O começo da última dança

Estreou nesta segunda-feira na Netflix a série documental “The Last Dance“, sobre a última temporada de Michael Jordan no Chicago Bulls, quando conquistou seu sexto e último título pela franquia. A estreia era prevista só para Junho, durante as Finais da NBA, mas foi adiantada atendendo a pedidos de uma comunidade ansiosa por qualquer coisa próxima de uma novidade no mundo esportivo paralisado pela pandemia. Certamente um alívio para uma quem já não aguentava mais discussões sobre que se tal jogador é subestimado ou não nas redes sociais.

Um dos grandes apelos da série dirigida por Jason Hehir é a promessa de muito material nunca antes visto sobre aquele que é para muitos o melhor time de toda a história da NBA. Antes da temporada 1997-98 começar, com muitos sabendo que aquela poderia ser a última oportunidade de ver o grupo de Michael Jordan, Scottie Pippen, Dennis Rodman e Phil Jackson, o ex-jogador Andy Thompson teve a ideia de documentar toda a temporada. Andy, que é irmão do ex-pivô do LA Lakers Mychal Thompson e tio do ala Klay Thompson, do Golden State Warriors, levou a ideia para o hoje comissário da NBA Adam Silver, na época líder da NBA Entertainment, que então convenceu Jordan de deixar uma equipe de filmagem acompanhar o time por todos os lados ao longo do ano. O acordo era o de que qualquer material só seria divulgado ao público com autorização direta de Jordan.

Ao longo dos últimos 20 anos muito se falou nos bastidores da NBA sobre essas imagens e esse documentário. Houve especulação que ele sairia no aniversário de dez anos do título, mas nada. Chegaram até a chamar Spike Lee para o projeto, mas nem assim a coisa andou. Só em 2016 que a paralisação acabou: Michael Tollun, da Mandalay Sports Media, encontrou sócios de Jordan e da NBA Entertainment durante o All-Star Weekend em Toronto e trouxe a ideia de volta para a superfície. Meses depois, em uma reunião com Jordan, Tollin conseguiu o SIM definitivo para rodar o projeto. Coincidência ou não, o encontro aconteceu no mesmo dia da histórica celebração do Cleveland Cavaliers após seu título histórico contra o Golden State Warriors.

Michael-Jordan

Pode ser só especulação, mas esse timing tem seu simbolismo: Jordan sabe do seu lugar na história, sabe que é visto como o maior e melhor de todos os tempos e não tem qualquer interesse em abrir mão desse posto. Em 2016, quando ele topou a empreitada, seu Chicago Bulls havia acabado de perder a marca de melhor campanha da temporada regular na história para o Warriors que venceu 73 partidas. E mesmo a derrota desse time na final só serviu para colocar LeBron James alguns degraus acima na percepção popular dos maiores do basquete. Pode parecer infantil pra gente, mas é bem possível que Jordan se importe com isso, que ele quer que todos se lembrem sempre do quanto ele foi bom e de como seus times foram dominantes. Uma das várias revoluções trazidas por Jordan foi a massiva preocupação com sua própria imagem, algo incomum para atletas na época. Isso não mudou desde então. O projeto não era, porém, individual: uma das exigências foi para que o documentário fosse sobre aquela equipe, não só sobre ele.

Esses detalhes de bastidores parecem mera fofoca e não deveriam, ao menos a princípio, servir como material para uma crítica da obra, mas são informações importantes para respondermos perguntas essenciais. Há documentários que querem provar um ponto, outros que querem responder alguma pergunta, alguns que tentam ser educativos e são poucos hoje os que arriscam uma abordagem pura de mosquitinho observador sem julgamentos.  Qual o objetivo de “The Last Dance”, afinal?  É uma pergunta que só teremos resposta definitiva no fim da série, daqui cinco semanas, mas até lá vale especular. A impressão dos dois primeiros episódios, só 20% do total do projeto, é de uma produção bem didática, focada na preservação de uma grande história. Parece algo que serve para alimentar a nostalgia de quem viveu aquilo ao mesmo tempo que explica e contextualiza para a geração que chegou agora achando que Jordan é meme e marca de tênis.

Com essa ambição de ser uma obra definitiva sobre aquele time, o documentário parece aproveitar para tocar em uma tecla às vezes esquecida, a de como aquele time era uma coleção de personalidades muito fortes, muitas vezes conflitantes, e de como muito conspirou ao longo dos anos para que tudo desse errado. Olhando para trás parece um time imbatível que não poderia falhar, mas o drama de Scottie Pippen exigindo ser negociado no segundo episódio mostra que a coisa não era bem assim. E isso porque só passaram rápido pela saída anunciada de Phil Jackson e nem tocaram ainda nas dores de cabeça provocadas por Dennis Rodman. Ao que tudo indica, a mensagem do “não foi tão fácil assim” parece que será chave nos próximos capítulos. E curiosamente o maior adversário do time são eles mesmos, não o resto da NBA.

O que não podemos ignorar é que Michael Jordan é o personagem principal da obra, quem mais teve voz para contar sua própria história nos primeiros episódios e também um parceiro na produção. Por mais que ele não tenha feito o roteiro ou definido ou vetado entrevistados, fica a dúvida de como o documentário irá tocar em temas mais delicados da sua vida. Segundo críticos americanos que tiveram acesso aos primeiros oito episódios, o documentário irá se aprofundar, sim, no assassinato de seu pai, no seu vício em apostas e na sua personalidade obsessiva, o que até fez Jordan dizer que o documentário iria fazer as pessoas odiá-lo. Nos primeiros dois episódios não vimos isso, pelo contrário. Suas broncas pareceram ter sentido, a birra com Jerry Krause foi justificada e confirmada por outros entrevistados e o episódio dele recusando com convicção drogas e bebida mesmo como um mero novato no “Circo da Cocaína” do Chicago Bulls chegou a soar boazinha demais. Tudo só alimentou mais a ideia que sempre tivemos de alguém que viu o basquete e a vitória como prioridades da vida. Foi com essa personalidade que, como bem lembra o documentário, ele se tornou a pessoa mais famosa de todo o planeta nos anos 1990.

Krause

Aqui entra um dilema de “The Last Dance”: como contar algo novo sobre um assunto tão explorado? Nosso amigo Fábio Balassiano, por exemplo, repostou hoje o link para um texto que ele escreveu em 2017 após a morte de Jerry Krause, General Manager daquele time, o vilão do começo do documentário e grande perda da obra por não estar presente para dar seu lado da história. Ler o Bala sobre Krause é como ler o roteiro dos dois primeiros episódios, já sabíamos de tudo. O que não faltam no mundo são entrevistas, especiais, documentários, livros, podcasts, grandes reportagens e qualquer coisa que se pode imaginar sobre Michael Jordan. A solução mais óbvia é usar o máximo do material inédito de bastidores, mas não vimos tanto deles até agora. Com os primeiros episódios focados em resgatar a origem de Jordan e Pippen, gastando muito tempo com viagens no tempo, avançamos pouco na temporada 1997-98 e não tivemos ainda chance de ver curiosidades do vestiário ou algum flagra muito revelador. Há muito a acontecer ainda, porém.

Outra salvação possível ao trabalhar uma história tão conhecida é contá-la de um jeito melhor. No caso the “The Last Dance” o bônus nem vai para a estrutura, mas para os personagens. O elenco de entrevistados estrelado e conta com praticamente todos os personagens envolvidos, com a exceção já citada de Krause, e isso inclui os maiores nomes da NBA na época e ainda com dois ex-presidentes americanos, Barack Obama e Bill Clinton, que nem acrescentam muita coisa mas servem como uma demonstração de força do documentário. Uma coisa é eu saber que a história de vida de Pippen foi difícil, outra é ouvir isso da boca dele e de seus irmãos em depoimentos claros e emocionantes. Uma coisa é eu saber do desejo do mesmo Pippen de ser trocado após mais uma briga com Krause por causa do seu contrato, outra é ouvir Jordan falar sobre o assunto e dizer, hoje, que acha que foi uma atitude egoísta do seu principal companheiro. A atuação de Jordan, aliás, foi a estrela desses primeiros episódios: direto, articulado, disposto e sincero demais para alguém que passou os últimos dez anos, no mínimo, fugindo dos microfones. A versão de “The Last Dance” lembra mais o Jordan emotivo que brilhou com um discurso emocionante na despedida a Kobe Bryant em Fevereiro.

A história de um time tão monumental e com personagens tão complexos merecia há tempos um documentário longo e profundo para eternizá-lo, uma obra definitiva. Os próximos episódios vão mostrar se todos os pequenos assuntos que giram em torno de Jordan, um personagem tão grande, vão ser abordados e se em algum momento vão pegar leve com sua imagem. Meu palpite é que não: inteligente e preocupado com sua imagem, Jordan não iria deixar um excesso de chapa branca estragar o show.  De certa forma ele parece ter orgulho de seus defeitos e complexidades, características, afinal, que renderam meia dúzia de desafetos, milhões de admiradores e o fizeram o maior de todos. Se no fim dos dez episódios soubermos um pouco mais sobre o que movia as principais peças desse time, a missão estará cumprida.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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