Os novinhos da Bolha

Não é regra, mas é comum vermos saltos de qualidade em jovens jogadores de uma temporada para a outra. É uma soma da evolução que vem fácil na pouca idade, da experiência enriquecedora de disputar jogos da NBA e do tempo que a offseason oferece para treinar atributos que fizeram falta na temporada anterior. No caso de novatos indo para o segundo ano de vida profissional, não dá pra ignorar também os benefícios de passar as férias (que não são exatamente férias pra quem treina sem parar) trabalhando com técnicos exclusivos e sendo guiados por comissões técnicas de alto nível.

Nessa temporada tivemos um caso especial: uma offseason dentro da própria temporada. O período entre a paralisação da NBA no começo de Março pela pandemia da Covid-19 e seu retorno na Bolha da Disney em Julho foi maior que um período comum entre temporadas, o que deu tempo de muita gente se recuperar de lesão, ganhar peso, perder peso, treinar e tentar resolver problemas no seu  jogo. Foi o que aconteceu com vários jovens jogadores, que viram o tradicional salto de qualidade acontecer dentro da interminável temporada 2019-20. Falaremos hoje de alguns nomes que mostraram essa significativa evolução


michael-porter-jr-vs-okc

Michael Porter Jr.

O Denver Nuggets não é o lugar mais fácil para um novato ganhar espaço, especialmente com a temporada em andamento. Lembram dos Playoffs de 2019 quando o time não engrenava ofensivamente, Jamal Murray não botava uma bola na cesta e mesmo assim o técnico Mike Malone não atendia os pedidos populares por Isaiah Thomas? Pois é, não é por mero impulso que alguém ganha minutos de quadra por lá. Nessa temporada o novato Michael Porter Jr. foi o mais novo exemplo disso, sempre encantando a torcida ao pisar em quadra em seus limitados minutos mas nunca durando muito tempo por lá. Ele demorou cinco partidas para finalmente estrear na temporada (e na NBA, já que passou seu ano pós-Draft se recuperando de lesão) e brilhou com 15 pontos em 20 minutos. Sua recompensa? Duas semanas e seis partidas sem ficar em quadra por mais de OITO MINUTOS. Foi só na virada de 2019 para 2020 que Malone o inseriu pra valer na rotação do time e mesmo assim sempre segurando o menino.

A transição lenta e gradual teve de ser acelerada nessa Bolha da NBA. Com as lesões de Jamal Murray, Gary Harris e Will Barton e as trocas de Malik Beasley e Juancho Hernangomez semanas antes da paralisação, não restou outra opção senão soltar a coleira e botar Porter Jr. pra jogar. Até o retorno da liga, o ala só tinha atuado mais de 25 minutos em TRÊS partidas, mas em Orlando isso já aconteceu em quatros das sete primeiras partidas dele, sendo que jogou ele passou mais de QUARENTA MINUTOS em quadra em duas delas. E para quem só tinha sido titular uma vez, ele começou todos os jogos pelo Nuggets na Bolha.

O resultado tem sido fantástico, ao menos no ataque. São 22 pontos por jogo com insanos 55% de aproveitamento nos arremessos, 42% nos tiros de longa distância e quase 9 rebotes por partida. Ele não só tem jogado bem como tem assumido muito protagonismo, se tornando a principal alternativa ofensiva da equipe para além das jogadas tradicionais de Nikola Jokic distribuindo a bola na cabeça do garrafão. Com Porter Jr. o time tem, finalmente, uma opção que não depende de movimentação sem a bola ou de um pick-and-roll. É só jogar a bola na mão do ala e esperar a magia acontecer. Comparar qualquer jogador com Kevin Durant é sempre um exagero inalcançável, mas dá pra enxergar de onde veio esse papo na época da Draft. Ele é alto, versátil e consegue arremessar na cara de qualquer defensor:

Só que os minutos estendidos de Porter Jr. em Orlando também serviram para dar um pouco de razão para o técnico Mike Malone. Foram inúmeros erros defensivos, muitos por posicionamento errado, outros tantos por estar no mundo da lua, que sempre forçavam o treinador a sair esbravejando. No lance abaixo, contra o Miami Heat, Porter Jr. não percebe e nem tenta acompanhar Jae Crowder em um corta-luz simples e cede uma bola de 3. O técnico pede tempo, dá uma bronca e logo o tira do jogo:

Com as broncas, porém, ele pareceu mostrar mais vontade ao longo dos jogos e é isso o que importa agora. A maioria dos novatos é mesmo meio perdido na defesa. Aprender todas as variações da defesa do seu time e lembrar de todas as jogadas e tendências individuais dos adversários é algo que demora. Se Porter Jr. melhorar nessa parte deve brilhar, já que a parte física para ser um bom defensor ele tem: velocidade nas pernas, mobilidade e braços longos. O sonho molhado do Nuggets é ver essa evolução dar mais um salto para a próxima temporada e acompanhar o desenvolvimento de Murray e o estrelato de Jokic. Mas será que já não dá pra adiantar um pouco disso agora nos Playoffs? Veremos.


Bol Bol

Companheiro de Michael Porter Jr. no Denver Nuggets, Bol Bol parecia encaminhado para uma trajetória parecida: foi selecionado bem abaixo do esperado no Draft por causa de lesões, acabou no Nuggets e iria perder a primeira temporada em reabilitação. Só que chegou a pandemia e a rehab interminável chegou ao fim antes da temporada acabar! Sua estreia aconteceu nos amistosos pré-Bolha, onde o excesso de lesões obrigou o técnico Mike Malone não só a colocar Bol Bol em quadra como o usar de titular em um quinteto formado só por gigantes. Foi um dos grandes momentos de 2020:

EdjvGyJWsAMf5fI

E o filho de Manute Bol não decepcionou na sua chance: arremessou tudo o que podia, mostrou que tem muito mais mobilidade (e até controle de bola!) do que seus 2,20m indicam e que pode ser uma ameaça ofensiva mesmo jogando no perímetro. Por tudo o que falamos antes sobre Malone e o Nuggets, seu tempo de quadra caiu quando os jogos pra valer começaram, mas ele seguiu participando e impressionando nos minutos escassos. A primeira barreira da carreira foi superada, ele já mostrou mais do que muita gente selecionada na frente dele no Draft 2019 e o Nuggets pode já começar a imaginar como usar o gigante magricela em sua rotação na próxima temporada.


kyle-kuzma-defense

Kyle Kuzma

Eu nem ia colocar Kyle Kuzma na lista porque não sei se podemos chamá-lo de novinho: completou 25 anos agora em Julho e está jogando em sua terceira temporada na NBA. Só que também não dá pra chamar de veterano e nesse elenco experiente do Los Angeles Lakers ele começou o campeonato como a solitária esperança de evolução e mudança, já que o resto do time a gente já tá cansado de assistir e já sabe exatamente o que esperar.

Não estou pronto para o otimismo que torcedores do Lakers mostram Twitter afora, mas tem sido um alívio ver Kuzma mostrar na Bolha tudo o que se cobra dele desde que nos acostumamos com sua facilidade de marcar pontos logo no ano de estreia. Se confiança e cestas não são o problema, era preciso aprimorar a defesa, os arremessos de longa distância e a visão de jogo. Não dava mais pra baixar a cabeça e arremessar toda vez que pegava a bola como fez quando só tinha pirralhos ao seu redor. Com LeBron James e Anthony Davis era preciso espaçar a quadra, encontrar companheiros livres e defender bem o bastante para poder estar em quadra em um quarto período decisivo. Se nos meses pré paralisação os resultados não foram tão animadores no quesito evolução, na Bolha da Disney estamos vendo um novo jogador.

Começamos pelas bolas de longa distância, onde seu aproveitamento na linha dos 3 pontos pulou de 31% para 44%! Não sabemos se é sustentável no longo prazo, mas até agora tem salvado a pele do Lakers já que Danny Green, Kentavious Caldwell-Pope e outros ainda não acertaram a pontaria em Orlando. Na criação de jogadas também temos visto passes que antes ele não costumava fazer. Não é nem que ele vá dar muitas assistências, sua função no time nem é essa, mas é importante enxergar alguém livre e passar na hora certa, como fez tão bem contra o Denver Nuggets:

Por fim, o mais impressionante tem sido sua defesa. Apesar de mostrar muito esforço para melhorar desde a temporada passada, a coisa nunca encaixou de vez: era usado por Luke Walton para marcar jogadores mais altos e fortes e às vezes até proteger a cesta, sem sucesso. Com Frank Vogel fica mais no perímetro, mas sofria para ficar na frente de alas ou armadores mais ágeis. Não mais, ao menos nos últimos oito jogos. Ele marcou muito bem Kawhi Leonard no primeiro jogo e levou a intensidade e os pés mais rápidos para as outras partidas. O vídeo abaixo compara a marcação de Kuzma sobre Pascal Siakam em um jogo do começo da temporada com um agora da Bolha e mostra como ele parece mais consciente do que deve fazer:


Mikal Bridges

Se o assunto é defesa, não podemos esquecer de Mikal Bridges. Em sua segunda temporada, o ala foi o líder defensivo do Phoenix Suns na campanha de 8 vitórias e NENHUMA DERROTA do time na Bolha. Com braços longos e uma agilidade  assustadora, ele gruda em quem quer e não solta mais. Foi um dos poucos a segurar TJ Warren em Orlando, por incrível que pareça. Na partida contra a carcaça do Philadelphia 76ers foi um terror que perseguiu Alec Burks e Shake Milton em todo santo corta-luz, como vemos no vídeo abaixo. Deu gosto de ver sua intensidade em uma partida em que o resto do elenco parecia bem relaxado de jogar contra uma equipe desfalcada:

Embora o aproveitamento nos arremessos de 3 pontos esteja um pouco melhor na Bolha, o aumento é mínimo se comparado ao da temporada regular. Sua defesa boa também não é necessariamente uma novidade, o que cresceu foi o protagonismo e a importância das partidas. Sem Kelly Oubre, Bridges precisou passar mais tempo em quadra (tem passado sete minutos a mais em quadra na Bolha) e mais tempo marcando os grandes pontuadores rivais. E agora as pessoas estão realmente assistindo jogos do Suns que valem alguma coisa, onde perder tem consequência direta. A Bolha criou um propósito para o time e o elenco surpreendentemente respondeu bem, com Bridges sendo um dos grandes destaques de postura e defesa.


Trent

Gary Trent Jr

Não dá pra falar da Bolha sem falar de Portland Trail Blazers. E não dá pra falar do Blazers sem falar de… Damian Lillard, claro. Mas além do MVP do retorno, Gary Trent Jr. chamou muito a atenção de todos na insana briga do Blazers rumo ao Torneio Colher de Chá. Depois de ter média de DOIS PONTOS por jogo como novato e meros OITO PONTOS neste ano, Trent Jr. saltou para incríveis 17 pontos por partida na Bolha de Orlando, tudo nas costas de um absurdo aproveitamento de 55% nos arremessos de 3 pontos. Como comentaram no Twitter, a coisa foi tão rápida e avassaladora que chegou um momento em que começamos a estranhar quando um arremesso seu não caia.

A ascensão de Trent Jr. nesta temporada não aconteceu do nada. Ele foi o último do trio de pirralhos do Blazers a ter seu momento de glória em um ano recheado de dramas e lesões: primeiro foi Anfernee Simmons que ganhou espaço e elogios quando o time não tinha quem fizesse pontos além de Lillard e CJ McCollum, depois foi Nassir Little que apareceu após as lesões de Jusuf Nurkic e Zach Collins e antes da contratação de Carmelo Anthony. Em Janeiro foi a vez de Gary Trent Jr. abocanhar seu espaço na rotação como opção de arremesso de longa distância que compensaria a perda de Rodney Hood. Ele respondeu bem e outra ausência, agora de Trevor Ariza, fez com que o técnico Terry Stotts apostasse ainda mais nele na Bolha. Caiu como uma luva.

Com apenas 21 anos de idade, evolução rápida e em um time que consegue criar arremessos bons de longa distância o tempo todo, Trent Jr. deve seguir ganhando espaço nos Playoffs e depois na próxima temporada. Um achado essencial para uma equipe que sofreu nos últimos anos pela folha salarial inchada e pela falta de opções para reforço do elenco.


Lonnie

Lonnie Walker e o Baby Spurs

Falamos muito no último podcast sobre como foi uma grata surpresa ver Gregg Popovich finalmente investindo na molecada do San Antonio Spurs e colocando Derrick White, Lonnie Walker, Dejounte Murray e Jakob Poetl em quadra ao mesmo tempo, além de Keldon Johnson vindo do banco com regularidade. Embora a decisão tenha sido tomada pensando lá na frente, até deu resultados agora, com algumas ótimas partidas, vitórias e um certo otimismo em relação ao time mesmo com a sequência de mais de 20 anos de Playoffs morrendo na Bolha.

De toda a molecada, vou puxar para o lado de Lonnie Walker. Ele foi o jovem mais elogiado por Popovich após a vitória sobre o Houston Rockets nesta semana e um símbolo de como o time está jogando. “Ele está aprendendo a infiltrar no garrafão não só para ele mesmo, mas para os companheiros. Ele melhorou muito em encontrar seus companheiros, especialmente na linha dos 3 pontos”, disse o treinador. Segundo Pop, Walker está aprendendo a lidar com a própria velocidade, já que antes atacava a cesta com tanta intensidade que se perdia e não via onde estavam os outros jogadores do time. O treinador também disse que Walker aprimorou sua defesa durante a Bolha e que a melhora se deu por muito estudo de vídeo e pelos treinos competitivos que ele conseguiu organizar nesse período de confinamento. É o velho método Spurs de tirar o melhor de cada peça do elenco finalmente chegando nessa galera mais nova.

No começo da temporada minha aposta para ser o rosto do Spurs no futuro era Dejounte Murray, mas seus altos e baixos ainda incomodam. Será que Walker consegue dar esse salto de qualidade já em 2020-21? Vimos muito pouco para cravar isso, mas sua melhora foi um dos pontos positivos do Spurs na Bolha.


Faltou algum novinho que impressionou vocês nessa volta de NBA? Por aqui acho que ainda dava pra citar Grayson Allen, que pulou de 8 pontos de média na temporada para 14,3 na Bolha graças aos 48% de aproveitamento nos tiros de 3 pontos que o Memphis Grizzlies tanto precisa para ser um ataque funcional. E se a faixa dos 25 anos está liberada para Kuzma dá pra tirar uma linha para elogiar Timothé Luwawu-Cabarrot, do Brooklyn Nets. Depois de começo de carreira animador no Philadelphia 76ers, foi trocado e não vingou no OKC Thunder e no Chicago Bulls. Na Bolha de Orlando está com 14,1 pontos por jogo e 43% de acerto nas bolas de longa distância, além de mostrar uma capacidade de criar jogadas que eu não lembro de ter visto o ala francês mostrar antes. Uma grata surpresa de um time que não esperava nada. E não quero acabar com as piadas que adoramos fazer ao longo dos últimos anos, mas Cameron Payne jogou bem de verdade pelo Suns. Veremos como isso continua ano que vem…

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

Como funcionam as assinaturas do Bola Presa?

Como são os planos?

São dois tipos de planos MENSAIS para você assinar o Bola Presa:

R$ 14

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro e texto do FilmRoom.

R$ 20

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bolões + Vídeo ao vivo para discutir Clube do Livro e FilmRoom.

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro e texto do FilmRoom.

Acesso ao nosso conteúdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bolões + Vídeo ao vivo para discutir Clube do Livro e FilmRoom.

Como funciona o pagamento?

As assinaturas podem ser feitas pelo Aplicativo PicPay. Baixe, cadastre-se, busque o Bola Presa e escolha seu plano de assinaturas. Você pode pagar com cartão de crédito ou carregar sua Carteira PicPay com boleto ou depósito bancário. Depois de assinar, escreva para bolapresa@gmail.com para mais detalhes de como ter acesso ao conteúdo exclusivo.

DÚVIDAS SOBRE AS ASSINATURAS? Nos escreva: bolapresa@gmail.com

Assine já!