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Sam Cassell mostra o tamanho das bolas do Magic, 
que trocou dois de seus jogadores titulares

O Magic sempre mostrou que é um time disposto a arriscar. Quando o elenco parecia ter futuro e os comentários eram de que, com um grande arremessador de três pontos, eles seriam capazes de lutar pelo título, juntaram todas as moedinhas e ofereceram tudo que tinham disponível para o Rashard Lewis – na época um dos arremessadores mais badalados da NBA. O contrato foi ridículo, somando 124 milhões de dólares em 6 anos, e dá pra ter ideia do absurdo fazendo uma visita a esse site aqui, que calcula em tempo real quanto o Rashard Lewis ganhou no mundo real a partir do momento em que você entrou na página (adianto, é mais de 1 dólar por segundo). O jogador não vale tudo isso, nunca fez grandes coisas pela equipe, mas quanto você estaria disposto a pagar por um jogador que pode ser a última peça para vencer um anel? Na temporada seguinte à sua contratação, o Magic se tornou campeão do Leste e perdeu na Final da NBA para o Lakers. Não dá pra criticar a decisão.

Com a derrota, vieram novos papos. Supostamente o que faltava para ganhar o título era, então, alguém capaz de criar o próprio arremesso, decidir os jogos no final, encontrar uma bola de segurança que não fosse um arremesso de três forçado. Fizeram uma troca para conseguir Vince Carter, jogador longe de seu auge e com fama de fominha. Foi arriscado, mas o Magic preferiu apostar na imagem que o Carter construíra no ano anterior como tutor da pirralhada do New Jersey Nets. O sucesso do Carter foi moderado, por vezes parecia estragar o ritmo da equipe, por outras salvava o jogo, mas o Magic com ele chegou novamente à final do Leste – desse vez perdendo para o Celtics.

Não é estranho, portanto, que um time que chegou a duas finais de Conferência em anos consecutivos esteja sempre envolvido em tantos boatos de troca. Estão sempre dispostos a arriscar, a acrescentar uma peça final, a mudar o elenco vencedor para conseguir dar um passo a mais. É por isso que a resposta a uma fase de derrotas nessa temporada foi trocar vários jogadores – aquisições, como as de Carter e Lewis, arriscadas mas inteligentes. O Magic não tem aquela postura bizarra do Cavs da era LeBron, que trocava apenas por trocar e formou um circo de horrores, em Orlando as trocas tem uma visão de conjunto, um plano definido de qual é a identidade do time. Só trocam por quem se encaixa na brincadeira.

O primeiro passo do Magic nessa maratona de trocas anunciadas hoje foi se livrar do Rashard Lewis. Não que ele feda, como muita gente anda sugerindo recentemente. Longe disso, ele é um bom jogador, mas seu contrato vai até 2013 lhe pagando mais de 20 milhões por temporada bem quando o Magic não precisa mais de arremessadores. Todo mundo no elenco, até o garoto da água e a mãe do Dwight Howard, arremessam de três mesmo durante o sono. O processo de montar um elenco eficiente no perímetro que teria o Rashard Lewis como peça final deu tão certo, mas tão certo, que agora o Lewis é descartável. Já não fará nenhuma falta.

Em seu lugar, o Wizards manda nosso canalha favorito, Gilbert Arenas. Nos últimos anos Arenas sofreu com uma lesão, depois com a lesão resultante dele tentar voltar cedo demais para as quadras, depois com a lesão resultante dele treinar demais para se reabilitar mais rápido, e depois com a punição por ter feito uma piada com armas de fogo no vestiário (que ele ainda não engoliu muito bem e diz ter sido julgado injustamente). Faz tanto tempo que ele não pisa numa quadra de basquete que até dá pra esquecer que, uns anos atrás, ele era um dos jogadores mais fodões da NBA, cotado para ser MVP, marcando 60 pontos nos times com os quais tinha birra, e dando mais de 10 assistências por jogo em sua volta às quadras só pra provar que, se quisesse, teria fácil média de double-double como armador. Arenas era tão bom que recebeu um contrato de 111 milhões e um elenco de apoio de respeito para tentar um título do Leste, mas todo mundo do elenco se lesionou numa hora ou em outra (e quando estavam saudáveis perdiam pro Cavs de LeBron nos playoffs) e agora já era, desistiram do projeto, desmontaram o time, e já é tarde demais para o Arenas voltar e tentar fazer valer o contrato gigantesco Ele merecia esse contrato quando o Wizards queria ganhar naquela hora e acreditava em títulos, agora estão reconstruindo em volta do John Wall e o Arenas não apenas ganha dinheiro demais e é bom demais, mas também rouba minutos do novato John Wall porque jogam basicamente na mesma posição. Para o Wizards é melhor se livrar do Arenas por qualquer outro jogador que seja de outra posição e dê ideia de recomeço, de que o John Wall é a estrela, e se tiver um contrato mais curto é brinde. O Rashard Lewis tem um contrato um ano mais curto, não é metido a estrela (nem nunca foi, tem “jogador secundário” escrito na testa), e não vai roubar minutos do John Wall, pronto, tá ótimo. Enquanto isso o Arenas está jogando cada vez melhor, recuperando a forma, e pode criar o próprio arremesso como se esperava que o Carter fizesse na temporada passada. Fora que, como já provou que sabe passar a bola como armador principal, pode substituir Jameer Nelson numa das trocentas contusões anuais do garoto.

É claro que o Arenas pode pregar uma peça e envenenar a água de Orlando, exagerar e querer dar todos os arremessos finais do meio da quadra enquanto grita algo absurdo como “Colher!”, e segurar demais a bola, mas é mais um risco para o Magic que simplesmente vale a pena. O Arenas tenta começar de novo e deixar as polêmicas para trás, vai querer ser bom moço na nova equipe, está cada vez em melhores condições de jogo e tem potencial para voltar a ser jogador digno de papo sobre MVP. Se fizer merda e forçar muito o jogo, não vai ser nada que o Carter já não tenha feito tantas vezes no último ano, com a vantagem de que o Arenas é mais versátil e pode jogar nas duas posições de armação.

Essa troca, além disso, permitiu que o Orlando fosse ainda mais além com seus bagos gigantes. Com a chegada do Arenas, ficaram livres para enviar o Carter para o Suns. Aproveitaram para enviar dois jogadores de valor mas que, assim como Rashard Lewis, eram cada vez mais inúteis na equipe: Mickael Pietrus e Marcin Gortat. O Pietrus era importante na equipe graças à sua defesa e às bolas de três, mas desde que o JJ Redick passou a defender o bastante para conseguir ficar em quadra e teve atuações memoráveis nos playoffs, tem tido prioridade. Já o Gortat nunca foi muito usado mesmo, mas ele teve alguns momentos brilhantes em quadra, mesmo que raros, e o Magic resolveu lhe dar um salário gordinho só para impedir que os outros times interessados contratassem o rapaz (sabe como é, pivô é raro hoje em dia). No Magic faltam oportunidades porque o Dwight Howard é o dono absoluto do garrafão e o Brandon Bass joga cada vez melhor, em especial porque ele tem um arremesso de média distância consistente e aí não bate cabeça com o Dwight. No fim, valeu a pena investir no Gortat porque ele agora virou moeda de troca, só isso. Nenhum desses jogadores, no momento, fará falta para o Magic. O risco está mesmo é no que eles recebem em troca.

Em troca de Gortat, Pietrus, Carter e uma escolha de primeiro round no draft, o Suns mandou Jason Richardson e Hedo Turkoglu, além do Earl Clark (que só vai junto porque deve ter entrado no avião sem querer). Pra mim, Jason Richardson é o jogador perfeito para o Magic atual. Sua temporada pelo Suns tem sido fantástica, seus arremessos andam precisos, seu basquete anda eficiente como nunca, ele cria o próprio arremesso, e tudo isso sem exigir a bola nas mãos. Até chega a forçar o jogo, especialmente no primeiro período (dizem que se ele domina o primeiro quarto, é certeza de que terá um jogo fodão), mas nunca segurando demais o jogor. J-Rich joga bem sem a bola em mãos, se posiciona bem no perímetro e está sempre cortando para a cesta. É o jogador ideal para continuar a tradição de arremessos de três do Magic, um especialista no quesito que já liderou a NBA mais de uma vez em bolas de 3 convertidas, mas capaz de se virar quando o perímetro não estiver funcionando – e tudo isso sem comprometer a rotação de bola e o ritmo da equipe. Com o Hedo Turkoglu o negócio é diferente, ele também arremessa bem de três mas segura muito mais a bola, gosta de jogar como armador, e agora o Magic parece ter excesso de gente assim. Mas mesmo que o turco tenha minutos limitados, já deve valer a pena. Postei no começo da temporada sobre como o estilo do Turkoglu não se encaixava com o Suns de modo algum, que ele não tinha como render lá, e que sofrera com a mesma questão em Toronto. No estilo do Magic, pelo contrário, o Turkoglu parece um bom jogador, usa suas principais qualidades. Então mesmo que seus minutos fiquem restritos pela presença de Brandon Bass, Jameer Nelson, Jason Richardson e Gilbert Arenas, será no mínimo um jogador que pode render um pouco ao invés daquela lástima que ele era no Suns, em que não rendia nada. O jogador foi salvo e o Magic ganha de volta um reforço que deve estar muito grato e já conhece todo o andamento da equipe. É arriscado porque o contrato do turco é enorme e ele pode bater cabeça com outros jogadores, mas é tentador conseguir por um preço baixo um jogador que você sabe que vai render muito mais justamente no estilo de jogo da sua equipe – e que não rende nada em nenhum outro lugar.

Pro Suns, é um alívio se livrar do Turkoglu e receber o Marcin Gortat é um motivo para ver alegria na vida outra vez. Hakim Warrick quebra um belo galho no garrafão ofensivo mas falta alguém que possa sequer se fingir de pivô desde que o Robin Lopes se contundiu. Se o Gortat for mesmo aquilo que se supunha e puder dominar na defesa enquanto contribui no ataque com enterradas e jogo físico, o Suns nem fica com tanta saudade do Amar’e e para de tomar um pau de qualquer jogador com mais de um metro e meio de altura. E se o Gortat for um jogador limitado e souber apenas levantar os braços, o garrafão do Suns também já fica imediatamente melhor – estavam numa situação tão ruim que se um torcedor sorteado fosse jogar de pivô, seria lucro. Para isso perdem J-Rich numa temporada magistral, o que é uma pena, mas o Carter tem ao menos em teoria a possibilidade de tapar o buraco. Precisa de entrosamento com o Nash, soltar a bola, correr um bocado, mas o Carter já começa se encaixando no time em um aspecto básico: ele nunca defendeu bulhufas mesmo.

O Wizards deu o último passo necessário em sua reconstrução – que pra mim foi, até agora, impecável e relâmpago – se livrando de seu melhor jogador e dando espaço para John Wall, e o Suns ainda se debate para conseguir um garrafão pós-Amar’e e vai tentar tapar o buraco do J-Rich enquanto tenta descobrir se pode sonhar com alguma coisa enquanto ainda possuem o Nash. São todas mudanças significativas, mas quem mais tinha a perder com tudo isso era o Magic, porque o Suns e o Wizards fediam enquanto o Magic é um timaço que vem de duas finais de Conferência. A equipe de Orlando tem testículos de jumentinho para arriscar a esse ponto, e pra mim só apostou em coisas que valem a pena – mesmo se derem errado.

Jameer Nelson já está confirmado como titular (enquanto não se contundir, ele nunca joga mais de 70 partidas numa temporada), Arenas já avisou que está sussa de vir do banco, então o resto do quinteto inicial deve ter Jason Richardson (no papel de Vince Carter) e Turkoglu (no papel de Rashard Lewis), com o garrafão reforçado por Brandon Bass. Subitamente o time mantém as características usuais, sua identidade como um time de arremessadores, mas todo mundo sabe criar o próprio arremesso e o garrafão fica mais forte. Gilbert Arenas pode vir do banco armando o jogo e, claro, criando as próprias situações de cesta, ao lado de JJ Redick, e nos momentos cruciais de jogo o quinteto pode ter Jameer Nelson, Arenas, J-Rich, Turkoglu de ala (como teve que jogar no Suns) e Dwight no garrafão. Lembra quando ninguém no Magic queria decidir? E a bola parecia batata quente? O Turkoglu passou a criar cestas mesmo que a contragosto, o Jameer Nelson aprendeu a bater para dentro e forçar pontos, Arenas tem história como um dos jogadores mais decisivos de sua geração, e o Jason Richardson sabe muito bem criar espaço para si mesmo. É um Magic irreconhecivel.

Passei muito tempo não levando esse Magic a sério, meio como se eles fossem um Mavericks do Leste, sabendo que eles poderiam chegar a uma Final de NBA e esfregar minha cara no troféu e mesmo assim eu sempre iria achar que tudo ia dar merda. É que acho difícil ter medo de times que se baseiam nos arremessos de três porque eles são inconstantes e é preciso ter uma bola de segurança pra quando tudo o mais falha, pra quando a água bate na bunda. Pois agora eles tem, ao menos no papel, tudo o que é necessário. Devem chegar a mais uma final de Conferência, mesmo com os inevitáveis problemas de entrosamento que surgirão nos próximos meses. E, mesmo se der tudo errado, aplaudo os bagos dos engravatados de Orlando. Essa equipe que arrisca e inova já tem, pra mim, muito mais valor do que qualquer equipe de sucesso que bate na trave e não tem coragem de mudar os rumos. Quero ser igual ao Magic quando eu crescer.

Outras equipes, como Lakers, Nets e Rockets, fizeram trocas recentemente e vamos comentar delas nos próximos dias (sei que estamos meio devagar, prometo que a gente engrena ainda esse ano). Mas pegar um time vencedor, com chances de título, e mandar embora peças tão importantes para trazer jogadores polêmicos é coisa para poucos. Só por isso, já merecia que desse certo. Bem que o Arenas poderia tentar não andar nos vestiários armado dessa vez só pra ajudar um pouco.

>Preview – 2010-11 / Washington Wizards

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Se o Arenas foi punido por essa piada, imagina se 
ele tirasse uma foto com um fuzil tipo o Adriano



Objetivo máximo: Voltar aos Playoffs
Não seria estranho: Ficar fora da pós-temporada por pouco
Desastre: Continuar sendo um dos piores times da NBA

Forças: Muitos jogadores jovens e talentosos e a volta de Gilbert Arenas
Fraquezas: O time é inexperiente, nunca jogou junto e a volta de Gilbert Arenas

Elenco: Veja aqui (somos incompetentes a ponto de lutar por horas com o Blogger sem conseguir colar aqui uma simples tabela que, misteriosamente, conseguimos colar normalmente nos outros Previews, mas assim que entendermos o que aconteceu voltaremos ao normal).

Técnico: Flip Saunders

O Flip Saunders é uma espécie de Rubinho Barrichello dos técnicos da NBA. Ele é muito melhor que a média geral e ganhou destaque por isso, mas nunca conseguiu ultrapassar a linha que separa os bons dos que fazem história. Ele começou sua carreira como técnico em nível universitário, mas brilhou mesmo na CBA, uma liga menor americana. Lá ele ganhou dois títulos, conseguiu promover 23 jogadores para a NBA. Em 1995 foi trabalhar nos bastidores do Minnesota Timberwolves e um ano depois assumiu o cargo de técnico do time.

Lá foi um dos responsáveis por transformar o Kevin Garnett, um pirralho magricelo recém-chegado do colegial, num dos melhores alas de força de todos os tempos. Ao lado de KG, conseguiu levar o sempre fracassado Wolves aos playoffs. Mas aí entra a parte Rubinho: foram sete anos seguidos perdendo na primeira rodada! Não era culpa de Saunders, o time sempre foi limitado, e quando ganhou os reforços de Sam Cassell e Latrell Sprewell conseguiu ir para a final do Oeste, em que perdeu para o Lakers de Kobe, Shaq, Malone e Payton.

No ano seguinte o Wolves, que fez um trabalho ridículo ao tentar renovar os contratos de Cassell e Spree, caiu de produção e Saunders foi demitido. Se mudou então para o Detroit Pistons, que vinha de duas finais de NBA consecutivas. Lá chegou a três finais do Leste, mas perdeu as três. Uma para o Heat, outra para o Cavs e a última para o Boston Celtics. A derrota para o Cavs foi bem traumática, mas nenhum resultado foi completamente absurdo. Mas mesmo assim ficou aquela sensação de Sauders falhar na hora H. Ele, sempre conhecido por seus eficientes sistemas ofensivos, foi acusado de ter feito o Pistons, especialista em defesa, piorar muito nesse quesito. De fato o Pistons não era o mesmo do tempo de Larry Brown, mas não sei quantos times na história conseguiriam manter aquele padrão quase perfeito de defesa do time de 2004 e 2005 por muito tempo.

Depois de tantas derrotas em estágios avançados ele foi demitido, o GM Joe Dumars disse que o time precisava “de uma nova voz” e o dispensou. No ano passado ele foi para o Wizards, onde não teve muita chance de mostrar seu trabalho. As contusões, a confusão e suspensão do Arenas e as trocas de Antawn Jamison e Caron Butler limitaram seu trabalho, que será realmente testado nesse ano. Na pré-temporada já está mostrando suas inovações ofensivas ao escalar nos primeiros jogos três armadores ao mesmo tempo: John Wall, Gilbert Arenas e Kirk Hinrich. Ainda não tenho opinião formada sobre o assunto porque foram só dois jogos de pré-temporada, mas o Bulls arriscou umas coisas assim ano passado com o próprio Hinrich e não deu certo por muito mais do que alguns minutos por jogo.


Há uns três anos a gente fala que a próxima temporada é a da volta do Gilbert Arenas. Por duas vezes erramos por conta de contusões sucessivas dele e no ano passado erramos porque ele resolveu brincar com armas de fogo. Pois é, acontece de tudo nesse mundinho da NBA. Se você não lembra, pode ler sobre o acontecido nesse nosso post da época.

Nesse ano, porém, o foco não esta no novo camisa 9 do Wizards. Ele mesmo está querendo tirar de si toda a atenção, dizendo (mas nem sempre convencendo) que o time é do John Wall, que o novato é um grande talento e que ele não precisa ser mais o nome do time. Em uma ocasião o Arenas disse que queria ser um mentor para o novato e depois disse que “Ele é o Batman, eu sou o Robin”.

Por outro lado, essas declarações do Arenas e sua insistência em não parecer mais tão alegre e receptivo com a imprensa também têm chamado a atenção, criando o oposto do que ele queria e chamando mais a atenção. Acredito, no entanto, que se ele conseguir se concentrar por mais um tempo em só jogar, dar declarações vazias e deixar o jogo do John Wall chamar a atenção, ele irá conseguir o sossego que deseja. Eu não sei se isso é bom para os torcedores, que perderiam um dos caras mais divertidos e que dá algumas das declarações que mais fogem do lugar-comum, mas talvez fosse bom para o próprio jogador. Difícil é saber se ele vai conseguir se segurar.

Uma grande vantagem do Wizards sobre outros times nessa temporada é que eles não estão sentindo tanta pressão. O time é jovem e os anos anteriores foram tão desastrosos que basta um sinal de melhora que tudo está ótimo, não há pressão para playoffs, passar da primeira rodada ou algo do tipo, como existia com o trio Arenas-Butler-Jamison. Essa pressão menor também ajudará o técnico Flip Saunders a resolver algumas questões difíceis na montagem do time titular.

O armador titular é claro que é John Wall, disso não há dúvida. Também parece óbvio que Gilbert Arenas será o segundo armador. Não só ele já jogou nessa posição e tem tudo para se adaptar com sucesso como colocá-lo no banco poderia trazer uma dor de cabeça desnecessária nesse começo de temporada, talvez mais pra frente. Mas depois disso começam as dúvidas. Kirk Hinrich joga nessas duas posições já ocupadas, mas tem talento para ser titular em qualquer time da liga, talvez por isso está sendo bem improvisado de ala nesse começo de pré-temporada. Uma estratégia meio Don Nelson que exige adaptação do adversário mas que tem uma série de falhas. Além dele, podem jogar na posição Josh Howard, que pode ser muito bom quando está focado, e Al Thornton, que apareceu bem no Wizards depois de vir do Clippers no meio da última temporada. Nenhum dos dois, porém, jogou bem a ponto de convencer como titular absoluto.

Na posição de ala de força a situação é parecida. Yi Jianlian e Andray Blatche já tiveram momentos muito bons e outros péssimos em suas jovens carreiras, os dois precisam de tempo e regularidade para mostrarem o que sabem mas só um pode ser titular. Até já improvisaram o Blatche de pivô algumas vezes, mas tudo o que ele não precisa é ficar quebrando galho nesse ponto de sua carreira. Pelo ótimo fim de temporada passada acho que Blatche ganha a vaga de titular, mas a briga está aberta, o Wizards até já se mostrou disposto a oferecer uma extensão de contrato para o chinês.

A posição de pivô, que era a que mais teve brigas nos últimos antes, principalmente entre Etan Thomas e Brendan Haywood, agora tem dono: JaValle McGee. Além de ser All-Star na categoria força nominal, é um jogador bom e promissor. Com tempo de quadra para pegar o ritmo deve refinar um pouco mais o seu jogo e poderá se tornar uma espécie de Tyson Chandler: bem atlético, especialista em tocos, mas no ataque ajudando só nas pontes-aéreas. Não é nada fantástico, mas o bastante se o resto do time for bom. No fim da temporada passada ele já teve uns jogos muito bons, será legal ver ele se desenvolver nessa temporada.


Na temporada passada nós fizemos aqui um perfil de Abe Polin, antigo dono do Wizards que morreu no ano passado. Depois de sua morte o time ficou nas mãos da mulher de Polin, e então foi vendido à empresa de Ted Leonsis, que já havia sido dono de uma parte do Wizards um tempo atrás (ele foi o cara que vendeu sua parte para Michael Jordan em 2000).

Querendo renovar completamente a equipe, Leonsis fez uma lista de 101 coisas que devem mudar na equipe a partir dessa temporada. E o mais legal é que você pode ver a lista completa no site dele! É só clicar aqui. A lista envolve tudo, desde coisas como “draftar e desenvolver jogadores internacionais” e “manter a relação do time com a família Polin e suas obras de caridade” até “pizzas mais quentes” e “pipocas sempre frescas”. Os banheiros agora estão reformados, eles servem comida vegetariana no ginásio e até está na lista a idéia do time voltar a se chamar Washington Bullets. De John Wall a comida vegetariana é quase tudo novo em Washington.

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Jamison deixava jogadores do Cavs sangrando no
chão, agora tem que ser miguxo do LeBron

Primeiro o Arenas foi suspenso pela piadinha com armas de fogo. Depois, Caron Butler (junto com o Haywood) foi trocado para o Mavs e agora, para finalizar, Antawn Jamison foi trocado para o Cavs. Não sobrou nenhum dos três ex-jogadores de All-Star para contar história num time que, ao menos no papel, era colocado por todo mundo como um dos favoritos para brigar pelo título do Leste. Enquanto quase todos os times da NBA ficariam batendo a cabeça na parede, insistindo num erro por medo de se queimar com os torcedores, o Wizards resolveu desmontar a equipe inteira assim que percebeu que o trio não iria adiantar para levar o time ao topo. Uma decisão segura seria dizer que, novamente, o trio não passou tempo o bastante jogando junto, colocar a culpa na mudança de técnico, esperar Arenas voltar temporada que vem e tentar de novo, de novo e de novo. Mas o Wizards não quis ser novamente um time mediano, compreendeu as limitações que os três All-Star juntos enfrentavam em quadra, e teve a coragem de começar de novo. Essa coragem falta para muitos times que acabam ficando para sempre naquele limbo do meio da tabela, lutando pelos playoffs ou conseguindo as últimas vagas, sem nunca ter chance de vencer de verdade. O único modo de transformar essa situação é reconstruir o time, feder por uns tempos, conseguir escolhas de draft, dar minutos para os pirralhos. Mas como explicar para o torcedor apaixonado que o time bom pra burro, mas não bom o bastante, vai ser jogado no lixo e o time vai feder por uns anos? Como explicar caso uma equipe que já chegou a competir por títulos comece a namorar com a pior campanha de todos os tempos? O Nets poderia muito bem ter mantido vários de seus jogadores e ficado no mais-ou-menos pra não passar vergonha, mas essa campanha horrorosa uma hora vai dar frutos.

O Pistons teve esse medo de feder para os torcedores, o Joe Dumars quis concertar tudo muito rápido para que não houvesse um período de reconstrução, e o resultado foi um time que não consegue se livrar de Richard Hamilton, contratou lixos como Ben Gordon e Villanueva, e não tem identidade. Pra quê tanto medo de feder? O passo do Wizards rumo à lama é a coisa mais inteligente e corajosa que a equipe poderia ter feito. Eles já estavam na merda mesmo, o melhor é abrir os dedos, garantir uma boa escolha de draft, construir um time inteiro do nada de acordo com as preferências do novo técnico (ao invés de ter que fazer o técnico suar para colocar um padrão numa equipe aleatória já montada) e dar minutos para a pirralhada jogar.
Como o Wizards não tem dado certo nos últimos anos, o time arrumou um bom número de fedelhos com potencial. O Arenas dizia que o Nick Young lembrava o Kobe quando entrou na NBA e seria uma estrela, Andray Blatche é um ala cheio de potencial que domina ligas de verão e há anos todo mundo espera ver ele estourar, e JaVale McGee é um pivô enorme, magrelo e completamente cru com capacidade para dominar na defesa. Nenhum deles tinha muitas oportunidades de jogo estando atrás de Butler, Jamison e Haywood, respectivamente, e apesar dos três terem se saído bem nas constantes contusões da equipe, nunca tiveram minutos suficientes para conseguir alguma consistência. Agora isso mudou: Blatche e McGee formam o garrafão titular da equipe, enquanto Nick Young ganha sua chance ao lado do Josh Howard, que chegou na troca do Butler desacreditado por não ter se tornado aquilo que se esperava dele – embora o potencial ainda esteja lá. Mesma coisa com o Al Thornton, que parecia um dos jogadores mais promissores do Clippers até que a comissão técnica foi ficando mais e mais descontente com seu jogo e ele foi mofar no banco.
São todos jogadores com potencial, terrivelmente inconstantes, tendo a oportunidade de suas vidas. Precisam mostrar que têm valor, precisam mostrar que conseguem aprender jogo após jogo, e que rendem quando recebem minutos. Enquanto eles se desenvolvem, a temporada vai pro saco e o próximo draft rende algum outro jogador de potencial para ajudar a equipe. Quando o técnico tiver decidido quem tem chances de permanecer na equipe e decidir por uma cara para o time, basta ir atrás de talentos veteranos, com a grana economizada, que se encaixem na nova formação tática. Sem pressa, com coragem de botar os fedelhos no fogo e dinheiro para gastar apenas quando o time já tiver alguma identidade, o processo de reconstrução do Wizards vai acabar sendo rápido e indolor. Prova disso é ver todos os jogadores cheirando a fralda do time jogando como se suas vidas dependessem disso, se atirando em todas as bolas, bebendo sangue nos intervalos de jogo. Foram duas vítórias nas últimas duas partidas, com atuações impressionantes de Blatche (33 pontos e 13 rebotes contra o Wolves, 18 pontos e 11 rebotes contra o Nuggets) e de McGee (14 pontos, 11 rebotes, 5 tocos contra o Wolves, 9 pontos, 7 rebotes e 3 tocos contra o Nuggets). Enquanto Butler e Jamison, estrelas consagradas, jogavam com aquela tristeza de quem perdeu a temporada e não tem motivo para se esforçar, o sangue jovem do Wizards joga pelo seu futuro e engoliu o Nuggets ontem na raça, mesmo quase tacando o jogo fora no final.
Para o Jamison, por mais que ele se dissesse feliz com o Wizards, com os companheiros, a cidade e os dirigentes, a temporada já não valia mais nada. Era só uma perda de tempo até que o Arenas voltasse temporada que vem, uma torcida para que o resto do time não desmontasse com contusões. No Cavs, agora ele volta a jogar como se pudesse ganhar um campeonato, como se seus resultados realmente importassem. O problema é que ele está tentando mostrar serviço num time que aprendeu, nos últimos anos, a odiá-lo loucamente.
A NBA anda meio morna com rivalidades ultimamente (a mais recente é Hawks e Celtics), e as brigas nas partidas entre Wizards e Cavs eram a coisa mais animada que existia nesse sentido nos últimos anos. É uma rivalidade meio fajuta porque o Cavs sempre ganha, mas o Wizards joga sério, dá porrada, xinga, enlouquece, e depois perde. Dizem que a rivalidade foi o principal motivo do Wizards ter tentado evitar a troca, e agora é o Jamison quem está sentido o peso dela. Não é como se ele fosse chegar em Cleveland e de reBoldpente ser amiguinho de todo mundo, como se não tivessem se odiado tanto há anos. Mo Williams, Shaq e LeBron ignoraram Jamison várias vezes quando ele estava sozinho para o arremesso, o Jamison foi ajudar o LeBron a se levantar e a estrela do Cavs fingiu que não notou, e o Delonte West deu a maior fria no Jamison depois de lhe mandar um passe horrível, impossível de pegar. O clima não é dos melhores, é bem óbvio que todo mundo na equipe ainda se lembra das tretas com o Wizards, o LeBron estava torcendo para conseguir o Amar’e, e o Jamison arremessar 12 bolas para tentar ser querido (e errar todas elas) não ajudou muita coisa. Pior ainda foi o Cavs ter saído de quadra com a derrota e o Jamison ter falhado tão miseravelmente na defesa em momentos importantes do jogo.
Vai levar um tempo para o Cavs se acostumar com o Jamison, perceber que ele é valioso para a equipe e, principalmente, que ele foi uma escolha melhor do que o Amar’e seria. Talvez surjam muitas derrotas até o Jamison se encaixar bem no estilo de jogo do Cavs, aprender a defender em conjunto, ser mais discreto em quadra, mas eventualmente vai dar muito certo e o LeBron vai ter percebido que os engravatados do time não poupam dinheiro para ficar acima do teto salarial e conseguir quem for para melhorar suas chances de título. Será que ofereceriam tanta grana para ser paga em multas em qualquer outro time da NBA, tipo o Knicks, que anda recheado de dívidas?

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“Não penso, logo não existo?”
Num incrível passe de mágica, Gilbert Arenas está desaparecendo. Após ter (se os relatos estão corretos) levado armas sem munição para o vestiário do Wizards, oferecido uma a seu colega Javaris Crittenton como piada, e depois tirado sarro de toda a situação apontando os dedos como se fossem armas para sua equipe numa apresentação do time, qualquer coisa que lembre o Gilbert Arenas está desaparecendo na miúda. Suas fotos sumiram dos produtos do Wizards, um banner com seu rosto desapareceu da entrada do ginásio, sua camiseta não é mais vendida nas lojas e imagens de suas jogadas foram retiradas do vídeo de introdução da equipe. Arenas não teria sido tão eficiente em sumir do mapa nem se tivesse forjado a própria morte (o Elvis está aí pra provar, já que até hoje a gente sabe muito bem que ele não morreu coisa nenhuma e está aproveitando férias no Havaí com o Tupac). Era de se supor que, após a suspensão “por tempo indeterminado” ditada por David Stern, o Wizards brigasse para ter sua estrela de volta às quadras. Pelo contrário, a equipe está feliz da vida de se livrar do armador. Feliz o bastante para apagar quaisquer vestígios de que Gilbert Arenas um dia tenha chegado a acontecer.
O Denis já debateu bem o caso e, realmente, armas são feitas para matar gente e é um tanto imbecil levá-las para o vestiário do seu trabalho, ainda que sob pretexto de tirá-las de casa e de perto dos seu filhos (que tal dar a arma pra polícia e pronto, não ter mais que lidar com isso?). No entanto, é estranho como o caso provocou tanto horror e uma suspensão brutal justamente numa cultura obcecada por armas, em que você pode comprar munição no mercado ali do lado do leite , com grupos de adoradores de armamentos e uma série de leis que favorecem o porte. Armas estão de tal modo dentro da cultura americana que uma longa lista de jogadores estão ou estiveram envolvidos em casos de porte ou utilização de armas de fogo, sem que ninguém sofresse punições muito severas. Escrevi um longo post sobre o Delonte West, que foi parado pela polícia e calhou de estar com duas pistolas no corpo e uma shotgun escondida numa mala para guitarras, não exatamente o tipo de coisa que você leva para tocar no aniversário da sua sobrinha. Não houve qualquer grande medida por parte da NBA, mesmo estando todas as armas repletas de munição, enquanto o Stephen Jackson foi suspenso por 7 jogos depois de ter dado vários disparos depois de uma briga numa boate. O Jamaal Tinlsey também já se meteu em mais tiroteios do que o Charles Bronson, tendo sido suspenso um par de vezes (e dando uns depoimentos engraçados, porque ele realmente acha que é normal pra qualquer cidadão se meter em conflitos armados de duas a três vezes por semana), mas nunca nada grave.
A atitude do Arenas foi uma merda, armas não são bolacha Passatempo ou revistas de mulher pelada pra ficarem no armário do trabalho, e piadas com troços letais sempre dão algum tipo de merda. Mas a mensagem que eu estou recebendo aqui é que você não pode ser burro e fazer uma piada imbecil, sob pena de ser banido da NBA, enquanto está tudo bem dar uns balaços para o alto ou em outras pessoas em confrontos quaisquer mundo afora. David Stern ainda não decidiu nada sobre Javaris Crittenton, que pelo jeito respondeu à piada do Arenas sacando sua própria arma e dando um tiro para cima no ginásio, alegando que aguardará o término das investigações. Mas o Arenas foi suspenso sem espaço para reclamações, simplesmente porque tirou sarro da situação. O Jamaal Tinsley nunca tiraria sarro de um tiroteio, o negócio pra ele é real, sua cabeça parece estar sempre a prêmio e ele vive essa realidade tão barra-pesada e distante que o David Stern quer fingir que não existe. Mas o Arenas não, é apenas um garoto entediado, fazendo piadas no seu blog e no Twitter, tão distante desse lance de armas e balas na periferia que não pode deixar de tirar sarro dessa imagem de bandido maluco favelado que tentaram colocar nele. Se o esteriótipo já é uma besteira para qualquer um, deve ser ainda mais ridículo para um garoto mimado que não fez outra coisa além de jogar videogame enquanto esperava seu joelho se recuperar. A brincadeira com as armas foi idiota, a piada com a imagem que a mídia lhe criou foi ingênua (todo mundo sabia que o também entediado mas poderoso David Stern ia ficar bravinho), mas a punição foi totalmente descabida. Jogadores que usaram suas armas de fogo contra outras pessoas estão jogando por aí. Jogadores acusados e condenados por correr demais, acidentes de carro, dirigir alcoolizado. Li recentemente que, pego em excesso de velocidade, LeBron James disse rindo que estava apenas com sono e queria ir pra casa dormir. É claro que ele nunca seria suspenso, o David Stern é burro mas não é bobo.
Uma cagada não anula a outra. O que o Arenas fez foi uma besteira, mas isso não quer dizer que qualquer ação por parte do David Stern é justificável, a besteira do nosso engravatado favorito não pode passar despercebida apenas porque todo mundo quer tacar cocô no Arenas. Aliás, qualquer medida da sua parte seria uma besteira descabida, o que a NBA tem a ver com a parte legal e judicial de seus jogadores? Deixem Arenas ser acusado, sentenciado e preso por transporte e porte de armas de fogo em Washington como está prestes a acontecer, pronto. Deixe JR Smith passar 60 dias na cadeia por causar, em alta velocidade, o acidente de carro que matou seu melhor amigo. Por que a NBA insiste em se meter nesse tipo de questão? Qual a relação entre basquetebol e o babaca ter dirigido bêbado na noite de ontem? Outros âmbitos são responsáveis por isso, é preciso haver uma separação urgente, antes que David Stern comece a pedir currículos para decidir se um jogador pode participar do draft: só poderão ser escolhidos aqueles que forem brancos, protestantes, não fumarem, não beberem e não saírem de casa depois das 21h (os chineses também podem, eles dão dinheiro).
Voltando ao mundo do basquete, o mais curioso nesse lance do Arenas é o Wizards estar desaparecendo com o seu jogador. Pelo jeito, estão apenas aguardando, com água na boca, o David Stern deixar que eles invalidem o contrato do armador. O motivo é simples: ao pagar 111 milhões num contrato de 6 anos, a franquia esperava não apenas um jogador que levasse o Wizards ao topo do Leste, mas também o jogador mais carismático e vendável da NBA. O que acontece é que esse pirralho bocudo perde o amigo mas não perde a piada, o que não é lá muito vendável. Quanto mais declarações bem-humoradas, mais gente passava a ficar ofendida com alguma coisa (a gente aqui no Bola Presa descobriu, desde muito cedo, que o humor sempre está ofendendo alguém que você nem imagina, basta tirar sarro de andorinhas e o Sindicato dos Adoradores de Andorinha entra em contato por e-mail) e aos poucos o Arenas foi deixando de ser unanimidade. Muita gente meteu o pau no Arenas até por falar demais – como se a gente não falasse demais em todos os veículos que nos dão voz, até no “Fala que eu escuto” às 3h na Record – porque seu papel na vida é jogar. Só que jogar com o joelho transformado em poeira fica difícil, então os 111 milhões não serviam nem para ter um garoto-propaganda bacana nem pra ter um jogador em quadra. Talvez quando ele ficar saudável tudo valha a pena, quem sabe? Aí então ele finalmente ficou saudável depois do time feder tanto sem ele e, surpresa: o time continua fedendo. Dar um salário desses para alguém que, mesmo quando joga, não consegue salvar o time lá das piores colocações do Leste? É por isso que o Wizards quer tanto terminar o contrato e se livrar desse fardo, até porque fazer uma troca nesse valor seria quase impossível.
A mesma coisa anda acontecendo em Milwaukee. O Michael Redd vai ganhar 18 milhões na temporada que vem, e para quê? Passou a última temporada inteira contundido, jogou minutos limitados nessa e já foi anunciado que estará fora pelo resto da temporada graças a uma nova cirurgia. Mesmo quando jogava, no entanto, Redd nunca pareceu o tipo de jogador capaz de carregar sozinho uma franquia. Ele teve a chance de assinar um contrato mais modesto com o Cavs e, ao lado de LeBron, já teria atualmente 14 anéis de campeão. Mas não, preferiu ser a estrela de um time, encher as orelhas de dinheiro, e agora dá discursos dizendo que só quer vencer, só quer estar num time com chances de vencer. Burro foi o Bucks, de pagar tanto por um arremessador. Agora, a postura por lá é fingir que nada aconteceu, dar espaço para o Brandon Jennings e torcer para o Redd ir embora. Aliás, torcer para a lesão durar bastante porque aí a NBA devolve uma parte do salário. Mesma coisa com o Tracy McGrady: atualmente tem o maior salário da temporada (são mais de 23 milhões!), não jogou bulhufas contundido nos últimos anos, e o time acabou dando espaço para outros jogadores e outras formas de jogo. O que o técnico queria é que ele desaparecesse, mas se ele não jogar pelo menos uma parte do salário volta. Com certeza se Michael Redd e Tracy McGrady estivessem envolvidos num escândalo com armas, seus times aproveitariam para sumir com as fotos, banners, camisetas e vídeos. É uma chance de desfazer a burrada de dar um salário tão grande para um jogador que só se contunde, e tudo isso às custas do jogador – que não tem culpa nem de ter recebido a oferta contratual dos times, nem de estar contundido o tempo inteiro (aliás, tanto T-Mac quanto Arenas sempre quiserem jogar, mesmo com lesões).
O Arenas está sendo varrido pra baixo do tapete com tanta intensidade que agora quando você vai no site da NBA.com e tenta fazer uma camiseta personalizada com o número “0” e o nome “Arenas” (já que sua camiseta oficial não está mais à venda), o site diz não permitir camisetas com nome ou conteúdo ofensivo. Ou seja, tentar criar uma camiseta com “Caralho, “Puta merda” ou “Arenas” dá na mesma, ele virou um palavrão. Tracy McGrady ainda pode ter suas camisetas compradas, mas está sendo completamente ignorado pelo Houston até que seu contrato termine e ele desapareça. Michael Redd, provavelmente, seguirá o mesmo caminho. Mesmo antes de sua contusão recente, havia um sério questionamento sobre sua liderança na equipe e a comissão técnica decidiu que ele não era mais o jogador principal, cargo dado a Jennings e Bogut.
Frente a tudo isso, dou dois conselhos: o primeiro é que se você encontrar uma camiseta do Arenas em alguma loja da adidas pelo Brasil, compre imediatamente porque ela vai ser raridade (e palavrão). O segundo conselho é que você tente salvar Tracy McGrady de desaparecer por completo no Houston: participe agora mesmo da nossa promoção, monte uma troca para libertar T-Mac e concorra a 5 bonés do Houston Rockets!

>Arenasgate

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(não esquecer da piada com ‘run and gun’)

Eu não estava muito afim de falar desse caso do Gilbert Arenas até hoje. Eram dois motivos principais: o primeiro é que ele tem pouco a ver com basquete e é de basquete que eu gosto, depois porque eram tantas versões da mesma história que eu não sabia no que acreditar. Só que a história diz respeito ao Gilbert Arenas, um dos jogadores que a gente mais comentou nesses 2 anos e meio de Bola Presa e agora tem um fato bem concreto pra comentar: ele foi suspenso por tempo indeterminado pelo David Stern.

Para quem está bem por fora, o que aconteceu foi que saiu uma notícia dizendo que o Gilbert Arenas teria quatro armas de fogo guardadas em seu armário no Verizon Center, o ginásio do Wizards. Como a lei de posse de arma de fogo é bem dura em Washington, o caso começou a ser investigado pela polícia e pipocaram informações de que seria proibido ter armas de fogo em locais com a chancela da NBA. O Arenas respondeu que tinha as armas em casa, mas que, com medo de tê-las perto dos filhos pequenos, levou-as para o ginásio.
O caso foi sendo investigado quando surgiu uma outra história, de que o Arenas teria apontado a arma, descarregada, para o companheiro de time Javaris Critentton, aquele armador reserva que era do Lakers, foi para o Grizzlies na troca do Gasol e depois para o Wizards. E foi depois disso que as mais diferentes histórias começaram a aparecer.
Uma das histórias diz que o Arenas apontou a arma para o Critentton, que teria ficado assustado. Outra diz que o Arenas e o Critentton certa vez brigaram por causa de uma aposta em jogos de carta e como resposta (de brincadeira) o Arenas teria deixado três armas no armário do seu colega com um bilhete pedindo para que ele escolhesse uma delas. Também existem versões da história onde o Critentton teria sua própria arma de fogo no vestiário, essa carregada, e teria apontado ela para o joelho recém-operado do Arenas no meio dessa discussão/brincadeira/provocação sobre as apostas em jogos de carta.
A confusão já era grande mas a NBA não tinha tomado nenhuma providência. David Stern disse que estava acompanhando o caso de perto mas que ia esperar qualquer decisão da polícia, que ainda investiga o caso, para decidir se daria uma punição e qual seria ela. Tudo parecia se encaminhar para esse desfecho, o Arenas até soltou para a imprensa um pedido de desculpas muito bem escrito pelo seu advogado em que falava ter errado, exagerado na brincadeira e tudo isso que a gente conta pra diretora da escola.
Só que no dia seguinte apareceu o Arenas de sempre, o de verdade. Bocudo, incosequente e, por que não, um bocado burro. Ao invés de ficar quieto por um tempo e deixar o assunto esfriar, ele passou o dia comentando o caso no seu Twitter, criticando todo mundo da imprensa que tinha falado mal dele e insistindo que ele só tinha feito uma brincadeira. Para terminar, fez essa brincadeira antes do jogo do Wizards contra o Sixers.
Tá bom, eu ri um bocado quando vi ele fazendo a arma com a mão. Mas não é porque foi engraçado que não foi burro. Logo depois do jogo o David Stern soltou uma nota dizendo que o “Sr. Arenas” não estava em condição de participar de jogos da NBA e que por isso estava suspenso por tempo indeterminado. E ainda assustou com o trecho “está claro que as ações do Sr. Arenas vão resultar numa punição substancial ou, talvez, até algo pior”. Já se diz em proibí-lo de continuar na NBA ou de cancelar seu contrato zilionário com o Wizards.
Digo que o Arenas foi burro porque todo mundo sabe que o David Stern é pirado quando o assunto é o comportamento dos jogadores. Ele já suspendeu jogadores por 10 jogos quando os problemas judiciais deles tinham acontecido na offseason e nada tinham a ver com basquete, foi o responsável pelo patético código de vestimenta que obriga todos os jogadores a aparecerem de roupa social quando não vão jogar. É o David Stern que insiste em mostrar os jogadores fazendo ações de caridade no intervalo de todos os jogos e foi ele quem pediu para a Getty Images tirar do ar, ontem, a foto que eu postei aí em cima com o Arenas apontando suas armas de dedo. Se ele pegou pesado com as roupas, imagina o que ele iria fazer quando o assunto é realmente sério? Essa punição estava muito óbvia e o Arenas continuou provocando.
Ainda acho que muita gente na imprensa americana pegou pesado demais com o Arenas. O caso nem estava bem explicado (quer dizer, ainda não está) e já estavam crucificando ele, tratando-o como o pior dos criminosos. Mas, apesar de não concordar com os exageros, dá pra entender como eles nasceram: por que um cara vai ter quatro objetos cuja função é tirar a vida de outros seres humanos guardados no seu local de trabalho? As armas já fazem parte da nossa cultura, tem gente que é apaixonada por arma como outras são por carros ou basquete, mas não podemos esquecer que, no fundo, a função da arma é matar. O exagero ainda é exagero, mas é explicável.
A notícia mais recente do caso é que o Arenas estava tentando limpar a barra do Javaris Critentton. A versão foi contada pelo New York Post e parece encaixar com as outras contadas antes. Segundo o Post, o Critentton perdeu uma aposta num jogo de cartas para o pivô JaValle McGee e ficou bravo por uma discussão sobre as regras do jogo, o Bourré (que além de cidade da França, dança e música do Jethro Tull, é um jogo de cartas típico dos EUA).
O Arenas então começou a tirar sarro do seu colega que tinha perdido o jogo, dizendo que se não pagasse a aposta iria ter seu carro explodido (uma boa piada, convenhamos, eu teria dito que iria entregar um peixe na casa dele). Aí, ainda no avião, o Javaris teria dito para o Arenas que iria atirar no joelho dele (isso já foi pegar no ponto fraco!). Dias depois, no vestiário, o Arenas deixou suas armas no armário do Critentton com um bilhete dizendo “escolha uma” e disse que só estava deixando o trabalho do seu colega mais fácil. O armador, porém, respondeu algo como “Não precisa, eu tenho a minha” e mostrou sua arma carregada.
Não se sabe se ele chegou a apontar para o Arenas, se todo mundo riu, se eles se abraçaram, sei lá, não contaram nada depois disso. Mas falaram que o Arenas disse para o seu companheiro de time que iria assumir a responsabilidade pelo fato, encerrar isso e deixar o Critentton, que não tem nome, mídia e nem a mesma grana, longe disso. Acontece que o caso ficou grande demais e a história real acabou saindo. Ou seja, além do problema da posse de arma, de tê-las dentro de um lugar da NBA e ter sido suspenso pelo David Stern, o Arenas terá que lidar com o fato de ter mentido para a polícia, o que nunca é bom negócio nas séries policiais que eu vejo na TV.

Nos EUA o caso tem sido tratado bastante pela sua veia racial. O Stephen A. Smith da ESPN fez um artigo grande, até comentado no Rebote, dizendo que “idiotas como Gilbert Arenas estão envenenando a cultura negra”. Mas nesse caso eu concordo com outro americano, o (negro) Austin Burton, que disse: “Se fosse o Brad Miller apontando seu rifle de caça para o Aaron Gray em Chicago ele seria suspenso também”. Esse caso de armas em um local de trabalho é sério e não tem nada a ver com cor da pele, acho que chama mais a atenção pelo Arenas ser um jogador conhecido e polêmico do que por ser negro. Mas só estando nos EUA para entender um pouco melhor como eles lidam com a questão racial por lá.

Esse caso acaba sendo o marco de uma temporada que vinha sendo um grande anti-clímax para o Wizards e para o Arenas. Ele finalmente voltou depois de dois anos e meio parado mas o time não consegue vencer de jeito nenhum. O Arenas está até com bons números (22 pontos e 7,5 assistências, máximo da carreira) mas que não estão fazendo diferença na hora de vencer jogos, ao contrário, ele se destacou mais na temporada pelas bolas perdidas e lances livres errados em momentos decisivos dos jogos.
Convenhamos que o Jazz precisou de bem menos pra começar a oferecer seus jogadores em trocas. Esse caso é mais do que simbólico para o Wizards começar uma reestruturação geral em seu time. Caron Butler e Antawn Jamison ainda tem muito valor de troca na liga, Andray Blatche e Brendan Haywood são talentos que podem interessar muita gente e se o contrato do Arenas for realmente encerrado pela NBA, o espaço que isso deixaria na folha salarial do Wizards os colocaria na briga por Free Agents no ano que vem.
Acredito até que o Wizards deve estar torcendo demais para isso acontecer. Com o desempenho do time nesse ano, os 111 milhões investidos no Gilbert Arenas parecem um belo dinheiro jogado no lixo e a família Pollin, que comanda a equipe desde que o patriarca Abe Pollin morreu no começo dessa temporada, está indignada com os fatos e com o comportamento do Arenas perante eles, parece que não ficariam nem um pouco tristes de ver o Arenas longe de Washington. Ironia cruel do destino que foi o velho Abe Pollin que, muitos anos atrás, devido à grande violência na cidade de Washington, resolveu trocar o nome do time de Bullets (balas) para Wizards (magos).
Se por acaso Arenas continuar, vai ser um clima esquisito. O ambiente ficaria pesado e eles não teriam muito o que fazer, como seriam capazes de trocar aquele salário monstruoso? Que equipe iria poder e querer bancar? O ano que era pra ser o da volta de Gilbert Arenas foi o da infame volta do Washington Bullets.
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