Como o Lakers venceu a temporada sem fim

Algum desavisado pode até achar que o título do Los Angeles Lakers na temporada 2019-20 foi tranquilo. O time assumiu a ponta da Conferência Oeste logo na primeira semana da temporada e nunca mais perdeu a posição, esteve sempre entre as melhores defesas da liga, só duas vezes viveu uma sequência de ao menos duas derrotas, não sofreu nenhuma baixa por lesão ao e seus dois melhores jogadores entraram no primeiro time All-NBA. Nos Playoffs, perdeu apenas um jogo em cada uma das três primeiras rodadas até vencer a decisão contra o Miami Heat, uma quase zebra de elenco jovem que sofreu com desfalques. Troféu, champanhe e todo mundo de volta pra casa. Mas existe Lakers sem drama? Sabemos que não.

Nos eternos 360 dias entre a apresentação oficial do time no Media Day e o Jogo 6 de decisão, o Lakers esteve no centro ou no entorno de todos os eventos inesperados de uma das temporadas mais dramáticas e oficialmente a mais longa de toda a história da NBA. O slogan “deixe um legado” usado pela franquia nos Playoffs usa uma palavra batida e vaga, mas é certeza que quem saísse campeão dessa aventura estaria certamente com o nome na história. É importante não esquecer como chegaram até lá.

Tudo começou na polêmica envolvendo o governo chinês e um tuíte feito por Daryl Morey, General Manager do Houston Rockets, defendendo os protestos anti-China em Hong Kong. De um lado, Pequim exigiu a cabeça de Morey, um pedido de desculpas e cortou a transmissão dos jogos da liga na TV estatal por toda a temporada. Do outro, Adam Silver tentava se equilibrar entre acalmar um mercado bilionário enquanto defendia o direito dos membros da liga se expressarem. O resultado foi todo mundo insatisfeito: a China não cedeu porque esperava uma punição, e a opinião pública americana acusou a NBA de ser vendida por não reagir de maneira ainda mais intensa contra a tentativa de interferência externa. No meio desse sanduíche estragado estava o Los Angeles Lakers, que estava a caminho da China para um amistoso contra o Brooklyn Nets quando a bomba estourou. O elenco chegou no país perdido, acuado, vendo pela janela do hotel cartazes que anunciavam a partida sendo arrancados e recebendo a informação que os compromissos comerciais de todos os envolvidos estavam cancelados. Houve o caso de ao menos um jogador do elenco que iria aproveitar a viagem para fechar um patrocínio de 1 milhão de dólares com uma empresa de lá e o acordo EVAPOROU. Houve ainda um treino do Lakers cancelado porque funcionários da arena apareceram de repente para arrancar os logos de patrocinadores do piso da quadra. O técnico Frank Vogel disse que de repente todos se viram assustados e com medo por serem quase inimigos de estado num país distante e autoritário. E a temporada não tinha nem começado pra valer.

Depois disso tivemos o terrível mês de Janeiro, que começou com a morte do ex-comissário da NBA David Stern e acabou com o trágico acidente de helicóptero que matou Kobe Bryant, sua filha Gianna e mais sete pessoas. No dia anterior LeBron James havia passado Kobe na lista de maiores pontuadores da história da liga e uma ligação entre os dois, em viva-voz com o restante do elenco, tinha sido o grande momento do grupo no fim de uma longa viagem pela costa leste. O acidente pegou de surpresa o time num voo, como na China, com todos descobrindo o fato enquanto voltavam para Los Angeles. A semana seguinte foi de peregrinação de torcedores rumo ao Staples Center, que se tornou um enorme memorial para o ídolo. Embora a liga tenha continuado suas atividades, o Lakers ganhou o adiamento de um jogo para lidar com a situação. Não só Kobe tinha sido o maior herói da história da franquia, como ainda tinha relação muito próxima com uma enormidade de funcionários do clube, desde seu ex-empresário, melhor amigo e hoje General Manager Rob Pelinka até a dona do time Jeannie Buss e quase todos os jogadores, especialmente LeBron e Anthony Davis.

O primeiro jogo do time após a morte de Kobe foi praticamente um funeral com 20 mil pessoas de público, pesadíssimo até pra nós assistindo em casa. Uma temporada que já tinha a pressão da mera presença de LeBron, da certeza da idade chegando e de tudo que abriram mão para trazer Davis, ganhou ainda uma campanha de “vençam por Kobe” incentivada pela torcida e abraçada pela própria equipe. E então, no melhor momento do time, quando venceram os rivais diretos LA Clippers e Milwaukee Bucks no meio da sequência mais desafiadora de jogos do ano, o campeonato parou por tempo indeterminado no meio da pandemia de Covid-19. Começou a incerteza sobre se teríamos fim de temporada e o Lakers, líder, com elenco veterano e contratos curtos apareceu como um dos grandes perdedores de um possível cancelamento. Quando finalmente chegou a tal da Bolha, o Lakers foi o único dos favoritos a perder um titular, Avery Bradley, que por motivos pessoais não quis se isolar do mundo por três meses. E nem vou me aprofundar no dia do BOICOTE do Bucks durante a Bolha em nome da luta contra o racismo, que quase acabou com o experimento da NBA e que resultou numa reunião tensa entre os jogadores onde os atletas do Lakers chegaram a dizer que talvez o melhor fossem todos só ir pra casa mesmo.

Carushow

Claro que a temporada foi longa e desafiadora para todos os times, especialmente quando falamos da paralisação pela pandemia, do retorno na Disney e das decisões morais a serem tomadas sobre como agir frente aos maiores protestos raciais dos últimos 50 anos nos Estados Unidos. O ponto interessante é que vários desses dramas envolveram diretamente o Lakers, especialmente a semana tensa na China e a morte de Kobe, e obrigaram o time a se unir para responder os problemas externos. Apesar de muita coisa extra quadra, é a primeira vez nos últimos dez anos que o drama do sempre dramático time de Hollywood vem de fora, não de dentro. Não estamos discutindo picuinhas entre os jogadores, técnicos ameaçados, elencos rachados, contratações desastrosas, uma dona demitindo o próprio irmão, contratos bisonhos, pedidos de troca ou atletas insatisfeitos. Pelo contrário, o tema da temporada 2019-20 foi o de um grupo unido, amigo e que usava a camaradagem do vestiário para superar as dificuldades externas.

E não é como se isso fosse previsível. O histórico de LeBron James é o de alguém bem duro com seus técnicos e companheiros de time, especialmente os que ele não escolheu. Mas ele não só respeita Vogel como abraçou todo seu plano de jogo e não o questionou com indiretas em entrevistas nenhuma vez, algo constante na sua carreira. O elenco ainda tinha Rajon Rondo e Dwight Howard, dois veteraníssimos que quase caíram fora da NBA de tantos problemas que arranjaram em vestiários liga afora. E Anthony Davis, um bom moço que vinha de uma temporada onde desafiou todo mundo no New Orleans Pelicans e praticamente se recusou a jogar para forçar uma ida ao Lakers. Na própria comissão técnica parecia existir uma receita para o fracasso: o escolhido Vogel havia sido só a TERCEIRA OPÇÃO do time e todo mundo sabia disso porque a informação tinha vazado para a imprensa. Antes dele o time havia tentado Tyronn Lue, que pediu mais dinheiro do que o Lakers queria pagar, e Monty Williams, que preferiu 0 contrato de cinco anos oferecido pelo também em crise Phoenix Suns ao invés do acordo de apenas duas temporadas do Lakers.

A pressão sobre Vogel ficou ainda maior quando o time chamou Jason Kidd como seu principal assistente. O ex-jogador também havia sido entrevistado pela vaga, Pelinka gostou dele mas preferiu Vogel. Como todos lembram, ele foi chutado do Brooklyn Nets e depois do Milwaukee Bucks por desavenças internas que envolviam ele querendo poder demais, mandar demais e passar por cima quem estava acima dele. Para piorar, LeBron é muito fã de Kidd. Antes mesmo de Vogel assumir ao lado da comissão técnica que ele não escolheu já existia todo um cenário imaginado sobre como um começo ruim poderia fazer LeBron começar um lobby pela cabeça do treinador em nome de um assistente de quem ele gostava mais. Parece um exercício muito profundo de conspiração? Bom, ele nasceu não só pela fama de Kidd, mas porque LeBron fez isso para derrubar David Blatt e colocar Tyronn Lue no comando do Cleveland Cavaliers em 2015-16.

A cereja do bolo foi o timing do anúncio de Vogel como o novo treinador, exatamente no mesmo dia que Magic Johnson foi a um programa de TV dizer que deixou a presidência do Lakers porque havia sido “apunhalado pelas costas” por Rob Pelinka, novo manda-chuva que era seu braço direito e que horas depois estaria apresentando o treinador para imprensa e torcida. E tem mais: depois de mandar quase todo o time em troca de Davis e não contratar nenhum Free Agent na primeira semana de mercado, na esperança de conseguir atrair Kawhi Leonard, o Lakers perdeu seu alvo para o principal rival e montou o resto do elenco “em três horas”, segundo Vogel. Ele ligou para Danny Green, JaVale McGee, DeMarcus Cousins e Rajon Rondo para explicar o que esperava deles caso fechassem com o Lakers. Um catadão de nomes conhecidos, mas ainda um catadão.

Pois a coletiva de imprensa de Vogel correu muito bem, assim como a relação do técnico com Kidd, LeBron e todo o elenco escolhido às pressas. Em entrevista ao Zach Lowe, Vogel diz que se emocionou quando, após a conquista do título, Rondo foi até ele agradecer pela confiança ao longo do ano. O cara que mais brigou com técnicos na última década agora era parça da terceira opção do Lakers que fez um trabalho irrepreensível! Em entrevistas para o Los Angeles Times durante os Playoffs, os jogadores elogiaram muito o grau de dedicação e estudo do treinador, reforçando o quanto eles sentiam que sempre estavam preparados para qualquer coisa que o adversário pudesse fazer. Disse Anthony Davis: “Ele chega em mim e em LeBron com muitas perguntas e ideias e damos nossas opiniões sobre algumas coisas, mas acreditamos nas decisões dele. Ele monta o plano de jogo, ele passa horas e horas vendo vídeos dos jogos e preparando os esquemas para decidir a melhor receita para nosso sucesso”. E o catadão? Vimos as melhores versões de Rondo e Dwight em anos, a ascensão de Alex Caruso e uma temporada de redenção de Caldwell-Pope.

Arriscaria dizer que a tempestade perfeita do Los Angeles Lakers é fruto de três fatores. O primeiro é a já citada crise unificadora, problemas externos que atropelam qualquer chance de crises internas por forçar o grupo a se unir e se defender do que vem de fora ao invés de criar picuinhas do lado de dentro. Para os entusiastas dos quadrinhos, é como se uma invasão alienígena fosse a melhor solução para evitar um confronto nuclear no auge da Guerra Fria. Nada melhor que um inimigo externo em comum para unir todos os lados.

O segundo fator é ter um elenco na mesma página. As trajetórias dos jogadores e técnicos do Lakers são todas bem distintas, mas muitos dos personagens principais encararam essa temporada como uma chance única não só de fazer história, mas de criar  uma nova imagem e uma nova carreira. Todos tinham suas razões para encarar esse ano com URGÊNCIA, e por isso que vimos o elenco abraçar a ideia de ser um time físico, intimidador e focado na defesa mesmo nos jogos da sempre morna pré-temporada.

A primeira e mais importante peça é LeBron James, que sabe que já está na fase final da sua carreira e que não pode jogar fora qualquer chance de ganhar mais um título na sua luta para ser o maior de todos os tempos, desperdiçar uma temporada ao lado de Anthony Davis era impensável. O próprio Monocelha repetiu ao longo dos Playoffs o quanto sonhava em ter essa chance, ter um time que o colocasse em posição para, nas suas palavras, “descobrir o quanto sou mesmo bom”. É a ânsia de alguém que transborda talento mas que nas últimas sete temporadas nunca teve a perspectiva de brigar por algo grande. E temos também  Caruso em busca de um contrato e de ser mais que um meme, Dwight querendo uma redenção não só com a torcida do Lakers que o execrou há oito anos, mas com ele mesmo, com a ideia de que ainda pode fazer a diferença em um time bom da NBA e se aposentar com uma conquista. Abordagem parecida com a de Rondo, outro que já foi grande e até outro dia era visto como pária por 90% dos vestiários da liga. Temos ainda Vogel, que nem era mais comentado em especulações sobre vagas abertas depois de um trabalho bem fraco no Orlando Magic e até o citado Kidd, que precisava melhorar sua imagem para além de copos de refrigerante esparramados e golpes. Coloque no mix Caldwell-Pope querendo mostrar que era mais que agrado à Klutch Sports e Avery Bradley buscando recuperar espaço na NBA depois de passagens decepcionantes por Detroit Pistons, LA Clippers e Memphis Grizzlies. Na linguagem boleira, era um elenco COM FOME.

Por fim, a terceira e importante chave do sucesso foi o sucesso rápido. Desde o plano de jogo de Vogel até o entrosamento de LeBron a AD, tudo deu certo logo de cara e reforçou para todos os envolvidos que estavam no caminho certo. Não houve má fase, crise ou momento de adaptação para que alguém fosse questionado ou para que alguma liderança fosse colocada contra a parede. Algumas derrotas incômodas revelaram problemas do elenco, como a falta de um segundo criador de jogadas (afinal Playoff Rondo é só nos Playoffs) e a inconsistência dos arremessos de 3 pontos, mas nada que tenha forçado o time a repensar tudo ou fazer uma troca desesperada. Sabemos como todos perdoam tudo quando o time está vencendo. De repente o Lakers virou um poço de estabilidade.

Vogel

No fim das contas o Lakers venceu apostando na ideia de que é uma franquia especial. Foram anos de planejamento indeciso e atitudes desconectadas da realidade alimentadas pela certeza de que em algum momento conseguiriam atrair as estrelas, montariam um super time e venceriam tudo de novo. Foram anos de chacota por um pensamento mágico de que apenas história e o “peso de camisa” resolveriam problemas de estrutura, competência e organização. Mas não é que aconteceu mesmo? LeBron James decidiu que, sim, gostaria de fazer história na franquia com mais história e foi pra lá mesmo que o resto do elenco gritasse que a aventura não o levaria a lugar algum. A decisão até custou caro na sua primeira temporada na Califórnia, mas logo LeBron conseguiu atrair seu amigo AD com a ajuda do agente Rich Paul e, como prometido e anunciado de maneira quase religiosa pelos líderes angelinos, aí está o Lakers de novo com duas das maiores estrelas do basquete e erguendo um troféu de campeão.

Não recomendo a trajetória e não garanto que irá dar certo de novo, mas por um ano o Los Angeles Lakers deixou as crises internas de lado, encarou o furacão do lado de fora e foi o melhor time da NBA.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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