O time obediente

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– Pode chorar. Chora. 

Se eu pudesse definir o Philadelphia 76ers em uma palavra, seria “correto”. Ele é aquele aluno certinho que faz tudo o que o professor manda, na hora que ele manda, do jeito que o mestre quer. Não questiona muito, respeita os horários e consegue os resultados. Não sou muito fã de alunos assim, ele seria jogado no lixo e tomaria cuecão na maioria das escolas que eu conheço, mas com o Sixers é mais legal por causa do professor que tem o saco puxado, Doug Collins.

O Collins era o meu comentarista de jogos favorito por anos e anos, nunca mais engraçado que o imprevisível Jeff Van Gundy, mas sempre com análises muito precisas dos jogos. Talento de técnico mesmo. Uma coisa é fazer o que a gente brinca de fazer no blog: ver uma dúzia de jogos do mesmo time, ler sobre ele e depois opinar sobre o que viu e estudou, outra é ser um técnico que tem que perceber tudo durante a partida, ao vivo, e fazer os ajustes necessários. Perdemos com ele voltando a treinar no ano passado, mas o Sixers ganhou muito.

O Doug Collins sempre gostou de montar boas defesas, foi assim em todos os times que trabalhou. Primeiro no Chicago Bulls do começo da carreira de Michael Jordan no fim dos anos 80, onde chegou a ter a 2ª defesa mais eficiente da liga em 1987-88. No Detroit Pistons do meio dos anos 90 sempre manteve eles dentro dos 10 melhores na categoria. Só com o Washington Wizards do Jordan quarentão que os números foram fracos, mas com aquele time era difícil fazer milagre. Outra característica de Collins foi de usar alas na função de armar o jogo, chamar jogadas e deixar armadores livres para outras funções. Deu certo com Michael Jordan no Wizards e Bulls e também com o Grant Hill no Pistons.

No Sixers ele teve a chance de repetir tudo isso. O time abraçou seus conceitos defensivos e se dedica ferozmente a marcar demais. Hoje os adversários do Sixers acertam, em média, apenas 40% dos seus arremessos, melhor marca da NBA. Individualmente eles também tem grandes defensores, especialmente Thaddeus Young (que Collins disse que merece consideração como um dos melhores defensores da NBA) e Andre Iguodala (que merece ganhar o prêmio de defensor do ano ao fim da temporada se continuar assim). Iggy é também o ala que arma o jogo para o time, como nos outros times de Collins. Mas que fique claro que o sistema do Sixers não é tão focado em drible e um jogador controlando a bola e o jogo. Eles funcionam mais com passes, com todos participando e se mexendo sem parar. Mas se alguém segura a redonda mais tempo são Iguodala no time titular e Evan Turner com os reservas.

Os esquema de passes dão certo porque ninguém no time age como estrela. Na prática apenas Iguodala e Louis Williams tem liberdade total para forçar arremessos durante os jogos, mas eles não costumam fazer isso a não ser que seja realmente necessário. O Sixers na maioria das vezes parece um time universitário que, com respeito (e um pouco de medo) do treinador, faz tudo o que é ordenado. Essa obediência até tem indicado uma melhora deles no jogo de meia quadra. No ano passado eles eram muito dependentes dos pontos de contra-ataque, mas hoje podem fazer mais. Ainda são o 4º time que mais faz pontos na transição (18 por jogo), mas estão conseguindo oferecer mais. Os constantes pick-and-rolls, às vezes uns 3 ou 4 na mesma jogada, tem sido muito eficientes. As jogadas que envolvem hand-offs (quando um jogador recebe a bola e solta para o companheiro na sua mão) com o Spencer Hawes são uma grata novidade em relação ao time do ano passado também.

Na última temporada esse time se construiu aos poucos, com melhora gradativa mês após mês, nesse ano já começaram voando. Além do entrosamento, um dos responsáveis por um começo tão bom, uma melhora só seria possível com evolução individual dos atletas. Com o elenco basicamente idêntico ao que foi 7º no Leste em 2010-11, era necessário crescer dentro do próprio elenco. A nova jogada usando Hawes não é por acaso, ele é um dos que abraçaram a ideia.

O pivô, que depois de animador começo de carreira no Sacramento Kings havia estagnado, voltou a mostrar jogo nessa temporada. Está com médias de 10.4 pontos, 8.7 rebotes, 3 assistências e 1.6 tocos, as últimas três são as melhores da carreira e em pontos está um abaixo do que fez no seu segundo ano na NBA. A diferença é que hoje ele o faz com 59% de aproveitamento nos arremessos, quase 15% a mais do que em qualquer outro ano seu na liga. Hawes é o 3º que mais evoluiu em rebotes em comparação ao ano passado (+3.2), o 6º que mais cresceu em tocos (+0.6), o 10º que mais melhorou em porcentagem de arremessos (+14%) e o terceiro que mais cresceu em eficiência (+10.3). É um claro candidato a jogador que mais evoluiu em relação à última temporada.

Uma história legal é como ele treinou para melhorar isso. Primeiro, fisicamente, ele adotou o programa que o próprio Sixers oferece a seus jogadores e o manteve durante o locaute. O programa inclui desde yoga e natação até boxe. Dizem que desde que ele entrou de vez no programa, na metade da última temporada, ganhou mais explosão, velocidade e sua gordura corporal desapareceu. Com o físico perfeito ele resolveu treinar a parte técnica. Garoto de Seattle que é, usou o contato que tinha com um dos maiores ídolos da história da cidade e foi treinar com Shawn Kemp.

Em uma matéria da CSNPhilly.com Hawes comentou o que o fez correr atrás de melhora. “Quando eu cheguei na NBA eu tinha expectativas maiores do que aquilo que eu produzi, especialmente no último ano. Individualmente e estatisticamente. Decidi que nesse ano algumas coisas tinham que mudar, eu deveria começar a evoluir e mudar para o caminho certo”. Shawn Kemp disse que já havia um tempo que ele estava na orelha de seu pupilo, e durante o locaute os dois juntos decidiram que era a hora de fazer algo. Nada muito técnico como quando vemos o Hakeem Olajuwon ensinando jogadas de garrafão para alguns interessados, o negócio era jogar 1-contra-1 do jeito mais agressivo possível.

Eles se reuniam em um ginásio, pisavam no garrafão e começavam a se empurrar, cotovelar e mostrar o arsenal de jogadas que cada um tinha. Foi o jeito que eles encontraram para dar a confiança para Hawes voltar a jogar próximo à cesta e não viver apenas do seu arremesso de longa distância, que é bom mas é pouco para um pivô. Hawes com confiança no garrafão melhora a defesa do time, os rebotes e dá uma opção nova de ataque. Era um tipo de jogador que eles não tinham na última temporada e que ganharam mesmo sem contratar ninguém.

Porém, a questão que não quer calar: Tudo isso vai levá-los até onde? O bom começo pode dar uma posição melhor que o 7º lugar do ano passado. A decadência do Celtics e a demora do Knicks em embalar podem dar para eles umas posições extras, o Pacers ainda está se acertando e o Magic pode quebrar no meio a qualquer ponto da temporada. Ou seja, a chance é até de que consigam ficar entre os 4 primeiros.

Mas temos que lembrar que até agora eles não enfrentaram grandes times. Suas 3 derrotas na temporada vieram para Blazers, Jazz e Knicks, enquanto venceram apenas Suns, Warriors, Hornets, Pistons, Raptors, Kings, Wizards (2 vezes) e Pacers, esse sim um time que também vai bem na tabela. Ou seja, ainda não sabemos como eles vão se sair contra os times mais fortes. Um bom desafio acontece nessa semana. Após pegar o Bucks na segunda-feira, os próximos adversários são Nuggets, Hawks e Heat. Vai ser a hora da verdade.

O Sixers está jogando muito, não é culpa deles pegar times mais fracos no começo, mas vai ser nesses jogos mais complicados que vai dar pra medir até onde vão as chances deles. Times sem nenhum All-Star como o Sixers só conseguem ir muito longe quando não só estão muito entrosados, mas quando os antigos role-players começam a agir como estrelas. Foi assim que o Pistons de 2004 passou de um time-sem-estrelas para um com 4 jogadores no All-Star Game do ano seguinte. É raro, mas possível.

Alcançar esse patamar é uma combinação de entrosamento, bom técnico, esquema tático definido e jogadores interessados em melhorar individualmente. No caso citado do Pistons: Larry Brown, defesa eficiente, Ben Wallace se tornando o melhor defensor do mundo e Chauncey Billups acertando todos os arremessos decisivos. Ou seja, o que vimos em Spencer Hawes precisa acontecer com todo mundo. Para o Sixers encarar os momentos de brilhantismo de, sei lá, Derrick Rose ou LeBron James em séries de playoffs, por exemplo, precisa que seus próprios jogadores sejam capazes de crescer e até, por alguns momentos, serem um pouco menos obedientes a seu mestre para improvisar quando necessário. Já sabemos que o Sixers vai complicar a vida de qualquer time que passar na frente deles, acompanharemos de perto para saber se podem mais do que só incomodar.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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