Dedo do técnico

A expressão “dedo do técnico” é usada em dois casos no comentário esportivo: (1) para falar da influência direta e de fácil percepção de um treinador em uma característica da equipe que ele comanda ou (2) piadas de mau gosto. Para nossa sorte, hoje só vou trazer o primeiro caso. Com tantos técnicos novos assumindo o comando de diferentes times na NBA em 2020-21, será que já conseguimos ver após duas semanas de jogos a influência das novas ideias dentro de quadra? Com pouco tempo de preparação antes da temporada começar e com um calendário tão corrido que não permite muitos treinos entre as partidas, o ambiente não é o ideal para revoluções, mas mesmo assim algumas equipes já parecem bem diferentes.

Começamos com o time de melhor campanha nessa jovem temporada, o Philadelphia 76ers do técnico Doc Rivers. Por um lado, os adversários até aqui não foram dos mais complicados (Wizards, Knicks, Cavs, Raptors, Magic e duas vezes o Hornets), por outro, eles mostraram o domínio absoluto na defesa que a gente espera de um favorito que tem dois dos melhores marcadores da NBA quando enfrentam ataques limitados. Era também o que a gente esperava em 2019-20 e nunca vimos acontecer.

Além da defesa sufocante, surpreende também a movimentação de bola mais rápida. Depois de um jogo onde deu bons passes ao receber marcação dupla no garrafão, Joel Embiid foi perguntado sobre uma suposta evolução nessa parte do seu jogo e respondeu com excesso de sinceridade: “Acho que o que aconteceu é que recuperei meu amor por passar a bola. Ano passado eles dobravam, eu passava e errávamos um monte de arremessos, é frustrante. É quando você começa a pensar que precisa fazer tudo sozinho”.

Doc

É por isso que aqui não dá pra creditar apenas Rivers, mas também Daryl Morey, outro recém-chegado, pelas suas contratações. A presença de Seth Curry, Danny Green e até do novato Tyrese Maxey nos últimos jogos tem ajudado muito o time a punir as óbvias dobras que Embiid recebe toda vez que está perto da cesta. Como todos sabiam, era essencial para esse time conseguir especialistas em arremessos de longa distância. Como Rivers não é mágico, Ben Simmons ainda não é um desses especialistas, mas o treinador tem dito que um dos focos dele é ajudar o armador a se mexer melhor e cortar em direção à cesta no timing certo para punir essas dobras. No lance abaixo vemos a dobra em Embiid e como o corte de Simmons impede que Gordon Hayward saia na cobertura de um livre Seth Curry:

Mas talvez a maior revolução no Sixers tenha sido o nível de jogo de Tobias Harris, eleito melhor jogador da última semana no Leste com médias de 23,3 pontos, 9,7 rebotes e 4 assistências por jogo. Ele está acertando absurdos 47% dos seus tiros de longa distância, puxando contra-ataques e atacando a cesta quando abre-se qualquer espaço. Sabíamos que ele se beneficiaria muito de um garrafão menos congestionado, mas a precisão de longe é uma grata surpresa. A última vez que ele tinha arremessado tão bem de longe tinha sido justamente no seu tempo de LA Clippers quando era treinado pelo mesmo Rivers. Ele acertou 44% dos seus tiros de longe por lá antes de ir acertar só 31% (!!!) na última temporada no Sixers.

Costumamos exagerar na história de que Rivers é mais um motivador que um técnico, mas na hora de explicar o impacto do treinador na sua melhora, Harris não falou de nenhuma questão tática. Ao invés disso ele elogiou a capacidade de Rivers de fazer o elenco jogar unido, de confiar no companheiro e de como isso está levando a mais movimentação de bola e a um jogo coletivo. Ele também disse que Rivers está fazendo um bom trabalho ao garantir que todos assumam a responsabilidade por suas funções e erros. Como

Para bater os melhores times o Sixers vai precisar de mais tática: Simmons ainda participa pouco do ataque de tempos em tempos, nem toda dobra em Embiid é respondida da maneira perfeita e não sei se Harris vai jogar o ano inteiro no nível absurdo que tem atuado até aqui. Mas dar unidade e confiança para o grupo era prioridade e essa missão parece bem encaminhada.

Nate

Ao contrário do Sixers, o Indiana Pacers manteve praticamente todo o elenco, mas mexeu no banco e trocou Nate McMillan por Nate Bjorkgren, ex-assistente de Nick Nurse no Toronto Raptors. A ideia era modernizar o seu jogo, especialmente no ataque. Depois de ser um time lento e bitolado por arremessos de meia distância nos últimos cinco anos, o time anunciou o novo treinador sonhando com algo que pudesse levá-los além da primeira rodada nos Playoffs. O desafio aqui não era só chacoalhar um sistema de jogo, mas fazer isso em um elenco acostumado a jogar do mesmo jeito há anos e com muitos jogadores, como TJ Warren e Domantas Sabonis, que até preferem o estilo que vigorava por lá.

Mas precisamos de apenas meia dúzia de jogos para ver como tudo já mudou radicalmente: depois de ser o quarto time com mais arremessos de meia distância na última temporada, o Pacers agora é o 29º. Na frequência de arremessos de 3 pontos o time saltou da 29ª para a 12ª posição. O time também saltou da décima para a PRIMEIRA posição em arremessos tentados sob a cesta, como bandejas e enterradas. Nada menos que 41% de seus arremessos acontecem colados ao aro! É um número maior que o de Chicago Bulls (40%) e LA Lakers (39,8%), líderes nesse quesito na última temporada.

A princípio achei que esse aumento poderia estar ligado diretamente ao retorno de Victor Oladipo, muito bom tanto em chutes de longa distância como nas infiltrações, mas ele tem infiltrado até um pouquinho menos que na temporada passada, assim como  Sabonis. Quem tem atacado o aro como nunca antes são Doug McDermott (41% de seus arremessos são sob a cesta, 13 pontos a mais que em 2019-20), TJ Warren (37% de frequência contra 33% no ano pasado), Myles Turner (45% agora, 32% ano passado) e  Aaron Holiday (37% a 28%). Ou seja, até quem nunca foi de botar pressão na defesa e entrar no garrafão está fazendo isso, incluindo aí o pivozão Turner, que finalmente vemos fazer mais coisas do que só esperar bolas de 3 pontos caírem no seu colo.

Segundo o treinador, o Pacers “é mais difícil de ser marcado quando passamos pela defesa e pisamos no garrafão”. Quando o time jogou fora uma liderança enorme no quarto período para o Boston Celtics na semana passada, Bjorkgren disse que o que faltou foi justamente atacar o garrafão com mais frequência. E não há um único padrão na hora de fazer isso: há o pick-and-roll com Malcolm Brogdon, os contra-ataques, cortes em direção à cesta e até post-ups de Sabonis. Tudo vale, o importante é acabar perto da cesta, obrigando os adversários a se comprometer de alguma forma defensivamente, abrindo espaços para os companheiros. A agressividade tem rendido também um aumento do número de passes por jogo e assistências do time em relação ao ano passado.

A notícia ruim é a lesão de TJ Warren, que nem tem data para voltar após lesionar o pé. Embora ele não estivesse jogando naquele nível insano da Bolha, estava bem e até era um dos que tinham luz verde para seguir arremessando de meia distância. Depois de perder Oladipo, Brogdon e Sabonis por pedaços das últimas temporadas, parece que nunca o Pacers vai jogar completo. Novo desafio para o técnico recém-chegado.

Stan Zion

Por fim temos o New Orleans Pelicans, que ao invés de mexer no ataque partiu para mudar tudo na defesa, que foi uma das piores de toda a liga na última temporada. Essa prioridade ficou clara quando o time contratou Stan Van Gundy para o lugar do guru ofensivo Alvin Gentry.

Como bem lembrou o Zach Lowe (cota Lowe!) em seu podcast, Van Gundy, na sua curta carreira de comentarista, bateu muito na tecla de como a gente vive na era das bolas de 3 pontos mas que duas das melhores defesas dos últimos anos, a do Milwaukee Bucks e a do Toronto Raptors, se preocupavam muito mais em fechar o garrafão do que em proteger o perímetro. Esses dois times conseguiram, ao mesmo tempo, ser duas das equipes que mais cediam arremessos de longe e as defesas mais eficientes da liga. Não foi totalmente uma surpresa, portanto, quando ele resolveu adotar o mesmo plano em New Orleans.

Para esse trabalho ajuda que ele tem na mão a dupla de garrafão mais fisicamente imponente da NBA atual com Zion Williamson e Steven Adams. Não que Zion tenha sido bom defensivamente em seu ano de novato, mas ocupar espaço e pegar rebotes ele consegue fazer desde já. Os lances abaixo estarão na Prancheta dos Assinantes que vai sair essa semana, mas dou spoiler aqui: veja como todos os jogadores do Pelicans estão sempre fechando o garrafão a cada sinal de infiltração.

O Pelicans já é o time que menos cede rebotes ofensivos, o sexto que menos dá lances-livres aos rivais e o quinto que menos sofre tentativas de arremessos próximos da cesta. Tudo isso enquanto superou Bucks e Raptors e se tornou o time que mais sofre arremessos de longe por partida na NBA. Com um pouco mais de entrosamento e às vezes PIQUE para fazer aquele pêndulo de fechar o garrafão, sair para contestar arremessos e depois voltar para a área pintada, o Pelicans pode melhorar ainda mais defensivamente.

Falta a Van Gundy azeitar mais o ataque, mas isso pode ser complicado se ele seguir usando Eric Bledsoe, Zion Williamson e Steven Adams, três jogadores que não chutam de longe, ao mesmo tempo em quadra. E pior, por mais que Lonzo Ball tenha melhorado muito nos seus chutes de longe, não é como se as defesas fizessem malabarismos para marcá-lo. Sua presença em quadra ajuda muito o ataque, mas não faz mágicas para abrir espaços para os companheiros. Um problema de cada vez.

Existem outros técnicos novos na praça para ficarmos de olho: citamos na última semana como Billy Donovan também tenta mudar o estilo defensivo do Chicago Bulls, enquanto Stephen Silas já criticou seu Houston Rockets por cair no vício do excesso de jogadas individuais. Nas próximas semanas veremos se o treinador terá tempo de mostrar o que pretende com James Harden e John Wall ou se o Barba será mesmo trocado. Não está sendo fácil acompanhar a enxurrada de jogos da temporada da NBA, com cada time jogando quatro jogos por semana, mas focar nas novidades é uma boa forma de escolher qual jogo assistir.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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