocas que estão sendo feitos.

Voltando ao exemplo da proteção do aro, enquanto a eficácia das contestações de um jogador no garrafão é relativamente fácil de interpretar — uma porcentagem menor de aproveitamento adversário sempre é melhor — outros aspectos não são tão diretos. A proporção de arremessos adversários no aro que um jogador contesta geralmente é um indicativo positivo, mas há um equilíbrio a ser encontrado.

No capítulo anterior, discutimos como, no jogo atual, uma defesa precisa se preocupar com duas áreas amplamente separadas da quadra: a área do garrafão e a linha de três pontos. Focar excessivamente em uma pode deixar a outra exposta. Um defensor interior que se concentra demais em proteger o garrafão pode estar fazendo isso à custa de ajudar seus companheiros a proteger o perímetro.

Isso talvez fique mais claro com um conceito relacionado: a dissuasão de arremessos no aro (rim deterrence). Embora a defesa tenha muito mais controle sobre a eficiência dos arremessos adversários no garrafão do que sobre arremessos mais distantes, ainda assim é preferível limitar as tentativas adversárias no aro desde o início.

Ter um pivô capaz de patrulhar o garrafão a ponto de desencorajar essas tentativas e forçá-las para mais longe da cesta é ótimo… desde que todo o resto permaneça igual. Mas essa dissuasão pode vir ao custo de oferecer menos suporte à defesa da linha de três pontos.

O Rim Adjusted Deterrence (Dissuasão Ajustada para o Garrafão) é uma estimativa baseada no RAPM do impacto de um jogador sobre a proporção de arremessos adversários que ocorrem na área restrita. Alguns dos pivôs mais bem classificados no RAD (como Brook Lopez, Nikola Vučević e Nikola Jokić) são frequentemente utilizados na drop coverage a ponto de suas equipes terem dificuldades para defender o perímetro. Focar apenas na dissuasão de arremessos no aro obscurece se essa estratégia está realmente ajudando a defesa como um todo. Talvez o jogador esteja protegendo bem o garrafão e permitindo que seus companheiros apliquem mais pressão no perímetro — como acontece com Rudy Gobert — ou talvez ele esteja simplesmente se escondendo perto da cesta e concedendo espaço demais na linha de três pontos.

Até que cheguemos ao ponto em que possamos realmente ver como os jogadores afetam e influenciam as decisões ofensivas, provavelmente continuaremos dependendo de uma combinação de métricas rudimentares, observação cuidadosa e suposições. Isso pode ser insatisfatório, mas dizer “eu não sei” geralmente é uma resposta melhor do que projetar uma falsa confiança. E, quando o assunto é defesa, há muito mais que não sabemos do que aquilo que realmente compreendemos.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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