O caminho de volta à relevância

No agora distante Fevereiro de 2020 o Detroit Pistons tomou sua primeira grande decisão rumo a seu futuro. O time mandou Andre Drummond para o Cleveland Cavaliers em troca de um pacote que surpreendeu por ser irrelevante demais para um jogador de apenas 26 anos, duas aparições em All-Star Games e um dos melhores reboteiros da sua geração. O time recebeu apenas os contratos expirantes de Brandon Knight, John Henson e uma escolha de segunda rodada do Draft de 2023. Quase um despejo. A segunda grande decisão aconteceu na última semana: depois de mais de um ano sem um General Manager, o time elegeu Troy Weaver para esta função. O que acontece agora?

O primeiro passo é entender a troca de Drummond. O pivô estava em um possível último ano de contrato, mas com uma opção de ficar mais uma temporada pela nada discreta quantia de 29 milhões de dólares. É difícil acreditar que ele abriria mão desse dinheiro todo, mas ao fazê-lo ele poderia ser o principal jogador de um mercado de Free Agents com poucos nomes de peso e vários times com espaço na folha salarial, seria a chance de faturar um contrato longo ao invés de esperar. A troca foi uma solução dupla: servia para não perder Drummond por nada caso ele decidisse testar o mercado e também para não precisar gastar 30 milhões de dólares em um jogador que, por melhor que fosse, não estava levando o time pra frente. O problema, como disse o presidente do time Ed Stefanski em entrevista em Fevereiro, era que a sua situação contratual também afastava outros times. Ninguém oferecia demais em troca por se tratar de um contrato caro e por ser alguém que poderia ir embora em poucos meses, por isso o pacote minguado.

Nosso primeiro instinto é dizer que a negociação foi mais um desastre, afinal estamos falando do Pistons, protagonista de uma das maiores decadências da última década. Depois de seis finais de conferência seguidas nos anos 2000, o time passou por uma reconstrução marcada pelas desastrosas fortunas investidas em Ben Gordon e Charlie Villanueva. De lá pra cá, quase nenhum acerto para compensar: nenhuma contratação de impacto, inúmeras escolhas que não deram nada no Draft (Brandon Knight, Greg Monroe, Austin Daye, Kentavious Caldwell-Pope) e duas que deram certo só quando saíram cedo demais do time, Spencer Dinwiddie e Khris Middleton. No meio do caminho uma aposta em Stan Van Gundy como combo de técnico e General Manager que não foi tão revolucionária quanto sonhado. A cartada final foi a troca por Blake Griffin, esperança de resultado em quadra e de torcida no recém-inaugurado ginásio. Serviu como um band-aid em uma fratura exposta.

Então não foi essa troca que foi um desastre, foi todo o resto antes dela. Por mais que Drummond tenha se revelado mais versátil que o imaginado, o time precisava de mais do que ele poderia oferecer e seu contrato atrapalhava a revolução necessária. Era preciso um novo plano para não jogar mais uma década de basquete no lixo na cidade.

Embora muita gente comente sobre o colossal contrato de Blake Griffin, cerca de 39 milhões de dólares a serem pago em cada uma das próximas duas temporadas, a situação salarial da equipe é até bem tranquila. Com o fim dos contratos de Knight, Henson, do frustrante Reggie Jackson, de Langston Galloway e com FINALMENTE o contrato de Josh Smith saindo da conta, a equipe tem apenas 67 milhões de dólares garantidos para o próximo ano. O cenário pré pandemia era de um teto salarial na casa dos 110 milhões de dólares no próximo ano, o que daria quase QUARENTA MILHÕES de espaço para o time gastar com contratações ou mesmo para deixar em aberto, economizando num primeiro momento e depois usando a flexibilidade em futuras trocas.

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A flexibilidade é importante especialmente se a crise da NBA confirmar um teto em 100 milhões ou até menos. Muitos times estão com folhas imensas, montadas em uma época que se previa muito mais dinheiro entrando na liga, e agora eles estarão mais que dispostos em mandar bons jogadores caros para aliviar as contas. O Pistons, se não gastar tudo de uma vez, poderá ser um time que receberá esses atletas de braços abertos. Atlanta Hawks e Brooklyn Nets já mostraram nos últimos anos como essa estratégia pode ser útil.

O que sabemos é que uma parte desse dinheiro todo deve ser usado para manter Christian Wood, pivô que fazia boa temporada como reserva de Drummond e depois simplesmente ESTOUROU quando teve a chance de assumir algum protagonismo. São 13 pontos e 6 rebotes de média no ano, mas os números saltam para 21,5 pontos por jogo e 9 rebotes em 33 minutos se contarmos só as 16 partidas disputadas em Fevereiro e Março, depois de Drummond ter saído do caminho. E ele faz isso não só com muita intensidade e enterradas ferozes, mas também com bolas de 3 pontos! Ele ficou pouco acima dos 40% de aproveitamento em 83 bolas de longa distância tentadas, não é pouca coisa. A versatilidade dele em pontuar impressiona: causa estrago como homem do bloqueio no pick-and-roll, especialmente quando joga como único jogador alto em um time que espaça a quadra com arremessadores…

…mas também é capaz de ficar no perímetro quando jogou ao lado de um grandalhão como John Henson. Lá ele arremessa de longa distância ou ainda consegue colocar a bola no chão e usar seu impressionante controle de bola para atacar a cesta. São passadas largas e uma impulsão impressionante, ideal para o estilo de jogo dos pivôs atuais:

Foi no Training Camp de 2015 que Wood chegou na NBA, no Philadelphia 76ers, com apenas 20 anos de idade após ter passado em branco no Draft daquele ano. Foram só 17 jogos antes de ser dispensado. O mesmo Sixers ainda chegou a dar a ele alguns contratos de dez dias até que em 2016 ele ganhou uma chance no Charlotte Hornets, mas de novo foi dispensado após poucas partidas. Ainda rolaram passagens rápidas por Milwaukee Bucks e New Orleans Pelicans, que o mandou embora mesmo mesmo após impressionante média de 17 pontos e 8 rebotes por jogo nas (poucas) oito partidas que ele jogou lá no fim da temporada passada. Ele foi o último pedaço do sacrifício para acomodar a contração de JJ Redick. O Pistons aproveitou a chance e o levou para Detroit nesta temporada, onde finalmente as coisas deram certo. É uma história que lembra um pouco a de Hassan Whiteside, outro pivô que chegou cedo na NBA e demorou anos até finalmente transformar o domínio físico em números arrebatadores. Com o Whiteside o sucesso trouxe resultados financeiros também: ele logo ganhou um contrato milionário do Miami Heat. Será que o mesmo vai acontecer com Wood? Ele é Free Agent ao fim da temporada e o primeiro desafio do novo manager vai ser descobrir qual o valor de mercado de Wood e, claro, convencê-lo a ficar.

Normalmente um time não precisa se preocupar tanto com teto salarial quando o assunto é segurar um jogador. Em teoria, o Pistons poderia torrar todos seus milhões de teto salarial e só depois, mesmo já no limite, pagar o necessário a Wood. Isso acontece por causa dos Bird Rights, uma regra que permite a um time ultrapassar o teto de gastos para manter um atleta que já estava em seu elenco. O porém é que como Wood jogou apenas um ano no Pistons, o time tem apenas o chamado Early Bird Rights sobre o jogador, limitando o aumento que podem oferecer no novo contrato: como Wood ganhou 1,7 milhão em 2019-20, seu salário em 2020-21 deve ser de no máximo de cerca de 10 milhões. Para dar mais que isso, só se o Pistons ignorar os Bird Rights e contratá-lo como um Free Agent normal, tendo assim que gastar seu teto salarial com o pivô.

Por mais que o teto diminua, difícil imaginar que Wood saia por menos de 10 milhões anuais, forçando o Pistons a gastar mesmo o teto salarial com o jogador. Essa previsão tem também a ver com concorrência: New York Knicks e Charlotte Hornets tem ainda mais dinheiro para gastar que o Pistons e ambos os times precisam de jogadores jovens da posição de Wood. Ele poderia ser o pivô que joga ao lado de Terry Rozier e Devonte’ Graham em um dinâmico Hornets ou formar o garrafão mais atlético da NBA como parceiro de Mitchel Robinson em Nova York, ficando assim mais na posição quatro. Ambos os times são jovens e adorariam investir em uma promessa-quase-realidade de 24 anos. Vai ter briga pelo cara.

CWood

No papel, o Detroit não tem um General Manager desde 2018. Mas isso acontece porque nem todos os times usam o mesmo nome para tudo. Há franquias onde o GM é o manda-chuva, há franquias onde o GM é um cara com funções mais específicas, às vezes até burocráticas, sob o comando de um presidente de operações que é quem dá a palavra final. O Pistons tinha esse presidente, o citado Ed Stefanski, e agora Troy Weaver chega para auxiliá-lo em uma posição abaixo. A contratação faz todo o sentido: o time já tinha um plano base e Stefanski estava conseguindo, mesmo que aos trancos e barrancos, colocá-lo em prática. O time tem todas suas escolhas de Draft nos próximos anos, limpou a folha salarial para criar flexibilidade e tem dois veteranos para comandar um time que, segundo todos os envolvidos, está em reconstrução mais nem tanto. Blake Griffin e Derrick Rose são os caras que Stefanski acredita que vão fazer o time ser competitivo enquanto buscam outras peças.

O que falta para finalizar o plano é só o mais difícil: tomar decisões sobre como gastar, como draftar e como desenvolver ou trocar quem já está lá. Como citei acima, não é a primeira vez que o time tem jovens jogadores no elenco, escolhas de Top 10 no Draft em anos seguidos ou mesmo espaço para gastar com Free Agents, falta CRAVAR tudo isso. E é para isso que chegou o novo General Manager: depois de mais de uma década como braço direito de Sam Presti no OKC Thunder, Weaver chega com a fama de ser responsável por várias boas decisões de um time que soube fazer um pouco de tudo para se manter relevante por muito tempo. Weaver, aliás, é considerado um dos nomes mais importantes em um dos momentos-chave do Thunder, o Draft de 2008. O time estava muito em dúvida sobre gastar sua quarta escolha em Russell Westbrook ou Brook Lopez. Um era um pivô com muito poder ofensivo para jogar ao lado de Kevin Durant numa época onde o sonho de consumo de todo time era esse COMBO de jogador de perímetro ao lado de um de garrafão, ainda resquício do fascínio de Shaq-Kobe, Shaq-Wade e Duncan-Parker que dominou a liga nos anos anteriores. A outra opção era um cara com tamanho de armador, que precisava da bola como armador, mas que jogava como ala e um arremesso bem questionável. Pois Weaver foi uma das vozes mais fortes em defesa de que, sim, dava pra juntar toda essa confusão de Westbrook e transformar em algo coerente, que funcionaria como armador na NBA e seria um bom parceiro para Durant. O cara pode não ser perfeito, mas se tornou um dos melhores jogadores da liga e ao lado de KD chegou perto de ganhar um título.

Embora a troca de James Harden seja uma mancha no currículo de qualquer envolvido, haviam razões na época e o time compensou bem com a seleção de Steven Adams, com a formação de um bom elenco de apoio e, depois, com a aquisição de Victor Oladipo, Domantas Sabonis, Paul George e até neste último ano com a reconstrução liderada por Chris Paul e Shai Gilgeous-Alexander. Sempre que a água bateu na bunda do OKC Thunder, o time achou uma solução. É o que o Pistons precisa agora. Em um mundo ideal eles acertam em cheio no Draft deste ano, contratam com bons Free Agents para aproveitar esse teto salarial todo e aí ficam a um passo de voltar por alguma. Esse passo pode ser dado por Blake Griffin caso ele volte à forma de antes, mas também por outro jogador. O que não dá é para continuar errando todos os tiros, por isso trazer um especialista em avaliação de talento.

A avaliação começa em casa. Além de Christian Wood, o time viu nessa temporada a ascensão do novato Sekou Doumbouya, que como diz o próprio Stefanski, pode impressionar muito num jogo e fazer você esquecer que ele existe na MESMA PARTIDA. Os bons momentos são sinal de que? É preciso saber avaliar e desenvolver, duas áreas onde o time mais errou que acertou nos últimos anos. E afinal, Luke Kennard é um só um bom arremessador de longa distância ou pode fazer mais com a bola? Há espaço para ele e Sviatoslav Mykhailiuk ao mesmo tempo em quadra? Um dos dois pode crescer como criador de jogadas? E até quando o papo de manter Derrick Rose como mentor dessa molecada vale a pena? Ano que vem um time interessado em um grande pontuador pode oferecer coisas boas por ele, afinal. São perguntas essenciais para que um mero plano vire uma trajetória real de sucesso.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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