Mudar dá trabalho

Estamos chegando no Ano Novo e todos sabemos o ritual: prometer mudanças que na maior parte das vezes não vamos nem começar a colocar em prática. Mas não se condene, mudar é difícil, demora e nem sempre conseguimos ter total controle de quando essa revolução pessoal será possível. No fim das contas é até saudável que uma época do ano nos force a repensar sobre o que somos e o que queremos ser, é um jeito de não ser atropelado pela vida cotidiana. Na NBA também temos esse período de promessas e sonhos de um mundo diferente: ele se chama PRÉ-TEMPORADA.

Não há um time sequer que não chegue no período de treinamentos sem promessas do tipo “vamos correr mais”, “vamos arremessar mais bolas de 3 pontos” ou “vamos melhorar nossa defesa”, e isso sem contar as declarações de que o elenco é melhor que o da temporada passada e jogadores cravando que estão na melhor forma física da vida. São os equivalentes basquetebolísticos de prometer perder 5kg ou ler uma penca de livros. Mas quando um técnico aparece falando de mudanças bem específicas, aí é hora de prestar atenção. Quando a promessa deixa de ser vaga ela se torna algo que podemos observar, acompanhar e analisar. É o caso de Chicago Bulls e Portland Trail Blazers, que não chegaram em 2020-21 falando apenas em “melhorar a defesa”, mas sobre o que especificamente pretendiam mudar em seus sistemas. Será que já vemos os resultados?

Começamos com o Blazers, onde o técnico Terry Stotts avisou que pretende adotar uma defesa mais agressiva contra os armadores nas situações de pick-and-roll. É uma mudança drástica para um time que nos últimos oito anos, tempo que o treinador está no comando do time, foi um dos mais conservadores da NBA nesse tipo de lance. O Blazers foi até inovador com a tendência do “drop coverage”, bem exemplificada no lance abaixo: reparem como Brook Lopez, mesmo sendo o marcador de Rudy Gobert, nunca sai do garrafão para defender o pick-and-roll, ao invés disso recua para evitar uma infiltração de Donovan Mitchell:

O bônus dessa defesa é não expor pivôs pesados à defesa de perímetro, evitar infiltrações e até inibir pontes aéreas. Mas ela também é muito suscetível a arremessos de 3 pontos (Mitchell poderia ter parado e arremessado depois do corta-luz) e chutes sem marcação de meia distância. Para o Blazers, mudar isso depois de tanto tempo seria um jeito de tentar chacoalhar o que foi a TERCEIRA PIOR defesa da última temporada.

Não há um problema em si com o drop conservador, mas a escolha traz alguns prejuízos, como forçar menos erros do adversário e acabar cedendo mais bolas de 3 pontos que a média. O Blazers da última temporada foi a prova extrema disso: foi o time que cedeu o segundo maior aproveitamento de arremessos de 3 pontos dos rivais (38,3%), o quinto que mais cedeu tentativas de 3 pontos (35,4 arremessos por jogo) e quarto que menos forçou turnovers (12,9). O Milwaukee Bucks, que adota os mesmos princípios e mesmo assim teve A MELHOR defesa da última temporada, foi o time que mais cedeu arremessos de longa distância, mas foi apenas o DÉCIMO QUINTO no aproveitamento dos rivais. E ficou só em 12º na lista dos times que menos forçou erros. Ou seja, com o elenco e os ajustes certos, dá para disfarçar os problemas e brilhar nas qualidades. Como o Blazers não estava tendo o mesmo sucesso, resolveram mudar o plano.

Na pré-temporada vimos momentos do Blazers experimentando essa defesa agressiva, mas não foi bonito. O time perdeu do Sacramento Kings por 15 pontos de diferença, depois duas vezes para o Denver Nuggets por 26 e depois por 33 pontos de desvantagem. No vídeo abaixo vemos como Jusuf Nurkic não recua para o garrafão para proteger a cesta como era seu padrão anterior, mas ao mesmo tempo não sai com agressividade o bastante para pressionar quem está com a bola, dando caminho livre para Jamal Murray e Gary Harris pontuarem com tranquilidade. Quando é Enes Kanter no jogo contra o Kings, até há mais agressividade, mas com muito espaço para um passe picado de Kyle Guy para Frank Kaminsky:

A impressão é que há uma certa insegurança em como executar a defesa, embora como a gente esteja falando de Nurkic e Kanter, então o problema pode estar na mobilidade de cada um. Será que eles têm explosão o bastante para sair com agressividade e forçar os armadores a abrirem mão da bola? Na estreia da temporada regular contra o Utah Jazz, um time que usa e abusa do pick-and-roll para iniciar seu ataque, poderíamos observar mais, mas o time recuou nos planos e vimos o velho drop da temporada passada:

É fácil perceber como Nurkic nunca deixa o garrafão e o Blazers cede o espaço na meia distância, onde Mike Conley e Bojan Bogdanovic operam com facilidade. Em teoria, ceder esse tipo de arremesso não é mau negócio, mas o Blazers sequer contesta os chutes e ainda toma bandejas, como no caso do passe de Bogdanovic para Derrick Favors. Não era o tipo de jogada que o drop deveria evitar?! As cestas estavam tão fáceis que Terry Stotts resolveu então voltar a experimentar a defesa mais agressiva a partir do segundo quarto:

Nos primeiros lances a defesa individual sobre quem está com a bola é tão FROUXA que Mitchell e Bogdanovic trocam assistências quase idênticas ao CONTORNAR a defesa pelo lado de fora antes mesmo da ajuda do agora agressivo Nurkic aparecer. Nos outros dois lances o pivô até consegue fazer alguma diferença na defesa e forçar um passe, mas o resto do time é tão lento nas rotações que o Jazz gera arremessos de longe sem qualquer dificuldade. É um pesadelo defensivo que mostra que não há plano tático que sobreviva a falta de intensidade, entrosamento e qualidade individual. Só terceiro período, com o jogo já perdido, que finalmente vimos uma evolução: não só o time começa a mesclar o tipo de defesa de um lance para o outro como vemos a versão mais agressiva dar resultado:

Dá pra ver que ainda há muito trabalho a ser feito. E certamente não ajudou que o período de preparação foi curto e ainda rolaram treinos cancelados por casos de Covid-19 entre funcionários do clube. Para ajudar nessa transição de estilos, Stotts convidou seu colega de longa data Jim Boylen para três dias de intensivão antes da temporada começar. Para os que não lembram, Boylen treinou o Chicago Bulls na última temporada e acabou demitido pela nova diretoria após maus resultados e muitos altos e baixos no relacionamento com os jogadores. Apesar do trabalho questionável, Boylen chegou a colocar o Bulls entre as melhores defesas da NBA (antes de tudo desmoronar ao menos) e no topo da lista de times que mais forçam turnovers dos rivais por jogo, mais de DEZOITO por jogo.

O segredo para esse resultado era uma defesa de pick-and-roll SEMPRE ultra agressiva, não importa quem estava com a bola, o placar ou se era o primeiro ou o quarto período. A marcação exigia atenção redobrada dos rivais, embora muitos critiquem a falta da variação. No fim da partida você pode chamar uma jogada já sabendo como o Bulls iria defender e qual era a melhor forma de contra-atacar essa pressão. Como plano único talvez seja mesmo uma furada, mas é inegável que gerava erros e contra-ataques:

Curiosamente, ao trocar Boylen por Billy Donovan, o discurso do Bulls foi o OPOSTO do Blazers: a ideia agora era fugir da pressão e do “blitz” em toda posse de bola. Logo que o treinador falou isso, Zach LaVine elogiou a decisão dizendo que assim eles poupariam mais fôlego ao longo da partida e que pressionar tudo e todos ao longo do jogo todo é exaustivo. Para os pivôs Wendell Carter Jr e Daniel Gafford, seria um jeito de passar mais tempo onde se sentem confortável, dentro do garrafão. A ideia de Donovan é mesclar diferentes estilos de marcação no pick-and-roll. Na estreia contra o Atlanta Hawks vimos o Bulls experimentar muito mais tal drop que o Blazers usou nos últimos 8 anos. Como foi essa mudança? Bom, tomaram 83 pontos só no primeiro tempo…

Certamente não era a estratégia ideal para um time com tantos arremessadores. Mas neste domingo, contra o Golden State Warriors, vimos a volta da blitz para impedir que Steph Curry tivesse tanto espaço quanto Trae Young teve na estreia. Fez mais sentido e combinou mais com o discurso de adaptar as defesas de acordo com os adversários:

Sempre brincamos que qualquer comentário sobre começo de temporada já vem acompanhado automaticamente de um asterisco afirmando que são só alguns jogos e que nenhuma opinião é definitiva. Os casos do Chicago Bulls e do Portland Trail Blazers são exemplos práticos e claros do que estamos falando.

Ainda não dá pra saber se as mudanças defensivas vão funcionar, mas estamos tendo o privilégio de ver testes e experiências ao vivo na nossa frente. Todas as maneiras de defender usadas na NBA existem por um motivo, mas ainda não existe uma que funciona sempre, com todos os elencos e contra todos os adversários. É preciso aprender, entrosar e saber adaptar. Os dois times começaram mostrando como é difícil mudar hábitos e como é complicado esconder os problemas de cada estratégia. Em uma temporada corrida e sem tempo para muitos treinos, se dará melhor que desvendar essas coisas mais rápido.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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