O que achar do Los Angeles Lakers após meia temporada

No último Natal o Los Angeles Lakers conseguiu o seu grande feito nesta temporada: venceu o campeão Golden State Warriors, fora de casa, de goleada e com atuação segura de todos os seus jogadores. O time vencia fácil com LeBron James em quadra e, depois de ver a vantagem sumir quando ele saiu machucado, voltou a abrir 20 pontos com show de Rajon Rondo e seus meninos. O time não só tinha passado no seu teste de fogo, como tinha feito isso até sem seu melhor jogador. Era hora de seguir forte na briga por mando de quadra nos Playoffs.

Mas se a vitória sobre o Warriors foi o auge, o que estamos vendo agora é uma descida em cambalhotas do alto da montanha. Sem LeBron James, que pela PRIMEIRA VEZ NA CARREIRA perdeu mais de 8 jogos seguidos por lesão, o Lakers não cansa de passar vergonha. Nos 11 jogos sem seu líder, o time venceu apenas 4 (Kings, Pistons, Mavericks e Bulls). Entre as derrotas estão sapecadas violentas para adversários diretos como LA Clippers e Utah Jazz e derrotas HUMILHANTES como para NY Knicks e Cleveland Cavaliers, ambas em casa. Hoje o time tem 24 vitórias e 21 derrotas e se segura na oitava posição da conferência.

Com meia temporada oficialmente nas costas, o Lakers passou por muita coisa. O começo sofrido, a melhora nas costas de LeBron James, a melhor fase do ano e, agora, a pior. Que conclusões podemos tirar até aqui desse grande experimento que é juntar o grande jogador dessa geração, aos 34 anos, com um bando de pirralho e alguns caras que mais parecem personagens de filme que pessoas de verdade?

DEFESA

Pode não parecer sempre, mas o Los Angeles Lakers tem a SÉTIMA melhor defesa da NBA em pontos sofridos por posse de bola. É uma marca ótima por si só, mas ainda mais impressionante se contarmos que as duas primeiras semanas da temporada foram desastrosas no quesito. Também é estranho para quem viu as citadas derrotas para Knicks e Cavs na última semana, mas juro que é verdade.

O curioso é que embora o time seja capaz de jogos vergonhosos, no geral a defesa do time é ótima mesmo sem LeBron James. Considerando apenas os jogos pós-Natal, aliás, o Lakers tem a TERCEIRA MELHOR DEFESA da liga inteira. O time cede poucos arremessos de três pontos e embora seja o terceiro que mais sofre infiltrações na NBA, é também terceiro em IMPEDIR cestas em bandejas em enterradas. Em outras palavras, o Lakers afasta os adversários do perímetro, oferece a infiltração e lá os atacantes são engolidos por JaVale McGee e Tyson Chandler. Este último, aliás, salvou o time ao ser dispensado do Phoenix Suns e topar a chance de jogar com o LeBron ao invés de ir para o Golden State Warriors. Bom defensor com o corpanzil gigante, Chandler é ainda melhor com a boca, indicando na base do grito o que cada um deve fazer e onde todos devem estar. Sua presença também permitiu ao Lakers sempre ter um pivô em quadra, já que o experimento com Kyle Kuzma protegendo o aro durou pouco e foi feio.

Na última derrota para o Utah Jazz, o pivô JaVale McGee criticou o técnico Luke Walton por suas decisões defensivas. Ele reclamou publicamente, durante uma entrevista, que o pick-and-roll entre Donovan Mitchell e Rudy Gobert estava acabando com o time e que um ajuste deveria ter sido feito antes. A reclamação dele, como pode ser vista no vídeo abaixo, é que Mitchell estava com muito espaço entre o bloqueio quase na linha dos três e o pivô, que era obrigado a ficar embaixo da cesta:

Esse tipo de marcação do pick-and-roll é chamado de “drop” e força o atacante a arremessar de meia distância. O Lakers tem tido muito sucesso ao longo da temporada ao adotar o drop, mas nesse dia em especial Mitchell acertou seus chutes de meia distância e ainda soube usar o espaço extra para dar suas passadas confusas e abrir espaço sobre os pivôs do Lakers. Nesses jogos cabe ao técnico decidir se mantém o plano que tem dado ao certo ao longo do ano ou se uma mudança é improvisada para parar o sangramento. Walton escolheu a primeira opção e perdeu o jogo.

O importante desse exemplo é perceber que o time tem mais erros pontuais, de adaptação aos jogos, do que estruturais. Há padrão na defesa, há comprometimento e bons defensores. Lonzo Ball chama a atenção pela intensidade (às vezes exagerada, até) e McGee pelos tocos, mas até Kuzma deu um salto enorme de qualidade defensiva desde que o ano começou. O que o time ainda não aprendeu é a lidar com essas pequenas mudanças quando o plano normal não dá certo. O que fazer quando pivôs como Nikola Jokic não param de chutar e arremessar de longe? Deveriam McGee e Chandler seguirem ele até longe? Que outro jogador no elenco é versátil o bastante para marcar o pivô do Nuggets longe do garrafão e ainda dar conta do recado se ele quiser jogar na base da força perto da cesta?

O time também muitas vezes peca pela idade. A molecada não tem conseguido lidar bem com momentos ruins do jogo, cedendo muitos pontos em pouco tempo por puro desespero e depois tendo que correr atrás. Muitas vezes um começo lento de jogo custa 40 minutos de bom basquete e boa defesa.


A MOLECADA

Falando em MOCIDADE, vamos relembrar a idade de alguns dos principais nomes do time? Lonzo Ball tem 21 anos, Brandon Ingram também. Josh Hart e Kyle Kuzma são os vovôs com 23 anos nas costas. Ah, e muitas vezes TODOS ELES jogam no time titular ao mesmo tempo. A ânsia dos torcedores do Lakers (eu estou nessa) é compreensível, afinal o time é uma porcaria já há alguns anos e LeBron James chegou sem muito mais gasolina no tanque, é preciso vencer logo. Até quando se pode e deve esperar pelos jovens?

Essa contradição já dá dor de cabeça agora e vai seguir dando por algum tempo. Os moleques estão evoluindo, mas nem todos são fenômenos que viram All-Star em um ano e vários deles nem necessariamente vão melhorar até se tornarem o que o time esperava no Draft. Eventualmente Magic Johnson e Rob Pelinka deverão decidir em quem vale a pena apostar e quem deve sair seja via troca, seja só para não gastar em uma extensão de contrato.

Enquanto Kuzma vai se provando um pontuador cada vez mais versátil e fácil de encaixar em qualquer time, as dores de cabeça ficam na conta de Ingram e Ball. O primeiro é obviamente muito talentoso, capaz de pontuar contra qualquer marcador e com braços tão longos que fazem ele produzir lances que parecem efeitos especiais do Quarteto Fantástico:

O problema é que os lances de efeito vêm junto de um jogador ainda perdido. Ele mesmo já admitiu que ficou focado demais em ser apenas um pontuador quando estava ao lado de LeBron, mas acabou sumindo porque ainda não é um arremessador confiável e porque seus melhores lances são carregando a bola com ele da defesa para o ataque. Ele deslanchou quando LeBron se machucou, assumindo as funções de criar jogadas e até distribuindo boas assistências e mostrando visão de jogo. Mas não sem, no caminho, nos deixar louco ao ficar batendo a bola a esmo por 20 segundos até forçar um arremesso de meia distância no estouro do cronômetro.

O caso de Lonzo Ball foi mais comentado num podcast nosso recente e repito aqui o dito lá: como decidir se o armador é o pior grande jogador da NBA ou o melhor jogador ruim? Sua defesa não é das mais constantes (ele se arrisca demais), mas está num nível bem acima da média, assim como sua visão de jogo e seus passes velozes e precisos. Ao mesmo tempo ele não consegue superar NINGUÉM com seu drible, erra bandejas o tempo todo, perde o controle facilmente em infiltrações e seu arremesso é mais imprevisível que o humor do Jimmy Butler. Eu resmungo a cada defeito, mas alimento o monstrinho do otimismo após lances assim:

Ele funcionou bem ao lado de LeBron porque consegue esconder mais seus defeitos ao não ser protagonista, mas nos últimos jogos tomou esporro do técnico Luke Walton para que chamasse mais o jogo e fosse mais agressivo. Como sempre, a bronca funciona por um ou dois jogos e depois tudo volta ao normal. Como disse Bill Simmons no The Ringer, ele parece um cara tão de equipe, tão tranquilo e gente boa para jogar que acaba gostando demais de ser coadjuvante.


ATAQUE E CORRERIA

Desde que chegou em Los Angeles, Luke Walton prega velocidade no ataque do Lakers. Nesta temporada o time disputa 103 posses de bola por jogo, terceiro no ranking da NBA numa época onde todos querem correr. O time também é o PRIMEIRO em frequência de ataques em transição: 20% das ações ofensivas do time são algum tipo de contra-ataque.

Os números indicam velocidade, mas não precisão. O ataque do Lakers, tanto em transição quanto em ações de meia quadra eram só o 18º da liga antes da saída de LeBron James e O PIOR DE TODOS desde que ele deixou o time há 11 jogos. É engraçado que o time esteja se sustentando mais pela defesa do que pelo ataque, o que é o oposto do que todos imaginávamos antes da temporada começar.

O problema que mais incomoda é a falta de movimentação sem a bola ou, para ser mais preciso, a movimentação sem propósito e intensidade. Com grandes passadores no time como Lonzo Ball, Rajon Rondo e LeBron James, todos os jogadores deveriam estar em constante movimento esperando um segundo de liberdade para receber um passe. Ao invés disso por muitas vezes vemos jogadas que parecem estarem sendo feitas em um fim de treino, com todos já pensando em ir embora. Abaixo conseguimos ver a ideia do lance, mas os corta-luzes não deixam ninguém livre, todos se mexem em câmera lenta e de repente percebemos o time só tem 5 segundos para inventar um arremesso do nada:

Em parte pelos arremessos ruins que o time cria e em parte por como o elenco foi montado, o time também peca na hora de fazer algo importante num jogo de basquete: acertar a bola naquele buraco que chamamos de cesta. O time só tem aproveitamento acima da média da NBA em três pontos da quadra, justamente de onde arremessa menos.

shotchart

Se tem algo que funciona bem é a capacidade do time de finalizar bolas lá perto do aro em bandejas e enterradas. O Lakers é o time que mais arremessa esses tipos de bola e os adversários não conseguem evitá-las mesmo sabendo que boa parte do elenco não é uma ameaça grave de longa distância. Nas últimas semanas até vários estão fazendo inusitadas defesas por zona para limitar a presença do Lakers dentro do garrafão, com relativo sucesso.


LANCES-LIVRES

Ainda no campo dos arremessos, um abraço para o Byra Bello para dizer que o Los Angeles Lakers não é só o PIOR TIME da NBA em lances-livres pelo segundo ano seguido, como é o pior desde o Detroit Pistons de 2015-16, quando a maior parte dos lances cobrados pela equipe eram de faltas propositais feitas em Andre Drummond.

Em uma série de Playoffs, o que impediria os adversários de cometerem faltas propositais em boa parte dos jogadores do Lakers? Brandon Ingram acerta apenas 61% dos seus lances-livres, a SÉTIMA pior marca da NBA entre os jogadores que já bateram ao menos 100 lances-livres nesta temporada. O pior é Hassan Whiteside, pivô do Heat, com 45%. Quem poderia estar empatado com Whiteside como O PIOR DA NBA é Lonzo Ball, que também acerta só 45%, mas que só bateu 71 lances-livres no ano até agora.

Então não é só que Lonzo Ball tem dificuldade para atacar a cesta e pontuar sobre defensores mais altos, ele tem que conseguir fazer isso sem sofrer falta, senão é tijolada na certa. E some-se a isso LeBron James, que está acertando 68% dos seus lances-livres nessa temporada, a pior marca de toda sua carreira. São os três melhores criadores de jogadas do time, os três que em teoria o Lakers quer com a bola na mão nos minutos finais de um jogo, e todos estão entre os piores no aproveitamento do arremesso que deveria ser o mais fácil.

Depois de ler tudo isso sobre o aproveitamento geral de arremessos e os desastres dos lances-livres é que temos que lembrar que o LA Lakers é um dos poucos times que não possui um shooting coach, um assistente técnico especializado em treinar arremessos. Enquanto isso o San Antonio Spurs paga caro para que ninguém leve embora Chip Engelland, o responsável por fazer qualquer MANÉ que aparece por lá virar um grande arremessador. Ser o time mais rico não resolve nada se você não sabe onde gastar.


LUKE WALTON

É difícil ler textos sobre o Lakers que não termine com alguém pedindo a demissão do técnico Luke Walton ou, no mínimo, dizendo que ela é inevitável. Não é só porque o técnico é sempre o alvo mais fácil, mas porque tem coisa demais indo contra um treinador ainda muito jovem.

Começamos internamente: quando Magic Johnson e Rob Pelinka foram contratados para serem presidente de operações e General Manager, respectivamente, Walton já era o treinador. A imprensa local diz que especialmente Magic não esconde que gostaria de ter um nome indicado por ele no comando. Nos piores momentos do ano passado foi preciso que a DONA do time, Jeannie Buss, viesse a público para garantir que o emprego de Walton estava seguro.

Se essa era a situação quando o time era um bando de moleque de 20 anos sem grandes ambições, o que dizer de agora que LeBron James chegou e o time precisa ir para os Playoffs e mostrar evolução rápida? A pressão é constante e cada decisão que ele toma é analisada aos mínimos detalhes por todos. De certo modo a sua situação é um misto de Fred Hoiberg e Erik Spoelstra.

O ex-técnico do Bulls, como já dissemos tantas vezes aqui, recebeu um time com uma ambição e um objetivo, e aí tudo mudou anos após ano, sempre fugindo das suas melhores características. Walton deveria trabalhar com um time jovem e rápido, aí recebeu Timofey Mozgov e Luol Deng, que ele mesmo teve que chutar para escanteio. Neste ano deram para ele aquele circo sem sentido (e sem grandes arremessadores) de Rajon Rondo, Lance Stephenson, Michael Beasley e JaVale McGee. Sem contar que a chegada de LeBron James, embora muitíssimo bem vinda, mudou boa parte do caminho que o time traçava nos últimos anos, especialmente aquele que pretendia ter Brandon Ingram como o principal criador de jogadas.

O caso também lembra um pouco o de Erik Spoelstra porque ele era um técnico muito jovem quando o Miami Heat contratou Chris Bosh e LeBron James. Não havia crédito e resultados passados que bancassem más decisões ou demora de sucesso, o técnico precisou do apoio de dois nomes gigantes da franquia, o presidente Pat Riley e o ídolo-mor Dwyane Wade, para não ter a cabeça cortada. Não sei se Luke Walton terá esse respaldo.

Essa exposição sobre as dificuldades do técnico são para mostrar como sua situação é complicada, não para defendê-lo. Muitas das questões levantadas ao longo do texto poderiam e deveriam ser atacadas por ele. Logicamente ele também percebe que o time se movimenta pouco às vezes e que o aproveitamento de arremessos é pífio, mas seu trabalho vai além, ele precisa achar soluções. Gosto de como ele conseguiu criar uma boa defesa e de como ele não tem medo de usar os jovens jogadores, mesmo com a tentação de botar os veteranos a cada dor de cabeça, mas o seu trabalho não é indefensável. E dada a pressão da presença de LeBron James –que nem sabemos se realmente gosta do treinador– e do desejo de Magic Johnson de ter sua voz no vestiário, é bem possível que ele só sobreviva se superar expectativas dentro das séries de Playoff.


A conclusão dessa meia temporada do Los Angeles Lakers é que o time é um grande Lonzo Ball: ótimo em algumas coisas, o pior da NBA em outras e com dificuldade de mostrar o seu melhor lado com regularidade. Dito isso, não vamos deixar os últimos 11 jogos piorarem demais a imagem do time. Em 25 de dezembro, quando LeBron James estava inteiro e mais uma vez brigando para ser o MVP da temporada, o time estava em evolução, havia alcançado sua maior vitória no ano e estava no Top 4 do Oeste.

O saldo é positivo, mas não se pode ignorar os defeitos. Como o Cleveland Cavaliers sabe bem, a mera presença de LeBron esconde quase todos os defeitos, mas é preciso atacá-los mesmo assim.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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